quarta-feira, 22 de março de 2017

Pinturas desaparecidas de Van Gogh são exibidas em Amsterdã e ganham documentário polêmico.

Fontes: Artnet e The New York Times

Acusado do roubo oferece relato detalhado sobre o furto de 2002.


Vincent Van Gogh - 'Vista da praia de Scheveningen'(1882)- Museu Van Gogh - Amsterdã

O Museu Van Gogh, de Amsterdã, acaba de fazer uma coletiva de imprensa para celebrar o retorno e a exibição de duas obras primas que há muito haviam sumido de suas paredes: 'Fiéis deixando a Igreja em Nuenen' (1884-5) e 'Vista da praia de Scheveningen' (1882), de Vincent Van Gogh. Ambas haviam sido furtadas há mais de 14 anos, na noite de 7 de dezembro de 2002, em uma ação que durou menos de 4 minutos.

O valor das pinturas é inestimável porque elas nunca estiveram disponíveis no mercado. 'Vista da praia de Scheveningem' é uma das duas únicas obras que Van Gogh pintou durante seus anos na Holanda, e 'Fiéis deixando a igreja em Nuenen' mostra a igreja onde o pai do artista era pastor - o quadro foi um presente para sua mãe. Só para lembrar: pinturas de paisagens de Van Gogh valem, nos leilões de arte, entre dez e 70 milhões de dólares.

Ao mesmo tempo, o jornal The New York Times publicou uma grande matéria sobre um documentário a ser veiculado na TV holandesa KRO-NCRV e que teria como destaque, numa abordagem ousada, o ladrão que admitiu sua culpa pela primeira vez em todos esses anos. Segundo o jornal, a jornalista Nina Seagal conversou com o homem, um holandês chamado Octave Durham que, assumidamente, é – ou era – um criminoso de carreira.

Vincent Van Gogh - 'Fiéis deixando a Igreja em Nuenen' (1882) - Museu Van Gogh - Amsterdã

O Museu Van Gogh ainda está tão furioso com Durham que se negou a cooperar com o documentário e criticou duramente o fato de que seu foco esteja voltado para o criminoso. Contudo, a equipe do museu conversou com Siegal, e o diretor da instituição, Axel Rüger, afirmou: "O museu é vítima neste caso e eu esperaria uma atitude muito diferente de alguém que mostrasse remorso... Durham sabia exatamente o que estava fazendo e nunca disse uma palavra. Para nós, parece que ele está apenas atrás dos holofotes".

O cineasta Vincent Verweij defendeu sua decisão de oferecer a Durham uma plataforma, mesmo tendo consciência da "ética duvidosa" associada ao fato. Além disso, diz que Durham não recebeu nenhuma compensação por sua participação no filme. "O interessante é que você nunca vê documentários ou artigos sobre roubo de arte sob a perspectiva do criminoso", disse o documentarista. "É sempre com os experts, os profissionais do museu, os promotores, mas nunca com aqueles que efetivamente cometem o crime, e eu acho que essa é uma perspectiva única. Não foi pensada para ser uma glorificação desse homem".

Durham aparece como uma personalidade curiosa. "Algumas pessoas nascem professoras. Outras, jogadoras de futebol. Eu nasci ladrão", conta ao Times.

Octave Durham, o ladrão cara de pau.

Durham roubou o museu não por encomenda de algum gangster ou um especial interesse em arte, mas simplesmente porque o roubo lhe pareceu fácil. Ele não conhecia a história das pinturas. Disse que as roubou porque elas eram as menores da galeria e as mais próximas do buraco por onde ele havia entrado no museu. Enfiou-as numa sacola e escapou por uma corda que ele e seu cúmplice, Henk Bieslijn, haviam preparado do lado de fora. 

Após roubarem as obras, os dois homens tentaram vendê-las para um criminoso holandês chamado Cor van Hout (condenado por sequestrar em 1983 Alfred Heineken, o magnata da cerveja). Mas houve uma dramática reviravolta: Van Hout foi assassinado no mesmo dia em que a transação seria efetuada.

Durham e Bieslijn venderam então as pinturas para um capo mafioso italiano, Raffaele Imperiale, por algo em torno de 350 mil euros, dividiram o butim e partiram para uma farra turística internacional. Mais de uma década se passou sem pistas. Porém, em setembro último, autoridades italianas encontraram as obras na casa da mãe de Imperiale, perto de Nápoles, embrulhadas em tecidos de algodão e próximas à cozinha. Imperiale havia fugido para Dubai em 2013 ou 2014 e está prestes a ser extraditado para a Itália, onde foi sentenciado a vinte anos de prisão por múltiplos crimes não limitados à sua conexão com o furto das obras.

Quanto a Durham, foi liberado da prisão em 2006 e pagou uma multa de cerca de 60 mil euros de um total estipulado em 350 mil. Posteriormente, foi preso novamente devido a um roubo frustrado a banco. Em 2013, ele contatou o Museu Van Gogh e ofereceu sua ajuda para recuperar as obras, ainda alegando inocência. Compreensivelmente, o museu recusou a oferta e ficou ultrajado com sua sugestão de comprar as obras de volta.

Durham encontrou Verweij em 2015 e lhe confidenciou que desejava ajudar a encontrar as pinturas, para que pudesse se redimir de seus crimes, mas, inexplicavelmente, ainda alegava inocência ao cineasta. Verweij relatou seu ceticismo em relação a Durham e retrucou, na ocasião, que não acreditava em sua inocência. Pouco depois, concordou em encontrar Durham num café, "e ele admitiu ter mentido e roubado as obras". Sua confissão para as câmeras confirma as antigas suspeitas, mas não terão implicações legais para o criminoso. O documentário será exibido ainda esta semana na televisão holandesa, mas creio que não tardará a estar disponível na web. Vale ficar de olho!

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