domingo, 29 de maio de 2016

Será Frida? Yayoi? Berthe? Conheça a artista mulher mais valorizada nos leilões.

Fonte: Rain Embuscado - artnet News - 26/5/2016

A partir da esquerda: Agnes Martin, Frida Kahlo e Louise Bourgeois - Foto: YouTube e artnet

Nos últimos anos, as obras de artistas mulheres têm alcançado altas cifras no mercado, mas nem sempre foi assim. Sabemos que, por razões históricas e sociais, durante muito tempo as mulheres foram relegadas a um segundo plano no mundo das artes. Felizmente, no século XXI elas vêm conquistado cada vez mais espaço e reconhecimento e suas obras têm sido arrematadas por altos valores nos leilões de arte. 

No último verão norte-americano, o site artnet News realizou uma pesquisa para descobrir as artistas mulheres com obras mais caras nos leilões. Este ano, a lista ganhou dois nomes que não constavam na anterior: Agnes Martin e Frida Kahlo, que quebraram seus recordes na Chistie's no início de maio e desbancaram até Yayoi Kusama, a "queridinha" da mídia que havia ficado em nono lugar na lista do ano passado. Sua pintura Branco Nº 28 (1960) ficou em 11º lugar desta vez, pouco à frente de telas de Barbara Hepworth e Kay Sage.

O artnet estudou a valorização das obras de artistas mulheres nos últimos dez anos e chegou ao resultado abaixo, com os valores em dólares.

Georgia O'Keeffe - 'Jimson Weed/White Flower No. 1' (1932) - Foto: Christie's

1. Georgia O’Keefe – $ 44.4 milhões
Sim! Não foi Frida Kahlo, nem Yayoi Kusama e nem a impressionista Berthe Morisot. A obra Jimson Weed/White Flower Nº 1 (Erva do Diabo/Flor Branca  1) (1932), da norte-americana Georgia O'Keefe, foi arrematada num leilão da Sotheby's em 2014 pelo Crystal Bridges Museum, de Arkansas, por um valor que quebrou todos os recordes de arte produzida por mulheres até então: 44 milhões de dólares. 

Louise Bourgeois - 'Aranha' (1996) - Foto: Sotheby's

2. Louise Bourgeois – $ 28.2 milhões
Atrás de O'Keeffe está a icônica Aranha de bronze com quase três metros de altura de Louise Bourgeois (1996). A obra, que havia ficado em quinto lugar na lista do ano passado, saltou três postos no leilão de arte do pós-guerra da Christie's, no outono de 2015, e foi arrematada por US$ 28.2 milhões.

Joan Mitchell - 'Sem Título' (1960) - Foto: Christie's

3. Joan Mitchell – $ 11.9 milhões
A respeitada artista expressionista abstrata Joan Mitchell conquistou seu lugar entre as três mais caras do mundo com a venda, em 2014, da obra Sem Título (1960). Cotada em até US$ 9 milhões, a pintura foi vendida pela Christie's por quase US$ 12 milhões, ultrapassando em mais de 30% seu valor máximo estimado. Até a pintura de O'Keeffe quebrar todos os recordes em 2014, a obra de Mitchell era a mais cara de uma artista mulher arrematada em leilão. Uma outra pintura de Mitchell, Noite (1969), foi vendida por US$ 9.8 milhões este mês no leilão de arte contemporânea e do pós-guerra da Christie's, quando o valor estimado estava entre US$ 5 e US$ 7 milhões. Parece que a artista está em alta!

Berthe Morisot - 'Après le Déjeuner' (1881) - Foto: Christie's de Londres

4. Berthe Morisot – $ 10.9 milhões
A encantadora pintora impressionista Berthe Morisot teve vários trabalhos arrematados por altas cifras em leilões. A maior delas pertence à pintura Après le Déjeuner (Após o Almoço), de 1881, vendida por quase US$ 11 milhões em 2013. Entre os impressionistas, contudo, o valor da obra de Morisot está muito aquém daquele alcançado pela pintura Baile no Moulin de la Galette (1876), de seu contemporâneo Pierre-Auguste Renoir, que foi vendida por assombrosos US$ 141.5 milhões na Sotheby's em 1990. Essa disparidade de valores dá o que pensar, visto que o talento de Morisot não fica nada a dever ao de Renoir e de outros artistas impressionistas. Tudo bem que, até por critérios técnicos, a pintura de Morisot fosse avaliada por um preço mais baixo que o daquela de Renoir. Mas é incompreensível que esse valor fosse tão mais baixo assim. Note que cerca de US$ 130 milhões separam a obra de um e de outro! Será que essa desvalorização de Morisot em relação ao colega se deve ao fato de ela ser mulher? Juro que ainda estou tentando entender...

Natalia Sergeevna Goncharova - 'Les Fleurs' (1912) - Foto: Christie's de Londres

5. Natalia Sergeevna Goncharova – $ 10.8 milhões
A proeminente artista vanguardista russa fez barulho na virada do século XIX para o XX e até hoje é bem-sucedida no mercado de arte. Sua pintura Les Fleurs (As Flores), de 1912, foi vendida na Christie's de Londres por pouco menos de US$ 11 milhões. As obras Espagnole (1918-20) e Colhendo Maçãs (1909) foram arrematadas por US$ 10.2 e US$ 9.8 milhões, respetivamente. Uma curiosidade: consta que Madonna aprecia muito a obra de Goncharova e possui alguns exemplares da artista em sua coleção de arte.

Agnes Martin - 'Orange Grove' (1965) - Foto: Christie's

6. Agnes Martin – $ 10.7 milhões
Ainda em maio deste ano, Agnes Martin quebrou seu próprio recorde na Christie's com a venda de Orange Grove (Laranjal), de 1965, por US$ 10.7 milhões. Subiu assim para o meio da lista e deu um verdadeiro salto de valorização, se considerarmos que seu recorde anterior, a tela The Beach (A Praia), de 1964, havia sido vendida na Sotheby's em 2013 por US$ 6.5 milhões.

Cady Noland - 'Bluewald' (1989) - Foto: Christie's

7. Cady Noland – $ 9.7 milhões
Única artista viva a figurar na lista, Cady Noland vendeu, em maio de 2015, a obra Bluewald (1989) na Christie's New York, ultrapassando em muito o preço máximo estimado de US$ 8 milhões e seu próprio recorde anterior com a obra Oozewald (1989), vendida por US$ 6.5 milhões em 2011.

Tamara de Lempicka - 'Le Rêve (Rafaëla sur fond vert)' (1927) - Foto: Sotheby's

8. Tamara de Lempicka – $ 8.4 milhões
Conhecida como a "primeira artista mulher a tornar-se estrela", a musa art déco Tamara de Lempicka é um hit recorrente nos leilões. Seu recorde foi com a pintura Le Rêve (Rafaëla sur fond vert) (O Sonho - Rafaëla sobre fundo verde), de 1927, vendida por US$ 8.4 milhões na Sotheby's New York em 2011. Madonna (ela de novo...) é uma colecionadora fiel de seus trabalhos e chegou a afirmar à revista Vanity Fair, em 1990, possuir um verdadeiro "museu de Lempicka".

Camille Claudel - 'La Valse, première version' (1893) - Foto: Sotheby's de Londres

9. Camille Claudel – $ 8 milhões
Ela não podia faltar! A bela, dramática e genial Camille junta-se à lista, merecidamente, com a venda da escultura La Valse, première version (1893), por US$ 8 milhões num leilão da Sotheby's em 2013.

Frida Kahlo - 'Dos Desnudos en el Bosque (La Tierra Misma)' (1939) - Foto: Christie's

10. Frida Kahlo – US$ 8 milhões
Empatando com Claudel temos Dos Desnudos en el Bosque (La Tierra Misma), pintura de Frida Kahlo criada em 1939 que foi arrematada pelo preço recorde de US$ 8 milhões num leilão da Christie's na última primavera, encerrando uma semana bastante medíocre. O sucesso da artista no mercado de arte não é exatamente uma surpresa se considerarmos a atenção que ela tem recebido da mídia nos últimos anos. A propósito, a produção de Frida é pequena, o que reduz significativamente as oportunidades daqueles que desejam adquirir obras suas e, certamente, também aumenta suas cotações.

Em breve publicarei, aqui, a lista das obras mais valorizadas das mulheres artistas vivas. Será que há alguma brasileira entre elas?... Aguarde!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

'Spotlight', um filme que poderia ter sido.

Curioso. Eu havia ouvido tantos comentários positivos a respeito de Spotlight - Segredos Reveladosdo diretor Tom McCarthy, que esperava um daqueles filmes densos, inesquecíveis, carregados de energia dramática. A publicidade em torno dele era enorme e ficou ainda maior após Spotlight levar o Oscar de melhor filme e roteiro original este ano. Demorei a assistir à película após a estreia, o que contribuiu para aumentar ainda mais minha expectativa. No entanto, quando isso aconteceu, puff.... devo dizer que fiquei um tanto decepcionada.


Achei o filme burocrático, linear, e saí do cinema com a sensação de que a história real da equipe de jornalistas investigativos do Boston Globe que denunciou em 2002 casos de pedofilia envolvendo sacerdotes da Igreja Católica poderia ter sido muito melhor explorada. Em primeiro lugar, porque o tema é deveras polêmico. Cerca de 70 sacerdotes de Boston, EUA, foram denunciados por abuso sexual de crianças, notadamente aquelas em situação social vulnerável. A Igreja tentou abafar o episódio o quanto pode, mas o fato é que a série de reportagens veiculadas pelo periódico de Boston teve uma repercussão e um desdobramento formidáveis. O bispo daquele Estado renunciou no mesmo ano e a Igreja Católica tomou uma série de medidas e sanções subsequentes, dentre as quais se incluíram novas investigações e pedidos de desculpas pelos próprios papas. As repercussões do caso felizmente ecoam até hoje, fazendo com que países do mundo todo se tornem mais alertas e cuidadosos em relação a suas crianças.

Rachel McAdams, Marc Ruffalo, Stanley Tucci, Michael Keaton e John Slattery interpretam a equipe de jornalistas que comandou a investigação.

Spotlight (cuja tradução é "holofote") poderia ter sido um "filmão", mas não foi. Faltou emoção, faltou profundidade psicológica aos personagens, faltou roteiro. O tema não foi explorado em todas as suas nuances e possibilidades dramáticas. E o elenco, formado por bons atores como o eterno "Batman" Michael Keaton, foi subdirigido e subaproveitado. Por falar nisso, a atriz Rachel McAdams, que interpreta a jornalista Sacha Pfeiffer, me lembrou muito a linda Naomi Watts dos tempos de Cidade dos Sonhos, o filme hipnótico e estranhamente belo do esquisitão David Lynch. 

Rachel McAdams, que me lembrou muito Naomi Watts...
... E Naomi Watts, um dos rostos mais belos e marcantes do cinema contemporâneo.

Está no elenco também o grisalho John Slattery, que interpreta o executivo Roger Sterling em Mad Men, a bem-sucedida série sobre a rotina das grandes agências de publicidade americanas dos anos 50 e 60. Quer arriscar? Ok, vale para matar a curiosidade. Mas se você não conseguir assistir a Spotlight, não se preocupe: não está perdendo um grande filme.

Ficha técnica parcial:

Direção: Tom McCarthy
Roteiro: Tom McCarthy e John Singer 
Elenco: Marc Ruffalo (Michael Rezendes), Rachel McAdams (Sacha Pfeiffer), Michael Keaton (Walter Robinson), Stanley Tucci (Mitchel Garabedian), John Slattery (Ben Bradlee Jr.) e outros.

sábado, 7 de maio de 2016

Mecânico desempregado pode ter encontrado quadro perdido de Renoir.

Fonte: Marie-Amélie Blin - Le Figaro - publicado em 6/5/2016 às 14h11 e atualizado às 19h43

O que você faria se comprasse um quadro de segunda mão no Mercado Livre e descobrisse que pudesse se tratar de uma pintura de Renoir? Foi mais ou menos isso o que aconteceu com Ahmed Ziane, um mecânico desempregado de 50 anos que mora na região de Villeurbanne, perto da cidade de Lyon, na França.

Tudo começou numa bela noite de primavera em 2014. Como sempre costuma fazer, Ziane estava navegando no site Le Bon Coin, no qual os franceses anunciam os mais variados objetos para venda. O mecânico tem por hábito comprar produtos nesse tipo de site e também em feiras de antiguidades, a fim de revendê-los e complementar sua renda. Naquela noite, uma pintura à venda no Le Bon Coin chamou sua atenção: uma paisagem não assinada que ele pensou ser de autoria de Claude-Joseph Vernet, um artista do século XVIII da cidade de Avignon. Ziane conseguiu comprar a obra por 700 euros e, uma semana depois, a pintura de 96 cm X 76 cm foi entregue em sua casa. O quadro estava em bom estado, mas não havia qualquer sinal da assinatura de Vernet. Até que seu filho de 11 anos chama sua atenção para um detalhe estranho, uma inscrição escondida atrás do desenho de um arbusto: "1864 A. Renoir".

Ahmed Ziane e a suposta pintura de Renoir que comprou num site de produtos de segunda mão - Imagem: Le Figaro

Sabe-se que, em sua juventude, Pierre-Auguste Renoir pintou um quadro denominado Noite de Verão e que ele foi exposto em 1865. Após essa data, a pintura nunca mais foi vista. Sabia-se de sua existência, mas ninguém possuía nenhuma informação sobre ela – sequer sobre suas dimensões, afirmou a Réunion des Musées Nationaux, entidade que preside os museus na França. A tela estava ausente até do catálogo raisonné das 4.654 obras de Renoir organizado pela galeria de arte Beinheim-Jeune e estava classificada entre as obras de arte perdidas pelo Institut National d’Histoire de l’Art (INHA). Teria sido finalmente encontrada?

Ahmed Ziani realmente pode ter tirado a sorte grande. A pintura reúne vários elementos usuais nas obras de Renoir, como o tipo de tela utilizado e a camada de gesso branco que o mestre costumava espalhar sobre a superfície antes de começar a pintar. O Ciram, laboratório de análise e autenticação de objetos de arte sediado em Bordeaux, foi bem otimista: não somente confirma que a tela misteriosa foi criada nos anos 1860, como revela que o estilo e os pigmentos utilizados foram igualmente detectados em outras telas assinadas por Renoir no período. Tomara que esteja certo! Quisera eu achar um Renoir por 700 reais na OLX. Um Eliseu Visconti, aliás, já estaria de bom tamanho! O único problema (ou não!) é que eu não teria coragem de vendê-lo.