sábado, 25 de março de 2017

Abre o primeiro museu dedicado a Camille Claudel.


Pela primeira vez no mundo, um museu dedicado à escultora Camille Claudel (1864-1943) abre suas portas. A inauguração será amanhã (domingo, 26/3/2017) em Nogent-sur-Seine, pequeno distrito do departamento de Aube que fica a pouco mais de uma hora a sudeste de Paris. Finalmente o mundo poderá homenagear essa grande artista que sofreu com a crueldade da família e teve uma vida trágica que inspirou várias obras biográficas, nem sempre fiéis à realidade. Mas quem era realmente Camille Claudel?

Antes de responder a essa questão, vamos nos situar no ano de 1962. Naquela data, Pierre Claudel, filho do escritor Paul Claudel, desejou oferecer a Camille Claudel, irmã de seu pai, "uma sepultura mais digna da grande artista que ela foi". Escreveu então ao prefeito de Montfvafet, pequeno distrito perto de Avignon onde sua tia morreu em 19 de outubro de 1943. Resposta do administrador: "Lamento informar que o terreno foi retomado pelo serviço do cemitério, uma vez que informações referentes à família da falecida não nos tenham sido fornecidas". Em outras palavras: a pobre Camille não dispunha nem mesmo de uma sepultura digna. Em sua morte, no asilo de doentes mentais de Montfavet, seus restos terminaram numa vala comum. E ninguém de sua família apareceu para o último adeus.

"A escultura? Um métier que não é feminino!"

Nascida em 1864, Camille tem quatro anos a mais que seu irmão Paul. Desde a adolescência apresenta uma evidente vocação artística encorajada pelo pai, uma das poucas pessoas próximas a reconhecer verdadeiramente seu talento. Camille modela em argila. Sua personalidade forte contraria a mãe, personagem dura e autoritária que se revelará, mais tarde, uma megera digna de filme de terror. Quando a adolescente declara um dia o desejo de abraçar a carreira artística, ouve da família: "Você não fará escultura, esse métier não é feminino!"  Camille persiste. Quando ela completa 12 anos, o escultor Alfred Boucher se impressiona com o talento da menina e lhe dá as primeiras lições. Mais tarde, consegue persuadir o pai dela a deixá-la se instalar em Paris. Em 1883, Camille torna-se, aos 19 anos, aluna de Auguste Rodin (1840-1917) no depósito de mármores do Estado, na rue de l’Université. O escultor conta então 43 anos.

Camille Claudel e Jessie Lipscomb em seu ateliê na rua Notre-Dame-des-Champs, 117,
Paris. Foto de William Elborne, 1887. Crédito: © ADAGP. Paris, 2012

Primeiramente modelo, depois colaboradora, a jovem tem um dom que impressiona o mestre. Rapidamente, surge uma paixão louca entre os dois artistas – aquilo que os franceses chamam de "amour fou" - um amor violento, incandescente, o encontro de dois seres excepcionais que têm noção de sua singularidade e de seu gênio.

Auguste Rodin fotografado por Dornac em 1898.

Posteriormente, Rodin escreveu a Camille: "Não tenho arrependimentos, nem do desfecho que me parece fúnebre - minha vida cairá num abismo. Mas minha alma floresceu, infelizmente muito tarde. Foi preciso que eu te conhecesse e tudo adquiriu uma vida desconhecida, minha terna existência inflamou num fogo de alegria. Obrigada, porque é a você que devo toda a parcela de céu que tive em minha vida. (...) Ah, beleza divina, flor que fala, e que amo, flor inteligente, minha querida. Minha muito amada, sobre dois joelhos estou diante de teu belo corpo, e o abraço."

Camille também escreveu àquele que continuava a tratar por "senhor Rodin": "Deito-me toda nua para me fazer crer que você está lá, mas, quando acordo, não é mais a mesma coisa. Beijo-te." E este post-scriptum revelador: "Sobretudo, não me engane mais!" Rodin não é exatamente o homem mais fiel do mundo. Ele vive com uma antiga modelo, Rose Beuret, a qual conheceu em 1864, ano do nascimento de Camille. Rose é costureira, filha de um agricultor. 
O amor devastador de Camille e Rodin durará dez anos e terá uma influência decisiva sobre o trabalho de ambos. É nesse período que ela cria suas obras mais sublimes: 'O Abandono' (ou 'Sakountala'), 'A Valsa', 'Clotho', 'A Suplicante', 'A Idade Madura'.

Camille Claudel - 'O Abandono' (1905) versão posterior em bronze da obra 'Sakountala'
  
(1888), que ganhou Menção Honrosa no Salão.
Altura: 42,3 cm / Largura: 39,1 cm / Profundidade: 20,5 cm.

"Camille Claudel, a brilhante aluna de Rodin"

Excessiva, irascível, muitas vezes violenta, Camille conhece a qualidade artística do trabalho de seu amante, mas não suporta sua negligência amorosa. Por que ele não deixa Rose Beuret? Existem alguns desenhos de Camille nos quais a parceira de Rodin é representada com os traços de uma feiticeira grotesca ou em poses que imitam a cópula dos cães. No plano artístico, ela suporta cada vez menos ser designada como "a aluna brilhante de Rodin". Ela escreve ao amante, com muita lucidez: "Corro grande risco de nunca colher o fruto de meus esforços e de me extinguir na sombra da calúnia e das suspeitas maldosas..." Em 1911, escreveu a seu irmão Paul, com uma ponta de amargura: "As ovações desse homem célebre me custaram os olhos da cara e, para mim, não sobra nada!"

"Rodin é mais escandaloso, mas Camille Claudel é mais revolucionária" - Octave Mirbeau

Camille Claudel permanecerá eternamente à sombra de seu mestre? Sua escultura 'Sakountala' (posteriormente renomeada como 'O Abandono') foi exibida em 1888 e obteve o Prêmio do Salão. Octave Mirbeau, escritor e crítico de arte, elogiou seu trabalho em diferentes ocasiões, em comentários críticos. Em seu primeiro artigo, evocando o Salão em 1893, no qual são apresentados os trabalhos dos dois escultores, ele escreve com grande pertinência: "Rodin é mais escandaloso, mas Camille Claudel é mais revolucionária." De fato, Camille sabe o valor de seu trabalho. Mas quando poderá voar com suas próprias asas? Nunca. E sua vida, até então difícil, se tornará excruciante.

Camille Claudel - 'A Valsa' (1889-1905) - arenito - H: 41,5 cm / L: 37 cm / P: 20,5 cm

10 de março de 1913: Camille é internada.

Diplomata e escritor, Paul Claudel execra Rodin e sua obra. Fica chocado com a sensualidade inovadora de suas esculturas, reprova sua audácia artística e abomina sua influência sobre a irmã. Certa vez, escreveu: "Rodin exerceu sobre seus anos de juventude uma ascendência frequentemente cruel". Já bem mais velho, Paul Claudel escreveu sobre a irmã: "Eu vejo, emergindo da infância, essa jovem figura triunfante, seus belos olhos azuis escuros, os mais belos que jamais havia visto, que se fixam com zombaria sobre esse irmão desengonçado".

Desenho de Camille Claudel - 'Paul Claudel aos 20 anos' (1888)

No dia 2 de março de 1913, os irmãos Claudel perdem o pai. E Camille perde, a partir de então, seu apoiador mais leal. Tudo indica que a família não a avisa sobre o falecimento. Aliás, havia alguns anos a família a evitava. Sua ruptura com Rodin, em maio de 1894, enclausurou-a numa solidão a princípio bem-vinda, mas que acaba por sufocá-la. Camille vive miseravelmente em seu ateliê, tem acessos de cólera e, vira e mexe, destrói seus trabalhos. Vive quase como uma mendiga, numa sujeira repulsiva. Vocifera e denuncia "o bando de Rodin" que, segundo ela, quer envenená-la e roubar suas obras.

Camille Claudel - 'A Suplicante' (1905) - bronze - H: 67 cm / L: 72 cm / P: 59 cm

Camille incomoda. O escândalo ameaça estourar. Sua família decide, então, interná-la. Sua mãe, aos 73 anos, assina uma "solicitação de internação compulsória". Em 10 de março de 1913, um furgão estaciona diante do número 19 do cais Bourbon, da Ilha de Saint-Louis, em Paris. Camille se tranca. Dois enfermeiros são obrigados a entrar pela janela e agarram a artista. Nunca mais Camille será livre.

Placa na fachada do apartamento de Camille Claudel, no cais Bourbon, 19,
Paris, onde ela viveu de 1899 a 1913. "Há sempre algo de ausente que me
atormenta", escreveu ela a Rodin em 1886.
Até hoje questiona-se se Camille era realmente tão insana a ponto de justificar uma internação compulsória. Paul Claudel escreveu a respeito: "Foi preciso intervir, os proprietários daquela velha casa do cais Bourbon reclamavam: 'Por que as persianas desse apartamento térreo estão sempre fechadas?' 'Quem é essa personagem abatida e amedrontada que vemos sair de manhã somente para recolher os itens de sua alimentação miserável?'"

Em agosto de 1987, no jornal Le Monde, o professor François Lhemitte, especialista em neurologia e neuropsicologia no hospital Salpêtrière iria rever esse assunto. Escreve: "Camille Claudel, em 1905, já era vítima de um delírio paranoico de perseguição, delírio conhecido como irreversível, perigoso e incurável (que é ainda o caso hoje). Essa foi a razão de sua internação em 1913 e da renovação dessa medida até sua morte. Camille Claudel, convencida de que Rodin queria envenená-la, continuou, mesmo após a morte deste último, a se recusar a se alimentar, exceto por ovos frescos (que ela mesmo cozinhava)."

Porém, pode haver uma questão mais íntima que tenha agravado a frágil saúde mental da artista. Dizem que Camille, grávida de Rodin, fez dois abortos. Sabemos que ela era uma mulher hipersensível, passional, e sua psique instável pode ter sucumbido a essas provações. Não se trata de simples suposição. Em 1939, Paul Claudel escreveu a uma mulher que lhe confessou ter feito um aborto: "Saiba que uma pessoa da qual sou muito próximo cometeu o mesmo crime que você e que ela o expia há muitos anos num asilo de loucos. Matar uma criança, matar uma alma imortal, é horrível! É aflitivo!"

Por outro lado, em 19 de setembro de 1913, o jornal L'avenir de l'Aisne ("O futuro de Aisne"– Aisne é uma região da França) evoca a internação supostamente abusiva de Camille Claudel: "... em pleno trabalho, em plena possessão de seu belo talento e de todas as suas faculdades intelectuais, os homens foram à sua casa, jogaram-na brutalmente num carro apesar de seus protestos indignados..."  Foi lançada, então, uma campanha na imprensa contra o "sequestro legal". Ela tinha como alvo a família de Camille Claudel, acusada de desejar se livrar da moça, e solicitava a revogação da lei de 30 de junho de 1838 sobre os pacientes psiquiátricos. Infelizmente, no caso de Camille, foi em vão.

Camille Claudel, trinta anos de solidão atroz.

Camille foi primeiramente admitida no Hospital Psiquiátrico de Ville-Evrard, reservado às mulheres, e em 9 de setembro foi transferida para o asilo psiquiátrico de Montdevergues, em Montfavet, perto de Avignon. O estabelecimento tinha a reputação de um matadouro e Camille foi instalada sem nenhum conforto num dormitório de terceira categoria, dos piores do lugar, ao lado de dez a 15 pessoas. Tarifa: 6 francos por dia.

A artista se recusa a esculpir porque isso significaria aceitar sua condição e ela não pensa em outra coisa a não ser sair desse pesadelo. Sua mãe, que era sua maior algoz, lhe proíbe as visitas e todas as relações com o exterior e escreve ao diretor da instituição: "... Quando ela estava em sua casa, não recebia ninguém (...) por que agora faria questão de visitas?" Além disso, as cartas de Camille são apreendidas e destruídas e ninguém lhe entrega correspondência. Ela nunca receberá uma única visita da mãe, que morre em 1929, nem de sua irmã. Seu irmão Paul a visita somente uma dúzia de vezes em 30 anos.

Asilo psiquiátrico de Montdevergues, em Montfavet, para onde Camille foi transferida em setembro de 1913.

"Eu reclamo por liberdade em altos brados" - Camille Claudel

Presa de uma solidão atroz e desumana, Camille envia uma carta arrasadora a seu irmão, no dia 3 de março de 1927:

"Meu lugar não é no meio disso tudo, é preciso me tirar daqui. Após 14 anos de tal vida eu reclamo por liberdade a altos brados. Meu sonho é voltar para Villeneuve imediatamente e nunca mais sair de lá, eu preferiria uma granja em Villeneuve do que uma hospedagem de primeira aqui. (...) Não é sem pesar que vejo você gastar seu dinheiro num asilo de loucos. Dinheiro que poderia me tornar útil para criar belas obras e viver agradavelmente! Que infelicidade! Eu choro. Converse com o senhor Diretor para me trocar de instalações ou então tire-me daqui imediatamente, o que seria muito melhor; que felicidade se eu pudesse estar em Villeneuve! Aquela bela Villeneuve à qual nada se compara sobre a terra! Faz 14 anos que tive a desagradável surpresa de ver entrar, em meu ateliê, dois sabujos armados com todo o aparato, capacetes, botas, ameaçadores em todos os sentidos. Triste surpresa para uma artista: no lugar de uma recompensa, veja o que me acontece! É por sua causa que acontecem tais coisas porque sempre fui alvo da maldade. Deus! O que tenho suportado desde aquele dia! E nada de esperança que isso acabe. Cada vez que escrevo à mamãe para me levar de volta a Villeneuve, ela responde que sua casa está prestes a cair, é curioso de qualquer forma. Enquanto isso, estou ávida para deixar este lugar, quanto mais o tempo passa, mas duro fica! Sempre chegam novas pacientes, somos umas sobre as outras (...) faz pensar que todo o mundo está ficando louco. Não sei se você tem a intenção de me deixar aqui, mas é bem cruel para mim!..."

Nada dessa carta desesperada indica a mínima desordem de suas faculdades mentais. Entretanto, eistem outras correspondências nas quais Camille continua a se queixar do "bando de Rodin" que quer envenená-la e ela se exalta com afirmações quase delirantes, mas, em tal atmosfera e tal solidão, como poderia ser diferente? Que pessoa poderia suportar tal suplício sem perder a sanidade? Camille viverá esse inferno até o último dia de sua vida.

Rodin, que morrerá em 1917, está a par da situação. Transtornado, tentará conseguir algum dinheiro para Camille e fará uma exposição de suas obras, mas não será de nenhuma utilidade para ela se livrar do hospício. Até porque, legalmente, ele está impedido de fazê-lo – a família Claudel é a única apta a tomar decisões.

À esquerda, uma foto de Camille Claudel tirada antes de 1883. À direita, a artista em 1929, aos 65 anos, no asilo de Montfavet.

"O peso do gênio é penoso para uma mulher carregar" – Paul Claudel

É possível que Paul Claudel, que viria a se tornar diplomata e escritor de renome, imaginasse que Camille pudesse dar algum escândalo e manchar sua reputação, caso saísse do asilo. Os anos passam. O hospício lhe escreve para transmitir notícias de sua irmã. Durante a Segunda Guerra Mundial, vítima dos racionamentos alimentares, Camille começa a ficar com a saúde cada vez mais debilitada. Faminta, já que as restrições alimentares durante a guerra atingem todos os estabelecimentos hospitalares, ela morre, sozinha, em 19 de outubro de 1943. Seu corpo, não reclamado pela família, é depositado na vala comum.

No dia seguinte à sua morte, numa carta a seu cunhado, Paul Claudel escreve: "Camille terminou sua longa vida de decepções e de sofrimento. O peso do gênio é penoso para uma mulher carregar!... Meu consolo é que esses trinta anos de sofrimento certamente lhe valerão o acesso a um plano melhor. O capelão me disse que ela sempre comungava com sentimentos de grande fé. Uma longa vida de decepções e sofrimento". A frase é exata. E a carta, de uma hipocrisia impressionante.

Agora, mais de 70 anos após sua morte, Camille finalmente recebe uma homenagem à altura de seu gênio. Projetado pelo arquiteto Adelfo Scaranello, o Museu Camille Claudel exibe mais de 40 esculturas da artista e concretizou-se graças ao mecenato de algumas empresas e à parceria público-privada. Localizado numa propriedade onde a família Claudel viveu entre 1876 e 1879, anexou também o antigo museu Dubois-Boucher, dedicado aos escultores Paul Dubois (1829-1905) e Alfred Boucher (1850-1934), primeiro mestre de Camille.

Se você estiver nas imediações de Paris e quiser conhecer o MUSEU CAMILLE CLAUDEL, anote o endereço: 10, rue Gustave Flaubert, Nogent-sur-Seine. Tel.: 03 25 24 76 34. www.museecamilleclaudel.fr. Abre em 26 de março de 2017. Você pode ir de trem a partir da Gare de L’Est, em Paris, e o museu fica a cinco minutos a pé da estação ferroviária. Se você for de automóvel, há dois estacionamentos gratuitos: o Fournier no número 1, rue Paul Fournier, ou então o estacionamento da igreja no centro da cidade. Bom passeio!

quarta-feira, 22 de março de 2017

Pinturas desaparecidas de Van Gogh são exibidas em Amsterdã e ganham documentário polêmico.

Fontes: Artnet e The New York Times

Acusado do roubo oferece relato detalhado sobre o furto de 2002.


Vincent Van Gogh - 'Vista da praia de Scheveningen'(1882)- Museu Van Gogh - Amsterdã

O Museu Van Gogh, de Amsterdã, acaba de fazer uma coletiva de imprensa para celebrar o retorno e a exibição de duas obras primas que há muito haviam sumido de suas paredes: 'Fiéis deixando a Igreja em Nuenen' (1884-5) e 'Vista da praia de Scheveningen' (1882), de Vincent Van Gogh. Ambas haviam sido furtadas há mais de 14 anos, na noite de 7 de dezembro de 2002, em uma ação que durou menos de 4 minutos.

O valor das pinturas é inestimável porque elas nunca estiveram disponíveis no mercado. 'Vista da praia de Scheveningem' é uma das duas únicas obras que Van Gogh pintou durante seus anos na Holanda, e 'Fiéis deixando a igreja em Nuenen' mostra a igreja onde o pai do artista era pastor - o quadro foi um presente para sua mãe. Só para lembrar: pinturas de paisagens de Van Gogh valem, nos leilões de arte, entre dez e 70 milhões de dólares.

Ao mesmo tempo, o jornal The New York Times publicou uma grande matéria sobre um documentário a ser veiculado na TV holandesa KRO-NCRV e que teria como destaque, numa abordagem ousada, o ladrão que admitiu sua culpa pela primeira vez em todos esses anos. Segundo o jornal, a jornalista Nina Seagal conversou com o homem, um holandês chamado Octave Durham que, assumidamente, é – ou era – um criminoso de carreira.

Vincent Van Gogh - 'Fiéis deixando a Igreja em Nuenen' (1882) - Museu Van Gogh - Amsterdã

O Museu Van Gogh ainda está tão furioso com Durham que se negou a cooperar com o documentário e criticou duramente o fato de que seu foco esteja voltado para o criminoso. Contudo, a equipe do museu conversou com Siegal, e o diretor da instituição, Axel Rüger, afirmou: "O museu é vítima neste caso e eu esperaria uma atitude muito diferente de alguém que mostrasse remorso... Durham sabia exatamente o que estava fazendo e nunca disse uma palavra. Para nós, parece que ele está apenas atrás dos holofotes".

O cineasta Vincent Verweij defendeu sua decisão de oferecer a Durham uma plataforma, mesmo tendo consciência da "ética duvidosa" associada ao fato. Além disso, diz que Durham não recebeu nenhuma compensação por sua participação no filme. "O interessante é que você nunca vê documentários ou artigos sobre roubo de arte sob a perspectiva do criminoso", disse o documentarista. "É sempre com os experts, os profissionais do museu, os promotores, mas nunca com aqueles que efetivamente cometem o crime, e eu acho que essa é uma perspectiva única. Não foi pensada para ser uma glorificação desse homem".

Durham aparece como uma personalidade curiosa. "Algumas pessoas nascem professoras. Outras, jogadoras de futebol. Eu nasci ladrão", conta ao Times.

Octave Durham, o ladrão cara de pau.

Durham roubou o museu não por encomenda de algum gangster ou um especial interesse em arte, mas simplesmente porque o roubo lhe pareceu fácil. Ele não conhecia a história das pinturas. Disse que as roubou porque elas eram as menores da galeria e as mais próximas do buraco por onde ele havia entrado no museu. Enfiou-as numa sacola e escapou por uma corda que ele e seu cúmplice, Henk Bieslijn, haviam preparado do lado de fora. 

Após roubarem as obras, os dois homens tentaram vendê-las para um criminoso holandês chamado Cor van Hout (condenado por sequestrar em 1983 Alfred Heineken, o magnata da cerveja). Mas houve uma dramática reviravolta: Van Hout foi assassinado no mesmo dia em que a transação seria efetuada.

Durham e Bieslijn venderam então as pinturas para um capo mafioso italiano, Raffaele Imperiale, por algo em torno de 350 mil euros, dividiram o butim e partiram para uma farra turística internacional. Mais de uma década se passou sem pistas. Porém, em setembro último, autoridades italianas encontraram as obras na casa da mãe de Imperiale, perto de Nápoles, embrulhadas em tecidos de algodão e próximas à cozinha. Imperiale havia fugido para Dubai em 2013 ou 2014 e está prestes a ser extraditado para a Itália, onde foi sentenciado a vinte anos de prisão por múltiplos crimes não limitados à sua conexão com o furto das obras.

Quanto a Durham, foi liberado da prisão em 2006 e pagou uma multa de cerca de 60 mil euros de um total estipulado em 350 mil. Posteriormente, foi preso novamente devido a um roubo frustrado a banco. Em 2013, ele contatou o Museu Van Gogh e ofereceu sua ajuda para recuperar as obras, ainda alegando inocência. Compreensivelmente, o museu recusou a oferta e ficou ultrajado com sua sugestão de comprar as obras de volta.

Durham encontrou Verweij em 2015 e lhe confidenciou que desejava ajudar a encontrar as pinturas, para que pudesse se redimir de seus crimes, mas, inexplicavelmente, ainda alegava inocência ao cineasta. Verweij relatou seu ceticismo em relação a Durham e retrucou, na ocasião, que não acreditava em sua inocência. Pouco depois, concordou em encontrar Durham num café, "e ele admitiu ter mentido e roubado as obras". Sua confissão para as câmeras confirma as antigas suspeitas, mas não terão implicações legais para o criminoso. O documentário será exibido ainda esta semana na televisão holandesa, mas creio que não tardará a estar disponível na web. Vale ficar de olho!

sábado, 11 de março de 2017

Serra Velha de Santos. Uma caminhada pelas curvas da história.

Desde criança eu costumava descer para o litoral com a família e adorava quando meu pai pegava a Estrada Velha de Santos. Eu ficava fascinada com as casas de pedra ao longo da serra, imaginando que deveriam ser construções muito antigas. Sem falar, naturalmente, que a paisagem exuberante da Mata Atlântica também acendia minha imaginação. Como meu pai nunca parou em nenhuma daquelas casas para que pudéssemos visitá-las, cresci com essa curiosidade, até descobrir, anos atrás, que a Estrada Velha estava fechada para automóveis e aberta somente para caminhadas turísticas.

Finalmente, pude matar minha vontade. No mês passado fiz uma caminhada na Serra Velha, também conhecida como rodovia Caminho do Mar (SP-148). Mas antes de contar como foi o passeio, vale voltar um pouquinho no tempo para situá-la na história. Construída na década de 1920, essa estrada foi a primeira a ser pavimentada com concreto na América do Sul. Naquela mesma época, foram construídas as tais casas de pedra ao longo da rodovia, com o objetivo de celebrar o centenário da Independência do Brasil, comemorado em 1922. Em 1947, com a construção da Via Anchieta, a Estrada Velha começou a entrar em decadência e foi  fechada para veículos em 1985 por motivo de segurança.

Em 2004, o Governo do Estado de São Paulo resolveu abrir a rodovia para a prática de ecoturismo e, de lá para cá, as pessoas têm tido a oportunidade de percorrer seus oito quilômetros a pé, apreciando a exuberante paisagem da Mata Atlântica que integra o Parque Estadual da Serra do Mar. São 700 metros de altitude partindo de São Bernardo do Campo até a chegada a Cubatão, lá embaixo, no nível do mar.

Foto: riachogrande.net

Lindos manacás cor-de-rosa dominavam todo o trecho da estrada e também apareciam em vários pontos da paisagem da serra.

Os manacás da serra são um espetáculo! - Foto: Simone Catto

Durante o trajeto também não faltam bicas e cachoeiras! Mas atenção: nem sempre a água é potável devido à proximidade com Cubatão.

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A primeira construção histórica que visitamos em nossa descida foi o Pouso Paranapiacaba, uma casa em alvenaria, rochas, tijolos e granito lavrado. Ponto de parada de carros durante a viagem entre Santos e São Paulo, o Pouso possui um painel de azulejos pintados retratando o mapa do Estado e as estradas existentes à época. "Paranapiacaba", em tupi, significa "local de onde se vê o mar". Não vimos o mar, mas pudemos ter uma vista aérea de Cubatão, apesar de um pouco de nebulosidade.

O Pouso Paranapiacaba e nossa turma de andarilhos - Foto: Simone Catto

Detalhe do Pouso Paranapiacaba com o mapa de São Paulo - Foto: Simone Catto

A construção é imponente... - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Embora fizesse bastante calor naquele dia, o céu estava um pouco encoberto - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A próxima parada foi no Padrão do Lorena, um monumento construído em 1922 em homenagem a Bernardo José Maria de Lorena, governador da Província de São Paulo. Porém, não chegamos até o monumento pela estrada de concreto. Percorremos um pequeno trecho da famosa – e histórica - Calçada do Lorena. Construída em 1792 a mando do governador Bernardo Lorena e restaurada em 1992, essa calçada foi o primeiro caminho pavimentado com pedras na região da Serra do Mar, ligando São Paulo ao porto de Cubatão. Muitas mercadorias eram transportadas por ali, no lombo de mulas. Dizem que D. Pedro I passou pela Calçada do Lorena para ir de Santos às margens do Rio Ipiranga proclamar a Independência do Brasil. Se é verdade, não sabemos. Mas impossível não é!

Padrão do Lorena - Foto: Marcel Vincenti

Lateral do monumento - Foto: Simone Catto

O governador Bernardo Lorena, que mandou construir a Calçada do Lorena, foi homenageado nesta azulejaria no interior do arco do Padrão do Lorena. Não sabemos se os azulejos são portugueses, mas o estilo sem dúvida é!  

 Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A lendária Calçada do Lorena - Foto: Marcel Vincenti

Outro ângulo da Calçada - Foto: Marly Paes

Mais para a frente, paramos no Rancho da Maioridade, batizado em alusão à Estrada da Maioridade, de 1846, que homenageava a maioridade de D.Pedro II. Lá fizemos um reforçado lanche ao ar livre apreciando a belíssima paisagem da serra. Um privilégio!

Rancho da Marioridade - Foto: Simone Catto

Aqui fizemos o nosso lanche! - Foto: Simone Catto

Detalhe: havia toaletes à disposição no interior da casa, porém eles estavam muito mal conservados. A esse respeito, aliás, é preciso dizer que o interior das construções precisa urgentemente de um restauro, pois algumas partes do teto até ameaçavam cair. Atenção, Governo do Estado!!

Fundos do Rancho da Maioridade - Foto: Simone Catto

Detalhe da entrada dos fundos - Foto: Simone Catto

Banco no terraço do Rancho da Maioridade, com um belo trabalho de azulejaria - Foto: Simone Catto

O interior da construção precisa de uma boa restauração! - Foto: Marly Paes

O passeio exige um preparo físico razoável e joelhos fortes porque a descida força a panturrilha. Nada impede que você também faça o caminho contrário e suba a serra, naturalmente, mas aí a caminhada fica mais pesada. De uma forma ou de outra, é fundamental usar tênis apropriados, protetor solar, óculos escuros, chapéu e repelente de mosquitos. No dia do passeio fazia um sol intenso e nem o protetor solar deu conta do recado. É importante levar lanche e água, pois não há restaurantes no trajeto. 

Como fiz o passeio com a agência de turismo Siga Brasil (facebook.com/sigabrasiltur), o pacote incluiu traslado de ônibus – ida e volta, lanche, o acompanhamento de dois guias e um almoço no restaurante Rei do Abadejo, no Riacho Grande. O restaurante é simples, mas a comida é deliciosa e os pratos são para lá de fartos. 

Às 7h da manhã os ônibus saíram dos terminais rodoviários Jabaquara (São Paulo) e Ferrazópolis (São Bernardo do Campo) até a rodovia Caminho do Mar. O lanche que comemos durante a caminhada, caprichado, tinha maçã, goiaba, sanduíche de queijo e peito de peru com requeijão no pão de forma, barras de cereais, biscoitos doces e salgados e refresco de açaí. Deu para alimentar com folga até a hora do almoço chegar. Além dos dois guias da agência, um monitor do Parque Estadual da Serra do Mar também nos acompanhou e explicou um pouco sobre a fauna, a flora e a história do lugar. No total, a contar do encontro na rodoviária de manhã, até a volta do almoço e o retorno à rodoviária, o passeio durou umas dez horas. Vale muito a pena, recomendo!