sábado, 20 de julho de 2013

Exposição 'Maria Martins: metamorfoses'. O resgate de um talento injustiçado no Brasil.

Maria Martins na década de 40
Nas poucas vezes que li ou tive contato com alguma informação sobre a artista plástica Maria Martins (1894-1973), sempre soube que ela era escultora. E escultura é mesmo a forma de expressão que se destaca na produção dessa artista que o Brasil desconhece, mas que conquistou merecido êxito no exterior. Basta dizer que Maria, como gostava de assinar suas obras, expôs em Nova York ao lado de Mondrian e tornou-se próxima de figuras como André Breton, Fernand Léger, Yves Tanguy, Max Ernst e Marcel Duchamp, entre muitos, sendo que com Duchamp manteve um tórrido romance extraconjugal. Interessou?

Então você não pode perder a exposição 'Maria Martins: metamorfoses', no MAM-SP, que exibe mais de 80 peças e tem curadoria de Veronica Stigger, uma estudiosa da artista. Das obras expostas, mais de trinta são esculturas, a maioria em bronze, as quais Verônica classificou em cinco módulos: Trópicos, Lianas, Deusas e Monstros, Cantos e Esqueletos. Esses módulos não seguem uma ordem cronológica, mas reúnem trabalhos que possuem compatibilidade formal. Além das esculturas, a mostra exibe pinturas, gravuras, livros, artigos, cerâmicas e escritos de Maria, além de artigos na mídia e até uma joia criada por ela. É inegável, contudo, que são suas esculturas que possuem a maior força expressiva e apelo visual.

'O Canto do Mar' (1952) - bronze polido - Foto: Simone Catto

O fato é que o prestígio de Maria Martins no exterior só vem crescendo e ela ocupa, hoje, um importante espaço na história da arte moderna. Basta citar que, no ano passado, ganhou uma sala especial na Documenta de Kassel, principal mostra de arte contemporânea do mundo, realizada a cada cinco anos na Alemanha. Essa sala exibia uma das versões de 'O Impossível' (1944), a mais célebre obra da autora - uma das versões foi adquirida pelo Museu de Arte Moderna de Nova York – MoMA em 1946 e outra pode ser apreciada agora, no MAM. O título dessa belíssima obra refere-se ao encontro de dois seres híbridos, um homem e uma mulher com formas de animais ancestrais e cabeças pontiagudas, que estão frente a frente sugerindo a existência de um desejo profundo, mas também de uma dose de agressividade que impede sua união.

'Impossível' (1946) - bronze - Foto: Simone Catto

Chegou a hora de conhecermos um pouco essa mulher interessante que, além de artista plástica, foi embaixatriz, poeta, jornalista e escritora. Em primeiro lugar, Maria Martins não se enquadra em nenhum movimento de arte, embora possua forte viés surrealista. Com uma obra que se destaca mais pela qualidade do que pela quantidade, a artista criou esculturas de formas sinuosas inspiradas em mitos ancestrais, que remetem tanto à cultura da Amazônia quanto aos conflitos humanos. Com forte impacto visual, suas formas estão carregadas de erotismo e violência mesclados a elementos imagéticos de docilidade e lirismo.

Maria Martins em seu ateliê de Paris cercada das obras 'O Impossível' (esq.) e 'Saudade'.

Nascida Maria de Lourdes Alves na cidade de Campanha, MG, a artista era filha de um senador e recebeu uma educação de elite: foi alfabetizada em francês no Colégio Sion e estudou música e pintura na juventude. Aos 21 anos, casou-se no Rio de Janeiro. Mulher bem à frente de seu tempo, Maria mandou às favas o preconceito com as mulheres desquitadas e, dez anos depois, separou-se do marido e se mandou para Paris. Lá frequentou círculos intelectuais e, em 1926, casou-se com o diplomata Carlos Martins Pereira e Souza. Nesse mesmo ano, iniciou-se na escultura e passou a desenvolver uma carreira no exterior. Em 1936, aperfeiçoou-se na Bélgica com o escultor Oscar Jespers (1887-1970). Três anos depois, em 1939, Maria mudou-se com o marido para Washington D.C. e foi nos Estados Unidos que realizou a maior parte de sua produção artística, conquistando os círculos de vanguarda da época.

No ano de 1941 Maria Martins fez sua primeira exposição individual, na Corcoran Art Gallery, em Nova York. Embora fosse conhecida como uma das principais escultoras ligadas ao Surrealismo, nessa exposição a artista exibiu esculturas figurativas realistas com temas tirados de mitos e tradições brasileiras, criadas com materiais como gesso, madeira, terracota e bronze. Nesse mesmo ano, monta um ateliê em Nova York e estuda com Jacques Lipchitz (1891-1973) e Stanley Willaim Hayter (1901-1988), realizando obras em bronze.

'Le Couple' (O Casal) (1944) - bronze - Simone Catto

Vale ressaltar que, naquele período, a cidade de Nova York estava em plena efervescência cultural por acolher vários artistas europeus que fugiam da Segunda Guerra Mundial. Foi nesse clima de ebulição artística, portanto, que Maria conheceu Piet Mondrian (1872-1944) - dizem que inclusive teve um affair com ele - e André Breton (1896-1966), escritor francês autor do Manifesto Surrealista de 1924. Breton a apresentou a artistas europeus ligados ao Surrealismo e ao Dadaísmo, tais como Michel Tapiè (1909-1987), André Masson (1896-1987), Yves Tanguy (1900-1955), Max Ernst (1891-1976) e Marcel Duchamp (1887-1968). Este último, seu parceiro no famoso affair, utilizou o seio de Maria Martins como modelo para criar a capa do catálogo 'Surréalisme' (1947), em colaboração com Enrico Donati.

O seio de Maria Martins na capa do catálogo
de Marcel Duchamp - foto: Simone Catto
A convivência com esses artistas revelou-se uma rica e produtiva via de mão dupla: ao mesmo tempo em que atraía os vanguardistas com suas esculturas expressivas de formas orgânicas, materializando forças naturais e lendas da Amazônia, Maria Martins absorveu novos conteúdos, incorporando elementos surrealistas às suas obras. Essa influência ficou evidente em sua segunda exposição individual, em 1942, na Galeria Valentine, em Nova York, na qual apresentou formas oníricas de inspiração surreal realizadas em bronze.

No ano seguinte, Maria fez outra exposição nessa galeria, considerada um marco em sua trajetória. Mas não expôs sozinha: daquela vez, dividiu espaço com ninguém mais, ninguém menos que seu amigo Piet Mondrian. Detalhe curioso: enquanto a artista até hoje desconhecida no Brasil conseguiu vender quase todas as obras, a exposição de Mondrian – um mestre hoje reconhecido no mundo todo - foi um fracasso. Ao fim da mostra, Maria ainda comprou uma obra do amigo, a tela 'Broadway Boogie-Woogie', e doou-a ao MoMA de Nova York. Prova de que está na hora de valorizarmos nossos verdadeiros artistas, ao invés de idolatrar gente cujo único talento é faturar milhões com os incautos.  

Nessa célebre mostra de 1943, Maria representou a Amazônia em oito obras alusivas a personagens-mitos, batizados de 'Amazônia', 'Cobra Grande', 'Boiuna', 'Yara', 'Yemanjá', 'Aiokâ', 'Iacy' e 'Boto'. Alguns exemplares dessa série, como 'Amazônia' e 'Boiuna', podem ser vistos na exposição do MAM.

'Amazônia' (1942) - bronze - Foto: Simone Catto

'However!!' (1947) - bronze - Foto: Simone Catto
Na obra 'However!!' (1944), a serpente do desejo comprime e aprisiona o corpo de uma mulher. No caso de 'A Mulher perdeu sua sombra' (1946), duas serpentes saem da cabeça de um corpo feminino, talvez como referência a pensamentos libidinosos. André Breton, admirador da artista, escreveu a apresentação de sua mostra individual de 1947, na Jean Lévy Gallery, em Nova Iorque, e a convidou para importantes exposições surrealistas no pós-guerra em Paris. Com bronze, Maria passou a criar formas orgânicas cada vez mais livres de figurações realistas. As referências à natureza simbolizam a força do desejo e dos selvagens instintos do inconsciente, contrapondo-se à domesticação da civilização ocidental. Os títulos das obras, sugestivos, são característicos do movimento surrealista: 'Não te esqueças nunca que eu venho dos trópicos' (1942), 'Sem Eco' (1943).

Até que Maria, rendendo-se aos encantos da 'Cidade-Luz', muda para Paris em 1948. Seu ateliê na cidade virou, então, ponto de encontro de intelectuais e artistas como Constantin Brancusi (1876-1957), Benjamin Péret (1899-1959) e Amédée Ozenfant (1866-1966), entre outros.

Maria Martins voltou definitivamente para o Brasil em 1950. Amiga do casal Matarazzo, contribuiu ativamente para viabilizar as primeiras edições da nossa Bienal de Arte. Foi ela, inclusive, que transmitiu ao conde Ciccillo Matarazzo a boa notícia de que Picasso participaria da segunda edição. A própria Maria Martins expôs em várias Bienais e, na de 1955, inclusive recebeu o Grande Prêmio de Escultura Nacional com a obra 'A Soma dos Nossos Dias'. Apesar de tudo, os críticos brasileiros da época foram hostis: por aqui, eram o construtivismo e a linguagem abstrata que começavam a ganhar força total, e o Surrealismo não era valorizado. Injustiça.

'Não te esqueças que venho dos trópicos' (1945) - bronze - Foto: Simone Catto      

Maria Martins polindo uma obra na 1ª Bienal, em 1951 - Foto: Peter Scheier

'Sombras/Anunciação' (1952) - gesso - Foto: Simone Catto

Maria ainda ajudou a criar e consolidar os Museus de Arte Moderna de São Paulo e Rio de Janeiro, sendo que este último abrigou sua última exposição individual, em 1956. Na exposição do MAM-SP, em cada extremidade do salão há uma foto que mostra a exposição da artista no mesmo museu em 1948, quando a sede ainda ficava à rua 7 de Abril, no Centro de São Paulo.

Na década de 50, a artista criou esculturas mais abstratas, porém sem abandonar os títulos sugestivos em obras como 'O Canto do Mar' (1952) e 'A Soma dos Nossos Dias' (1954-1955). Na segunda metade da década, no entanto, Maria substitui a escultura pela literatura, publicando vários livros como jornalista e escritora.

'Calendário da Eternidade' (1952-1953) - bronze - Foto: Simone Catto

Com este longo post, espero contribuir para compensar, nem que seja um pouquinho, a falta de informações sobre Maria Martins na nossa mídia ao longo da história. Vale a pena descobrir a obra dessa excelente artista, resgatá-la do esquecimento e reparar a injustiça que o Brasil cometeu contra seu imenso talento. 

A exposição 'MARIA MARTINS: METAMORFOSES' está no MAM-SP (Sala Paulo Figueiredo) - Parque do Ibirapuera - Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 3. Tel.: 5085-1300. Horário: de terça a domingo, das 10h às 17h30. O ingresso custa R$ 6,00, com entrada franca aos domingos. Até 15/9. Não perca!

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