sexta-feira, 27 de junho de 2014

A reconstrução de Cézanne por Renato Brolezzi.

Ele não tem uma biografia conturbada como a de Van Gogh ou Modigliani. Não era bêbado como Toulouse-Lautrec ou Maurice Utrillo e tampouco passou necessidades como Monet ou Gauguin. Muito pelo contrário. Paul Cézanne (1839-1906), tema de mais uma aula no MASP com o excelente prof. Renato Brolezzi, da Unicamp, era um artista metódico, disciplinado e rico. Seu pai, que em princípio exportava chapéus e já gozava de boa situação financeira, enriqueceu ainda mais ao fundar um banco. Por isso, Cézanne teve condições de se dedicar unicamente à única coisa que dava sentido à sua vida: pintar.

O ponto de partida para estudarmos o pintor foi a obra 'O Grande Pinheiro', realizada entre 1892 e 1896 e que faz parte do acervo do MASP. Esse quadro foi pintado na cidade natal do artista, Aix-en-Provence, em uma floresta de pinheiros próxima à montanha de Sainte-Victoire. (Obs.: Cézanne pintou mais de 80 versões da montanha de Sainte-Victoire!).

Cézanne - 'O Grande Pinheiro' (c. 1892-1896) - óleo s/ tela - MASP

Mas o que pretendia Cézanne? Apesar de ter estudado arte acadêmica como todo grande artista da época, tanto em Aix quanto em Paris, onde também copiou obras Louvre para treinar a mão, ele aspirava a muito mais. Primeiramente, Cézanne não pretendia criar representações do visível. Não se contentava em copiar a natureza, queria mesmo era recriá-la. E fazia isso deformando-a para reconstruí-la como obra de arte. O artista sequer se referia a suas paisagens como tais, mas como "construções a partir da natureza".

Apesar de ter flertado com o Impressionismo no início da carreira e inclusive ter nutrido profunda amizade por vários pintores da escola, como Renoir e Pissaro, Cézanne logo se desgarrou do rebanho para se lançar em uma busca incessante – e extremamente penosa – por uma linguagem particular. Ao contrário do que pregava a estética impressionista, não tinha a intenção de transmitir a impressão fugidia das coisas, mas capturar o tempo pela permanência, "refazer o impressionismo com solidez". Essa permanência do tempo é perceptível na obra estudada, 'O Grande Pinheiro', na qual o pinheiro envergado pelo vento parece congelado. Por esta razão, podemos dizer que "Cézanne captou o movimento enquanto resistência", conforme observou o prof. Renato Brolezzi.

No quadro destacam-se vários tons de azul e verde, cores recorrentes na obra do artista, e suas dimensões, 90 X 70, foram escolhidas por estarem mais próximas da geometria de Poussin, pintor pelo qual Cézanne nutria grande admiração. "Meu projeto é refazer Poussin a partir da natureza", o artista costumava afirmar. Na parte superior do quadro, podemos inclusive notar uma linha horizontal mais acentuada porque, depois que a pintura já estava pronta, Cézanne acrescentou mais 15 cm de tela para que ela se enquadrasse nos padrões de Poussin.

Vale ressaltar que raramente vemos seres humanos nas paisagens de Cézanne. Até então, a paisagem como gênero pictórico estabelecido a partir do séc. XVI por artistas como Giorgione estava a serviço do drama humano. A pintura de Cézanne rompeu com essa ordem, se desgarrando das relações com o texto. Por tudo isso, ao nos determos sobre suas paisagens, sentimos como se ele tivesse criado uma dimensão paralela à vida.

A pintura a seguir, 'A Casa do Enforcado', é considerada a primeira grande paisagem de Cézanne, foi pintada em Auvers-sur-Oise e a casa retratada realmente abrigou um pobre homem que se enforcou. Já notamos grandes verticais e horizontais, tons de laranja e verde e extrema ordem cromática e geométrica. Essa pintura foi exibida na primeira Exposição Impressionista, em 1874, e foi também a primeira obra que Cézanne vendeu. 

Cézanne - 'A Casa do Enforcado' (1873) - óleo s/ tela - Musée d'Orsay, Paris.

Cézanne - 'A Ponte de Maincy' (1879) - óleo s/ tela - Musée d'Orsay, Paris. Essa ponte localizava-se próximo a Aix-en-Provence.

Cézanne - 'Bibémus - A Rocha Vermelha' - c. 1905 - óleo s/ tela
Musée de l'Orangerie, Paris.

Um outro aspecto importante da obra de Cézanne é que, para ele, linha e cor estavam no mesmo patamar, isto é, ambas tinham a mesma importância. A exploração dos fenômenos óticos na multiplicação de planos e a simplificação das formas naturais em suas essências geométricas, características da fase madura do artista, foram fruto de um trabalho árduo, contínuo e obsessivo. Sua busca por uma nova linguagem segundo sua visão de mundo foi uma tarefa torturante na qual o pintor debatia-se e trabalhava incansavelmente, chegando mesmo a considerar a obra "superior à vida". Felizmente, Cézanne pôde dar-se ao luxo de se dedicar integralmente a essa busca porque não dependia da pintura para se sustentar – tinha o dinheiro da família. Quando seu pai faleceu, em 1886, deixou uma grande fortuna para a esposa, Cézanne e mais duas filhas. Em 1889, a família vendeu a belíssima propriedade de Jas de Bouffon, em Aix-en-Provence, e o artista construiu um pequeno ateliê em 'Les Lauves', na própria cidade, perto do bosque onde pintou 'O Grande Pinheiro'.

Cézanne Trabalhava muito devagar e às vezes levava anos para concluir uma obra. Era completamente absorvido por sua pintura, perfeccionista ao extremo, e não suportava que nada nem ninguém lhe atrapalhasse. Detestava barulho, não admitia que ninguém o visse pintando e era considerado um homem de trato difícil. Na realidade, Cézanne era, essencialmente, um homem do campo. Quem o convenceu a ir a Paris pela primeira vez foi Émile Zola, grande amigo de infância e colega de escola que, percebendo o gênio e o talento do amigo, incentivou sua arte de todas as formas. Essa bela amizade que perdurou por décadas rompeu-se tristemente em 1886, quando Zola escreveu 'A Obra', um romance no qual o personagem central, inspirado em Cézanne, é um pintor atormentado que nunca consegue concluir seu trabalho. A partir daí, os dois nunca mais se falaram.

Cézanne - 'O Assassinato' (1867-68) - óleo s/ tela. Esta obra da juventude do artista, um tanto sombria, parece inacabada.
O artista ainda não havia descoberto as cores radiosas de sua amada Provence.

Cézanne - 'Paul Alexis lendo uma carta para Émiile Zola' (1869-70) - óleo s/ tela - MASP. Zola, sentado,
está caracterizado como um sábio japonês. Vale lembrar que, à época, tudo o que era do Japão estava na moda.

Na obra a seguir, 'Castelo de Médan' (1879), Cézanne retrata a casa de Émile Zola (a casa amarela à direita). No entanto, a casa não está em primeiro plano, muito pelo contrário: está escondida, e quem ganha o primeiro plano é... a paisagem! Essa inversão de prioridade espacial constituía, também, uma subversão para a época. Pouco a pouco, Cézanne foi abandonando a perspectiva, mas seus quadros ainda dão a ilusão de profundidade. O artista criou, assim, o que chamamos de "perspectiva plana".

Cézanne - 'Castelo de Médan' (1879) - óleo s/ tela - Kelvingrove Art Gallery and Museum - Glasgow, Escócia.

Cézanne nutria profundo respeito pelo pintor impressionista Camille Pissarro, que considerava como uma espécie de mentor e com o qual chegou a passar uma temporada em Pontoise trabalhando. Ele e Renoir também sentiam grande admiração mútua, e os filhos de ambos, Paul Cézanne Filho e os três meninos de Renoir, também acabaram se tornando amigos. Paul Cézanne Filho era mais próximo do filho do meio de Renoir, Jean Renoir, que veio a se tornar o excelente cineasta que conhecemos (veja, aqui, um post sobre a biografia de Renoir escrita por seu filho Jean, um dos melhores livros que já li!).

Único filho de Cézanne, Paul Cézanne Filho nasceu em 1872 e é fruto da união do artista com Hortense Fiquet, jovem que conheceu em 1869. Por temer a reação do pai autoritário, Cézanne só foi se casar com Hortense em 1886, após o falecimento daquele. Só então a mãe de Cézanne pôde conhecer o neto.

Na pintura a seguir, 'Madame Cézanne em Vermelho' (c. 1890-94), notamos uma grande síntese plástica em que o fundo verde contrasta com a roupa vermelha da mulher. Note que ela está um pouco deslocada do eixo e seus braços sugerem uma elipse, tudo cuidadosamente pensado para gerar equilíbrio geométrico. Vale destacar que Mme Cézanne, nesta pintura, lembra um impassível ícone bizantino, já que para Cézanne não interessava mostrar emoções de qualquer espécie. 

Cézanne - 'Madame Cézanne em Vermelho' (c. 1890-94) - óleo s/ tela - MASP

Neste retrato do filho pintado entre 1881-82, Cézanne tampouco transmite emoção: a imagem está sintetizada ao extremo
e é desprovida de detalhes. A pintura está no Musée de l'Orangerie, Paris.

Durante suas estadas em Paris, Cézanne destoava do grupo de amigos pintores com seu jeito camponês e maneiras rudes, apesar de ser um homem rico. O artista se comportava como o provençal que era, falava o dialeto da região, mas possuía um espírito delicado, em total contradição com sua figura. A pintora Mary Cassat chegou a se referir a ele, certa vez, como "um rochedo com alma de anjo".

Cézanne não obteve reconhecimento em vida apesar da ajuda de amigos como o marchand Ambroise Vollard, também muito próximo de Renoir e grande incentivador dos impressionistas. Em 1895, Vollard organizou uma grande exposição sua em Paris, na qual foram exibidas mais de 150 pinturas. No retrato que o artista fez do amigo, a seguir, o pobre Vollard teve que passar por 118 sessões de pose e Cézanne fez com que o coitado se equilibrasse sobre uma cadeira que quase fez com que se espatifasse ao chão. O artista exigia imobilidade absoluta e Vollard, uma alma de infinita paciência, quase parece um bloco de pedra na pintura!

Cézanne - 'Retrato de Ambroise Vollard' (1899) - óleo s/ tela - Musée du Petit Palais, Paris.

Cézanne - 'Jogadores de Cartas' (1890) - óleo s/ tela - Musée d'Orsay, Paris.

Em 1907, foi realizado o Salão de Outono, em Paris, que exibiu uma reedição da exposição de Cézanne de 1895. Ironicamente, essa segunda exposição, realizada quando o pintor já havia falecido, exerceu grande impacto nos artistas da época. Basta dizer que foi ela que acendeu, em Picasso, a fagulha que detonou o cubismo: após visitá-la, o artista catalão nunca mais foi mais o mesmo, mudando radicalmente sua maneira de pintar. Portanto, qualquer semelhança da pintura a seguir com 'As Demoiselles d'Avignon', de Picasso, não é mera coincidência! 

Pintar nus, no entanto, era um grande tabu para Cézanne, que não era nada afeito à proximidade com as pessoas e muito menos contatos físicos. (Pergunto-me, inclusive, como ele foi capaz de produzir um filho! rs) As duas pinturas a seguir, portanto, foram realizadas com a ajuda de fotografias. 

Cézanne - 'As Grandes Banhistas' (1890) - óleo s/ tela - National Gallery, Londres.

Cézanne - 'Os Grandes Banhistas' (1890) - Musée d'Orsay, Paris.

Ao final da vida, Cézanne pintou várias naturezas mortas, entre as quais aquelas em que inclui suas famosas maçãs. O artista levava tantos dias para pintá-las, que as maçãs começavam a murchar e até acabavam mudando de cor. A natureza morta a seguir figura em uma pintura de Maurice Denis (1870-1943) na qual ele prestou uma homenagem a Cézanne.

Cézanne - 'Fruteira, copo e maçãs' - (c. 1880)

Maurice Denis - 'Homenagem a Cézanne (1900) - óleo s/ tela

Para criar sua "pintura homenagem", Denis reuniu um grupo de amigos, artistas e críticos na loja de Ambroise Vollard. Ao fundo, vemos partes de pinturas de Paul Gauguin (1848-1903) e Renoir (1841-1919). Entre as figuras presentes estão vários pintores nabis: Odilon Redon (1840-1916), no primeiro plano à esquerda, Paul Sérusier (1864-1927), à sua frente, e também Édouard Vuillard (1868-1940), Pierre Bonnard (1867-1947) e o próprio Maurice Denis.

Podemos dizer que Cézanne morreu consumido por sua própria arte. Ele costumava pegar o cavalete, dirigir-se para a floresta e trabalhar ao ar livre, usando sempre um terno – chovesse ou fizesse sol. Em uma dessas saídas, caiu uma forte tempestade e o artista pegou uma gripe que evoluiu para uma pneumonia, vindo a falecer poucos dias depois.

Veja também, aqui no blog, a cidade de Aix-en-Provence e o ateliê de Cézanne em Les Lauves, que tive a oportunidade de conhecer em uma viagem à Provence francesa.  

Se você quiser sentir o trajeto do mestre em sua busca torturante por uma linguagem própria na arte, recomendo ler o capítulo ‘A dúvida de Cézanne’, de um livro excelente que fez parte da bibliografia de minha pós-graduação em História da Arte: ‘O Olho e o Espírito’, de Maurice Merleau-Ponty.

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