sábado, 25 de março de 2017

Abre o primeiro museu dedicado a Camille Claudel.


Pela primeira vez no mundo, um museu dedicado à escultora Camille Claudel (1864-1943) abre suas portas. A inauguração será amanhã (domingo, 26/3/2017) em Nogent-sur-Seine, pequeno distrito do departamento de Aube que fica a pouco mais de uma hora a sudeste de Paris. Finalmente o mundo poderá homenagear essa grande artista que sofreu com a crueldade da família e teve uma vida trágica que inspirou várias obras biográficas, nem sempre fiéis à realidade. Mas quem era realmente Camille Claudel?

Antes de responder a essa questão, vamos nos situar no ano de 1962. Naquela data, Pierre Claudel, filho do escritor Paul Claudel, desejou oferecer a Camille Claudel, irmã de seu pai, "uma sepultura mais digna da grande artista que ela foi". Escreveu então ao prefeito de Montfvafet, pequeno distrito perto de Avignon onde sua tia morreu em 19 de outubro de 1943. Resposta do administrador: "Lamento informar que o terreno foi retomado pelo serviço do cemitério, uma vez que informações referentes à família da falecida não nos tenham sido fornecidas". Em outras palavras: a pobre Camille não dispunha nem mesmo de uma sepultura digna. Em sua morte, no asilo de doentes mentais de Montfavet, seus restos terminaram numa vala comum. E ninguém de sua família apareceu para o último adeus.

"A escultura? Um métier que não é feminino!"

Nascida em 1864, Camille tem quatro anos a mais que seu irmão Paul. Desde a adolescência apresenta uma evidente vocação artística encorajada pelo pai, uma das poucas pessoas próximas a reconhecer verdadeiramente seu talento. Camille modela em argila. Sua personalidade forte contraria a mãe, personagem dura e autoritária que se revelará, mais tarde, uma megera digna de filme de terror. Quando a adolescente declara um dia o desejo de abraçar a carreira artística, ouve da família: "Você não fará escultura, esse métier não é feminino!"  Camille persiste. Quando ela completa 12 anos, o escultor Alfred Boucher se impressiona com o talento da menina e lhe dá as primeiras lições. Mais tarde, consegue persuadir o pai dela a deixá-la se instalar em Paris. Em 1883, Camille torna-se, aos 19 anos, aluna de Auguste Rodin (1840-1917) no depósito de mármores do Estado, na rue de l’Université. O escultor conta então 43 anos.

Camille Claudel e Jessie Lipscomb em seu ateliê na rua Notre-Dame-des-Champs, 117,
Paris. Foto de William Elborne, 1887. Crédito: © ADAGP. Paris, 2012

Primeiramente modelo, depois colaboradora, a jovem tem um dom que impressiona o mestre. Rapidamente, surge uma paixão louca entre os dois artistas – aquilo que os franceses chamam de "amour fou" - um amor violento, incandescente, o encontro de dois seres excepcionais que têm noção de sua singularidade e de seu gênio.

Auguste Rodin fotografado por Dornac em 1898.

Posteriormente, Rodin escreveu a Camille: "Não tenho arrependimentos, nem do desfecho que me parece fúnebre - minha vida cairá num abismo. Mas minha alma floresceu, infelizmente muito tarde. Foi preciso que eu te conhecesse e tudo adquiriu uma vida desconhecida, minha terna existência inflamou num fogo de alegria. Obrigada, porque é a você que devo toda a parcela de céu que tive em minha vida. (...) Ah, beleza divina, flor que fala, e que amo, flor inteligente, minha querida. Minha muito amada, sobre dois joelhos estou diante de teu belo corpo, e o abraço."

Camille também escreveu àquele que continuava a tratar por "senhor Rodin": "Deito-me toda nua para me fazer crer que você está lá, mas, quando acordo, não é mais a mesma coisa. Beijo-te." E este post-scriptum revelador: "Sobretudo, não me engane mais!" Rodin não é exatamente o homem mais fiel do mundo. Ele vive com uma antiga modelo, Rose Beuret, a qual conheceu em 1864, ano do nascimento de Camille. Rose é costureira, filha de um agricultor. 
O amor devastador de Camille e Rodin durará dez anos e terá uma influência decisiva sobre o trabalho de ambos. É nesse período que ela cria suas obras mais sublimes: 'O Abandono' (ou 'Sakountala'), 'A Valsa', 'Clotho', 'A Suplicante', 'A Idade Madura'.

Camille Claudel - 'O Abandono' (1905) versão posterior em bronze da obra 'Sakountala'
  
(1888), que ganhou Menção Honrosa no Salão.
Altura: 42,3 cm / Largura: 39,1 cm / Profundidade: 20,5 cm.

"Camille Claudel, a brilhante aluna de Rodin"

Excessiva, irascível, muitas vezes violenta, Camille conhece a qualidade artística do trabalho de seu amante, mas não suporta sua negligência amorosa. Por que ele não deixa Rose Beuret? Existem alguns desenhos de Camille nos quais a parceira de Rodin é representada com os traços de uma feiticeira grotesca ou em poses que imitam a cópula dos cães. No plano artístico, ela suporta cada vez menos ser designada como "a aluna brilhante de Rodin". Ela escreve ao amante, com muita lucidez: "Corro grande risco de nunca colher o fruto de meus esforços e de me extinguir na sombra da calúnia e das suspeitas maldosas..." Em 1911, escreveu a seu irmão Paul, com uma ponta de amargura: "As ovações desse homem célebre me custaram os olhos da cara e, para mim, não sobra nada!"

"Rodin é mais escandaloso, mas Camille Claudel é mais revolucionária" - Octave Mirbeau

Camille Claudel permanecerá eternamente à sombra de seu mestre? Sua escultura 'Sakountala' (posteriormente renomeada como 'O Abandono') foi exibida em 1888 e obteve o Prêmio do Salão. Octave Mirbeau, escritor e crítico de arte, elogiou seu trabalho em diferentes ocasiões, em comentários críticos. Em seu primeiro artigo, evocando o Salão em 1893, no qual são apresentados os trabalhos dos dois escultores, ele escreve com grande pertinência: "Rodin é mais escandaloso, mas Camille Claudel é mais revolucionária." De fato, Camille sabe o valor de seu trabalho. Mas quando poderá voar com suas próprias asas? Nunca. E sua vida, até então difícil, se tornará excruciante.

Camille Claudel - 'A Valsa' (1889-1905) - arenito - H: 41,5 cm / L: 37 cm / P: 20,5 cm

10 de março de 1913: Camille é internada.

Diplomata e escritor, Paul Claudel execra Rodin e sua obra. Fica chocado com a sensualidade inovadora de suas esculturas, reprova sua audácia artística e abomina sua influência sobre a irmã. Certa vez, escreveu: "Rodin exerceu sobre seus anos de juventude uma ascendência frequentemente cruel". Já bem mais velho, Paul Claudel escreveu sobre a irmã: "Eu vejo, emergindo da infância, essa jovem figura triunfante, seus belos olhos azuis escuros, os mais belos que jamais havia visto, que se fixam com zombaria sobre esse irmão desengonçado".

Desenho de Camille Claudel - 'Paul Claudel aos 20 anos' (1888)

No dia 2 de março de 1913, os irmãos Claudel perdem o pai. E Camille perde, a partir de então, seu apoiador mais leal. Tudo indica que a família não a avisa sobre o falecimento. Aliás, havia alguns anos a família a evitava. Sua ruptura com Rodin, em maio de 1894, enclausurou-a numa solidão a princípio bem-vinda, mas que acaba por sufocá-la. Camille vive miseravelmente em seu ateliê, tem acessos de cólera e, vira e mexe, destrói seus trabalhos. Vive quase como uma mendiga, numa sujeira repulsiva. Vocifera e denuncia "o bando de Rodin" que, segundo ela, quer envenená-la e roubar suas obras.

Camille Claudel - 'A Suplicante' (1905) - bronze - H: 67 cm / L: 72 cm / P: 59 cm

Camille incomoda. O escândalo ameaça estourar. Sua família decide, então, interná-la. Sua mãe, aos 73 anos, assina uma "solicitação de internação compulsória". Em 10 de março de 1913, um furgão estaciona diante do número 19 do cais Bourbon, da Ilha de Saint-Louis, em Paris. Camille se tranca. Dois enfermeiros são obrigados a entrar pela janela e agarram a artista. Nunca mais Camille será livre.

Placa na fachada do apartamento de Camille Claudel, no cais Bourbon, 19,
Paris, onde ela viveu de 1899 a 1913. "Há sempre algo de ausente que me
atormenta", escreveu ela a Rodin em 1886.
Até hoje questiona-se se Camille era realmente tão insana a ponto de justificar uma internação compulsória. Paul Claudel escreveu a respeito: "Foi preciso intervir, os proprietários daquela velha casa do cais Bourbon reclamavam: 'Por que as persianas desse apartamento térreo estão sempre fechadas?' 'Quem é essa personagem abatida e amedrontada que vemos sair de manhã somente para recolher os itens de sua alimentação miserável?'"

Em agosto de 1987, no jornal Le Monde, o professor François Lhemitte, especialista em neurologia e neuropsicologia no hospital Salpêtrière iria rever esse assunto. Escreve: "Camille Claudel, em 1905, já era vítima de um delírio paranoico de perseguição, delírio conhecido como irreversível, perigoso e incurável (que é ainda o caso hoje). Essa foi a razão de sua internação em 1913 e da renovação dessa medida até sua morte. Camille Claudel, convencida de que Rodin queria envenená-la, continuou, mesmo após a morte deste último, a se recusar a se alimentar, exceto por ovos frescos (que ela mesmo cozinhava)."

Porém, pode haver uma questão mais íntima que tenha agravado a frágil saúde mental da artista. Dizem que Camille, grávida de Rodin, fez dois abortos. Sabemos que ela era uma mulher hipersensível, passional, e sua psique instável pode ter sucumbido a essas provações. Não se trata de simples suposição. Em 1939, Paul Claudel escreveu a uma mulher que lhe confessou ter feito um aborto: "Saiba que uma pessoa da qual sou muito próximo cometeu o mesmo crime que você e que ela o expia há muitos anos num asilo de loucos. Matar uma criança, matar uma alma imortal, é horrível! É aflitivo!"

Por outro lado, em 19 de setembro de 1913, o jornal L'avenir de l'Aisne ("O futuro de Aisne"– Aisne é uma região da França) evoca a internação supostamente abusiva de Camille Claudel: "... em pleno trabalho, em plena possessão de seu belo talento e de todas as suas faculdades intelectuais, os homens foram à sua casa, jogaram-na brutalmente num carro apesar de seus protestos indignados..."  Foi lançada, então, uma campanha na imprensa contra o "sequestro legal". Ela tinha como alvo a família de Camille Claudel, acusada de desejar se livrar da moça, e solicitava a revogação da lei de 30 de junho de 1838 sobre os pacientes psiquiátricos. Infelizmente, no caso de Camille, foi em vão.

Camille Claudel, trinta anos de solidão atroz.

Camille foi primeiramente admitida no Hospital Psiquiátrico de Ville-Evrard, reservado às mulheres, e em 9 de setembro foi transferida para o asilo psiquiátrico de Montdevergues, em Montfavet, perto de Avignon. O estabelecimento tinha a reputação de um matadouro e Camille foi instalada sem nenhum conforto num dormitório de terceira categoria, dos piores do lugar, ao lado de dez a 15 pessoas. Tarifa: 6 francos por dia.

A artista se recusa a esculpir porque isso significaria aceitar sua condição e ela não pensa em outra coisa a não ser sair desse pesadelo. Sua mãe, que era sua maior algoz, lhe proíbe as visitas e todas as relações com o exterior e escreve ao diretor da instituição: "... Quando ela estava em sua casa, não recebia ninguém (...) por que agora faria questão de visitas?" Além disso, as cartas de Camille são apreendidas e destruídas e ninguém lhe entrega correspondência. Ela nunca receberá uma única visita da mãe, que morre em 1929, nem de sua irmã. Seu irmão Paul a visita somente uma dúzia de vezes em 30 anos.

Asilo psiquiátrico de Montdevergues, em Montfavet, para onde Camille foi transferida em setembro de 1913.

"Eu reclamo por liberdade em altos brados" - Camille Claudel

Presa de uma solidão atroz e desumana, Camille envia uma carta arrasadora a seu irmão, no dia 3 de março de 1927:

"Meu lugar não é no meio disso tudo, é preciso me tirar daqui. Após 14 anos de tal vida eu reclamo por liberdade a altos brados. Meu sonho é voltar para Villeneuve imediatamente e nunca mais sair de lá, eu preferiria uma granja em Villeneuve do que uma hospedagem de primeira aqui. (...) Não é sem pesar que vejo você gastar seu dinheiro num asilo de loucos. Dinheiro que poderia me tornar útil para criar belas obras e viver agradavelmente! Que infelicidade! Eu choro. Converse com o senhor Diretor para me trocar de instalações ou então tire-me daqui imediatamente, o que seria muito melhor; que felicidade se eu pudesse estar em Villeneuve! Aquela bela Villeneuve à qual nada se compara sobre a terra! Faz 14 anos que tive a desagradável surpresa de ver entrar, em meu ateliê, dois sabujos armados com todo o aparato, capacetes, botas, ameaçadores em todos os sentidos. Triste surpresa para uma artista: no lugar de uma recompensa, veja o que me acontece! É por sua causa que acontecem tais coisas porque sempre fui alvo da maldade. Deus! O que tenho suportado desde aquele dia! E nada de esperança que isso acabe. Cada vez que escrevo à mamãe para me levar de volta a Villeneuve, ela responde que sua casa está prestes a cair, é curioso de qualquer forma. Enquanto isso, estou ávida para deixar este lugar, quanto mais o tempo passa, mas duro fica! Sempre chegam novas pacientes, somos umas sobre as outras (...) faz pensar que todo o mundo está ficando louco. Não sei se você tem a intenção de me deixar aqui, mas é bem cruel para mim!..."

Nada dessa carta desesperada indica a mínima desordem de suas faculdades mentais. Entretanto, eistem outras correspondências nas quais Camille continua a se queixar do "bando de Rodin" que quer envenená-la e ela se exalta com afirmações quase delirantes, mas, em tal atmosfera e tal solidão, como poderia ser diferente? Que pessoa poderia suportar tal suplício sem perder a sanidade? Camille viverá esse inferno até o último dia de sua vida.

Rodin, que morrerá em 1917, está a par da situação. Transtornado, tentará conseguir algum dinheiro para Camille e fará uma exposição de suas obras, mas não será de nenhuma utilidade para ela se livrar do hospício. Até porque, legalmente, ele está impedido de fazê-lo – a família Claudel é a única apta a tomar decisões.

À esquerda, uma foto de Camille Claudel tirada antes de 1883. À direita, a artista em 1929, aos 65 anos, no asilo de Montfavet.

"O peso do gênio é penoso para uma mulher carregar" – Paul Claudel

É possível que Paul Claudel, que viria a se tornar diplomata e escritor de renome, imaginasse que Camille pudesse dar algum escândalo e manchar sua reputação, caso saísse do asilo. Os anos passam. O hospício lhe escreve para transmitir notícias de sua irmã. Durante a Segunda Guerra Mundial, vítima dos racionamentos alimentares, Camille começa a ficar com a saúde cada vez mais debilitada. Faminta, já que as restrições alimentares durante a guerra atingem todos os estabelecimentos hospitalares, ela morre, sozinha, em 19 de outubro de 1943. Seu corpo, não reclamado pela família, é depositado na vala comum.

No dia seguinte à sua morte, numa carta a seu cunhado, Paul Claudel escreve: "Camille terminou sua longa vida de decepções e de sofrimento. O peso do gênio é penoso para uma mulher carregar!... Meu consolo é que esses trinta anos de sofrimento certamente lhe valerão o acesso a um plano melhor. O capelão me disse que ela sempre comungava com sentimentos de grande fé. Uma longa vida de decepções e sofrimento". A frase é exata. E a carta, de uma hipocrisia impressionante.

Agora, mais de 70 anos após sua morte, Camille finalmente recebe uma homenagem à altura de seu gênio. Projetado pelo arquiteto Adelfo Scaranello, o Museu Camille Claudel exibe mais de 40 esculturas da artista e concretizou-se graças ao mecenato de algumas empresas e à parceria público-privada. Localizado numa propriedade onde a família Claudel viveu entre 1876 e 1879, anexou também o antigo museu Dubois-Boucher, dedicado aos escultores Paul Dubois (1829-1905) e Alfred Boucher (1850-1934), primeiro mestre de Camille.

Se você estiver nas imediações de Paris e quiser conhecer o MUSEU CAMILLE CLAUDEL, anote o endereço: 10, rue Gustave Flaubert, Nogent-sur-Seine. Tel.: 03 25 24 76 34. www.museecamilleclaudel.fr. Abre em 26 de março de 2017. Você pode ir de trem a partir da Gare de L’Est, em Paris, e o museu fica a cinco minutos a pé da estação ferroviária. Se você for de automóvel, há dois estacionamentos gratuitos: o Fournier no número 1, rue Paul Fournier, ou então o estacionamento da igreja no centro da cidade. Bom passeio!

8 comentários:

  1. Nossa! muito tocante e assertivo apresentar a genialidade de Camille Clauder e sua vida sem perde a justa medida do que lhe sufocou!

    ResponderExcluir
  2. Muito bem! Saber disso é muito, muito gratificante. Abraços.

    ResponderExcluir
  3. Muito triste a história de vida de Camilla Clauder.Pessoas do bem sofrem e são muitos injustiçados. QUE bom que ainda existem pessoas de bons senso e eternizadas esta artista fantástica

    ResponderExcluir
  4. É lastimável e triste o fim dessa mulher. Um genio da arte. Sensível e apaixonante... estive diante suas obras bo museu de Rodin em Paris, e me sensibilizo muito ao saber detalhes do seu "destino". É assim até hoje! Se livram sem cerimonia de mulheres/artistas que revolucionam, não só a arte como a vida de gente que não sabe o que é ser especial.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, também tive a oportunidade de visitar o Museu Rodin em Paris e concordo totalmente com você. Pelo menos agora, com o Museu Camille Claudel, esperemos que a injustiça seja reparada, mesmo que em parte e ainda que tardiamente.

      Excluir