segunda-feira, 25 de março de 2019

'Entrever', de Priscila Mainieri. Harmonia translúcida revelada em camadas.

Conheço Priscila Mainieri há décadas. O tempo nos separou, mas quis o destino que nos aproximássemos de uns anos para cá. Mais do que uma amiga e um ser humano sensível, descobri nela uma ótima artista. E não é só. Priscila é proprietária de um ateliê-galeria instalado num charmoso sobrado da Vila Madalena, onde também são ministrados cursos e workshops de arte. Tive a oportunidade de dar um curso de história da arte por lá e, em uma de minhas incursões no espaço, descobri seu trabalho. Vi obras criadas em diferentes técnicas que não estavam em exposição, mas guardadas junto a trabalhos de outros artistas, numa sala que é uma espécie de depósito da casa. Ao bater os olhos em algumas, lembro-me de ter-lhe dito "isso é bom, você precisa expor", mas a modéstia de Priscila é tão grande quanto sua generosidade, e ela sempre priorizou o trabalho de outros artistas, oferecendo-lhes invejáveis condições de exibição e oportunidades que dificilmente encontrariam em outras galerias de arte.  

Mix de obras de Priscila Mainieri. Estas não estavam expostas, mas gostei do efeito gerado pela junção dos padrões de obras
diferentes - Foto: Simone Catto

Finalmente Priscila resolveu expor sua própria produção e montou a exposição 'Entrever', exclusivamente com obras suas. Não pude comparecer ao vernissage devido ao caos que se instaurou na cidade após uma dessas chuvas que deixam um rastro de destruição, mas nesse fim de semana consegui dar o ar da graça na galeria. Priscila me recebeu com uma taça de vinho, o despojamento e a afetividade que conquistam tantos amigos e artistas que vira e mexe dão uma "passadinha" por lá, nem que seja para dar um "oi". Ao entrar e me deparar com as paredes repletas de obras, fui impactada imediatamente por uma agradável sensação de leveza e harmonia. Priscila criou um belo conjunto de aquarelas abstratas sobre papel algodão, um material bastante utilizado em trabalhos desse tipo pela alta qualidade, durabilidade e pelo ótimo grau de absorção da tinta.

Vista do ateliê-galeria - Foto: Simone Catto

Ela tem estudado as técnicas de diversos outros artistas, antigos e contemporâneos, e com esse embasamento tem desenvolvido incessantemente sua própria técnica, cujo aprimoramento é visível nessa série em que brincou com tons claros e escuros sobrepondo formas ovaladas opacas e translúcidas. Explicou que o processo de composição de cada trabalho foi acontecendo camada por camada e, muitas vezes, aquilo que para nós parece ser o fundo de uma obra não o é, criando uma espécie de ilusão. Quando nos detemos sobre uma camada, "entrevemos" a próxima – daí o título da mostra, aliás bem feliz. Nossos olhos vão então passeando de uma camada a outra e, como numa brincadeira, vamos tentando descobrir qual camada está sobre qual, num exercício interessante. A seleção dos tons e cores que se entrepõem é extremamente harmônica, resultando em imagens que transmitem ordem e equilíbrio. Como as obras estão protegidas por uma placa de vidro, algumas das fotos a seguir saíram com reflexo, mas dá para pelo menos ter-se uma ideia do que estou falando. 

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2017 - aquarela e nanquim s/ papel algodão - 31 X 41 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2019 - aquarela e nanquim s/ papel algodão - 50 X 70 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2019 - aquarela e nanquim s/ papel algodão - 50 X 70 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2018 - aquarela s/ papel algodão - 31 X 41 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2018 - aquarela  s/ papel algodão - 36 X 48 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2019 - aquarela e nanquim s/ papel algodão - 31 X 41 cm - Foto: Simone Catto

Por tudo isso, sinto-me tranquila em afirmar que, independentemente de minha simpatia pelo lado humano da artista, considero-me autêntica demais, sobejamente crítica e excessivamente fiel a mim mesma para exaltar ou divulgar algo que não me agrade. Portanto, se dedico algumas linhas às obras dessa exposição em meu blog, é porque realmente acredito em sua qualidade artística e, segundo meu julgamento, elas merecem ser (re)conhecidas. E para quem gostou das aquarelas e pensa que adquirir uma delas exige um alto investimento, tenho uma ótima notícia: os preços são perfeitamente acessíveis.

Esses trabalhos não estavam expostos: trata-se de um exercício da artista com outra técnica, mas achei as padronagens tão encantadoras que não resisti! - Foto: Simone Catto

A exposição se encerrou no fim de semana, em breve Priscila partirá para uma residência artística na Alemanha, mas, se você tiver interesse em conhecer as obras, anote: ATELIÊ GALERIA PRISCILA MAINIERI – tel. (11) 3031-8727 – Rua Isabel de Castela, 274 – Vila Madalena – São Paulo. www.ateliepriscilamainieri.com.br. A galeria funciona de segunda a sexta das 11h às 19h e sábados das 11h às 17h. Vale a pena dar um pulo lá!

terça-feira, 5 de março de 2019

‘Paul Klee - Equilíbrio Instável’. A descoberta de um talento polifônico no CCBB.

Há determinadas obras de arte que capturam o olhar das pessoas e apaixonam de imediato, mesmo que a falta de repertório, por quem as contempla, impeça que sejam compreendidas em sua totalidade. É o caso das pinturas impressionistas nos dias de hoje, já que à época em que foram produzidas sofreram o mais absoluto desprezo e escárnio por parte de crítica e público. Há outras obras, porém, que demoram mais para quebrar nossa resistência – seja pelo fato de serem abstratas ou excessivamente herméticas, não permitindo, portanto, uma analogia imediata com um universo percebido, seja por se distanciarem daquilo que o senso comum denomina como "belo". E como temos uma tendência natural para buscar referências sobre aquilo que nos agrada e negligenciar aquilo que não exerce grande apelo sobre nossos sentidos, muitas vezes "deixamos para lá" determinados artistas plásticos. É o que ocorreu, no meu caso – confesso - com o artista suíço Paul Klee (1879-1940), que está com mais de 100 obras exibidas na mostra 'Equilíbrio Instável', no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo.

E é exatamente por não ter grande conhecimento sobre a trajetória de Klee que se tornou uma questão de honra, para mim, visitar essa exposição o quanto antes para tentar sanar essa lacuna e compreender um pouco do que se passava em sua mente polimorfa. Devo dizer que o feriadão de Carnaval revelou-se a oportunidade perfeita, já que a cidade fica bem mais vazia nos locais que  interessam, isto é, aqueles que oferecem uma programação atraente para criaturas que conseguem memorizar sequências minimamente mais complexas que "alalaô ôôô ôôô". Fui ao CCBB numa manhã clara e agradável, livre do risco de ser surpreendida por um dos temporais que têm inundado as tardes de verão e, embora não tivesse adquirido o ingresso com antecedência pela Internet, não peguei nenhuma fila e pude apreciar a exposição com a tranquilidade que ela exige.

Paul Klee

Mas vamos a Klee. Descobri, em primeiro lugar, que ele era um artista multitalento, isto é, além de ser um desenhista de primeiríssima, seguindo uma longa linhagem de artistas gráficos alemães, era bom também na literatura e na música. Talvez isso se explique, em grande parte, pelo fato de ter nascido em uma família com manifesta sensibilidade para as artes. Desde pequeno, Klee recebeu estímulo para desenhar, especialmente da avó Catharina Rosina Frick, que não reprimia o uso da mão esquerda pelo menino em uma época que as crianças eram forçadas a utilizar a mão direita. Além disso, tocava violino desde a infância, incentivado pelo pai, Hans, que ministrava aulas de música, e pela mãe, Ida, que estudara canto e piano. O fato é que ele tinha um bom ouvido e, se quisesse, acredito que também poderia ter sido um excelente músico. Não é à toa que, mais tarde, o artista tenha feito tentativas de transpor a trama musical para várias de suas pinturas, sobrepondo cores e tons com se estivesse criando uma composição polifônica. Trabalhou a relação entre música e imagem e, frequentemente, utilizou conceitos musicais como "tonalidade", "polifonia", "harmonia" e "ritmo" para explicar suas obras.

Durante sua formação escolar, em Berna, o menino Klee costumava copiar folhas de calendários de pintores suíços e, durante os passeios no campo, registrava suas impressões da natureza em esboços. Creio que a oportunidade, para uma criança, de fazer passeios junto à natureza desde pequena amplia todo um universo mental de possibilidades e descortina novos mundos. Já rapazinho, entre 1898 e 1901, Klee foi para Munique, uma vez que a capital bávara era o centro artístico da Alemanha no momento. Frequentou a escola particular de desenho de um artista chamado Heinrich Knirr (1862-1944), onde começou a desenvolver habilidades para representar o nu e, de volta a Berna, aprofundou seus conhecimentos do corpo humano em aulas de anatomia no Instituto de Medicina da Universidade de Berna. Ou seja: mesmo após encontrar seu caminho artístico por meio da abstração, Klee tinha por trás o respaldo de uma sólida formação técnica, isto é, aprendeu a desenhar e muito bem. O oposto do que ocorre com inúmeros "artistas" atuais autoproclamados "abstratos", quando a única coisa realmente abstrata que apresentam é o talento - de "concreto", mesmo, só a preguiça de estudar. Por trás de tudo o que Klee fizesse, portanto, havia sempre muito estudo e experimentação. Metódico e disciplinado, ele trabalhava sem descanso em várias telas ao mesmo tempo e catalogou meticulosamente suas obras - acredita-se que tenha superado o impressionante número de nove mil.

Paul Klee - 'Sem título', 1899 - lápis s/ papel - Foto: Simone Catto

A música devia estar tão enraizada na família do artista que não deve ter sido por acaso que ele acabou se casando com uma pianista profissional, Lily Stumpf (1876-1946), em 1906. No ano seguinte, nasceria Felix, seu único filho. Naquela época, Klee ainda não havia consolidado sua carreira de artista e os papéis em casa se inverteram: quem pagava as contas era a esposa, ministrando aulas de piano, e Klee cuidava da casa e do menino, enquanto desenhava e pintava na cozinha. Modernos, não? Em pleno início do século XX... Enfim, eram artistas. Quem posava de modelo, então, eram os membros da família. Embora não esteja assinalado, é provável que o bebê retratado abaixo seja Felix.

Paul Klee - 'Retrato de uma criança', 1908 - aquarela s/ papel - Foto: Simone Catto

É bom dizer que, mesmo tendo optado pelas artes plásticas, Klee nunca abandonou a música. Antes de começar a pintar, tinha o hábito de tocar violino por uma hora todos os dias e, por vezes, acompanhava a esposa ao piano. Embora posteriormente tivesse tido contato com músicos vanguardistas na escola de Bauhaus, onde viria a lecionar, suas preferências musicais recaíam sobre compositores alemães tradicionais, como Mozart, Bach, Beethoven e Schubert.

Mas não era só a música que fazia os olhos de Klee brilharem. Apaixonado pelo teatro sob todas as formas, inclusive o teatro popular de fantoches, ele criou bonequinhos para divertir o filho Felix utilizando materiais como gesso, caixas de fósforo e tomadas elétricas, entre outros. Mais tarde, Felix, que viria a se tornar diretor de ópera e devia possuir uma boa dose de humor, usava os fantoches que o pai havia criado e um palco que ele mesmo construiu com marcenaria para encenar, a uma plateia de amigos e familiares, histórias divertidas sobre o cotidiano da Bauhaus, onde o pai dava aulas. Alguns desses bonecos fazem parte da exposição.

Não raro, a obra de Klee também é povoada por figuras como acrobatas e equilibristas em arriscadas exibições de equilíbrio e em risco iminente, o que muitos interpretam como uma metáfora da própria insegurança de sua vida artística. Mas essas figuras não eram dispostas aleatoriamente sobre uma superfície: elas obedeciam a leis da física, pacientemente estudadas pelo pintor. Sim, ele era um investigador nato, o que de certa forma me fez lembrar Leonardo da Vinci, guardadas as devidas proporções. O fato é que Klee associava a fantasia mais livre ao rigor mais austero.

Paul Klee - 'Equilibrfista', 1923 - litografia - Foto: Simone Catto

Além da arquitetura, Klee era fascinado pela natureza, que também inspirou sua linguagem abstrata. Para ele, a contemplação da natureza era uma revelação, "um olhar sobre o ateliê de Deus", segundo suas próprias palavras. Essas revelações muitas vezes ocorriam durante longas caminhadas contemplativas (descobri que ele era "dos meus"! rs), já que o artista era um andarilho incansável e um observador minucioso do mundo que o cercava. Talvez sua frase mais famosa seja: "A arte não reproduz o visível, ela torna visível". Klee sabia que era nos detalhes que encontraria o que procurava. Isso me lembrou outra frase, cuja autoria desconheço: "Deus está nos detalhes". O artista chegou a afirmar, mesmo, que uma obra podia “nascer, se desenvolver e se organizar como uma planta".

Foto: Simone Catto

A questão da abstração pictórica começou a se tornar importante para Klee a partir de 1910. Em Munique, ele se uniu ao grupo expressionista 'O Cavaleiro Azul', cujo membro principal era Wassily Kandinsky (1866-1944), iniciando ali uma longa amizade com o artista russo. Sabemos também que Cézanne, Picasso e Braque exerceram forte impressão sobre Klee, principalmente Cézanne, mas quem mais o fascinou foi o multicolorido Robert Delaunay (1885-1941), cujo ateliê visitou em Paris (sempre ela!), e para o qual a cor era o próprio "assunto" da obra. Mas foi em uma viagem à Tunísia, em 1914, que Klee foi "tomado pela cor", conforme afirmou certa vez. Contudo, embora tenha explorado incansavelmente as possibilidades cromáticas, Klee não colocou a luz e a cor em primeiro plano, ao contrário dos impressionistas. Nessa época, criou várias aquarelas, talvez porque a técnica se prestasse melhor a experimentos que possibilitassem uma transição entre figuração e abstração.

Paul Klee - 'Nas casas de St Germain', 1914 - aquarela s/ papel s/ cartão
(Obs.: como minha foto não saiu boa, peguei essa imagem na Internet)

Com tanta criatividade e técnica, Klee foi convidado, em 1921, a lecionar teoria da forma no curso básico da vanguardista Bauhaus, em Weimar, na Alemanha. Lá reencontrou o amigo Kandinsky. Quando a escola foi transferida para Dessau, em 1926, ele passou a dar aulas nessa outra cidade. Vale lembrar que a Bauhaus foi criada em 1919 pelo arquiteto Walter Gropius (1883-1969), num esforço para integrar a pintura, a escultura e a arquitetura aplicadas no cotidiano das pessoas. Em suas aulas, Klee usou seus conhecimentos da natureza para trabalhar questões ligadas à geometria, o que incluía a planimetria (estudo das figuras planas) e a estereometria (estudo do volume dos sólidos). Em 1931, o artista fez várias séries de desenhos construtivos, com linhas geométricas, seguindo modelos que montava a partir de varetas, elásticos e fios. Sabe-se que criava até 15 variações de um mesmo modelo. Afinal, não podemos esquecer que, embora se destacasse pela fantasia e pela imaginação, a obra de Klee nunca prescindia do desenho preciso, calculado e cerebral que caracteriza a grande tradição alemã.

Paul Klee - 'Harmonia da flora setentrional', 1927 - óleo s/ cartão revestido s/ compensado - Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Sem título' (Composição com flores e folhas), 1932 - óleo s/ cartão - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Na década de 30, porém, as coisas começaram a ficar sombrias na Alemanha. O Partido Nacional Socialista de Hitler ganhou poder, tornando a atmosfera cada vez mais ameaçadora para o artista. Em 1931, quando trocou a Bauhaus pela Academia de Artes de Dusseldorf, Klee comentou, em cartas a sua esposa Lily, sobre como detestava Hitler e sua demagogia populista e primitiva. Observador crítico e irônico da realidade, na ocasião ele criou 250 desenhos a lápis, com traços extremamente nervosos e energéticos, nos quais manifestava seu descontentamento com a atmosfera violenta e opressiva que o fez emigrar para a Suíça em 1933. Não demorou para que sua obra fosse ridicularizada e classificada pelos nazistas como "arte degenerada" e, em 1937, cem obras suas foram retiradas dos museus alemães.

Paul Klee - 'Perseguição', 1932 - bico de pina s/ papel s/ cartão - Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Acusação na rua', 1933 - giz s/ papel s/ cartão - Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Mulher jovem', 1933 - aquarela s/ papel revestido s/ cartão
Foto: Simone Catto

Essa fase sombria da política alemã coincidiu com a precarização da saúde do artista, que no fim de 1935 foi acometido de esclerodermia, uma rara doença autoimune que endurece os tecidos conjuntivos, a pele e, por vezes, também os órgãos internos. Apesar disso, Klee continuou trabalhando e criou uma obra multifacetada e rica, caracterizada pela libertação da forma e da composição e por intensa espontaneidade gestual. Nessa época, fez desenhos com pincel utilizando traços simplificados e elementos arcaicos, por vezes francamente grotescos, lembrando pinturas infantis feitas com os dedos. A obra abaixo, por exemplo, lembra uma pintura rupestre.

Paul Klee - 'Soldado', 1938 - tinta de cola s/ algodão s/ cartão
Foto: Simone Catto

O trabalho a seguir pode ser interpretado como a representação de uma dupla desintegração: do próprio organismo do artista, pela doença física, e da Alemanha, pela doença moral acarretada pela ascensão do nazismo.

Paul Klee - 'Um acesso de raiva', 1939 - giz s/ papel s/ cartão
Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Um rosto também do corpo', 1939 - cola colorida e óleo s/ papel-cartão
Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Reconstrução de uma dançarina, uma tentativa', 1939
Aquarela s/ papel s/ cartão - (Obs.: foto da Internet)

Em sua última fase, mais precisamente a partir de 1938, Klee criou também uma perturbadora série de 40 representações de anjos, com formas em que o diabólico e o celestial se fundem. Carregados de forte carga simbólica, esses anjos, em minha opinião, são sintomáticos de um estado de espírito caracterizado pela percepção da proximidade do fim, devido à doença, agravada pela intuição de que a sinistra nuvem negra que encobria a Alemanha de então era só o início de uma catástrofe que estava prestes a se disseminar por toda a Europa.

Paul Klee - 'Anjo cheio de esperança', 1939 - lápis s/ papel s/ cartão
(Obs.: foto da Internet)

Paul Klee - 'Anjo incompleto', 1939 - lápis s/ papel s/ cartão
Foto: Simone Catto


Paul Klee - 'Anjo feio', 1939 - giz s/ papel s/ cartão - Foto: Simone Catto

Embora o trabalho de Klee continue não exercendo um fascínio especial sobre mim, em se tratando de gosto pessoal, é inquestionável que o artista merece todo o respeito por ter mostrado, inquestionavelmente, um talento interdisciplinar que o tornou um dos mais inventivos de sua geração. 

Antes de visitar a exposição, vale a pena assistir ao vídeo abaixo, uma produção francesa de 2005 intitulada ‘Diário de um artista’, sobre a trajetória de Paul Klee. Assisti ao vídeo pela primeira vez no próprio CCBB, mas, como tive vontade de revê-lo, arrisquei uma busca no Google e o encontrei. Felizmente, muitos desses vídeos de arte são de domínio público e o YouTube tem verdadeiros tesouros a serem descobertos. É só procurar!



Organizada por Fabienne Eggelhöfer, curadora-chefe do Zentrum Paul Klee, em Berna, Suíça, a exposição é obrigatória para todo mundo que se interessa por arte e estará em São Paulo até 29/4, com entrada franca. Mais informações aqui: http://culturabancodobrasil.com.br/portal/sao-paulo

domingo, 24 de fevereiro de 2019

'Poderia me perdoar?’, uma história agridoce e bem contada sobre letras que se afogam

Nem 'Roma', nem 'A Favorita'. Nenhuma dessas produções, em minha opinião, estaria apta a concorrer ao Oscar de Melhor Filme este ano. Não assisti a todos os concorrentes, mas vi 'Bohemian Rapsody' e o considero um bom filme, superior a esses dois. Não que os tenha achado propriamente ruins, mas não bons o suficiente para justificar o alarde que a mídia fez em torno de ambos. Explico por quê.  

O mexicano 'Roma', dirigido por Alfonso Cuarón, conta uma história OK que foi valorizada pela bela fotografia em preto e branco, recurso estético que, diga-se de passagem, pode funcionar até certa medida para mascarar ou resgatar roteiros fracos. Aliás, uma boa tática para saber se um filme em preto e branco é bom ou não é imaginá-lo colorido. Se ele resistir bravamente, mesmo que não tenha o mesmo appeal de seu original em preto e branco, é porque é bom. Porém, ao fazer o mesmo exercício com 'Roma', cheguei à dolorosa conclusão de que, se fosse colorido, o filme desbotaria de vez. E as emoções que desperta, já suficientemente pálidas, correriam sério risco de se tornar invisíveis. E mais: 'Roma' é um filme de silêncios, o que em tese é ideal para suscitar estados reflexivos, mas em seu caso não funcionou. Não para mim, pelo menos. Para um filme de "silêncios" ser grande, os recursos que entremeiam seus silêncios – leia-se: roteiro, direção, atuações - precisam ser superlativos, o que, repito, em minha opinião, não ocorreu. Gostei da atuação da protagonista, Yalitza Aparicio, que nos brinda com alguns momentos tocantes, mas ela não foi suficiente para segurar o filme. Temos, portanto, uma produção apenas mediana que não justifica uma indicação ao Oscar.  

Já a 'A Favorita', com direção de um grego chamado Yórgos Lánthimos, tem um roteiro regular, uma belíssima produção, o que para mim foi seu maior trunfo, e boas atuações das atrizes. Ocorre que Emma Stone "já deu", como se diz por aí. Virou chichê, uma espécie de atriz-caça-voto-para-Oscar, com sua beleza inexpressiva. Cansou. É curioso como outras atrizes, igualmente bonitas e talentosas, podem se repetir indefinidamente nas telas e não cansar nunca. É o caso de Juliette Binoche, Cate Blanchett, Naomi Watts ou mesmo a almodovariana Penélope Cruz. Todas divas. 'A Favorita' chamou minha atenção pela luxuosa produção e pela fotografia, até porque me agradam os filmes ditos "de época", mas me despertou emoções tão rasas quanto o olhar de Emma Stone. Merece concorrer ao Oscar de Melhor Filme? Novamente, em minha opinião, não.

Porém, há outro filme, terno e singelo, que considero de longe melhor que 'Roma' e 'A Favorita', mesmo com toda a sua simplicidade: 'Poderia me perdoar?'. Dirigido por uma certa Marielle Heller e adaptado da autobiografia de Lee Israel (1939-2014), conta a história real de uma decadente escritora nova-iorquina, cinquentona, alcoólatra e antissocial, que acha um meio - digamos, inusitado, para pagar as inúmeras contas atrasadas que se empilham em sua mesa: forjar cartas de celebridades artísticas e literárias. A verdadeira Lee Israel fez exatamente isso no início da década de 90, mais por desespero do que por ganância. Após uma promissora trajetória como escritora nos anos 70 e 80, Israel teve um bloqueio criativo, talvez causado pela bebida, e amargou um ostracismo acompanhado de crescentes dificuldades financeiras. A escritora se lançou então à carreira de falsária e, segundo especialistas, forjou brilhantemente dezenas de cartas, a maioria de grandes personalidades literárias, as quais vendeu a livreiros e colecionadores antes de ser desmascarada e condenada pela Justiça de Nova York.

Richard Grant (Jack Hock) e a protagonista Melissa MacCarthy (Lee Israel), um poço de expressividade.

Achei o filme muito bom por vários motivos. Número um: conta uma história formidável, verídica e muito bem costurada num roteiro impecável. Porque é isso. Podemos ter a história mais interessante do mundo, mas, se o roteiro não for bom, pode esquecer. Mata o filme a navalhadas. Não à toa, 'Poderia me perdoar' está concorrendo ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Palmas para a roteirista Nicole Holofcener.

Número dois: a atriz principal, Melissa McCarthy, interpreta divinamente a escritora Lee Israel, com toda a pujança e expressividade que a personagem exige. Desmazelada, mal vestida e afogada em incontáveis doses de bebida, Lee é a própria imagem de uma irremediável perdedora. Chega um momento, no filme, que a gente até torce para que suas trambicagens deem certo, tamanha a simpatia que a pobre mulher inspira. Melissa concorre ao Oscar de Melhor Atriz e, embora eu não tenha visto os trabalhos de duas das indicadas, Lady Gaga (hã?) e Glenn Close, creio que deveria levar a estatueta com todo o louvor. E cá entre nós, desde quando Lady Gaga é atriz? Afff... Só sei que Melissa McCarthy dá um banho de interpretação e achei-a superior a Yalitza Aparicio, que concorre com 'Roma', e Olivia Colman, com 'A Favorita'. Sem falar que as demais atuações do filme também são excelentes, com destaque para Richard Grant, que interpreta Jack Hock, um gay sessentão quase indigente, desocupado e picareta, que se torna amigo da escritora. Sim, temos aqui uma história de perdedores magnificamente contada. Grant também concorre ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e sua indicação é mais do que merecida. 

A verdadeira Lee Israel (1939-2014)

Tudo bem que 'Poderia me perdoar?' possa ter exercido um apelo especial sobre minha sensibilidade pelo fato de contar uma história tocante que se passa no universo das letras, que me é tão caro e está tão imiscuído em meu dia a dia, mas, mesmo analisando-o com isenção, posso dizer sem pestanejar que se trata de um excelente filme. Quem "não poderia se perdoar" em perdê-lo é o leitor empático com alma sensível, amante de cinema e de livros. Assisti no Shopping Frei Caneca e creio que ainda deva estar em cartaz por lá. Confira o trailer:


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

O inacreditável caso de um tesouro encontrado por acaso

Fonte: Le Parisien

É por isso que invejo os europeus. Não bastasse habitarem o continente que concentra a maior quantidade de museus interessantes do mundo, ainda por cima vivem descobrindo obras de arte que "brotam" do nada, como por encanto. No último verão de lá, ou seja, em meados do ano passado, a grife Oscar de la Renta estava reformando um amplo imóvel em Paris – mais precisamente, à rua Marignan no. 4 - para instalar uma nova boutique de luxo. Desfiles de moda estavam programados para o local, no início de fevereiro, supondo-se que a reforma estivesse concluída. No entanto, durante os trabalhos, os operários descobriram uma grande pintura colada à parede, atrás de alguns painéis mal fixados. Especialistas analisaram a obra e concluíram tratar-se de uma pintura de um aluno de Charles Le Brun (1619-1690), primeiro pintor oficial da corte de Luís XIV, o Rei Sol. Ou seja: como se Paris já não tivesse obras de arte o suficiente, ainda acharam mais uma. 

"Nós estávamos no processo de raspagem. Removíamos os painéis de madeira no salão do andar superior e topamos com esse quadro", diz um dos integrantes da equipe da designer de interiores Nathalie Ryan. A reforma do imóvel parou no ato. Alex Bolen, diretor geral da Oscar de la Renta, foi informado da descoberta e rapidamente pegou um avião de Nova York a Paris para admirar a pintura de três séculos e meio. "Quando a encontramos, estava completamente suja", testemunha um responsável pelos trabalhos. Imediatamente, a direção da Oscar de La Renta contratou um especialista em conservação e restauração, Benoit Janson, que ao cabo de dois meses revelou a pintura do século XVII com as cores originais, desvendadas pouco a pouco.

Foto: Le Parisien

Uma equipe de restauradores e historiadores também entrou em ação para investigar essa pintura misteriosa de seis metros de comprimento e três de altura que avança uns trinta centímetros para além do piso do primeiro andar. Uma obra de dimensões excepcionais que poderia ter sido irremediavelmente apagada da história da arte se os trabalhos no local não tivessem sido realizados com cuidado. 

Um vaidoso embaixador de Luís XIV em Constantinopla

"Originalmente, este trabalho foi apresentado sobre um chassi. A tela foi então desmontada e enrolada antes de ser presa à parede", segundo Janson. "O trabalho foi realizado dentro das regras da arte, com boa aderência e aplicado na parede de forma plana. O verniz amarelou e ficou totalmente oxidado. As cores desapareceram", afirma. Apesar da ação do tempo, no entanto, é possível constatar a boa qualidade técnica e estética da pintura. 

Embora o canteiro de obras esteja fechado ao público e a marca Oscar de la Renta tenha tentado manter as informações sob sigilo, mesmo tendo relatado a descoberta ao The New York Times, os historiadores de arte estão ouriçados e visitando o local, entre certezas e dúvidas. No âmbito das certezas, está a descrição da obra: Charles Marie François Olier, Marquês de Nointel, embaixador de Luís XIV em Constantinopla, é retratado com sua escolta à frente de Jerusalém. Os cavaleiros, com o uniforme da época, entram na cidade. As paredes, a mesquita de Omar e o Muro das Lamentações são visíveis à distância. O estilo é orientalista, com vegetação exuberante.


A pintura inserida no contexto

O Marquês de Nointel é conhecido por ter encomendado quatro grandes telas narrando seus feitos no Oriente Médio, em 1673, e elas foram instaladas em quatro paredes de um salão cerimonial em Constantinopla. No retorno à França, ao final das funções diplomáticas, o marquês recobrou sua coleção de arte, sendo que algumas obras se encontram atualmente no Louvre. Consta que ele mesmo teria enrolado as quatro pinturas. Uma delas está no Museu de Atenas, a segunda é a que foi encontrada em Paris e as outras duas desapareceram. Segundo Guy Meyer, pesquisador e especialista em arte, essa descoberta "é um evento histórico, totalmente inusitado". Ele acredita que o prédio onde a obra foi encontrada tenha pertencido, em 1850, a um banqueiro chamado Mosselman, que a teria instalado em sua sala de estar. Não se sabe se o banqueiro ocultou a obra porque reformou o apartamento e desejou modernizar a decoração, ou se quis escondê-la voluntariamente por alguma razão. O fato é que a pintura ainda guarda seus segredos. 

Quem pintou? 

No momento, cogita-se quem seria o autor da obra. Sabemos que um artista chamado Jacques Carrey (1649-1726) fez ilustrações da vida do mundo otomano no rastro do Marquês de Nointel. Outros acreditam que o autor do trabalho seja, mais seguramente, o pintor Arnould de Vuez (1644-1720), próximo a Charles Le Brun na corte de Luís XIV. Sabe-se, inclusive, que Vuez participou de uma viagem de estudos a Constantinopla, organizada pelo Marquês de Nointel. Conservadores do Palácio de Versalhes (sim, todo mundo está se metendo...) preferem agir com cautela antes de proferir um veredito final. 

Naturalmente, o layout da futura loja Oscar de la Renta foi revisto e readequado. Segundo informações fornecidas pela própria grife, a pintura totalmente restaurada será posicionada no showroom de vestidos de noiva e de noite. No entanto, para desconsolo dos parisienses cultos e curiosos, a visitação não será assim fácil. Somente as endinheiradas clientes da boutique terão acesso à obra, embora arriscaria dizer que 99% delas não têm noção de seu valor – e não me refiro, aqui, ao valor monetário. Suspeito, mesmo, que a maioria sequer desviará o olhar dos vestidos por um minuto para apreciar a pintura. Espero estar errada.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun e o sorriso que escandalizou Paris no séc. XVIII.

Fonte: Artsy

Na última quarta-feira, no leilão de Velhos Mestres da Sotheby's de Nova York, a obra 'Retrato de Muhammad Dervish Khan' (1788), da francesa Elisabeth-Louise Vigée-Le Brun (1755-1842), foi leiloada por US$ 7,2 milhões, superando a estimativa de US$ 6 milhões e batendo o record para uma artista feminina da era pré-moderna. O modelo que posou para o retrato foi um embaixador indiano que havia ido à França pedir que o rei Luís XVI apoiasse seu país na guerra contra a Grã-Bretanha, e aparentemente a artista obedeceu às convenções, representando o diplomata com seu traje típico branco.

No entanto, um ano antes de criar a obra leiloada, em 1787, Vigée-Le Brun exibiu um autorretrato que chocou o prestigiado Salão de Paris por ignorar as regras para a representação facial. Nele, seus lábios se entreabrem num doce e recatado sorriso e ela embala a filha em uma cena repleta de ternura e intimidade maternas. Embora a ideia de mostrar alguém sorrindo com os dentes à mostra não fosse exatamente nova, retratar uma mulher da estirpe de Madame Vigée-Le Brun mostrando os dentes era como jogar no lixo o cânone de regras da arte ocidental. Vale lembrar que a artista notabilizou-se pelos retratos que fez de vários membros da aristocracia e, durante cerca de sete anos, foi a retratista oficial de Maria Antonieta, a qual apreciava enormemente seu trabalho. Um crítico da época escreveu que a exibição de dentes de Vigée-Le Brun era "uma afetação que artistas, conhecedores e pessoas de bom gosto eram unânimes em condenar". Afetação ou não, no mínimo Elisabeth devia ter bons dentes, já que podia mostrá-los livremente numa época em que, provavelmente, não existiam dentistas ou, se os houvesse, duvido que já fizessem implantes dentários. Representar pessoas sorrindo era comum somente em pinturas irreverentes da vida doméstica burguesa, à la Jan Steen, mas certamente não se prestava à representação de "Mãe e Filho", um dos temas caros à arte ocidental. Mesmo hoje, ao contrário do que ocorre nas enxurradas de fotos e selfies que poluem as redes sociais, os modelos raramente sorriem nas pinturas de retratos. Mas Madame Vigée-Le Brun gostava de quebrar as convenções e colocou as garras – bem como os belos dentinhos – de fora.

Elisabeth-Louise Vigée-Le Brun - 'Madame Vigée-Le Brun e sua filha Jeanne-Lucie, dita Julie'
1786 - óleo s/ tela - 1,05 X 0,84 cm - Museu do Louvre, Paris

Embora tivesse nome de princesa, Elisabeth-Louise Vigée-Le Brun nasceu em 1755 numa humilde família parisiense. Desde tenra idade exibiu um talento excepcional para as artes, apesar de ter sido recusada nas academias oficiais pelo fato de ser mulher e pobre. Essa frustração, porém, não foi impedimento para que seguisse sua vocação. A aspirante a artista conseguiu se empregar no ateliê de um pintor de cenas históricas, teve aulas de pintura a óleo e visitou as galerias mais importantes de Paris. Na década de 1770, com apenas 15 anos, já conseguiu alguns clientes. Analisando sua trajetória, dá para perceber que a moça devia ser cheia de determinação e que removia, um a um, os obstáculos em seu caminho. Em 1783, já havia reivindicado uma das quatro cadeiras reservadas para mulheres na Academia de Belas Artes, favorecida por uma intervenção direta da rainha Maria Antonieta, sua mais famosa retratada, e do rei Luís XVI.

Vigée-Le Brun - 'Maria Antonieta em traje da corte', 1778 - óleo s/ tela
 273 X 194 cm - Kunsthistorisches Museum, Viena

A vertiginosa ascensão de Elisabeth à fama, mesmo na contramão dos padrões da época, foi possível porque o mundo a seu redor também estava mudando. Segundo Anne Higonnet, professora do Barnard College, de Nova York, Vigée-Le Brun tinha uma compreensão única do "novo estilo dos indivíduos modernos". Retratou seus modelos como "glamourosamente naturais e naturalmente glamourosos", um talento que a acadêmica compara ao de uma "estilista superintuitiva que faz você parecer perfeita para o Instagram".

Vigée-Le Brun - 'Marquesa de Pezay e Marquesa de Rougé com seus filhos Alexis e Adrien', 1787 - óleo s/ tela
123,3 X 155,9 cm - National Gallery of Art, Washington DC

 Vigée-Le Brun - 'Autorretrato com chapéu de palha', 1782 - óleo s/ tela
97,8 X 70,5 cm - National Gallery, Londres

Esse talento para a transformação, assim como as crenças mais radicais de Vigée-Le Brun, ficaram evidentes no primeiro Salão de Artes de que participou, em 1783. Em um afastamento do rígido estilo da corte, sua pintura 'Maria Antonieta num Vestido Chemise' (1783) mostra a rainha usando um vestido de musselina solto, o cabelo sem adornos, e segurando uma rosa. Faltou pouco para que virasse a cigana "Sandra Rosa Madalena" (risos...) Era uma visão que, sem dúvida, dessacralizava a imagem mítica da rainha e a aproximava um pouco mais do resto da humanidade. Autoproclamada monarquista, Vigée-Le Brun pretendia reinventar a realeza de acordo com as aspirações de seu tempo por autenticidade, transparência e virtude natural. Tanto para a artista quanto para Maria Antonieta, a pintura respeitou as ideias popularizadas pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau, que pouco depois formariam a base da Revolução Francesa de 1789. Para os contemporâneos no Salão, no entanto, o estilo de Vigée-Le Brun era frívolo, deselegante e inadequado para uma rainha. Higonnet explica que "a rainha se sentia atraída por tudo o que era agradável e confortável em um indivíduo moderno, mas sem abdicar das prerrogativas de uma monarca". O retrato foi removido do Salão pouco depois da estreia, embora sua estética permanecesse popular entre a aristocracia.

Vigée-Le Brun - 'Maria Antonieta em vestido Chemise', após 1783 - óleo s/ tela - 89,8 X 72 cm
National Gallery of Art, Washington, DC

O fato é que os críticos sempre procuravam um motivo para condenar a presença de Vigée-Le Brun nos eventos oficiais de arte. Um periódico denominado 'Mémoires Secrets' chegou a insinuar que não era ela que pintava seus retratos ou, pelo menos, que não os terminava. E mais: sugeriu que a artista só obtinha sucesso devido à ajuda de um protetor apaixonado – no caso, François-Guillaume Ménageot, pintor francês de cenas históricas e religiosas que foi aluno de François Boucher e tornou-se diretor da Academia Francesa em Roma. Para muitos, era difícil acreditar que uma mulher pudesse exibir suas realizações profissionais publicamente, ainda mais no Salão. Felizmente, pelo menos nas artes plásticas, esse tipo de preconceito é praticamente imperceptível nos dias de hoje – basta ver a quantidade de mulheres artistas expondo nas galerias, bienais e feiras de arte. No entanto, há uma contradição interessante no trabalho de Vigée-Le Brun. Ao profissionalizar e divulgar seu talento, ela estava na verdade violando as ideias rousseaunianas que ela própria defendia. Isso porque Rousseau era extremamente conservador em relação às mulheres, apesar de seus esforços para libertar a humanidade. Segundo o filósofo, ambos os pais eram necessários para a criação segura de uma criança, mas o papel da mulher era puramente doméstico - não se estendia para além da educação, cuidados e alimentação dos filhos dentro dos limites do lar. Elisabeth, para nossa alegria, só concordava com Rousseau até a página dois. Compactuou com a busca pela autenticidade apregoada pelo filósofo, mas foi ainda além na questão da liberdade, pois acreditava que esta era um direito de todos – aí incluídas as mulheres, naturalmente. Um direito, aliás, ao qual ela não se furtou em nenhum momento. Sorte nossa, pois, ao romper com as convenções, a artista nos legou alguns dos retratos mais encantadores e imaginativos da história da arte. Com ou sem os dentes à mostra.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Artistas esquecidas do Modernismo vienense ressuscitam no Belvedere.

Fonte: The Art Newspaper

Quando pensamos na arte de Viena da virada do século XIX para o século XX, período modernista, inevitavelmente lembramos de nomes como Gustav Klimt e Egon Schiele. O que muita gente não sabe, porém, é que várias mulheres fizeram arte no período. E das boas. Teresa Feoderovna Ries (1874-1950) foi uma delas. Judia nascida na Rússia, fez várias esculturas de nus, incluindo uma que causou escândalo ao ser apresentada em 1896: uma bruxa cortando as unhas dos pés. A ousadia, que lhe valeu muitas manifestações de asco e desprezo, rendeu também um convite de Gustav Klimt, o mais festejado artista austríaco de então, para exibir seu trabalho na aclamada Secessão de Viena, polo da vanguarda artística e também de uma parcela deliciosamente iconoclasta da elite local. Teresa foi uma das muitas mulheres libertárias do período que se aventuraram num métier predominantemente masculino, ajudaram a moldar o Modernismo vienense e, após décadas de atraso, finalmente começam a sair da sombra.

Teresa Feoderovna Ries - 'A Bruxa', c.1895
Literalmente transgressora da cabeça aos pés.

A escultora Teresa Feoderovna Ries, retratada com
um figurino igualmente arrojado.

O Palácio Belvedere, que adquiriu vários trabalhos de Teresa à época, está prestes a inaugurar a exposição 'Cidade de Mulheres', com obras de 50 artistas mulheres que, até então, têm tido suas trajetórias mergulhadas na obscuridade. Estarão lá a pintora de paisagens Tina Blau (1845-1916), que retratou cenários urbanos e campestres com pinceladas delicadas e grande maestria de cor, e a vencedora do Prêmio do Estado Austríaco de 1928, Helene Funke (1869-1957). "Elas alcançaram um nível de emancipação que foi completamente esquecido", afirma a curadora da exposição, Sabine Fellner. "Essas mulheres não tinham permissão para estudar na academia, então algumas foram estudar no exterior e se organizaram em clubes para expor [...] às vezes nas melhores galerias." Imagino que não devia ser fácil ser mulher à época, a menos que ela nascesse no seio de uma família de mente mais arrojada e um espírito cuja visão de mundo transcendesse as camadas banais do cotidiano.

Helene Funke - 'Sonhos', 1913 (provavelmente óleo s/ tela)

Helene Funke - 'Natureza morta com pêssegos', 1918 (provavelmente óleo / tela)

Não sabemos se as pinturas abaixo, de Tina Blau, serão expostas no Belvedere, mas dão uma boa ideia do talento e do estilo delicado da artista. A segunda é particularmente encantadora e mostra o imenso parque do Prater, em Viena, famoso pela sua roda-gigante.

Tina Blau - 'Vista de Viena a partir do Belvedere Superior', 1894-5, provavelmente óleo s/ tela

Tina Blau - 'Primavera no Prater', 1892 - Palácio Belvedere

Depois de 1945, essas artistas simplesmente desapareceram das vistas do público. Historiadores da arte do pós-guerra estavam muito mais interessados ​​em seus colegas masculinos mais famosos, sem falar que muitas haviam emigrado durante o período nazista. As judias fugiram ou foram deportadas.

Foi somente após a publicação do livro 'Mulheres artistas em Viena de 1897 a 1938', de Sabine Plakolm-Forsthuber, em 1994, que o interesse ressurgiu. Fellner diz que outro marco importante foi o livro de 2012 de Julie Johnson, 'A fábrica da memória: as esquecidas mulheres artistas da Viena de 1900'. Fiquei com vontade de ler ambos!

Preparar a exposição exigiu uma imersão profunda dos curadores nos depósitos do Belvedere para redescobrir obras, algumas das quais tidas como perdidas para sempre. Entre elas está a escultura 'Eva', de Teresa F. Ries, que não é exibida há décadas. "Também visitei descendentes das artistas para descobrir se ainda tinham obras de suas avós no porão ou no sótão", diz Fellner. Comerciantes de arte, que não são bobos nem nada, também a ajudaram a encontrar peças, possivelmente de olho em futuras oportunidades de vendas.

Fellner espera que o Belvedere também monte outras exposições individuais de artistas femininas da época, já que 'Cidade de Mulheres' apresentará apenas uma média de duas obras por artista. A bem da verdade, ela preferiria que a exposição tivesse sido montada em 2018, ano em que foram comemorados centenários importantes no país, como o da república austríaca e das mortes de Klimt e Schiele. Como isso não foi possível, a exposição chega agora. Antes tarde do que nunca!

A exposição 'Cidade de Mulheres' é patrocinada pela casa de leilões Dorotheum e estará no Palácio Belvedere de Viena de 25/1 a 19/5/19.