sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

O inacreditável caso de um tesouro encontrado por acaso

Fonte: Le Parisien

É por isso que invejo os europeus. Não bastasse habitarem o continente que concentra a maior quantidade de museus interessantes do mundo, ainda por cima vivem descobrindo obras de arte que "brotam" do nada, como por encanto. No último verão de lá, ou seja, em meados do ano passado, a grife Oscar de la Renta estava reformando um amplo imóvel em Paris – mais precisamente, à rua Marignan no. 4 - para instalar uma nova boutique de luxo. Desfiles de moda estavam programados para o local, no início de fevereiro, supondo-se que a reforma estivesse concluída. No entanto, durante os trabalhos, os operários descobriram uma grande pintura colada à parede, atrás de alguns painéis mal fixados. Especialistas analisaram a obra e concluíram tratar-se de uma pintura de um aluno de Charles Le Brun (1619-1690), primeiro pintor oficial da corte de Luís XIV, o Rei Sol. Ou seja: como se Paris já não tivesse obras de arte o suficiente, ainda acharam mais uma. 

"Nós estávamos no processo de raspagem. Removíamos os painéis de madeira no salão do andar superior e topamos com esse quadro", diz um dos integrantes da equipe da designer de interiores Nathalie Ryan. A reforma do imóvel parou no ato. Alex Bolen, diretor geral da Oscar de la Renta, foi informado da descoberta e rapidamente pegou um avião de Nova York a Paris para admirar a pintura de três séculos e meio. "Quando a encontramos, estava completamente suja", testemunha um responsável pelos trabalhos. Imediatamente, a direção da Oscar de La Renta contratou um especialista em conservação e restauração, Benoit Janson, que ao cabo de dois meses revelou a pintura do século XVII com as cores originais, desvendadas pouco a pouco.

Foto: Le Parisien

Uma equipe de restauradores e historiadores também entrou em ação para investigar essa pintura misteriosa de seis metros de comprimento e três de altura que avança uns trinta centímetros para além do piso do primeiro andar. Uma obra de dimensões excepcionais que poderia ter sido irremediavelmente apagada da história da arte se os trabalhos no local não tivessem sido realizados com cuidado. 

Um vaidoso embaixador de Luís XIV em Constantinopla

"Originalmente, este trabalho foi apresentado sobre um chassi. A tela foi então desmontada e enrolada antes de ser presa à parede", segundo Janson. "O trabalho foi realizado dentro das regras da arte, com boa aderência e aplicado na parede de forma plana. O verniz amarelou e ficou totalmente oxidado. As cores desapareceram", afirma. Apesar da ação do tempo, no entanto, é possível constatar a boa qualidade técnica e estética da pintura. 

Embora o canteiro de obras esteja fechado ao público e a marca Oscar de la Renta tenha tentado manter as informações sob sigilo, mesmo tendo relatado a descoberta ao The New York Times, os historiadores de arte estão ouriçados e visitando o local, entre certezas e dúvidas. No âmbito das certezas, está a descrição da obra: Charles Marie François Olier, Marquês de Nointel, embaixador de Luís XIV em Constantinopla, é retratado com sua escolta à frente de Jerusalém. Os cavaleiros, com o uniforme da época, entram na cidade. As paredes, a mesquita de Omar e o Muro das Lamentações são visíveis à distância. O estilo é orientalista, com vegetação exuberante.


A pintura inserida no contexto

O Marquês de Nointel é conhecido por ter encomendado quatro grandes telas narrando seus feitos no Oriente Médio, em 1673, e elas foram instaladas em quatro paredes de um salão cerimonial em Constantinopla. No retorno à França, ao final das funções diplomáticas, o marquês recobrou sua coleção de arte, sendo que algumas obras se encontram atualmente no Louvre. Consta que ele mesmo teria enrolado as quatro pinturas. Uma delas está no Museu de Atenas, a segunda é a que foi encontrada em Paris e as outras duas desapareceram. Segundo Guy Meyer, pesquisador e especialista em arte, essa descoberta "é um evento histórico, totalmente inusitado". Ele acredita que o prédio onde a obra foi encontrada tenha pertencido, em 1850, a um banqueiro chamado Mosselman, que a teria instalado em sua sala de estar. Não se sabe se o banqueiro ocultou a obra porque reformou o apartamento e desejou modernizar a decoração, ou se quis escondê-la voluntariamente por alguma razão. O fato é que a pintura ainda guarda seus segredos. 

Quem pintou? 

No momento, cogita-se quem seria o autor da obra. Sabemos que um artista chamado Jacques Carrey (1649-1726) fez ilustrações da vida do mundo otomano no rastro do Marquês de Nointel. Outros acreditam que o autor do trabalho seja, mais seguramente, o pintor Arnould de Vuez (1644-1720), próximo a Charles Le Brun na corte de Luís XIV. Sabe-se, inclusive, que Vuez participou de uma viagem de estudos a Constantinopla, organizada pelo Marquês de Nointel. Conservadores do Palácio de Versalhes (sim, todo mundo está se metendo...) preferem agir com cautela antes de proferir um veredito final. 

Naturalmente, o layout da futura loja Oscar de la Renta foi revisto e readequado. Segundo informações fornecidas pela própria grife, a pintura totalmente restaurada será posicionada no showroom de vestidos de noiva e de noite. No entanto, para desconsolo dos parisienses cultos e curiosos, a visitação não será assim fácil. Somente as endinheiradas clientes da boutique terão acesso à obra, embora arriscaria dizer que 99% delas não têm noção de seu valor – e não me refiro, aqui, ao valor monetário. Suspeito, mesmo, que a maioria sequer desviará o olhar dos vestidos por um minuto para apreciar a pintura. Espero estar errada.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Élisabeth-Louise Vigée-Le Brun e o sorriso que escandalizou Paris no séc. XVIII.

Fonte: Artsy

Na última quarta-feira, no leilão de Velhos Mestres da Sotheby's de Nova York, a obra 'Retrato de Muhammad Dervish Khan' (1788), da francesa Elisabeth-Louise Vigée-Le Brun (1755-1842), foi leiloada por US$ 7,2 milhões, superando a estimativa de US$ 6 milhões e batendo o record para uma artista feminina da era pré-moderna. O modelo que posou para o retrato foi um embaixador indiano que havia ido à França pedir que o rei Luís XVI apoiasse seu país na guerra contra a Grã-Bretanha, e aparentemente a artista obedeceu às convenções, representando o diplomata com seu traje típico branco.

No entanto, um ano antes de criar a obra leiloada, em 1787, Vigée-Le Brun exibiu um autorretrato que chocou o prestigiado Salão de Paris por ignorar as regras para a representação facial. Nele, seus lábios se entreabrem num doce e recatado sorriso e ela embala a filha em uma cena repleta de ternura e intimidade maternas. Embora a ideia de mostrar alguém sorrindo com os dentes à mostra não fosse exatamente nova, retratar uma mulher da estirpe de Madame Vigée-Le Brun mostrando os dentes era como jogar no lixo o cânone de regras da arte ocidental. Vale lembrar que a artista notabilizou-se pelos retratos que fez de vários membros da aristocracia e, durante cerca de sete anos, foi a retratista oficial de Maria Antonieta, a qual apreciava enormemente seu trabalho. Um crítico da época escreveu que a exibição de dentes de Vigée-Le Brun era "uma afetação que artistas, conhecedores e pessoas de bom gosto eram unânimes em condenar". Afetação ou não, no mínimo Elisabeth devia ter bons dentes, já que podia mostrá-los livremente numa época em que, provavelmente, não existiam dentistas ou, se os houvesse, duvido que já fizessem implantes dentários. Representar pessoas sorrindo era comum somente em pinturas irreverentes da vida doméstica burguesa, à la Jan Steen, mas certamente não se prestava à representação de "Mãe e Filho", um dos temas caros à arte ocidental. Mesmo hoje, ao contrário do que ocorre nas enxurradas de fotos e selfies que poluem as redes sociais, os modelos raramente sorriem nas pinturas de retratos. Mas Madame Vigée-Le Brun gostava de quebrar as convenções e colocou as garras – bem como os belos dentinhos – de fora.

Elisabeth-Louise Vigée-Le Brun - 'Madame Vigée-Le Brun e sua filha Jeanne-Lucie, dita Julie'
1786 - óleo s/ tela - 1,05 X 0,84 cm - Museu do Louvre, Paris

Embora tivesse nome de princesa, Elisabeth-Louise Vigée-Le Brun nasceu em 1755 numa humilde família parisiense. Desde tenra idade exibiu um talento excepcional para as artes, apesar de ter sido recusada nas academias oficiais pelo fato de ser mulher e pobre. Essa frustração, porém, não foi impedimento para que seguisse sua vocação. A aspirante a artista conseguiu se empregar no ateliê de um pintor de cenas históricas, teve aulas de pintura a óleo e visitou as galerias mais importantes de Paris. Na década de 1770, com apenas 15 anos, já conseguiu alguns clientes. Analisando sua trajetória, dá para perceber que a moça devia ser cheia de determinação e que removia, um a um, os obstáculos em seu caminho. Em 1783, já havia reivindicado uma das quatro cadeiras reservadas para mulheres na Academia de Belas Artes, favorecida por uma intervenção direta da rainha Maria Antonieta, sua mais famosa retratada, e do rei Luís XVI.

Vigée-Le Brun - 'Maria Antonieta em traje da corte', 1778 - óleo s/ tela
 273 X 194 cm - Kunsthistorisches Museum, Viena

A vertiginosa ascensão de Elisabeth à fama, mesmo na contramão dos padrões da época, foi possível porque o mundo a seu redor também estava mudando. Segundo Anne Higonnet, professora do Barnard College, de Nova York, Vigée-Le Brun tinha uma compreensão única do "novo estilo dos indivíduos modernos". Retratou seus modelos como "glamourosamente naturais e naturalmente glamourosos", um talento que a acadêmica compara ao de uma "estilista superintuitiva que faz você parecer perfeita para o Instagram".

Vigée-Le Brun - 'Marquesa de Pezay e Marquesa de Rougé com seus filhos Alexis e Adrien', 1787 - óleo s/ tela
123,3 X 155,9 cm - National Gallery of Art, Washington DC

 Vigée-Le Brun - 'Autorretrato com chapéu de palha', 1782 - óleo s/ tela
97,8 X 70,5 cm - National Gallery, Londres

Esse talento para a transformação, assim como as crenças mais radicais de Vigée-Le Brun, ficaram evidentes no primeiro Salão de Artes de que participou, em 1783. Em um afastamento do rígido estilo da corte, sua pintura 'Maria Antonieta num Vestido Chemise' (1783) mostra a rainha usando um vestido de musselina solto, o cabelo sem adornos, e segurando uma rosa. Faltou pouco para que virasse a cigana "Sandra Rosa Madalena" (risos...) Era uma visão que, sem dúvida, dessacralizava a imagem mítica da rainha e a aproximava um pouco mais do resto da humanidade. Autoproclamada monarquista, Vigée-Le Brun pretendia reinventar a realeza de acordo com as aspirações de seu tempo por autenticidade, transparência e virtude natural. Tanto para a artista quanto para Maria Antonieta, a pintura respeitou as ideias popularizadas pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau, que pouco depois formariam a base da Revolução Francesa de 1789. Para os contemporâneos no Salão, no entanto, o estilo de Vigée-Le Brun era frívolo, deselegante e inadequado para uma rainha. Higonnet explica que "a rainha se sentia atraída por tudo o que era agradável e confortável em um indivíduo moderno, mas sem abdicar das prerrogativas de uma monarca". O retrato foi removido do Salão pouco depois da estreia, embora sua estética permanecesse popular entre a aristocracia.

Vigée-Le Brun - 'Maria Antonieta em vestido Chemise', após 1783 - óleo s/ tela - 89,8 X 72 cm
National Gallery of Art, Washington, DC

O fato é que os críticos sempre procuravam um motivo para condenar a presença de Vigée-Le Brun nos eventos oficiais de arte. Um periódico denominado 'Mémoires Secrets' chegou a insinuar que não era ela que pintava seus retratos ou, pelo menos, que não os terminava. E mais: sugeriu que a artista só obtinha sucesso devido à ajuda de um protetor apaixonado – no caso, François-Guillaume Ménageot, pintor francês de cenas históricas e religiosas que foi aluno de François Boucher e tornou-se diretor da Academia Francesa em Roma. Para muitos, era difícil acreditar que uma mulher pudesse exibir suas realizações profissionais publicamente, ainda mais no Salão. Felizmente, pelo menos nas artes plásticas, esse tipo de preconceito é praticamente imperceptível nos dias de hoje – basta ver a quantidade de mulheres artistas expondo nas galerias, bienais e feiras de arte. No entanto, há uma contradição interessante no trabalho de Vigée-Le Brun. Ao profissionalizar e divulgar seu talento, ela estava na verdade violando as ideias rousseaunianas que ela própria defendia. Isso porque Rousseau era extremamente conservador em relação às mulheres, apesar de seus esforços para libertar a humanidade. Segundo o filósofo, ambos os pais eram necessários para a criação segura de uma criança, mas o papel da mulher era puramente doméstico - não se estendia para além da educação, cuidados e alimentação dos filhos dentro dos limites do lar. Elisabeth, para nossa alegria, só concordava com Rousseau até a página dois. Compactuou com a busca pela autenticidade apregoada pelo filósofo, mas foi ainda além na questão da liberdade, pois acreditava que esta era um direito de todos – aí incluídas as mulheres, naturalmente. Um direito, aliás, ao qual ela não se furtou em nenhum momento. Sorte nossa, pois, ao romper com as convenções, a artista nos legou alguns dos retratos mais encantadores e imaginativos da história da arte. Com ou sem os dentes à mostra.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Artistas esquecidas do Modernismo vienense ressuscitam no Belvedere.

Fonte: The Art Newspaper

Quando pensamos na arte de Viena da virada do século XIX para o século XX, período modernista, inevitavelmente lembramos de nomes como Gustav Klimt e Egon Schiele. O que muita gente não sabe, porém, é que várias mulheres fizeram arte no período. E das boas. Teresa Feoderovna Ries (1874-1950) foi uma delas. Judia nascida na Rússia, fez várias esculturas de nus, incluindo uma que causou escândalo ao ser apresentada em 1896: uma bruxa cortando as unhas dos pés. A ousadia, que lhe valeu muitas manifestações de asco e desprezo, rendeu também um convite de Gustav Klimt, o mais festejado artista austríaco de então, para exibir seu trabalho na aclamada Secessão de Viena, polo da vanguarda artística e também de uma parcela deliciosamente iconoclasta da elite local. Teresa foi uma das muitas mulheres libertárias do período que se aventuraram num métier predominantemente masculino, ajudaram a moldar o Modernismo vienense e, após décadas de atraso, finalmente começam a sair da sombra.

Teresa Feoderovna Ries - 'A Bruxa', c.1895
Literalmente transgressora da cabeça aos pés.

A escultora Teresa Feoderovna Ries, retratada com
um figurino igualmente arrojado.

O Palácio Belvedere, que adquiriu vários trabalhos de Teresa à época, está prestes a inaugurar a exposição 'Cidade de Mulheres', com obras de 50 artistas mulheres que, até então, têm tido suas trajetórias mergulhadas na obscuridade. Estarão lá a pintora de paisagens Tina Blau (1845-1916), que retratou cenários urbanos e campestres com pinceladas delicadas e grande maestria de cor, e a vencedora do Prêmio do Estado Austríaco de 1928, Helene Funke (1869-1957). "Elas alcançaram um nível de emancipação que foi completamente esquecido", afirma a curadora da exposição, Sabine Fellner. "Essas mulheres não tinham permissão para estudar na academia, então algumas foram estudar no exterior e se organizaram em clubes para expor [...] às vezes nas melhores galerias." Imagino que não devia ser fácil ser mulher à época, a menos que ela nascesse no seio de uma família de mente mais arrojada e um espírito cuja visão de mundo transcendesse as camadas banais do cotidiano.

Helene Funke - 'Sonhos', 1913 (provavelmente óleo s/ tela)

Helene Funke - 'Natureza morta com pêssegos', 1918 (provavelmente óleo / tela)

Não sabemos se as pinturas abaixo, de Tina Blau, serão expostas no Belvedere, mas dão uma boa ideia do talento e do estilo delicado da artista. A segunda é particularmente encantadora e mostra o imenso parque do Prater, em Viena, famoso pela sua roda-gigante.

Tina Blau - 'Vista de Viena a partir do Belvedere Superior', 1894-5, provavelmente óleo s/ tela

Tina Blau - 'Primavera no Prater', 1892 - Palácio Belvedere

Depois de 1945, essas artistas simplesmente desapareceram das vistas do público. Historiadores da arte do pós-guerra estavam muito mais interessados ​​em seus colegas masculinos mais famosos, sem falar que muitas haviam emigrado durante o período nazista. As judias fugiram ou foram deportadas.

Foi somente após a publicação do livro 'Mulheres artistas em Viena de 1897 a 1938', de Sabine Plakolm-Forsthuber, em 1994, que o interesse ressurgiu. Fellner diz que outro marco importante foi o livro de 2012 de Julie Johnson, 'A fábrica da memória: as esquecidas mulheres artistas da Viena de 1900'. Fiquei com vontade de ler ambos!

Preparar a exposição exigiu uma imersão profunda dos curadores nos depósitos do Belvedere para redescobrir obras, algumas das quais tidas como perdidas para sempre. Entre elas está a escultura 'Eva', de Teresa F. Ries, que não é exibida há décadas. "Também visitei descendentes das artistas para descobrir se ainda tinham obras de suas avós no porão ou no sótão", diz Fellner. Comerciantes de arte, que não são bobos nem nada, também a ajudaram a encontrar peças, possivelmente de olho em futuras oportunidades de vendas.

Fellner espera que o Belvedere também monte outras exposições individuais de artistas femininas da época, já que 'Cidade de Mulheres' apresentará apenas uma média de duas obras por artista. A bem da verdade, ela preferiria que a exposição tivesse sido montada em 2018, ano em que foram comemorados centenários importantes no país, como o da república austríaca e das mortes de Klimt e Schiele. Como isso não foi possível, a exposição chega agora. Antes tarde do que nunca!

A exposição 'Cidade de Mulheres' é patrocinada pela casa de leilões Dorotheum e estará no Palácio Belvedere de Viena de 25/1 a 19/5/19.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Fortunato Bar. Acabo de conhecer e já quero voltar.

Conhecer um novo bar é sempre um ótimo pretexto para matar a saudade de amigos, sobretudo quando a temperatura nas noites de Sampa beira os 30°C. Ontem foi um daqueles sábados que, definitivamente, não dava para ficar em casa. Não que eu não goste de curtir minha casa, muito pelo contrário. Mas a noite quente, o desejo de reencontrar algumas pessoas e uma lua exuberante eclipsaram, literalmente, qualquer possibilidade de um programa caseiro.

Já na troca de mensagens pelo WhatsApp, decidimos que iríamos a um local arejado, de preferência na cobertura de algum prédio ou que possuísse uma varanda aberta. Pela facilidade de acesso e pela atmosfera sempre agradável, fomos parar na rua Joaquim Távora, na Vila Mariana, que tem vários bares e restaurantes com a cara do verão, um ao lado do outro. Marcamos encontro em frente ao 'Paróquia' e fomos caminhando rua abaixo. O 'Genuíno', um bom bar que é queridinho na região e um dos pioneiros da rua, estava lotado. Passamos reto, pois não tínhamos a mínima intenção de encarar uma "muvuca". Aliás, quem me conhece um tiquinho sabe que fujo de multidões como o capiroto foge da cruz. Curiosamente, o bar 'Paralelo 12:27', bem ao lado, estava completamente vazio. Não é força de expressão, não havia uma alma, mesmo. É um daqueles fenômenos que precisam ser estudados, já que esse bar, menor e mais tranquilo, também possui uma gostosa varanda e, a julgar pelas experiências que já tive por lá, sempre foi de boa qualidade. Mas faz tempo que não vou. Por outro lado, é fato: lugares lotados sempre atraem mais gente porque quem passa em frente deduz que, se o local está cheio, é porque é "bom". E se está vazio, é porque "deve ser ruim”. Só que nem sempre é assim. Já tive ótimas surpresas em lugares que ninguém conhecia e decepções em casas festejadas. E no meu caso específico, um local que esteja superlotado já se torna ruim por definição.

Um pouco mais abaixo, numa grande esquina do outro lado da rua, fica o bar Fortunato, que uma amiga já conhecia. Estava cheio também, porém não confuso e, quando a recepcionista nos sinalizou vinte minutos de espera, decidimos ficar. Vimos alguns clientes saindo e, no momento que o garçom começou a enxugar as mesas da calçada (havia caído um toró no bairro) a fim de nos acomodar enquanto aguardássemos uma mesa na varanda, vagou a dita cuja lá dentro. Não deu nem cinco minutos de espera. A partir dali, foi uma surpresa boa atrás da outra.

Foto: Fortunato Bar

A mesa que pegamos era ótima e, quando minha amiga pediu a um garçom para direcionar o ventilador para outro lado, já que o vento golpeava em cheio seu rosto, ele não só atendeu prontamente como inclusive desligou o aparelho. O rapaz foi muito gentil. Este novo ano, aliás, tem colocado pessoas particularmente gentis em meu caminho, e só tenho a agradecer. Abaixo está a vista a partir de nossa mesa. Achei linda a lanterna que lembra os antigos postes de luz do Centro da cidade.

Vista da mesa - Foto: Simone Catto

E ao olhar o número da mesa, eis que me deparo com ele... sempre um número de sorte!

Foto: Simone Catto

Pedimos então as bebidas. Estou na fase do Aperol Spritz. Adoro porque é um drinque leve, refrescante para o verão e... não me dá sono, quesito essencial. Uma amiga pediu o Mojito Frozen Limão (que leva rum, Club Soda, suco de limão e xarope de hortelã) e outra foi de chope Colorado. Não tirei fotos das bebidas e confesso que de uns tempos para cá tenho evitado fazer isso em bares e restaurantes porque não acho lá muito elegante, a menos que a pessoa trabalhe com crítica gastronômica. Como sou apenas uma leiga que compartilha impressões vez ou outra, tenho preferido tirar fotos discretamente e, mesmo assim, quando não há ninguém olhando. Para ser sincera, se você costuma acompanhar o blog, deve ter notado que quase não tenho postado resenhas de bares e restaurantes, tenho priorizado assuntos culturais. É que esse bar é "bão" mesmo!  

O Mojito da casa - Foto: Fortunato Bar

Para petiscar, pedimos o Queijo Brie empanado (queijo Brie empanado e frito, coberto por amêndoas laminadas e acompanhado de geleias de pimenta e frutas vermelhas). Esse mereceu foto. Estava simplesmente espetacular, com a casquinha crocante por fora e a massa derretida no interior. Na hora de cortar, virou uma cachoeira transbordante de pecado. Para rezar na hora de comer.

O queijo Brie pecaminoso, antes do corte, acompanhado das geleinhas. Em primeiro plano, meu Aperol reina soberano - Foto: Simone Catto

Como uma só porção nunca é suficiente para matar a fome, pedimos depois os dadinhos de tapioca, que também vêm acompanhados de geleia de pimenta e acondicionados numa simpática cestinha. Umas delicinhas. Dadinhos de tapioca, diga-se de passagem, já viraram um clássico nos bares de São Paulo. Mas precisam ser macios e sequinhos como esses.  

Os Dadinhos de Tapioca com geleia de pimenta - Foto: Fortunato Bar

Detalhe digno de nota: tudo chegou muito rápido à mesa, zero de espera. Além da qualidade dos ingredientes, a presteza e a cortesia no atendimento foram fundamentais para que eu classificasse esse bar dentre os melhores que visitei nos últimos tempos. Se a primeira impressão é a que fica, o Fortunato está de parabéns.

Finalizamos a noite com três cafés e saímos de lá felizes da vida. Saudades matadas, conversas atualizadas, estômagos satisfeitos e endorfinas mimadas.

Ah, os preços. Vamos lá. Dois drinques, um chope, uma cerveja premium, uma água, duas porções, três cafés e mais a taxa de serviço saíram por menos de R$ 200,00 no total.

Se você mora ou visitará Sampa no verão, vale a pena conhecer o Fortunato. Fica na Rua Joaquim Távora, 1356 – Vila Mariana. Esquina com a Rua Áurea. Tel.: (11) 4680-2966. Outras informações: www.fortunatobar.com.br

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Fotos da família de Jane Austen descobertas ao acaso revelam vidas de romance

Fonte: Daily Mail

O que você faria se comprasse algo pelo Mercado Livre e descobrisse que o objeto adquirido é muito mais valioso do que você ou o próprio vendedor imaginavam? Foi exatamente isso o que aconteceu com uma irlandesa de 51 anos chamada Karen Ievers. Interessada em fotos antigas da aristocracia vitoriana, ela comprou de um americano, em novembro, uma coleção de fotos pela plataforma eBay, esperando encontrar imagens de nobres anônimos na confortável intimidade de suas mansões e propriedades. Sua intenção inicial era pesquisar a ascendência familiar do marido, Norman, e a história de seu país.

Karen Ievers

Dispostas num velho álbum, as fotos incluíam retratos de excelente qualidade e nitidez, bem como os nomes dos retratados, escritos a lápis sob as imagens. Justificando a proverbial curiosidade e tradição detetivesca dos britânicos, Ievers fez uma busca dos nomes no Google e, para sua surpresa e alegria, descobriu que os retratos correspondiam a nada mais, nada menos que a membros da família de Jane Austen, uma das mais aclamadas romancistas da era vitoriana e da história literária mundial. E como se essa descoberta já não fosse suficientemente impressionante por si só, descobriu-se também que as vidas das pessoas nos retratos possuíam enredos tão dramáticos e fascinantes quanto aqueles extraídos das páginas dos romances da famosa escritora.


A própria Jane Austen, cujos trabalhos incluem 'Orgulho e Preconceito', 'Razão e Sensibilidade' e 'Emma', lembrados frequentemente por pertencerem ao rol dos maiores romances já escritos, nunca foi retratada em fotos, até porque partiu deste mundo antes que a fotografia fosse inventada. Contudo, essa descoberta notável fornece aos historiadores uma visão sem precedentes sobre a inspiração da autora para criar alguns de seus personagens mais memoráveis, embora as próprias fontes de inspiração – pessoas de sua família – supostamente não tivessem consciência de que suas vidas estivessem tão atreladas aos personagens dos livros.

Os especialistas afirmam que o valor do álbum não pode ser mensurado, mas sabemos que ele foi montado por um certo Lord George Augusta Hill, aristocrata que, segundo minha fonte, se casou com duas sobrinhas de Austen, ambas filhas de seu irmão mais velho, Edward. Só me pergunto como ele se casou duas vezes, já que supostamente ninguém se divorciava àquela época. Até onde sei, as pessoas permaneciam casadas para manter as aparências, mesmo nas uniões mais desastrosas. Enfim, preciso me informar melhor a respeito.

A legenda da foto abaixo diz 'Lady George Hill', o que nos leva a imaginar que a mulher à esquerda seja uma das sobrinhas de Austen. Curiosamente, ela parece estar sorrindo - note que, antigamente, não era usual as pessoas sorrirem em fotos. Todas pareciam tristes, mesmo que estivessem absolutamente alegres. Hoje é o contrário. Todas parecem alegres, mesmo que estejam miseravelmente tristes.



A foto abaixo é a preferida de Karen Ievers por várias razões, principalmente por lançar uma luz sobre as pessoas mais próximas da escritora. Mostra o casamento de Elizabeth Knight, uma de suas sobrinhas, realizado no ano de 1865 em Chawton House, mansão elisabetana na propriedade da família em Alton. Foi lá que Jane Austen escreveu suas obras nos últimos anos de vida. O noivo, capitão Edward Bradford, é o barbudo em pé, à direta. Ele perdeu um braço ao ser atacado por um tigre enquanto caçava javalis na Índia, pouco antes do casamento, e aqui podemos  perceber a manga frouxa de seu casaco pela ausência do membro. Diz a lenda que, mesmo após o ataque, ele continuou a caçar com seu cavalo, segurando as rédeas entre os dentes. Difícil acreditar, até para um herói inglês. "A quantidade de damas de honra é extraordinária. Você só percebe quem é a noiva porque ela segura o buquê maior", diz Ievers.


A foto a seguir mostra o mesmo casamento, com os noivos à direita. 


Outras fotos mostram um sobrinho que escandalizou a família ao fugir para se casar com a enteada da irmã. Nelson Rodrigues teria adorado (rs). Também está no álbum a sobrinha favorita de Jane, Fanny Knight, considerada "quase uma irmã", segundo as palavras da própria escritora. Contudo, a verdadeira identidade de suas sobrinhas e sobrinhos só foi descoberta nos últimos anos. Segundo Ievers, "o álbum fornece um insight significativo porque a família de Jane era muito importante para ela, já que a romancista não tinha filhos. Ele nos permite aprender mais sobre a escritora por meio da vida de seus parentes".

Fanny Knight, sobrinha preferida de Jane Austen

A mulher à direita parece ser Fanny Knight mais jovem, mas não dá para ter certeza.

O álbum de capa dura estava sendo anunciado como pertencente a um certo Lord George Hill, do Castelo de Hillsborough, por US $ 2.800, mas Ievers deve ter barganhado e conseguiu adquiri-lo por módicos US $ 1.000. "Foi só quando comecei a pesquisar os nomes online que pensei: 'Espere um minuto'. Não pude acreditar quando percebi do que se tratava", afirma.

Ievers então contatou uma acadêmica pelo Twitter, Drª Sophia Hillan, após descobrir que esta havia publicado, em 2011, um livro sobre as sobrinhas de Jane Austen denominado 'May, Lou e Cass: as sobrinhas de Jane Austen na Irlanda'. Hillan só descobriu a ligação dos Austens com Lord George Hill em 2006, por acidente, quando viu uma nota de rodapé sobre ele enquanto preparava uma palestra. Isso a levou a uma caça ao tesouro de cinco anos através de documentos históricos, e foram apenas os artigos online subsequentes, sobre o livro, que permitiram a Ievers perceber que o álbum pertencia à família. Diretora-associada aposentada do Instituto de Estudos Irlandeses da Universidade Queen's Belfast, a Drª Hillan deu seu testemunho: "O álbum é extraordinário. Quando Karen compartilhou algumas fotos comigo, eu mal podia acreditar".

Sabemos que as sobrinhas eram muito importantes para Jane Austen, o que confere ao álbum um significado especial. Ela conhecia muito bem as meninas – Cassandra, Marianne e Louisa – e por inúmeras vezes ajudou a cuidar delas. A escritora consertava suas roupas, ouvia suas leituras, levava Marianne ao teatro e ao dentista quando a garota tinha apenas doze anos e as deixava ficar em seu quarto enquanto discutia as tramas dos romances com a irmã ou escrevia notas para suas novelas. Jane realmente fazia parte da vida das meninas.

A escritora já havia falecido quando as sobrinhas cresceram, mas, sem querer, elas viveram os enredos dos romances da tia. A vida de Marianne, por exemplo, de certa forma ecoou a trama de 'Razão e Sensibilidade'. Assim como a personagem Elinor, ela foi despejada de casa pelo próprio irmão clérigo. Marianne nunca se casou e dedicou a vida à família. Na foto abaixo ela está ao lado do irmão desalmado, Reverendo Charles Bridges Knight, e um certo George Hill criança. Creio que este seja o lorde que, posteriormente, montou o álbum de fotos. 


Abaixo está o Reverendo Charles Bridges Knight, o sobrinho clérigo de Jane Austen, entre duas mulheres sem identificação. 


Quando a outra sobrinha, Cassandra, se apaixonou pelo Lord George Hill, a mãe do rapaz não aprovou o namoro porque ela não tinha posses. Assim como é relatado no romance 'Persuasão', o casal precisou se separar por oito anos até que, a exemplo do personagem Capitão Wentworth, o lorde retornou e finalmente pôde desposar a moça. Parece que àquela época as pessoas tinham mais paciência para lutar por um amor ou mesmo esperar por ele. O comportamento da mãe de Lord George, por sua vez, foi muito semelhante ao de Lady Catherine de Bourgh, de 'Orgulho e Preconceito'.

foto a seguir, de qualidade inferior, mostra Lord George ao lado dos irmãos de Cassandra e Louisa: o famigerado Rev. Charles Bridges Knight e a dedicada Marianne. O menino, com o pomposo nome de George Marcus Wandsbeck Hill, é filho de Louisa. Dá para perceber que, tal como nos romances de Austen, o álbum de fotos mostra clérigos, oficiais da marinha e militares, além de mulheres que foram pressionadas a realizar bons casamentos ou precisaram viver de favor e depender da boa vontade de familiares do sexo masculino. E à semelhança de algumas de suas heroínas, certas mulheres da família perderam um dos pais em tenra idade. Cassandra morreu no parto, assim como sua mãe.



Todas essas semelhanças revelam a autenticidade das percepções de Jane Austen, lembrando-nos de sua capacidade de observar o funcionamento do mundo a seu redor e os dilemas que as moças e rapazes de seu tempo e de sua classe social enfrentavam. Essa percepção aguda dos sentimentos e angústias humanos se traduz nas obras em verdades profundas, tornando o trabalho da autora realmente universal.

No momento, historiadores estão se debruçando sobre o álbum e, futuramente, especialistas pretendem fazer uma exposição das fotos. Vamos aguardar! Quem sabe não damos um pulinho até o Reino Unido?

Casal e bebê sem identificação

Capitão Somerset Ward

Não consegui decifrar o nome do meio, provavelmente a mulher sentada é uma certa "Miss Xxxxx Ward".

domingo, 13 de janeiro de 2019

Reencontros musicais na pauta da vida.

Em meio à enxurrada de lixo musical que ouvimos por aí, não consigo resistir ao apelo daquilo que considero boa música. Foi assim que, exatamente uma semana após assistir ao show do pianista e maestro Alex Frontera "Espaguete", no Ton Ton Jazz, retornei à casa no sábado seguinte (mais conhecido como "ontem", rs) só para assistir novamente. Para minha alegria, Espaguete se apresentou com a mesma formação da banda do sábado anterior, denominada "Groove Machine". Continuavam lá a Gina Garcia com seu vozeirão, o Sérgio Oliveira no baixo, o Samuel Correa na percussão e a vibe única dessa banda formada por artistas como poucos no país. Lembrando que tudo isso começou por causa do Espaguete, que eu conheci uns bons anos atrás (veja a história aqui). Pois é. Às vezes a gente tem uns (re)encontros, na vida, que são surpreendentes por sua capacidade de nos dar um "refresh" na memória afetiva e em nossa percepção do mundo.

A Banda Groove Machine, inaugurando um ano de ótima música no Ton Ton Jazz - Foto: Simone Catto

E aqui... uma traquinagem que o maestro fez comigo, rs - Foto: Cintia Oguime

O repertório de ontem foi sensivelmente diferente do da semana passada, mas a alta qualidade musical da banda permaneceu inalterada. Desta vez, tivemos ainda mais surpresas na forma de canjas, inclusive uma que veio do outro lado do mundo. Se filho de peixe peixinho é, filho de rei também é príncipe. Estou me referindo a Giuliano Frontera, filho do pianista, que foi criado e residiu toda a vida no Japão e herdou a veia artística do pai. O moço canta muito bem, embora, pelo que entendi, não viva profissionalmente da música - conforme me relatou Espaguete, o rapaz é empresário, proprietário de um bar sofisticado em Tóquio. Ao ver as fotos glamourosas da casa, que o maestro orgulhosamente me mostrou - e com toda razão, fiquei com vontade de dar um pulo no Japão só para beber uns drinques no bar desse menino.

Gravei alguns vídeos das apresentações, mas, como estou com celular novo e ainda não aprendi todos os recursos do aparelho, as gravações saíram beeem ruinzinhas, não repare! Elas dão uma ideia do repertório, mas o poder de fogo dessa turma, mesmo, você só consegue constatar ao vivo.

Abaixo temos Giuliano Frontera dando uma canja de "Easy", dos Commodores.


A seguir está a outra canja da noite: Patrícia Camin, que também tem uma bela voz e cantou "Through the fire", de Chaka Khan.


Agora temos Gina nos deixando "Overjoyed" com sua vigorosa interpretação de um dos maiores sucessos de Stevie Wonder. Aqui Espaguete passou o bastão para Adão, que assumiu o teclado. 


E por falar no italiano... abaixo está Alex Frontera "Espaguete", encerrando o show de um jeito bem "Brasileirinho".


Bem, essa foi apenas uma amostra simplória, para dar um gostinho do que você vai encontrar se tiver o privilégio de assistir a um show da banda. Agora é ficar de olho nos próximos, para não perder uma única nota dessa pauta. Até breve!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Foto da aura. Do ocultismo ao exibicionismo.

Fonte: Artsy 

Quando a gente pensa que já viu de tudo no universo virtual, surge mais uma novidade. Suspeito que, daqui a pouco, a popular – e rasteira – e medonha - expressão "manda nudes" poderá ser substituída por "manda auras". Sim, porque é isso o que determinados indivíduos estão fazendo por aí: estão tirando fotos de sua aura, isto é, do campo energético que emana de si próprios, e publicando-as em redes sociais como o Instagram. Só não consigo entender que graça tem, para um ser humano, visualizar os supostos eflúvios energéticos de outras pessoas. Cor por cor, prefiro visualizar um pato-mandarim ou um pacote de jujubas. Há quem esteja até mesmo considerando essas fotos na Internet como uma espécie de arte. (Hã?)

Carlos Carlo Van de Roer - 'Terence Koh', 2008.
Cortesia do artista.

Imagens de auras no Instagram






















Voltando um pouco na história de como tudo isso começou. Em 1936, o crítico cultural Walter Benjamin postulou a perda da "aura" na arte, considerando aura como uma força mística originária da presença única de uma obra de arte no tempo e no espaço. Segundo Benjamin, em seu famoso ensaio "A Obra de Arte na Era da Reprodução Mecânica", a ascensão da fotografia e do cinema - mídias capazes de ser reproduzidas instantaneamente – teria privado as imagens de uma espécie de magia. Por outro lado, foram essas mesmas mídias, a fotografia e o cinema, que foram escolhidas para captar as nuances da "diversidade espiritual". Quando Benjamin redigiu seu tratado, a chamada "fotografia da aura", esforço para captar emanações psíquicas ou metafísicas, já existia há décadas.

Mais recentemente, a prática de capturar auras em filmes vem ganhando novo impulso. Nos últimos anos, o Radiant Human, um laboratório itinerante de fotografia de auras, aportou em importantes destinos culturais, incluindo o Museu de Arte de Aspen, nos EUA. Os convidados do casamento da atriz Zosia Mamet tiveram suas auras capturadas pelo laboratório, assim como a equipe da marca de lifestyle da atriz Gwyneth Paltrow, Goop. E sabe como é: se uma "celeb" faz, a parcela mais influenciável do mundo copia. É assim que tem funcionado.

Cortesia do laboratório Radiant Human

Em Chinatown, o icônico bairro de Nova York, uma fila para tirar fotografias de aura avança pelo interior da Magic Jewelry, uma lojinha localizada dentro de um minishopping. E uma vez que se tornou virtualmente "obrigatório" postar a foto da aura colorida nas mídias sociais, a busca da hashtag #auraphotography, no Instagram, gera impressionantes onze mil resultados. A atual popularidade da prática deve-se em parte à sua capacidade de supostamente "servir como um canal para aqueles que buscam um novo tipo de autoexploração", afirma Christina Lonsdale, artista por trás do laboratório Radiant Human. "As percepções podem girar com o clique de um obturador, iluminando nossos verdadeiros eus e lançando nova luz para o que estava lá o tempo todo". Então tá.

A noção de que uma câmera poderia emprestar ao fotógrafo um olho clarividente originou-se na era vitoriana. O ambiente era propício: avanços tecnológicos no campo da fotografia tornaram essa mídia relativamente acessível, enquanto que a Europa e a América do Norte eram varridas por uma onda de fenômenos sobrenaturais que suscitaram estudos e muita curiosidade em torno do assunto. Entre as crenças paranormais populares na era vitoriana estava a teoria do século XVIII de Franz Anton Mesmer de que todas as coisas animadas e inanimadas eram imbuídas de um "fluido vital".

Enquanto alguns fotógrafos ocultistas buscavam registrar formas fantasmagóricas, aqueles inspirados pelo Mesmerismo queriam mostrar os fluidos vitais inerentes a objetos e seres. Se um sensitivo podia visualizar essas energias invisíveis, argumentavam, por que uma câmera não poderia? Na década de 1860, o químico austríaco Karl Ludwig Freiherr von Reichenbach começou a fotografar objetos em completa escuridão, tentando capturar sua energia ou aquilo que denominava de "od". Sua obra marcou o início da fotografia da aura, derivada da fotografia ocultista vitoriana.

Foi a descoberta do raio-X de Wilhelm Conrad Röntgen, em 1895, que sustentou a fotografia da aura. Com novos equipamentos radiográficos, o invisível se tornaria visível e, portanto, ciência. Na França, pouco antes da virada do século, o médico Hippolyte Baraduc e o soldado Louis Darget utilizaram a tecnologia para documentar fluidos vitais pressionando os dedos ou a testa de indivíduos em placas fotográficas sensibilizadas. Baraduc e Darget acreditavam que as imagens eram a chave para captar a saúde, o humor ou até mesmo pensamentos das pessoas - um método predecessor da chamada "fotografia de pensamento" do psíquico Ted Serios. Essas formas fotográficas impressas adentraram o campo da fotografia abstrata, inspirando artistas como László Moholy-Nagy.

mistura de radiografia e ocultismo também pode ser vista em um curioso quadro de Marcel Duchamp, "Retrato do Dr. Dumouchel" (1910), que retrata um amigo de infância do artista, estudante de medicina e radiologia, com uma luz sobrenatural emanando de suas mãos. O brilho evoca os halos em torno das mãos em pinturas de santos - ou imagens de fluidos.

Marcel Duchamp - 'Retrato do Dr. Dumouchel', 1910 - Philadelphia Museum of Art

Enquanto isso, na Rússia, a experimentação com componentes de dispositivos radiográficos deu origem à eletrografia, a base da fotografia da aura atual. O cientista Jakob von Narkiewicz-Jodko acreditava que a eletricidade era imperativa para revelar as energias vitais de um indivíduo e seu processo fotográfico exigia uma bobina de indução, que ele usava para carregar eletricamente uma placa de metal. Quando um objeto ou parte do corpo era encostado em material fotossensível sobre a placa carregada, a descarga de corona (descarga elétrica produzida pela ionização de um fluido nas redondezas de um condutor) produzia uma silhueta brilhante.

Décadas mais tarde, em 1939, Semyon e Valentina Kirlian, um engenheiro elétrico russo e sua esposa bióloga, descobriram a fotografia da descarga de corona e a chamaram de "fotografia kirliana". Assim como Narkiewicz-Jodko, os Kirlians acreditavam que essas fotos poderiam fornecer informações psíquicas reveladoras. Naquela época, a fotografia colorida tornou-se viável comercialmente, e o impressionante espectro de cores da fotografia Kirlian desempenhou um papel importante em sua disseminação. As descobertas do casal, que só se tornaram públicas em 1958, atraíram a atenção do Ocidente quando o livro "Psychic Discoveries Behind the Iron Curtain" (Descobertas Psíquicas por trás da Cortina de Ferro) foi publicado em 1970.

Foto Kirlian de uma digital masculina, 1989
Sérgio Valle Duarte - Wikimedia Commons  
Um século de esforços para fotografar a aura resultou em uma câmera desajeitada inventada no cenário alternativo dos anos 1970 por um empresário californiano chamado Guy Coggins. Coggins, que tem formação em engenharia elétrica e perfil no LinkedIn, trouxe sua AuraCam 3000 para o mercado no início dos anos 80 e, mais tarde, lançou a AuraCam 6000, que ainda hoje é usada pelo laboratório  Radiant Human. Enquanto a fotografia de Kirlian criava impressões de contato, a AuraCam de Coggins adaptou os métodos Kirlian para produzir fotografias instantâneas, conectando uma câmera de filme instantâneo a duas placas de metal carregadas contendo sensores de biofeedback.

Para cada leitura, a pessoa coloca suas mãos - sempre a fonte de energia da aura - nas placas, que registram dados eletromagnéticos. Então um algoritmo traduz frequências específicas em matizes predeterminadas por Coggins e uma equipe de clarividentes. A primeira exposição captura a imagem da pessoa, enquanto que a segunda sobrepõe os matizes gerados. A névoa policromática, que difere de fotografia para fotografia, pretensamente representaria a aura do indivíduo e forneceria insights sobre as energias de seus chacras. Parte médium espiritualista e parte psicanalista, o fotógrafo faz uma interpretação dessa névoa. A AuraCam 6000 vem com o software "Aura Analyzer", que usa texto e arte ASCII (forma de expressão artística que usa apenas os caracteres disponíveis nas tabelas de código de páginas de computadores) para desempenharem o papel de intérpretes.

A última inovação de Coggins é o WinAura, um detector doméstico de aura (sim, isso ecziste!) e um pacote de software de fotografia que usa uma webcam de computador, um algoritmo proprietário e sensores de biofeedback. Embora a AuraCam 6000 - que se alinha melhor com o retorno da fotografia analógica e a popularidade das "experiências" artísticas - seja muito mais popular que o WinAura, a mais recente tecnologia de Coggins coloca a leitura de aura literalmente nas mãos das pessoas. Elas têm postado fotos de suas auras nas mídias sociais e estas imagens, por sua vez, se integram a milhares de outras na grade multicolorida do Instagram. 

Em contraste com suas antecessoras, a atual fotografia de aura se utiliza de uma rede virtual expansiva para supostamente capturar uma energia coletiva ou um humor. Seja como for, trata-se de uma moda que, provavelmente, vai passar com a mesma velocidade com que bobagens são compartilhadas nas redes sociais. Esperamos que permaneça, contudo, o trabalho científico e a análise séria dessas energias para detectar problemas físicos e psíquicos de seres humanos e, principalmente, ajudá-los a resolvê-los.