terça-feira, 10 de setembro de 2019

Lourmarin, o refúgio ressuscitado.

Dificilmente pisaremos em alguma cidade do sul da França que não tenha sido habitada por homens pré-históricos. Pouco restou daquele período, mas vestígios de épocas posteriores são mais abundantes, principalmente da Idade Média. Ao ter a oportunidade de dirigir recentemente pelas estradas da Provence, descobri lugarejos que guardam registros impressionantes daqueles tempos. Lourmarin está entre eles.

Chegando à cidade... - Foto: Simone Catto

Vista de Lourmarin - Foto: Simone Catto

Com pouco mais de mil de habitantes, o village de Lourmarin está situado aos pés da montanha do Lubéron, em meio aos vinhedos e oliveiras tão abundantes naquela região da França. Sabemos que o lugar é muito antigo porque escavações realizadas ali entre 1976 e 1982 revelaram um mobiliário do período neolítico e uma necrópole do final da Idade do Bronze, o que ficou comprovado pelo estudo dos ossos humanos e peças de cerâmica e bronze achados no local. Na ocasião, os arqueólogos encontraram catorze pulseiras de bronze.

Não tive a oportunidade de checar essas relíquias arqueológicas, mas, logo ao chegar à cidade, topei com a principal atração turística do lugar: o castelo de origens medievais que está de pé hoje graças à sensibilidade de um mecenas. Vale a pena contar sua história porque, nesse mundo onde o sentido do sagrado é tão volátil quanto as emoções humanas, é preciso valorizar quem reconhece a importância das permanências que valem a pena.

O castelo ao longe - Foto: Simone Catto

Mas antes vamos voltar um pouco no tempo. A parte mais antiga do castelo foi construída no século XV sobre ruínas do século XII. Até a Revolução Francesa, ele foi ocupado por diferentes proprietários. Porém, após a Revolução, os novos compradores estavam apenas interessados em cultivar as terras e negligenciaram a construção. Como consequência, no final do século XIX, o castelo estava quase em ruínas. A ala do período renascentista, que havia sido transformada em celeiro, servia, ao mesmo tempo, de abrigo para vagabundos e ciganos de passagem. Em 1920, o castelo iria a leilão para virar uma pedreira quando foi descoberto por nosso mecenas, um industrial de Lyon chamado Robert Laurent-Vibert, herdeiro da Hahn Petroleum Company. Estudioso, erudito e membro da Escola Francesa de Roma, Laurent-Vibert foi seduzido pela atmosfera ancestral do castelo e se comprometeu a restaurá-lo, o que fez de 1921 a 1923 com base em documentos antigos fornecidos por seu amigo Edouard Aude, curador da biblioteca Méjanes de Aix-en-Provence. Detalhe interessante: todos os artesãos empregados na restauração eram de Lourmarin. Isso mostra duas coisas. Primeira: que os poucos habitantes locais tinham um mínimo de capacitação. Segunda: que os gestores do vilarejo sabiam valorizar sua mão de obra.

Robert Laurent-Vibert faleceu em 1925 em um acidente de automóvel, mas, em 1923, havia deixado um testamento legando o castelo à Académie des Sciences, Agriculture, Arts et Belles Lettres d'Aix-en-Provence, que tinha como responsabilidade instituir uma fundação com seu nome. Assim foi criada a Fundação Lourmarin Robert Laurent-Vibert, reconhecida como de utilidade pública desde 1927 e administrada por um conselho composto inicialmente por amigos do industrial.

Até hoje a fundação tem objetivos exclusivamente culturais e, ao que parece, eles têm sido plenamente atendidos: no verão o castelo recebe jovens artistas em residência e promove concertos, conferências e exposições durante todo o ano, além de concursos culturais.

Fonte no pátio à entrada do castelo - Foto: Simone Catto

A primeira coisa que notei ao entrar no castelo é uma interessante escada em espiral que unifica seus três andares. Curiosidade: na época medieval, as escadas dos castelos eram usualmente construídas no sentido horário, para que os invasores que as subissem segurando as espadas com a mão direita encontrassem no pilar central um obstáculo a seus movimentos. E os defensores do castelo, ao contrário, desciam as escadas com o caminho livre do lado direito para empurrar os invasores com o próprio corpo. Essa é a lógica da escada do castelo de Lourmarin, embora a foto esteja ao contrário.

A escada torcida do castelo - Foto: site do Castelo de Lourmarin

Apenas a ala mobiliada renascentista, do século XVI, está aberta ao público. Os ambientes são enormes, mas não me pareceram lá muito aconchegantes. Assim que entrei no quarto abaixo, imaginei como devia ser frio no inverno. Brrrrr... Na realidade, a opulência decorativa começaria mais tarde, no período barroco. Versalhes está aí para provar.

Foto: Simone Catto

Sala de música - Foto: site do Castelo de Lourmarin

Na parte externa, esculpidas entre as ameias, há algumas gárgulas em formato de cães selvagens, caçadores de lobos. Orifícios na cabeça das esculturas permitiam o escoamento da água da chuva e, mais do que isso, na Idade Média, acreditava-se que essas carrancas afugentavam maus espíritos.

Os protetores do castelo - foto: site do Castelo de Lourmarin

Confesso, no entanto, que o que mais gostei de minha visita a Lourmarin foi explorar ruas do vilarejo. Em determinado momento, deparei com a agradável paisagem abaixo e vim a descobrir que se trata da igreja de Saint-André e Saint-Trophime, que foi construída no século XI, antes mesmo da construção da muralha da cidade, e mescla elementos românicos e góticos. A fonte antes da entrada confere um encanto especial ao cenário.

Igreja Saint-André e Saint-Trophime - Foto: Véronique Pagnier

A julgar pelo interior preservado da igreja, é evidente que ela foi restaurada por obra de algum benfeitor ou do próprio governo local. O retábulo que orna o magnífico altar-mor dourado, criado em fins do século XVII e início do século XVIII, é dedicado a Santo André.

Foto: Selma

A comuna também tem um velho campanário construído no século XVII sobre vestígios do antigo castelo feudal que ganhou um apelido curioso dos moradores: "caixa de sal" (boîte à sel), porque seu formato se assemelha ao dos antigos recipientes para sal que eram pendurados nas paredes das cozinhas. Minha mãe, aliás, teve um. Era vermelho com a tampa branca. Veja e compare... 

O campanário... Foto: Internet 

E abaixo, a caixa de sal que tantas francesas devem ter utilizado ao fazer suas ratatouilles. Realmente lembra o campanário! (rs).  

Foto: Internet

Mas sal não foi o único tempero que encontrei pelo caminho. Também vi graciosas residências com pitadas generosas de capricho e delicadeza.

Fofurices de Lourmarin - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto
E por falar em residências fofas, parece que há muita gente disposta a comprar imóveis em Lourmarin, mas nem todo mundo está a fim de vender, como deixa bem claro o aviso à entrada de um imóvel: "Informamos que este local não está para alugar e nem à venda. Obrigado". Como eu não estava ali para comprar casa, o tal aviso só conseguiu me divertir com o senso prático e a peremptoriedade dos franceses quando se trata de desestimular qualquer um que cogite perturbar sua paz.

Porém, há algo que os habitantes de Lourmarin vendem com prazer: arte. Não foram raros os ateliês de artistas e galerias que encontrei pelo caminho, o que me levou a deduzir que não faltam artistas por ali.  Sempre que topava com uma galeria ou ateliê, logo imaginava que, se estava aberto e funcionando, é porque devia haver compradores. Mas até agora me pergunto se aqueles artistas conseguem sobreviver apenas de sua arte ou se têm outros meios de subsistência... ainda não obtive essa resposta, mas já sei a quem perguntar. Difícil, mesmo, é sobreviver em Sampa após visitar lugares como esse. Mas em breve tem mais.

Foto: Simone Catto

Arte de qualidade! - Foto: Simone Catto

domingo, 25 de agosto de 2019

Ménerbes, a Toscana francesa.

Paisagens naturais têm um poder que, felizmente, não pouca gente tem capacidade de reconhecer. E paisagens naturais admiradas do alto, do topo de uma montanha ou colina, reafirmam a convicção de muitos de que o mundo foi orquestrado por mãos divinas comandadas por uma força mágica cuja magnitude e capacidade de produzir beleza ultrapassa (ainda) nossa compreensão. É chegar, sentir e, no caso de alguns privilegiados, se transformar.

Há pouco, ao fazer uma incursão por cidades da Provence, na França, tive essa sensação inúmeras vezes. E espero, humildemente, que esse poder transformador seja mais do que uma simples sensação em meu caso, se bem que muitas vezes sensações confundem-se com intuições. Seja lá o que for, um dos locais onde tive esse insight foi Ménerbes, antiga vila no topo de uma colina que faz parte do Parc Naturel Régional du Lubéron e é considerada uma das mais belas aldeias da França.

A comuna de pouco mais de mil habitantes é conhecida por sua beleza natural, suas construções históricas e também por ter recebido Pablo Picasso (1881-1973), que em 1944 trocou uma de suas pinturas por uma casa do século XVIII e a deu à amante Dora Maar (1907-1997) como presente de despedida após o fim do relacionamento. Dora e Picasso tornaram-se amantes em 1936 e assim permaneceram por quase dez anos, quando o artista a trocou por Françoise Gilot. Em tempo: Mme Gilot ainda vive, quase centenária! (Nasceu em 1921).

A vista em frente à casa, lá do alto, já vale a visita ao lugarejo. Há belas e ordenadas plantações em primeiro plano, uma vegetação rebelde mais atrás e os montes do Vaucluse repousando placidamente ao fundo, em um horizonte a perder de vista.

Vista do alto de Ménerbes - Foto: Simone Catto

Foto: Selma

A casa de Dora não está aberta à visitação pública, mas atualmente abriga artistas de um programa de residência artística do Texas. Subi a rampa lateral que dá acesso a ela e, ao me aproximar da fachada, descobri que a musa de Picasso viveu lá por mais de 50 anos.

Acesso à casa de Dora Maar - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto
 
A casa de Dora Maar, ao alto - Foto: Selma

Foto: Simone Catto

Dora posou para várias obras de Picasso, mas era muito mais do que simplesmente amante e modelo do pintor: consta que era uma mulher culta e inteligente, foi fotógrafa, amiga dos surrealistas na juventude e, posteriormente, tornou-se ela mesma pintora. Fiquei imaginando como deveria ser a vida dessa mulher nessa casa e nesse lugar incrível.

Casa de Dora Maar - Foto: Simone Catto

Dora Maar à sua porta - Foto: James Lord

Depois de retornar à rua, continuei a subir até chegar à Praça do Relógio, onde fica a prefeitura e a torre com o dito cujo, que foi restaurada no final do século XVI e é coroada por um sino de ferro circundado por cinco cruzes. Lá descobri que o mecanismo do relógio se constituía em um sistema de pesos que eram arranjados por um funcionário contratado especialmente para essa função, denominado "conducteur de l'horloge" (condutor do relógio).

A Praça do Relógio - Foto: Simone Catto

As ruas de Ménerbes guardam uma rica herança cultural e, assim como outros villages da Provence, têm casas da Idade Média integradas a outras da época do Renascimento. Alguns detalhes são extremamente graciosos, como os nichos contendo santos e as janelas reforçadas por uma haste de metal simulando folhagem, que vi em várias comunas da Provence.

Foto: Simone Catto

Esse cantinho é um charme! - Foto: Simone Catto

E andando pelas ruas, eis que topo com a Virgem Maria e o Menino Jesus! Sempre um prazer reencontrá-los.  

Foto: Simone Catto

Essa haste metálica nas janelas pequenas, simulando
folhagem, é típica  da região! - Foto: Simone Catto

Na Idade Média, o acesso à cidadela fortificada, então repleta de passagens subterrâneas, era feito somente através de seus dois portais, Saint-Sauveur e Notre-Dame, que faziam parte da muralha que protegia Ménerbes. O portal de Notre-Dame infelizmente foi demolido no século XIX, mas o de Saint-Sauveur, assim batizado devido a uma igreja que existiu no local no século XIII, resiste bravamente. A julgar pelo tipo de sua alvenaria e o estilo da construção, que inclui alguns buracos destinados à pontaria de canos de armas, foi construído no século XVI, segundo especialistas. Vale ressaltar que esse foi o século das guerras religiosas e por cinco anos Ménerbes foi capital do movimento protestante depois que os huguenotes a sitiaram e invadiram pelo portal de Saint-Sauveur.

Porte Saint-Sauveur - Foto: Simone Catto

Em uma ruela perto do portal topei com a construção abaixo e achei-a bem interessante. Pela imponência e estilo, logo imaginei que se tratava de um prédio importante ou a residência de alguém muito rico. Não me enganei. Descobri que se trata até hoje de uma residência particular que os habitantes locais chamam La Carméjane, porque em fins do século XV abrigou a numerosa família Carméjane, vinda de Gascogne, sudoeste da França, e que teve uma vida próspera em Ménerbes até a Revolução Francesa.

La Carméjane - Foto: Simone Catto

Localizada onde antes havia um antigo castelo feudal cujas origens remontam a 1081, La Carméjane tem preservados até hoje traços medievais na fachada. A varanda cercada é típica do final da Idade Média e sustenta uma balaustrada de estilo clássico. Várias janelas datam do Renascimento e do século XVII. No século XVIII, a casa sofreu profundas transformações que alteraram a fachada principal e acrescentaram, no topo, uma pequena torre de vigilância com função apenas simbólica. Não sei quem é o feliz proprietário da Carméjane atualmente, mas não me surpreenderia se ela fosse o refúgio de algum escritor, magnata ou celebridade milionária. Sabemos que a casa, totalmente restaurada, tem belíssimos jardins mediterrâneos localizados no lado norte da propriedade, mas, como se trata de uma residência privada, infelizmente não tive acesso a eles. Quem sabe um dia não faço amizade com os proprietários? (rs)

Andando mais um pouco, encontrei essa igrejinha – Igreja Saint-Luc – e o velho cemitério anexo. A igreja foi reconstruída no século 16 após as guerras de religião, presumivelmente no local da antiga igreja Saint-Sauveur, que batizou o portal da cidade e é mencionada nos arquivos eclesiásticos desde o século XIII, quando era gerida por uma poderosa abadia beneditina. Ainda hoje é possível ler a data de 1594 no alto do campanário, construído algumas décadas depois da reconstrução da igreja. Tanto ela quanto a base que sustenta a cruz de ferro forjado, no pátio, foram construídas em calcário branco, abundante na região, trazido de pedreiras das redondezas. 

Igreja Saint-Luc - Foto: Simone Catto

Campanário da Igreja Saint-Luc - Foto: anônima/Internet

Até hoje algumas famílias enterram seus mortos no velho cemitério ao lado da igreja.

Foto: Simone Catto

Já na volta, passando novamente perto da casa de Dora Maar, encontrei outra construção que chamou minha atenção por um detalhe curioso: um pequeno relevo em metal entalhado na fachada. Mostra um ambiente com uma cadeira de frente para uma estrutura que parece ser um cavalete de pintura, mais uma mesa e um banco ao fundo.

Foto: Simone Catto

A tal escultura em relevo pertence ao Hôtel Tingry, que na verdade não tem nada de hotel. Ocorre que, em francês, a palavra "hôtel" pode se referir também a um edifício público e, antigamente, nomeava residências de grandes senhores. Este é o caso aqui. O Hôtel Tingry é uma elegante residência do século XVIII que foi construída por um certo Joseph Balthazard de Laurents. Os Laurents eram uma poderosa família de origem piemontesa que se estabeleceu no século XVI em Avignon e esta era sua casa de veraneio. A última herdeira e moradora da casa foi Eléonore Joséphe Pulchérie des Laurents (1745-1829), esposa do príncipe de Tingry, que deu nome à construção. Gostaria de ter conhecido essa senhora.

Hôtel Tingry - Foto: Wikipedia

Voltando à escultura entalhada na parede... confesso que não consegui descobrir o nome do artista, a data da obra e muito menos o porquê de ela estar lá. Se alguém souber e puder me dizer, agradeço!

Mas a aventura não terminou. Cheguei a um belo jardim e, ao fundo, visualizei uma construção de pedra com uma torre redonda. Trata-se de parte da Citadelle, a muralha fortificada construída para proteger a cidade entre os séculos XII e XVI.

O jardim que precede esse trecho da Citadelle é um lugar superagradável! - Foto: Simone Catto

Basta andar alguns metros para chegar à antiga prisão, um cubículo de pedra desesperadamente claustrofóbico. Pergunto-me quantas pessoas foram encarceradas lá dentro, sobretudo durante as guerras religiosas!

A velha prisão - Foto: Simone Catto

Depois de tanto bater perna, foi um alento encontrar um restaurante que não fechava entre o almoço e o jantar, coisa rara nos vilarejos da França: Bistrot le 5. E ainda por cima um lugar civilizadamente animado, com mesas dispostas em um delicioso terraço que dava para a linda paisagem do Lubéron. Pedi uma massa com salmão, um vinho rosé da região e... voilà! Ménerbes me conquistou para todo o sempre.

Santé! - Foto: Simone Catto

Como resistir a um almoço em um cenário destes? - Foto: Bistrot le 5

Na volta, já na estrada, de estômago cheio e alma plena, resolvi procurar o Dolmen de la Pitchoune, vestígio da ocupação pré-histórica na região e único dólmen existente no Vaucluse. Vi placas indicativas na estrada, rodei, procurei, peguei as vicinais, retornei e... nada. Pudera. O tal dólmen fica abaixo do nível do solo, conforme mostra a foto a seguir.

Onde está o dólmen??? - Foto: anônima/Internet

Lembro-me de até ter visualizado essa placa à beira da estrada, mas, como não vi nada, achei que o dólmen estivesse escondido em algum lugar inacessível no meio do mato. E eu aqui esperando encontrar imponentes blocos de pedra empilhados, ao estilo que vi em Stonehenge! (rs) Estou rindo até agora. Dado seu tamanho, aquilo está mais para "dolminúsculo" do que para dólmen, rs. Mas os franceses, e com TODA razão, o preservam aguerridamente. De qualquer modo, o "dolminúsculo" vai ficar para a próxima!

 Dolmen de la Pitchoune - Foto: anônima/Internet

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Oppède-le-Vieux: história congelada em beleza e paz.

Andar, respirar, subir, contemplar, voltar, olhar de novo, suspirar... essa foi minha reação ao visitar Oppède-le-Vieux, uma vila medieval de 1.400 habitantes no flanco norte do Lubéron, na Provence francesa. Empoleirada no topo de um rochedo invadido por vegetação, em meio a um cenário de florestas selvagens, aclives e ruínas, a vilinha tem uma atmosfera mágica com seu silêncio secular e suas estruturas de pedra que sobem pelas escarpas.

Tudo bem que cidades e villages com maior ou menor número de resquícios medievais estão espalhados por praticamente toda a Provence, mas esse me atraiu de maneira particular. Logo ao estacionar o carro, no pé da colina, já deu para perceber que não se tratava de um lugar comum. O único ruído que eu ouvia era o canto dos pássaros. Não havia turistas. Aliás, não havia praticamente ninguém, o que achei maravilhoso. Ao olhar para o rochedo, já visualizei as antigas ruínas de pedras, a igreja do século XII no cume e o que sobrou do castelo feudal, tudo misturado à vegetação. Na foto abaixo, vemos a antiga igreja no alto, à esquerda, e as ruínas do castelo, logo à sua direita.

Foto: Simone Catto

Comecei a subir a pé, seguindo as placas. A esse respeito, vale dizer que, apesar de minúsculo, o vilarejo é bem sinalizado.

Foto: Simone Catto

Em determinado momento, topei com um painel de azulejos coloridos formando um mapa da região. Ao ler a inscrição, descobri que foi criado pelas crianças da escola de Oppède, em junho de 1995, e reproduzido na cerâmica em abril de 1998. Fiquei encantada com a iniciativa. Do jeito que os franceses são nacionalistas, não é de admirar que incutam nas crianças, desde cedo, o senso de civilidade e de pertencimento.

O painel de cerâmica criado com base no desenho das crianças locais - Foto: Selma

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A subida pela colina é irregular, não acontece em linha reta. A cada patamar, um lance de escadas de pedra nos conduz a uma nova clareira. E a cada clareira, eu parava, respirava e contemplava a paisagem, encantada.

Foto: Simone Catto

Como diria uma amiga querida... vamos sentar e conversar? - Foto: Simone Catto

Finalmente, cheguei ao centro do Vieux Village, a Cidade Velha. Estava igualmente deserta, à exceção de um casal de ciclistas aventureiros e de outro que passeava com uma criancinha. Parênteses: a região da Provence tem muitos ciclistas, sejam pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte (e isso inclui gente dos 9 aos 90 anos), sejam esportistas que levam o ciclismo a sério e pedalam por quilômetros. Se por um lado a disposição dos franceses é invejável, por outro é perfeitamente compreensível! Como não ter fôlego em um cenário como esse?  

A praça central de Oppède, pura paz! - Foto: Simone Catto
 
Detalhe do sino da praça - Foto: Selma
 
Neste ângulo da praça, podemos ver um mapa da cidade - Foto: Simone Catto

Ainda a praça... - Foto: Simone Catto

O restaurante da praça ainda estava fechado porque era cedo, mas dali a pouco abriria para receber os poucos turistas, já que o verão ainda não estava no auge.

Foto: Selma

As estruturas intramuros de Oppède foram estabelecidas no início da Idade Média e o traçado atual das ruas remonta àquela época, mas os primeiros registros de ocupação humana no local são bem mais antigos, do período romano.

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

À medida que subia pelos caminhos e pavimentos de paralelepípedos, parecia que eu estava sendo transportada a outra dimensão.

Foto: Selma

Foto: Simone Catto

Em alguns momentos da caminhada, deparei com grutas escavadas nas rochas, as quais abrigavam antigas residências e estabelecimentos comerciais.

 Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Após pertencer a diversos senhores feudais, Oppède tornou-se propriedade papal em 1274, assim que os papas se instalaram em Avignon. A partir dali, transformou-se em um burgo importante que dialogava com outros dois importantes feudos da vizinhança, Apt e Cavaillon. Ostentando orgulhosamente seu castelo e sua igreja no topo da colina e defendida por suas muralhas, a vila teve sua época de maior prosperidade no século XIV, quando contava então com 900 habitantes.

Foto: Simone Catto

Uma característica interessante do lugar é que as primitivas construções medievais às vezes são entremeadas por casas do século XV, já do final da Idade Média, e do século XVI, início da Renascença. Muitas vezes, deparamos com esses diferentes estilos lado a lado, o que torna o cenário ainda mais pitoresco. A foto abaixo, que parece mostrar uma construção do século XVI apoiada sobre uma base de pedras medievais, retrata bem essa integração de gêneros arquitetônicos.

Foto: Selma

Vez ou outra, eu topava com algumas dessas residências renascentistas restauradas e transformadas em charmosas pousadas, restaurantes ou casas de veraneio. Soube, inclusive, que alguns artistas, escritores e outras celebridades, os quais compreensivelmente preferem manter o anonimato, adquiriram propriedades na região com esse fim.

Ao olhar a figurinha esculpida em metal pendurada à entrada da casa, na foto abaixo, pensei se tratar de um restaurante, mas era, na verdade, uma hospedaria. Na França, as pessoas podem alugar para turistas até cinco quartos por habitação particular - são os chamados chambres d'hôtes, ou "quartos para hóspedes". Achei esta uma graça, ainda mais com as lavandinhas floridas ao lado da porta.

Foto: Simone Catto

Um outro aspecto curioso que constatei não apenas em Oppède, mas em outros lugarejos da Provence, são seus resquícios de religiosidade: não raro, algumas residências têm a parte externa ornamentada com santos e crucifixos. No exemplo da foto a seguir, novamente temos uma união "erótico-arquitetônica" entre dois estilos: a construção cor-de-rosa, mais moderna, literalmente se agarrou à outra com estruturas aparentemente medievais, à sua esquerda, e parece que não vai soltar tão cedo. O santo entre ambas, coitado, finge que não vê essa "pouca-vergonha", rs.

Duas construções contrastantes em flagrante ato libidinoso
e o santo que faz vista grossa, rs - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Acredito que em Oppède a presença desses sinais de religiosidade se justifica de maneira especial porque a vila foi propriedade dos papas de Avignon. Por falar nisso, vamos agora para o alto do rochedo entrar na igreja Notre-Dame D'Alidon, uma das poucas edificações antigas que não estão em ruínas. Originalmente construída no século XII, no estilo românico, a igreja foi reformada a partir de 1500, ganhou traços góticos em 1592 e foi restaurada em 1815 e 1869. Atualmente está novamente em reforma, com o patrocínio de doadores particulares. Sim, muitos ricos que moram na França contribuem para a preservação do patrimônio e certamente recebem incentivos para isso. 

A foto do altar da igreja Notre-Dame d'Alidon saiu meio desfocada, mas dá para ter uma ideia da beleza de seu interior restaurado - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A vista lá de cima é fantástica e tive um momento único de "embasbacamento" turístico-existencial.

Foto: Selma

Se eu voltaria a Oppède-le-Vieux? Sim, um milhão de vezes. À la prochaine!