sábado, 11 de março de 2017

Serra Velha de Santos. Uma caminhada pelas curvas da história.

Desde criança eu costumava descer para o litoral com a família e adorava quando meu pai pegava a Estrada Velha de Santos. Eu ficava fascinada com as casas de pedra ao longo da serra, imaginando que deveriam ser construções muito antigas. Sem falar, naturalmente, que a paisagem exuberante da Mata Atlântica também acendia minha imaginação. Como meu pai nunca parou em nenhuma daquelas casas para que pudéssemos visitá-las, cresci com essa curiosidade, até descobrir, anos atrás, que a Estrada Velha estava fechada para automóveis e aberta somente para caminhadas turísticas.

Finalmente, pude matar minha vontade. No mês passado fiz uma caminhada na Serra Velha, também conhecida como rodovia Caminho do Mar (SP-148). Mas antes de contar como foi o passeio, vale voltar um pouquinho no tempo para situá-la na história. Construída na década de 1920, essa estrada foi a primeira a ser pavimentada com concreto na América do Sul. Naquela mesma época, foram construídas as tais casas de pedra ao longo da rodovia, com o objetivo de celebrar o centenário da Independência do Brasil, comemorado em 1922. Em 1947, com a construção da Via Anchieta, a Estrada Velha começou a entrar em decadência e foi  fechada para veículos em 1985 por motivo de segurança.

Em 2004, o Governo do Estado de São Paulo resolveu abrir a rodovia para a prática de ecoturismo e, de lá para cá, as pessoas têm tido a oportunidade de percorrer seus oito quilômetros a pé, apreciando a exuberante paisagem da Mata Atlântica que integra o Parque Estadual da Serra do Mar. São 700 metros de altitude partindo de São Bernardo do Campo até a chegada a Cubatão, lá embaixo, no nível do mar.

Foto: riachogrande.net

Lindos manacás cor-de-rosa dominavam todo o trecho da estrada e também apareciam em vários pontos da paisagem da serra.

Os manacás da serra são um espetáculo! - Foto: Simone Catto

Durante o trajeto também não faltam bicas e cachoeiras! Mas atenção: nem sempre a água é potável devido à proximidade com Cubatão.

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A primeira construção histórica que visitamos em nossa descida foi o Pouso Paranapiacaba, uma casa em alvenaria, rochas, tijolos e granito lavrado. Ponto de parada de carros durante a viagem entre Santos e São Paulo, o Pouso possui um painel de azulejos pintados retratando o mapa do Estado e as estradas existentes à época. "Paranapiacaba", em tupi, significa "local de onde se vê o mar". Não vimos o mar, mas pudemos ter uma vista aérea de Cubatão, apesar de um pouco de nebulosidade.

O Pouso Paranapiacaba e nossa turma de andarilhos - Foto: Simone Catto

Detalhe do Pouso Paranapiacaba com o mapa de São Paulo - Foto: Simone Catto

A construção é imponente... - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Embora fizesse bastante calor naquele dia, o céu estava um pouco encoberto - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A próxima parada foi no Padrão do Lorena, um monumento construído em 1922 em homenagem a Bernardo José Maria de Lorena, governador da Província de São Paulo. Porém, não chegamos até o monumento pela estrada de concreto. Percorremos um pequeno trecho da famosa – e histórica - Calçada do Lorena. Construída em 1792 a mando do governador Bernardo Lorena e restaurada em 1992, essa calçada foi o primeiro caminho pavimentado com pedras na região da Serra do Mar, ligando São Paulo ao porto de Cubatão. Muitas mercadorias eram transportadas por ali, no lombo de mulas. Dizem que D. Pedro I passou pela Calçada do Lorena para ir de Santos às margens do Rio Ipiranga proclamar a Independência do Brasil. Se é verdade, não sabemos. Mas impossível não é!

Padrão do Lorena - Foto: Marcel Vincenti

Lateral do monumento - Foto: Simone Catto

O governador Bernardo Lorena, que mandou construir a Calçada do Lorena, foi homenageado nesta azulejaria no interior do arco do Padrão do Lorena. Não sabemos se os azulejos são portugueses, mas o estilo sem dúvida é!  

 Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A lendária Calçada do Lorena - Foto: Marcel Vincenti

Outro ângulo da Calçada - Foto: Marly Paes

Mais para a frente, paramos no Rancho da Maioridade, batizado em alusão à Estrada da Maioridade, de 1846, que homenageava a maioridade de D.Pedro II. Lá fizemos um reforçado lanche ao ar livre apreciando a belíssima paisagem da serra. Um privilégio!

Rancho da Marioridade - Foto: Simone Catto

Aqui fizemos o nosso lanche! - Foto: Simone Catto

Detalhe: havia toaletes à disposição no interior da casa, porém eles estavam muito mal conservados. A esse respeito, aliás, é preciso dizer que o interior das construções precisa urgentemente de um restauro, pois algumas partes do teto até ameaçavam cair. Atenção, Governo do Estado!!

Fundos do Rancho da Maioridade - Foto: Simone Catto

Detalhe da entrada dos fundos - Foto: Simone Catto

Banco no terraço do Rancho da Maioridade, com um belo trabalho de azulejaria - Foto: Simone Catto

O interior da construção precisa de uma boa restauração! - Foto: Marly Paes

O passeio exige um preparo físico razoável e joelhos fortes porque a descida força a panturrilha. Nada impede que você também faça o caminho contrário e suba a serra, naturalmente, mas aí a caminhada fica mais pesada. De uma forma ou de outra, é fundamental usar tênis apropriados, protetor solar, óculos escuros, chapéu e repelente de mosquitos. No dia do passeio fazia um sol intenso e nem o protetor solar deu conta do recado. É importante levar lanche e água, pois não há restaurantes no trajeto. 

Como fiz o passeio com a agência de turismo Siga Brasil (facebook.com/sigabrasiltur), o pacote incluiu traslado de ônibus – ida e volta, lanche, o acompanhamento de dois guias e um almoço no restaurante Rei do Abadejo, no Riacho Grande. O restaurante é simples, mas a comida é deliciosa e os pratos são para lá de fartos. 

Às 7h da manhã os ônibus saíram dos terminais rodoviários Jabaquara (São Paulo) e Ferrazópolis (São Bernardo do Campo) até a rodovia Caminho do Mar. O lanche que comemos durante a caminhada, caprichado, tinha maçã, goiaba, sanduíche de queijo e peito de peru com requeijão no pão de forma, barras de cereais, biscoitos doces e salgados e refresco de açaí. Deu para alimentar com folga até a hora do almoço chegar. Além dos dois guias da agência, um monitor do Parque Estadual da Serra do Mar também nos acompanhou e explicou um pouco sobre a fauna, a flora e a história do lugar. No total, a contar do encontro na rodoviária de manhã, até a volta do almoço e o retorno à rodoviária, o passeio durou umas dez horas. Vale muito a pena, recomendo!

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