segunda-feira, 30 de junho de 2014

Gonçalves, MG. Retorno à essência quando a natureza chama.

Existem lugares aos quais a gente sente pertencer, sem saber por quê. Lugares que nos atraem como ímãs, aos quais sempre queremos retornar, onde nos sentimos essencialmente e genuinamente felizes a qualquer tempo. A cidade de Gonçalves, localizada no Sul de Minas Gerais e encravada na Serra da Mantiqueira, é um desses lugares que me magnetizam, sobretudo se vivenciados na companhia de pessoas especiais, como aconteceu recentemente.

Mas por que esse lugar é tão mágico para mim? Eu diria haver muitas respostas, algumas absolutamente racionais e outras nem tanto. Entre as racionais, está o fato de eu morar em uma metrópole cada vez mais cinza, populosa, incivilizada e caótica, fazendo com que eu anseie pelo prazer simples de contemplar a natureza, conversar com gente descomplicada, observar os pássaros nas árvores e sorver horizontes sem fim no topo de montanhas que me fazem sentir dona e senhora deste mundo e de outros, maravilhosos e invisíveis, que ainda escapam à minha compreensão. E entre as razões irracionais, bem... pode ser a genética herdada de meu avô caçador, um amante da natureza que colecionava pássaros e se embrenhava num rancho no meio da Serra do Mar, podem ser as dezenas de contos de fadas que li e ouvi na infância, ambientados em bosques e florestas mágicas... e pode ser, simplesmente, o desejo instintivo de um retorno à essência de onde vim. Tudo isso eu sinto sempre que vou a Gonçalves e, para ilustrar um pouco o que digo, nada melhor do que algumas imagens e experiências que vivi (e como!) por lá.

A vista que eu contemplava todos os dias... - Foto: Simone Catto

Cerejeiras em flor! - Foto: Simone Catto

Uma das coisas que me fazem muuuuito feliz é subir um morro bem alto e bem verde. Não de carro (embora eu obviamente não despreze essa também deliciosa experiência), mas com as abençoadas e resistentes pernocas que Deus me deu. Quer me ver feliz da vida? Coloque um morro de 2.000 metros de altura na minha frente e diga: 'Suba!'. E você me verá dar pulos de alegria talvez ainda mais altos (rs).

Vista da Serra da Balança, com o morro que faz a divisa de Gonçalves com São Bento do Sapucaí  - Foto: Simone Catto

Gonçalves tem muitas pedras no topo de montanhas e, felizmente, muitas trilhas que levam até delas. Pedra do Forno, Pedra de São Domingos, Pedra Chanfrada, Pedra Bonita, Pedra do Grotão... aos poucos, estou subindo uma a uma. Desta vez, fiz as trilhas da Pedra do Cruzeiro e da Pedra do Jair. Com 1.152 m de altitude, a Pedra do Cruzeiro fica no Vale do Lambari, seguindo a estrada que leva ao bairro Atrás da Pedra. Para subir, é preciso atravessar uma porteira que dá acesso a um bananal e, conforme a gente sobe, vai passando por várias estações da Via Sacra até culminar no topo, onde há uma cruz e uma capelinha. Em dias de festas religiosas, como Corpus Christi, a trilha é percorrida pelos peregrinos. Há trechos beeeem íngremes, por isso a subida não é recomendável para quem não estiver em forma. Nem é preciso dizer que a vista lá de cima é maravilhosa...

Para subir, atravessamos o bananal. Ao fundo, um dos passos da Via Sacra.
Foto: Simone Catto

Uma das capelinhas com santos pelo caminho - Foto: Simone Catto

E a gente sobe, sobe... - Foto: Simone Catto

Chegamos!!! Uau... - Foto: Simone Catto

A cruz e a capelinha no topo - desse lado, o céu estava mais escuro, mas não choveu - Foto: Simone Catto 

E de repente, avisto Deus pedindo passagem em meio às nuvens... - Foto: Simone Catto

Após a "façanha"... hora de contemplar a pedra ao longe! - Foto: Simone Catto

Depois de tanto exercício, nada como uma boa e farta comida caipira para forrar o estômago! Nesse dia, optamos pelo Restaurante da Vilma, um lugar tradicional de Gonçalves, rústico e delicioso, instalado em uma casa simples de campo. É cobrado um preço fixo e o cliente pode se servir à vontade de um pequeno bufê de saladas e dos pratos do fogão a lenha, onde se destacam a carne de lata (pernil de porco conservado em banha), o frango caipira e uma deliciosa carne de panela. No dia de minha visita, até espaguete havia. O bufê de sobremesas (compotas de frutas), cobrado à parte, sai por R$ 5,00. Custo médio de toda essa comilança, incluindo suco natural? Menos de R$ 35,00, acredite. E você ainda almoça contemplando a bela paisagem bucólica, com galinhas ciscando no quintal e tudo. O Restaurante da Vilma fica na Estrada Serra da Balança, km 7, Bairro dos Venâncios. Mas atenção: quase todos os restaurantes turísticos de Gonçalves funcionam apenas nos fins de semana. Portanto, é bom telefonar antes para checar: (35) 9837-0896 / (35) 9988-6874.

A entrada do restaurante já é uma delícia! - Foto: Simone Catto

A casinha amarela, lá atrás, vende um artesanato mineiro fofo - Foto: Simone Catto

No fundo do restaurante, você pode almoçar apreciando essa linda paisagem - Foto: Simone Catto
 
Um dos simples e agradáveis salões da casa - Foto: Simone Catto

A vista de nossa mesa - Foto: Simone Catto

O fogão a lenha de onde a gente se serve - Foto: Simone Catto

Humor à mineira... rs... - Foto: Simone Catto

Vista do salão do fundo do restaurante - Foto: Simone Catto

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A reconstrução de Cézanne por Renato Brolezzi.

Ele não tem uma biografia conturbada como a de Van Gogh ou Modigliani. Não era bêbado como Toulouse-Lautrec ou Maurice Utrillo e tampouco passou necessidades como Monet ou Gauguin. Muito pelo contrário. Paul Cézanne (1839-1906), tema de mais uma aula no MASP com o excelente prof. Renato Brolezzi, da Unicamp, era um artista metódico, disciplinado e rico. Seu pai, que em princípio exportava chapéus e já gozava de boa situação financeira, enriqueceu ainda mais ao fundar um banco. Por isso, Cézanne teve condições de se dedicar unicamente à única coisa que dava sentido à sua vida: pintar.

O ponto de partida para estudarmos o pintor foi a obra 'O Grande Pinheiro', realizada entre 1892 e 1896 e que faz parte do acervo do MASP. Esse quadro foi pintado na cidade natal do artista, Aix-en-Provence, em uma floresta de pinheiros próxima à montanha de Sainte-Victoire. (Obs.: Cézanne pintou mais de 80 versões da montanha de Sainte-Victoire!).

Cézanne - 'O Grande Pinheiro' (c. 1892-1896) - óleo s/ tela - MASP

Mas o que pretendia Cézanne? Apesar de ter estudado arte acadêmica como todo grande artista da época, tanto em Aix quanto em Paris, onde também copiou obras Louvre para treinar a mão, ele aspirava a muito mais. Primeiramente, Cézanne não pretendia criar representações do visível. Não se contentava em copiar a natureza, queria mesmo era recriá-la. E fazia isso deformando-a para reconstruí-la como obra de arte. O artista sequer se referia a suas paisagens como tais, mas como "construções a partir da natureza".

Apesar de ter flertado com o Impressionismo no início da carreira e inclusive ter nutrido profunda amizade por vários pintores da escola, como Renoir e Pissaro, Cézanne logo se desgarrou do rebanho para se lançar em uma busca incessante – e extremamente penosa – por uma linguagem particular. Ao contrário do que pregava a estética impressionista, não tinha a intenção de transmitir a impressão fugidia das coisas, mas capturar o tempo pela permanência, "refazer o impressionismo com solidez". Essa permanência do tempo é perceptível na obra estudada, 'O Grande Pinheiro', na qual o pinheiro envergado pelo vento parece congelado. Por esta razão, podemos dizer que "Cézanne captou o movimento enquanto resistência", conforme observou o prof. Renato Brolezzi.

No quadro destacam-se vários tons de azul e verde, cores recorrentes na obra do artista, e suas dimensões, 90 X 70, foram escolhidas por estarem mais próximas da geometria de Poussin, pintor pelo qual Cézanne nutria grande admiração. "Meu projeto é refazer Poussin a partir da natureza", o artista costumava afirmar. Na parte superior do quadro, podemos inclusive notar uma linha horizontal mais acentuada porque, depois que a pintura já estava pronta, Cézanne acrescentou mais 15 cm de tela para que ela se enquadrasse nos padrões de Poussin.

Vale ressaltar que raramente vemos seres humanos nas paisagens de Cézanne. Até então, a paisagem como gênero pictórico estabelecido a partir do séc. XVI por artistas como Giorgione estava a serviço do drama humano. A pintura de Cézanne rompeu com essa ordem, se desgarrando das relações com o texto. Por tudo isso, ao nos determos sobre suas paisagens, sentimos como se ele tivesse criado uma dimensão paralela à vida.

A pintura a seguir, 'A Casa do Enforcado', é considerada a primeira grande paisagem de Cézanne, foi pintada em Auvers-sur-Oise e a casa retratada realmente abrigou um pobre homem que se enforcou. Já notamos grandes verticais e horizontais, tons de laranja e verde e extrema ordem cromática e geométrica. Essa pintura foi exibida na primeira Exposição Impressionista, em 1874, e foi também a primeira obra que Cézanne vendeu. 

Cézanne - 'A Casa do Enforcado' (1873) - óleo s/ tela - Musée d'Orsay, Paris.

Cézanne - 'A Ponte de Maincy' (1879) - óleo s/ tela - Musée d'Orsay, Paris. Essa ponte localizava-se próximo a Aix-en-Provence.

Cézanne - 'Bibémus - A Rocha Vermelha' - c. 1905 - óleo s/ tela
Musée de l'Orangerie, Paris.

Um outro aspecto importante da obra de Cézanne é que, para ele, linha e cor estavam no mesmo patamar, isto é, ambas tinham a mesma importância. A exploração dos fenômenos óticos na multiplicação de planos e a simplificação das formas naturais em suas essências geométricas, características da fase madura do artista, foram fruto de um trabalho árduo, contínuo e obsessivo. Sua busca por uma nova linguagem segundo sua visão de mundo foi uma tarefa torturante na qual o pintor debatia-se e trabalhava incansavelmente, chegando mesmo a considerar a obra "superior à vida". Felizmente, Cézanne pôde dar-se ao luxo de se dedicar integralmente a essa busca porque não dependia da pintura para se sustentar – tinha o dinheiro da família. Quando seu pai faleceu, em 1886, deixou uma grande fortuna para a esposa, Cézanne e mais duas filhas. Em 1889, a família vendeu a belíssima propriedade de Jas de Bouffon, em Aix-en-Provence, e o artista construiu um pequeno ateliê em 'Les Lauves', na própria cidade, perto do bosque onde pintou 'O Grande Pinheiro'.

Cézanne Trabalhava muito devagar e às vezes levava anos para concluir uma obra. Era completamente absorvido por sua pintura, perfeccionista ao extremo, e não suportava que nada nem ninguém lhe atrapalhasse. Detestava barulho, não admitia que ninguém o visse pintando e era considerado um homem de trato difícil. Na realidade, Cézanne era, essencialmente, um homem do campo. Quem o convenceu a ir a Paris pela primeira vez foi Émile Zola, grande amigo de infância e colega de escola que, percebendo o gênio e o talento do amigo, incentivou sua arte de todas as formas. Essa bela amizade que perdurou por décadas rompeu-se tristemente em 1886, quando Zola escreveu 'A Obra', um romance no qual o personagem central, inspirado em Cézanne, é um pintor atormentado que nunca consegue concluir seu trabalho. A partir daí, os dois nunca mais se falaram.

Cézanne - 'O Assassinato' (1867-68) - óleo s/ tela. Esta obra da juventude do artista, um tanto sombria, parece inacabada.
O artista ainda não havia descoberto as cores radiosas de sua amada Provence.

Cézanne - 'Paul Alexis lendo uma carta para Émiile Zola' (1869-70) - óleo s/ tela - MASP. Zola, sentado,
está caracterizado como um sábio japonês. Vale lembrar que, à época, tudo o que era do Japão estava na moda.

Na obra a seguir, 'Castelo de Médan' (1879), Cézanne retrata a casa de Émile Zola (a casa amarela à direita). No entanto, a casa não está em primeiro plano, muito pelo contrário: está escondida, e quem ganha o primeiro plano é... a paisagem! Essa inversão de prioridade espacial constituía, também, uma subversão para a época. Pouco a pouco, Cézanne foi abandonando a perspectiva, mas seus quadros ainda dão a ilusão de profundidade. O artista criou, assim, o que chamamos de "perspectiva plana".

Cézanne - 'Castelo de Médan' (1879) - óleo s/ tela - Kelvingrove Art Gallery and Museum - Glasgow, Escócia.

Cézanne nutria profundo respeito pelo pintor impressionista Camille Pissarro, que considerava como uma espécie de mentor e com o qual chegou a passar uma temporada em Pontoise trabalhando. Ele e Renoir também sentiam grande admiração mútua, e os filhos de ambos, Paul Cézanne Filho e os três meninos de Renoir, também acabaram se tornando amigos. Paul Cézanne Filho era mais próximo do filho do meio de Renoir, Jean Renoir, que veio a se tornar o excelente cineasta que conhecemos (veja, aqui, um post sobre a biografia de Renoir escrita por seu filho Jean, um dos melhores livros que já li!).

Único filho de Cézanne, Paul Cézanne Filho nasceu em 1872 e é fruto da união do artista com Hortense Fiquet, jovem que conheceu em 1869. Por temer a reação do pai autoritário, Cézanne só foi se casar com Hortense em 1886, após o falecimento daquele. Só então a mãe de Cézanne pôde conhecer o neto.

Na pintura a seguir, 'Madame Cézanne em Vermelho' (c. 1890-94), notamos uma grande síntese plástica em que o fundo verde contrasta com a roupa vermelha da mulher. Note que ela está um pouco deslocada do eixo e seus braços sugerem uma elipse, tudo cuidadosamente pensado para gerar equilíbrio geométrico. Vale destacar que Mme Cézanne, nesta pintura, lembra um impassível ícone bizantino, já que para Cézanne não interessava mostrar emoções de qualquer espécie. 

Cézanne - 'Madame Cézanne em Vermelho' (c. 1890-94) - óleo s/ tela - MASP

Neste retrato do filho pintado entre 1881-82, Cézanne tampouco transmite emoção: a imagem está sintetizada ao extremo
e é desprovida de detalhes. A pintura está no Musée de l'Orangerie, Paris.

Durante suas estadas em Paris, Cézanne destoava do grupo de amigos pintores com seu jeito camponês e maneiras rudes, apesar de ser um homem rico. O artista se comportava como o provençal que era, falava o dialeto da região, mas possuía um espírito delicado, em total contradição com sua figura. A pintora Mary Cassat chegou a se referir a ele, certa vez, como "um rochedo com alma de anjo".

Cézanne não obteve reconhecimento em vida apesar da ajuda de amigos como o marchand Ambroise Vollard, também muito próximo de Renoir e grande incentivador dos impressionistas. Em 1895, Vollard organizou uma grande exposição sua em Paris, na qual foram exibidas mais de 150 pinturas. No retrato que o artista fez do amigo, a seguir, o pobre Vollard teve que passar por 118 sessões de pose e Cézanne fez com que o coitado se equilibrasse sobre uma cadeira que quase fez com que se espatifasse ao chão. O artista exigia imobilidade absoluta e Vollard, uma alma de infinita paciência, quase parece um bloco de pedra na pintura!

Cézanne - 'Retrato de Ambroise Vollard' (1899) - óleo s/ tela - Musée du Petit Palais, Paris.

Cézanne - 'Jogadores de Cartas' (1890) - óleo s/ tela - Musée d'Orsay, Paris.

Em 1907, foi realizado o Salão de Outono, em Paris, que exibiu uma reedição da exposição de Cézanne de 1895. Ironicamente, essa segunda exposição, realizada quando o pintor já havia falecido, exerceu grande impacto nos artistas da época. Basta dizer que foi ela que acendeu, em Picasso, a fagulha que detonou o cubismo: após visitá-la, o artista catalão nunca mais foi mais o mesmo, mudando radicalmente sua maneira de pintar. Portanto, qualquer semelhança da pintura a seguir com 'As Demoiselles d'Avignon', de Picasso, não é mera coincidência! 

Pintar nus, no entanto, era um grande tabu para Cézanne, que não era nada afeito à proximidade com as pessoas e muito menos contatos físicos. (Pergunto-me, inclusive, como ele foi capaz de produzir um filho! rs) As duas pinturas a seguir, portanto, foram realizadas com a ajuda de fotografias. 

Cézanne - 'As Grandes Banhistas' (1890) - óleo s/ tela - National Gallery, Londres.

Cézanne - 'Os Grandes Banhistas' (1890) - Musée d'Orsay, Paris.

Ao final da vida, Cézanne pintou várias naturezas mortas, entre as quais aquelas em que inclui suas famosas maçãs. O artista levava tantos dias para pintá-las, que as maçãs começavam a murchar e até acabavam mudando de cor. A natureza morta a seguir figura em uma pintura de Maurice Denis (1870-1943) na qual ele prestou uma homenagem a Cézanne.

Cézanne - 'Fruteira, copo e maçãs' - (c. 1880)

Maurice Denis - 'Homenagem a Cézanne (1900) - óleo s/ tela

Para criar sua "pintura homenagem", Denis reuniu um grupo de amigos, artistas e críticos na loja de Ambroise Vollard. Ao fundo, vemos partes de pinturas de Paul Gauguin (1848-1903) e Renoir (1841-1919). Entre as figuras presentes estão vários pintores nabis: Odilon Redon (1840-1916), no primeiro plano à esquerda, Paul Sérusier (1864-1927), à sua frente, e também Édouard Vuillard (1868-1940), Pierre Bonnard (1867-1947) e o próprio Maurice Denis.

Podemos dizer que Cézanne morreu consumido por sua própria arte. Ele costumava pegar o cavalete, dirigir-se para a floresta e trabalhar ao ar livre, usando sempre um terno – chovesse ou fizesse sol. Em uma dessas saídas, caiu uma forte tempestade e o artista pegou uma gripe que evoluiu para uma pneumonia, vindo a falecer poucos dias depois.

Veja também, aqui no blog, a cidade de Aix-en-Provence e o ateliê de Cézanne em Les Lauves, que tive a oportunidade de conhecer em uma viagem à Provence francesa.  

Se você quiser sentir o trajeto do mestre em sua busca torturante por uma linguagem própria na arte, recomendo ler o capítulo ‘A dúvida de Cézanne’, de um livro excelente que fez parte da bibliografia de minha pós-graduação em História da Arte: ‘O Olho e o Espírito’, de Maurice Merleau-Ponty.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

'Terceiro Sinal', no Teatro Folha. Desperdício de elenco à inglesa.

Quando a gente ouve falar em uma peça de teatro que tenha no elenco gente do naipe de Rosi Campos e Cássio Scapin, vai logo pensando que se trata de uma montagem de boa qualidade, pois o senso comum diz que dois atores tão competentes não entrariam numa roubada. Só que, no caso de 'Terceiro Sinal', que estreou dia 2 de maio no Teatro Folha, quem entra na roubada somos nós, o público – infelizmente.

A obra, versão do original inglês 'Noises Off', foi escrita por Michel Frayn e, segundo soube, é um clássico da comédia britânica que se destaca por seu humor fino e irônico. No entanto, nesta versão que estreou em São Paulo, o que vemos é uma grande confusão. Não sei se o problema está na tradução, já que não assisti ao original, ou na adaptação, já que certas sutilezas poderiam se perder na transposição do roteiro para outra nacionalidade. Só sei que vemos um corre-corre danado, um entra-e-sai no palco, e não entendemos nada. Sem falar que o texto em português é fraquíssimo e não tem graça nenhuma. Diante disso, não dá nem para avaliar a atuação dos atores, uma vez que os pobres já estão aprisionados a um texto que não funciona.

Cássio Scapin e Rosi Campos em 'Terceiro Sinal': a dupla merecia coisa melhor.
O enredo mostra uma "peça dentro da peça", isto é: nós, o público, acompanhamos os bastidores de uma companhia teatral que ensaia e encena uma montagem chamada 'Nothing On'. No primeiro ato, portanto, vemos o ensaio de 'Nothing On'. E no segundo, a estreia propriamente dita. Rosi Campos interpreta Dotty Otley, estrela veterana que investiu suas economias na montagem da peça e tem envolvimentos amorosos com outros colegas – entre eles o ator Gary (Scapin). Só que, nessa "peça dentro da peça", texto e elenco são péssimos e o diretor ególatra. O resultado tem tudo para ser um fiasco e, lamentavelmente, na peça de verdade, isto é, aquela à qual assistimos, a impressão não é melhor.

Imagino que, para a obra original inglesa ter sido considerada um sucesso, o texto deve ter sido criado com muita engenhosidade para dar conta do timing, já que ela tem o ritmo frenético das comédias de vaudeville. Na montagem em cartaz no Teatro Folha, no entanto, as situações parecem soltas e uma cena não se concatena à outra. Faltaram os elos e o cuidado que dariam um mínimo de coerência e graça ao todo. E não sou a única a afirmar isso: meus amigos também não gostaram da peça e, ao final do espetáculo, vi a senhora da poltrona ao lado e outras pessoas reclamando. Detalhe: o Guia da Folha, que vem encartado na Folha de S. Paulo às sextas-feiras, atribui uma boa cotação à montagem, o que só pode ser explicado pelo fato de que o espetáculo está em cartaz no Teatro Folha. Contudo, nem Rosi Campos nem Cássio Scapin salvam essa comédia que não faz rir. Uma pena.

Ficha Técnica Parcial

Autor: Michael Frayn
Direção: Zadoque Lopes
Tradução: Mark Ramsden e Zadoque Lopes
Direção de Produção: Daise Amaral
Elenco: Rosi Campos, Cássio Scapin, Alexandre Barros, Daise Amaral, Djalma Lima, Déo Patrício, Larissa Garcia, Almir Marcelino e André Di Paulo.

Informações: www.teatrofolha.com.br

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Presente para São Paulo: a essência de Gregório Gruber em exposição na APM.

Quarta-feira passada foi o vernissage de uma excelente exposição de Gregório Gruber (1951), desta vez na Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina. Conheço o trabalho do artista desde minha adolescência e nunca me esqueço de como fiquei hipnotizada ao me deparar com uma obra sua pela primeira vez, uma paisagem monocromática de São Paulo na capa de uma lista telefônica da Telesp, antiga estatal de telefonia. Não consigo lembrar exatamente que paisagem era aquela – talvez o Viaduto do Chá ou o Santa Ifigênia, não sei, mas lembro que ela tinha uma luz sobrenatural, toda em tons azul-violáceos e envolta numa espécie de névoa. Como desde pequena eu já tinha um "pezinho" na arte, procurei na contracapa do catálogo telefônico o nome do artista, e então... voilà! Descobri Gregório. (Momento flashback: quando criança, eu costumava recortar fotos de pinturas dos livros de história da escola para colá-las na parede da casa das bonecas. Acho que minhas 'Susis' eram as únicas que tinham, ao mesmo tempo, a Mona Lisa e o Balanço de Fragonard na sala!... rs.)

Ainda na adolescência, quando comecei a acompanhar a programação cultural de jornais e revistas, vez ou outra lia alguma coisa sobre Gregório Gruber e descobri que sua "especialidade", por assim dizer, eram as paisagens da cidade de São Paulo. Em 2002 tive a oportunidade de visitar uma megaexposição de suas pinturas no Centro e, anos mais tarde, Gregório tornou-se objeto de meu trabalho de pós-graduação e também de um livro no qual discorri sobre o tema pictórico que lhe deu notoriedade, sua amada São Paulo. De lá para cá venho acompanhando sua produção de perto e posso dizer que essa exposição na APM é uma ótima oportunidade para quem não conhece sua obra ter uma boa ideia do estilo do artista.

Vernissage com música tem um charme especial! - Foto: Simone Catto

Gregório domina várias técnicas e lá encontramos uma pequena, porém diversificada, amostra de sua produção: pinturas sobre tela e juta, aquarelas, desenhos a carvão, gravuras e também os esfuziantes e coloridíssimos assemblages.

'Ciclista na Paulista' (2008) - pintura sobre juta - Foto: Simone Catto

'Cena Noturna' (2003) - pintura sobre tela
Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

Produzidos de uns cinco anos para cá, os assemblages consistem em composições construídas em camadas com pedacinhos de madeira balsa formando relevos de grande engenhosidade e harmonia. Exuberantes e com cores muito vivas, pertencem a um gênero bem diferente da produção de Gregório à qual estamos acostumados, notadamente as pinturas. As fotos a seguir dão apenas uma pálida ideia da inventividade dos assemblages do artista, o ideal é apreciá-los ao vivo para ter noção da profundidade e sentir sua altíssima qualidade estética.

'Amanhecer' (2005) - assemblage com madeira balsa - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

'Elevado' (2010) - assemblage com madeira balsa - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

Dentre as pinturas e aquarelas, não poderiam faltar algumas realizadas com técnica análoga àquela que tanto me impressionou na capa da lista da Telesp quando eu ainda nem era gente: monocromias com paisagens envoltas em névoa, como se fossem cenários de sonho.

'Estrada' (2007) - aquarela - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

'Carro na Neblina' (2007) - aquarela - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

As obras da exposição estão didaticamente separadas por técnica, um acerto da curadora Lorena Hollander que confere organização no conjunto e facilita, para o espectador, a compreensão da obra do artista. As paisagens da cidade de São Paulo predominam, mas aqui e acolá visualizamos um interior ou um cenário mais bucólico.

'Paulista' (2004) - pintura sobre juta - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

'Saldanha Marinho II' (2004) - litografia - Foto: Simone Catto

'Interior com Piano' (2007) - carvão sobre papel - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

Um outro ponto a destacar é o cuidado que o Departamento Cultural da Associação Paulista de Medicina teve com a confecção do catálogo da exposição, fartamente ilustrado e com uma impressão de ótima qualidade. Vale ressaltar, também, que no mesmo andar é exibida, em outra sala, parte do respeitável acervo artístico da instituição, com obras de Tarsila do Amaral, Pancetti, Volpi, Clóvis Graciano, Mario Zanini, Aldemir Martins, Di Cavalcanti e muitos outros grandes artistas brasileiros. Dá para visitar ambas! Só não dá para entender por que a exposição de Gregório Gruber na APM não consta nos guias semanais de entretenimento da grande mídia, já que se trata de uma mostra tão importante.

Anote aí: GREGÓRIO GRUBER na Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 278 - 8º andar. Abre de segunda a sexta-feira, das 10h às 20h, com entrada franca. Até 12/9. Em tempo: na noite do vernissage, deixei o carro num estacionamento ao lado que cobra R$ 15,00, preço justo para os padrões de Sampa. Não perca!

Clique aqui para conhecer mais obras de Gregório Gruber.

domingo, 8 de junho de 2014

'Eu, mamãe e os meninos'. Quando um ator estupendo torna um filme imperdível.

Guillaume é um rapaz tímido, sensível, intelectual, franzino, meio desajeitado... um doce, enfim. Pertence a uma família abastada, tem dois irmãos e nutre profunda adoração pela mãe, uma loira alta, voluntariosa e autocentrada que o trata com displicência e, o que é pior, confunde a identidade sexual do garoto ao tratá-lo como a filha que nunca teve. Esse menino cresce, vira um homem maduro e torna-se um ator competente totalmente resolvido com sua sexualidade. Agora o detalhe inusitado: o ator que interpreta Guillaume adolescente é o mesmo que o interpreta adulto, e também interpreta... sua mãe! Sim. Se você assistisse ao filme sem saber disso, JA-MAIS diria que Guillaume e sua mãe são a mesma pessoa.

E que filme é esse? Estou falando de 'Eu, mamãe e os meninos', que conquistou vários prêmios no César 2014, o 'Oscar' do cinema francês, entre eles o de melhor ator, filme e roteiro. O ator que interpreta magistralmente esses papéis é Guillaume Gallienne, que tem 42 anos, pertence à prestigiada Comédie Française e também atuou como diretor e roteirista desse filme, que, segundo soube, tem um fundo autobiográfico.

Guillaume Gallienne dá um show interpretando, ao mesmo tempo, o adolescente 'Guillaume' e sua mãe.

E ainda por cima, o ator de 42 convence como adolescente!

Profundamente expressivo, o filme mostra os conflitos psicológicos do rapaz e seu relacionamento com a mãe desnaturada de uma forma leve, sensível e extremamente divertida. Enquanto seus irmãos mais velhos gostam de brincadeiras de meninos, Guillaume não tem nenhum jeito para os esportes, tomando tombos homéricos nas aulas de equitação ou sendo atropelado pelos colegas do time de rugby, dentre os vários esportes que tenta praticar sem sucesso. O menino, que sentia profunda empatia por qualquer mulher que cruzasse seu caminho, incluindo a avó e as tias, preferia imitar a imperatriz 'Sissi' no segredo de seu quarto. Como se não bastasse, sua admiração pela mãe era tão cega, que ele fazia de tudo para se parecer com ela. Um dia, essa mãe que mal lhe ouvia enviou-o à Espanha e Guillaume acabou aprendendo a dançar flamenco como uma mulher, virando motivo de chacota. Previsivelmente, sofreu bullying em todas as escolas por que passou, devido a sua suposta homossexualidade, e chegou mesmo a pensar estar apaixonado por um colega.

Ao vestir-se de 'Sissi', a imperatriz, Guillaume é flagrado pelo pai e dá uma desculpa esfarrapada.

E assim o pobre Guillaume vai experimentando com a vida e realizando tantas atividades diferentes quanto seu dinheiro permite para tentar encontrar sua identidade sexual e seu lugar no mundo. À medida que vai tomando consciência de si mesmo por meio de seus desejos, seu sentimento pela mãe vai sofrendo uma transmutação e o amor cego transforma-se em um mix de ternura, raiva e ironia.

Ninguém diz que Guillaume e sua mãe são a mesma pessoa!

Apesar do humor agridoce, o filme arranca muitas risadas em situações verdadeiramente hilariantes, como a cena em que a avó, que começa a ficar senil e a trocar as palavras, diz verdadeiras barbaridades à mesa em uma refeição com a família. Infelizmente, não sei por que cargas d’água, o filme que estreou em São Paulo há apenas um mês já saiu de cartaz! Não dá para entender, já que é tão bom. Contudo, se você tiver a oportunidade de assistir, de uma forma ou de outra, não perca! Trata-se de excelente cinema em um filme sensível como poucos. 

Françoise Fabian interpreta a chique avó de Guillaume em uma das cenas mais hilárias do filme.

Ficha técnica parcial

Título original: Les garçons et Guillaume, à table!
Direção: Guillaume Gallienne
Elenco: Guillaume Gallienne (Guillaume e sua mãe), André Marcon (pai de Guillaume), Françoise Fabian (avó), Diane Kruger (Ingeborg)