domingo, 31 de maio de 2020

Reflexões de quarentena: sobre raízes, pontes e miragens.

Embora eu tenha trabalhado bastante nesses meses de confinamento, muitas vezes me flagro fazendo reflexões. Acho que é normal, uma vez que, com raras exceções, permanecemos dentro de casa o dia todo e sobra mais tempo para o exercício de pensar na vida. Sem falar que a própria situação de pandemia que estamos vivendo, com o rastro de tragédias que ela já começou a deixar atrás de si, cria um ambiente propício para nos entregarmos aos mais variados pensamentos. 

E no meio de tantos devaneios, acabei por me flagrar pensando em minha relação com as pessoas. Ou a falta dela. Nesses últimos meses, apesar da distância física e social, tive a oportunidade de reforçar os laços com amigos muito queridos. Alguns bem antigos, outros mais recentes, mas todos pessoas que já deixaram, indelevelmente, marcas positivas em minha vida. É gente que pode contar comigo e com a qual eu sei que posso contar também. Gente com a qual gosto de estar, conversar, rir e, por vezes, até chorar, quando a vida não se mostra tão gentil. Pessoas que não falham em sua amizade, coerentes no caráter e constantes no afeto. Algumas delas são do tipo que faz questão de telefonar no meu aniversário para bater papo em vez de enviar um cumprimento protocolar no WhatsApp, daqueles em que a mensagem é substituída por um gif engraçadinho. Nada contra gifs, mas, para quem não lembra, celulares foram criados originalmente para as pessoas conversarem. E para quem também não lembra o que significa "conversa", vale refrescar a memória: é uma verbalização que envolve troca de palavras e ideias entre seres humanos. Implica um emissor, um receptor e uma mensagem transmitida com o auxílio das cordas vocais. Lembrou? Que bom.

'O Almoço dos Barqueiros' (1880-1881), de Pierre-Auguste Renoir - óleo s/ tela - 130 X 173 cm - The Phillips Collection, Washington, D.C., EUA. Renoir foi um dos artistas que mais retrataram as alegrias da ternura e da amizade em suas obras.

'Duas Jovens Lendo' (1890-1891), de Renoir - óleo s/ tela - 56,5 X 48,2 cm - The Los Angeles County
Museum of Art (LACMA), EUA.

Outros amigos, normalmente os mais jovens ou que conheço há menos tempo, preferem enviar mensagens pelo WhatsApp. Escrevem palavras carinhosas cuja sinceridade reconheço, recebo com alegria e faço questão de retribuir. Porém, mais dia, menos dia, a gente acaba se falando ou se encontrando. Em tempos de pandemia, por motivos óbvios, esses encontros têm acontecido somente pelas chamadas de vídeo, mas, de uma forma ou de outra, sempre tenho o prazer de ouvir suas preciosas e tão necessárias vozes.

'The Stepping Stones' (data indefinida), de Thomas Brooks - óleo s/ tela - 89,0 X 63,5 cm
coleção particular.

E reflexão vai, reflexão vem, deparo-me com uma outra categoria de pessoas, felizmente rara: as que já foram amigas – ou pelo menos que eu julgava que fossem – mas que, por razões misteriosas e alheias a meu entendimento, deixaram de ser. É gente que parou de se comunicar, de retornar ligações ou mensagens, mesmo após minhas tentativas. Um desses casos ocorreu há muito tempo, mas, como mencionei anteriormente, nesse período dentro de casa temos mais tempo para remexer as "gavetinhas" do cérebro. E hoje, olhando em retrospectiva para o referido caso, percebo que mesmo na época em que tínhamos amizade, a pessoa em questão já dava sinais sutis de possuir uma psique meio disfuncional, por assim dizer. Reconheço que talvez esteja afirmando, eufemisticamente, que ela tivesse um distúrbio de personalidade, mas tive esse insight anos atrás, após um episódio incompreensível envolvendo uma brusca mudança de comportamento em um intervalo de menos de 24 horas. Foi muito triste porque se tratava de uma amizade de longa data, mas não vejo outra explicação a não ser um possível distúrbio psíquico. Afinal, muitas vezes não é preciso ser psiquiatra ou psicólogo para detectar problemas em alguém - basta um mínimo de sensibilidade e experiência de vida. Nesse caso, quando não podemos ajudar a pessoa (como infelizmente não pude), resta-nos lhe desejar boa sorte.

Porém, excetuando-se os casos supostamente "patológicos", há também pessoas que são egoístas, pura e simplesmente. Algumas abrem mão de amizades de anos sabe-se lá por que, talvez embrutecidas por uma certa mesquinhez de espírito que mine aquela generosidade, delicadeza e disposição internas essenciais à preservação das raízes e vínculos humanos. E outras, ainda, fechadas em seus mundos virtuais, são incapazes de estabelecer ou sustentar pontes que as conectem ao outro e à vida real. Uma vida na qual gente de carne e osso se encontra, troca experiências, ri junto, debate e por vezes discorda, porém criando, na alegria, na tristeza ou na "braveza", um reservatório mútuo de afetos que minimiza as agruras da existência. Suspeito, aliás, que muitas vezes a deficiência emocional desse tipo de gente tenha origem, entre outras razões, no fato de essas pessoas não terem "aprendido o afeto" na infância com quem tinha o papel e o dever de lhes ensinar: suas mães e pais. É fato que crianças que não recebem o devido carinho materno durante o período que os neurologistas denominam "janela de oportunidade", nos primeiros anos de vida, têm suas conexões cerebrais fechadas para a compreensão e a expressão do sentimento de amor saudável, ao mesmo tempo em que, como uma forma inconsciente de autodefesa, tornam-se por vezes apáticas e reativas, quando não francamente rudes ou violentas, dependendo do meio social onde estão inseridas. E antes que você pense que eu esteja arriscando um "psicologês" de botequim, já adianto que muitas de minhas reflexões sobre relações de amizade nesse período de quarentena receberam um input extra do psiquiatra Norman Doidge, autor de um excelente livro sobre neurociência que estou tendo o prazer de reler neste momento. Fato é que, independentemente dos motivos que levem alguém a não corresponder às nossas iniciativas de preservar, estabelecer ou retomar laços de amizade, apesar de nossa boa-vontade, só nos resta duas coisas a fazer: esquecer a pessoa e voltar o rosto para quem faz sentido.

'Un Idylle de la Petite Enfance' (1900), de William-Adolphe Bouguereau - óleo s/ tela - 130 X 102 cm - Denver Art Museum, EUA.

E por falar em gente que faz sentido, essa quarentena também me permitiu, graças às redes sociais, resgatar o contato com ótimos amigos que haviam ficado para trás na minha linha do tempo. Como verdadeiros tesouros perdidos que as ondas do mar tivessem devolvido à costa pela correnteza, essas pessoas reapareceram afáveis, gentis, exatamente do jeito como eram quando as conheci há anos, e ávidas para retomar um contato que nunca deveria ter sido interrompido. E no que depender de mim, não mais será. Um brinde aos novos, antigos e antigos novos amigos!

terça-feira, 24 de março de 2020

Pousada Serra Vista, Gonçalves e o apelo do infinito.

Sempre acho bom retornar a lugares onde tenha me sentido especialmente feliz. Está certo que nem sempre consigo reproduzir as emoções que me fizeram sorrir um dia, mas o fato de visitar esses locais novamente me alegra duas vezes: pela lembrança do vivido e pela vivência do presente. Às vezes mudam as companhias, mudam as pessoas ou circunstâncias, mas, quando o lugar visitado basta por si só, o prazer e a alegria sempre acham um jeito de se infiltrar.

Quem me conhece um pouco sabe que, desde que visitei Gonçalves pela primeira vez, fiquei irremediavelmente enfeitiçada. E antes que você pense que Gonçalves seja o nome de algum macho alfa, pode tirar a cabrita do pasto: é algo muito melhor. Trata-se de um minúsculo município do sul de Minas Gerais, encravado na Serra da Mantiqueira, alguns quilômetros além da cidade paulista de São Bento do Sapucaí. Pisei lá a primeira vez em 2009 e... zás!... fui capturada para todo o sempre. Só lamento que, em virtude das demandas da vida, não tenha conseguido voltar para lá com a frequência que gostaria. Ainda assim, o universo tem conspirado a meu favor.

A maioria das estradas de Gonçalves é assim: de terra batida e cercadas de vegetação - Foto: Simone Catto

Outro dia, pouco antes da pandemia do coronavírus estourar no Brasil, uma leitora do blog escreveu contando que havia visitado Gonçalves pela primeira vez no último Carnaval e ficou apaixonada pelo lugar, afirmando se identificar com minha narrativa e as sensações que descrevi em outra matéria sobre a cidade. Não é para menos. Gonçalves é caracterizada por uma paisagem natural particularmente exuberante, com suas montanhas cobertas pela Mata Atlântica, belas cachoeiras e trilhas que levam a gente para perto do céu. E o melhor é que algumas das pessoas que me acompanharam lá também compartilham meu gosto pelo contato com a natureza, o que, naturalmente, aumenta ainda mais o prazer da viagem. É indescritível a sensação de se aventurar nas trilhas acima das montanhas, sentar lá no topo, sorver o ar puro e deixar o espírito vagar livre na imensidão em volta. Tenho consciência de que nem todo mundo valoriza essa simbiose com a natureza com a mesma intensidade que eu, mas sei que não estou sozinha.

Essa foto me dá saudade! Passei inúmeras vezes por essa bifurcação. - Foto: Viaje na Viagem

Assim que essa tenebrosa fase pandêmica passar, espero retornar em breve à pousada Serra Vista, uma das melhores de Gonçalves e lugar do qual só tenho boas lembranças. Quando nela estive pela primeira vez, a correria da rotina na volta a São Paulo não me permitiu escrever sobre minha experiência de hospedagem. Uma nova visita, contudo, só veio a reforçar minha impressão positiva sobre esse encantador refúgio rural que tem, como hóspedes permanentes, a paz, o sossego e o deleite. Para começar, a pousada está bem escondida, situada ao final de uma longa e estreita estrada de terra batida, longe dos olhares e dos pneus. Essa estrada sem saída é o único acesso a ela e só permite a passagem de um carro por vez, o que dá um certo "medinho" de que venha outro na direção contrária bem no momento em que estamos passando. No entanto, o proprietário garantiu que é muito raro ocorrer de dois carros cruzarem a estrada ao mesmo tempo - o que me tranquilizou um bocado, já que eu estava em uma respeitável SUV.

A estrada de acesso à Pousada Serra Vista, onde fiquei rezando para que não viesse nenhum carro na direção contrária! Foto: Simone Catto

A pousada Serra Vista tem poucos chalés, situados a boa distância uns dos outros, o que garante a privacidade dos hóspedes – muitos deles casais apaixonados. Todos os chalés são confortáveis, com lareira e assoalho em madeira para aguentarmos o friozinho noturno das montanhas, e alguns têm hidromassagem, um mimo usual em quase todas as pousadas da região.

Foto: Simone Catto

A sede com a recepção está instalada em um belo e amplo casarão campestre construído com muita madeira e uma atmosfera aconchegante com sua decoração fofa de cores quentes.

Fachada da Pousada Serra Vista - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Detalhe fofo da decoração - Foto: Simone Catto

Porém, o maior atrativo do local, inquestionavelmente, é a belíssima vista para as montanhas da Mantiqueira, um presentão que o Criador ofereceu ao povo mineiro e a quem mais tenha o privilégio de contemplá-las. Dá vontade de ficar olhando e deixar o pensamento voar naquele mar com tons de verde a perder de vista. É como se uma paisagem como aquela tornasse nossos sonhos possíveis, talvez porque o cérebro ative algum mecanismo que, automaticamente, associe a natureza infinita à infinidade de possibilidades que o mundo oferece... sabe-se lá.

Vista da pousada - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A pousada está cheia de cantinhos acolhedores e recantos charmosos ao ar livre para que a gente possa apreciar a paisagem e oxigenar o cérebro e o espírito.

Flagrante...

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

À noite é só acender o fogo, pegar uma taça de vinho e prosear olhando o céu! - Foto: Simone Catto

O restaurante onde é servido o café da manhã é aconchegante, tem janelas envidraçadas de ponta a ponta e, nem é preciso dizer, uma linda vista para o verde e as montanhas. O café é preparado com capricho e servido por uma equipe gentil e boa de prosa. É de deixar a gente em estado de graça saborear todas aquelas gostosuras mineiras contemplando aquele quadro natural da janela. Os quitutes do café incluem pães variados, frios, queijos da região, ovos mexidos, sucos naturais, frutas, geleias e bolos caseiros, biscoitos de polvilho e, é claro, pães de queijo quentinhos. Muitas coisas são preparadas no fogão a lenha que fica ali mesmo. Com esse café e essa energia, dá para fazer trilha até onde Deus quiser!

O restaurante da Pousada Serra Vista, em uma foto que tirei beeeem cedinho... - Foto: Simone Catto

Nosso café da manhã... repare nos biscoitos de polvilho perto do bolo! Nham... - Foto: Simone Catto

O fogão a lenha não poderia faltar! - Foto: Simone Catto

E já que falei em trilha, além de repetir a Trilha das 3 Cachoeiras (Retiro, Sete Quedas e Cruzeiro), que ficam próximas à pousada, conheci também a Cachoeira dos Henriques, a mais longe da cidade e uma das poucas da região que ainda não havia visitado. Situada na direção do bairro dos Martins, a nove quilômetros da zona urbana, ela tem várias quedas d'água e algumas piscinas naturais onde é possível tomar banho. No entanto, é preciso cuidado porque trombas d'água não são incomuns por ali. Quando lá estive vi apenas um casal tomando banho, sossegado, em uma piscina que não representava perigo algum. Aliás, o único perigo de visitar lugares como esse é ficar tão apaixonado que se torna absolutamente impossível não retornar. Gonçalves, me aguarde!

Piscina da Cachoeira dos Henriques e o casal só curtindo, à direita... - Foto: Simone Catto

Da estrada mal dá para visualizarmos a Cachoeira dos Henriques, oculta entre as árvores - Foto: Simone Catto

Cachoeira do Retiro - Foto: Simone Catto

Cachoeira Sete Quedas - Foto: Simone Catto

Cachoeira do Cruzeiro - Foto: Simone Catto

A Cachoeira do Cruzeiro, lá de cima... - Foto: Simone Catto

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Castelo de Les Baux-de-Provence, o senhor dos Alpilles.

Um dos exercícios que mais gosto de fazer ao visitar ruínas de sítios arqueológicos ou castelos é tentar imaginar como eram os espaços na época em que as pessoas os habitavam. Em Les Baux-de-Provence não foi diferente. Esse village do sul da França, que atualmente tem cerca de 500 habitantes, já gozou de grande pujança na Idade Média e tinha um enorme castelo que pertenceu, sucessivamente, a diferentes senhores feudais.

As lavandinhas ladeiam as ruínas do castelo de Les Baux-de-Provence - Foto: Simone Catto

Três vezes sitiado e duas vezes destruído, o castelo de Les Baux remonta a cerca de onze séculos e está hoje em ruínas, mas o que restou dele é suficientemente relevante para atiçar nossa imaginação e nos dar um panorama de como era a vida em seu interior. Algo me diz que não era nada fácil, sobretudo para uma mulher!

Ruínas do castelo - Foto: Simone Catto

A cidade de Les Baux-de-Provence fica sobre um platô de 245 metros de altura e o castelo está na parte mais alta do rochedo, tendo funcionado também como fortaleza. Na foto abaixo vemos o vilarejo e, acima dele, as ruínas do castelo construído com o calcário branco extraído das pedreiras da região.

Foto: Randojp

No esquema a seguir, vemos cada parte do castelo e do espaço onde foi erigido. Compare com a foto anterior.


No acesso ao castelo, topei com as esculturas de um artista plástico alemão chamado Stefan Szczesny (nascido em 19/4/1951). Qualquer semelhança com Henri Matisse não é coincidência: o alemão realmente se inspirou no francês. Ao pesquisar sobre ele, descobri inclusive que Szczesny mora em Saint-Tropez, assim como Matisse também morou e trabalhou na glamourosa cidade da Côte d'Azur.

Esculturas de Stefan Szczesny - Foto: Simone Catto

O castelo de Les Baux-de-Provence situa-se na extremidade do Plateau de Costapera, um amplo espaço aberto com réplicas de armas medievais e vistas de tirar o fôlego. Na foto abaixo, ao fundo, dá para ver um típico trabuco medieval com a ponta voltada para cima.

Plateau de Costapera - Foto: Simone Catto

Neste ângulo das ruínas, vemos mais trabucos à esquerda. Parece que esses medievais adoravam trabucos!
Foto: Simone Catto

E agora, alguns momentos "Uau!". O castelo de Les Baux domina o Vallon d’Entreconque com uma paisagem deslumbrante que se estende por centena de quilômetros. Na foto abaixo, à esquerda, as montanhas dos Alpilles emolduram belos campos cultivados.

Vallon d'Entreconque - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto
 
Foto: Simone Catto

Encravada no rochedo, a torre do castelo foi erigida no século XIII. Era lá que ficavam os aposentos do senhor feudal e sua família, distribuídos por quatro andares, contando com o térreo. No terceiro e último andar ficava o dormitório, do qual ainda restam duas janelas e algumas esculturas nas paredes, incluindo um São Jorge atravessando o dragão com a espada.

Do estacionamento vimos as ruínas da torre do castelo - Foto: Simone Catto

Essas janelas, em outra parede do castelo, parecem
prestes a ruir! - Foto: Simone Catto

Abaixo está o Seconde Basse-Cour (Segundo Celeiro), que ficava separado do primeiro por uma fossa e abrigava, na Idade Média, os ateliês e os empregados do castelo: escudeiros, ferreiros, seleiros e também o canil. Curiosamente, o aspecto das paredes conservou-se liso e regular devido à exploração do calcário na Segunda Idade do Ferro, do século 60 a 30 a.C. Nas fotos a seguir dá para notar essa característica das paredes.

Seconde Basse-Cour - Foto: Simone Catto

Outro ângulo do Seconde Basse-Cour - Foto: Simone Catto

As próximas fotos mostram uma capela construída no século XII, inicialmente denominada Capela de Santa Maria. Seus arcos românicos são os vestígios mais antigos do castelo e sua abóbada com nervuras é um elemento arquitetônico refinado, característico do estilo gótico flamboyant. No século XVI, período da Renascença, ela foi rebatizada como Capela de Santa Catarina. Sabe-se que já foi ricamente decorada, com tapeçarias, um pequeno órgão, livros litúrgicos e peças de ourivesaria. Hoje, dá apenas para imaginarmos essas coisas.

A Capela de Santa Catarina com os arcos mais antigos
do castelo - Foto: Simone Catto

Detalhe do teto gótico flamboyant - Foto: Simone Catto

A Casa do Forno era uma espécie de padaria onde se produzia o pão, que constituía a base da alimentação na Idade Média. Haja carboidrato! No castelo, o forno para assar o pão era utilizado exclusivamente em benefício do senhor feudal e de sua família.

Passagem da Casa do Forno - Foto: Simone Catto

Casa do Forno - Foto: Simone Catto
 
Casa do Forno - Foto: Simone Catto

Naturalmente, contudo, não era só de pão que se vivia no castelo. A carne de pombo era muito apreciada pelos senhores (argh!), que tinham o privilégio de manter um pombal particular. Nem todos os pombos eram mortos, porém: alguns eram utilizados como pombos-correios, pois dificilmente seriam interceptados por pessoas indesejáveis. O pombal ficava na parte sul do castelo, ao abrigo do vento mistral que sopra na Provence, e os ninhos eram escavados no calcário mole. O direto de abrigar um pombal foi abolido na Provence no final do século XVII, mas me pergunto se até então as pessoas não ficavam doentes, pois sabemos que essas aves transmitem dezenas de moléstias! Pombo, só aceito dois: o da Paz e o do Espírito Santo. Amém!

Pombal do Castelo de Les Baux - Foto: Simone Catto

Para conhecer belas paisagens da região e minha experiência nas Carrières de Lumières, um espetáculo imperdível em Les Baux-de-Provence, clique aqui e viaje comigo!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Les Baux-de-Provence, um presente que a natureza esculpiu e o homem embalou.

Ainda na estrada, quando me aproximava de Les Baux-de-Provence, avistei ao longe as montanhas esbranquiçadas de calcário, formações típicas do sul da França que despontam entre os vinhedos e oliveiras a perder de vista. Com sorte, quem passa por ali no auge do verão consegue avistar também lindos campos de lavandas, girassóis e papoulas. Como peguei apenas o comecinho da estação quente, o que vi foram lavandinhas aqui e ali, mas elas ainda não derramavam seu violeta por toda a paisagem.

Ainda na estrada eu já avistava ao longe o que me aguardava - Foto: Simone Catto

As graciosas lavandinhas - Foto: Simone Catto

Fui para les Baux determinada a conhecer as ruínas do grande castelo medieval que um dia testemunhou o poderio de sucessivos senhores feudais e também assistir à apresentação das monumentais Carrières de Lumières, famosas por seu espetáculo imersivo com obras de Van Gogh. Mas é bom dizer que, como boa parte das cidadezinhas no sul da França, Les Baux tem muito mais a oferecer do que aquilo que aparece nos folhetos turísticos e na Internet. Fiz muitas descobertas ao flanar por suas ruas de pedras com belas residências medievais e renascentistas, lojas com sabonetes multicoloridos e perfumados, capelas construídas há séculos e restaurantes com terraços refrescantes. Neste post, vou abordar apenas algumas de minhas experiências em Les Baux, já que seria impossível narrar todas de uma só vez.

Vou começar falando da natureza, que foi a primeira coisa que me impactou à medida que me aproximava do lugar. O village de Les Baux-de-Provence, de apenas 500 habitantes, se situa no coração da região dos Alpilles, um dos grandes parques nacionais preservados da França. Recebeu o nome de "Les Baux" por estar situado sobre um "baou", palavra que designa uma proeminência rochosa achatada no topo. De fato, a cidade está empoleirada no alto de um grande platô de rocha 245 metros acima do solo, o que faz com que a gente encare uma subidinha para chegar até lá. Como o traçado original era destinado à passagem de pessoas e animais, a estrada é estreita e sinuosa, mas nada que já não tenhamos visto aqui no Brasil. Na foto abaixo dá para visualizá-la entre as árvores.

A estradinha sinuosa se insinua entre a vegetação - Foto: Simone Catto

Les Baux-de-Provence é um vilarejo muito antigo. Sabe-se que seus primeiros traços remontam à Idade do Bronze, mas foi na Idade Média que a cidadezinha ganhou prestígio e importância. Por se situar no topo de um rochedo, gozava de uma posição geográfica privilegiada para os senhores feudais se defenderem dos invasores. Assim como nas demais cidades medievais, o antigo castelo de Les Baux fica na parte mais alta e constitui uma das principais atrações turísticas locais. 

Na foto a seguir vemos as ruínas do castelo, na parte superior, e a cidade que se estende a seus pés, mais abaixo. Note que o tom esbranquiçado do castelo se deve ao fato de ter sido construído com o calcário branco extraído das rochas da região. Os campos cultivados, ao fundo, dão uma ideia da altura da cidade.

Foto: Internet

Durante o Renascimento, a antiga vila medieval no sopé do castelo atraiu a nobreza local e a burguesia protestante, ganhando luxuosas residências. No entanto, após um período de lutas entre católicos e huguenotes (protestantes), Les Baux entrou em declínio por cerca de três séculos. Somente em 1821 um químico de Paris chamado Berthier descobriu nas imediações uma roxa vermelha que mudaria a vida econômica do lugar: trata-se da bauxita, assim batizada por ter sido descoberta em Les Baux. Graças a essa descoberta e à comercialização do valioso minério, a cidade conquistou um novo período de prosperidade. Vinhedos e oliveiras passaram a ocupar as planícies e, nas pedreiras das montanhas, de onde se extraía o calcário branco desde a época dos gregos, passou-se a extrair também a recém-descoberta bauxita. Mais de um século mais tarde, na década de 1950, a cidade assistiria a uma espécie de florescimento cultural, atraindo artistas e celebridades.

Vista do village de Les-Baux-de-Provence, aos pés do castelo - Foto: Simone Catto

A paisagem escarpada e grandiosa, esculpida pela natureza, cria um cenário luminoso que, visto do alto, fica ainda mais bonito. É o que mostra o Vallon de la Fontaine (Pequeno vale da Fonte), que deve seu nome às inúmeras fontes de água no local e abriga belas construções e residências em um cenário aprazível.

As montanhas calcárias ladeiam belas construções no Vallon de la Fontaine.

Outro ângulo do Vallon de la Fontaine - Foto: Simone Catto

Mais ao extremo, à direita, está o Val d'Enfer (Vale do Inferno), caracterizado por falésias pontiagudas moldadas pelo vento e pela água. Algumas rochas são até mesmo vazadas pela ação da natureza, adquirindo formas fantasmagóricas. Daí o nome do vale, assim batizado por causa do maior poeta italiano de todos os tempos, Dante Alighieri (1261-1321), que teria se inspirado no local para fazer sua descrição do inferno no capítulo homônimo, na obra "A Divina Comédia". Certamente essas formas misteriosas inflamaram a imaginação do escritor, sugerindo que o inferno tivesse um aspecto semelhante. 

Aqui o Val d'Enfer, ao fundo, abraça um dos estacionamentos do acesso ao castelo - Foto: Simone Catto

Na foto a seguir, a pedra perfurada lembra a cabeça de um cão. Cercado de lendas de fadas e feiticeiras, o Val d'Enfer, com suas estranhas formações rochosas, foi também cenário do filme "O Testamento de Orfeu" (1960), de Jean Cocteau (1889-1963). Quando estive em Les Baux fazia muito sol, mas imagino que, no inverno, as pedreiras desativadas e a geografia atormentada do local devam excitar as mentes mais suscetíveis.

Foto: Martine Passion

O fechamento progressivo das pedreiras abriu espaço para uma reconfiguração da cidade como ponto turístico. Um belíssimo e feliz exemplo da apropriação de pedreiras desativadas pelo turismo está nas Carrières de Lumières (Pedreiras de Luzes), antigas pedreiras de onde se extraía o calcário branco com o qual foi construído o castelo e a cidade. Não dá para visitar Les Baux-de-Provence sem conhecer esse lugar. É simplesmente IM-PER-DÍ-VEL, e explico por quê: desde 2012, é apresentado ali um espetáculo imersivo de dimensões descomunais que alia arte e música. Nas gigantescas paredes e no teto do interior da pedreira são projetadas imagens imensas e impressionantes de obras dos grandes mestres da arte ao som de um repertório de música clássica e jazz que enche os ouvidos. No período de minha visita, o artista da vez foi Vincent Van Gogh. Fui literalmente tomada pelas imagens monumentais de suas obras, cheias de cor e brilho, e também pela música, o que me deu a sensação de estar DENTRO das pinturas! As projeções por todos os lados, aliadas àquele som magnífico, realmente nos transportam para um mundo à parte. Se já é uma experiência fascinante para quem não é aficionado por arte, imagine para alguém que, como eu, sempre teve um pé – ou os dois – no mundo das artes. Fiquei arrepiada e embasbacada.
  
As fotos abaixo dão apenas uma pálida ideia do que significa estar lá dentro e os vídeos não saíram muito bons, mas pelo menos transportam para o presente um pouco daqueles momentos mágicos e inesquecíveis.

Projeção nas Carrières de Lumières de Les Baux-de-Provence - Foto: Simone Catto

Carrières de Lumières - Foto: Simone Catto

Carrières de Lumières - Foto: Simone Catto

Carrières de Lumières - Foto: Simone Catto

Carrières de Lumières - Foto: Simone Catto



E se você pensa que os criadores dessa maravilha são franceses, pode tirar seu cavalo da "pluie": os espetáculos das Carrières de Lumières são concebidos por uma equipe 100% italiana, com talentos maduros e multidisciplinares. Não há nenhum "millenium" entre eles, muito pelo contrário: são quatro homens que devem ter entre quarenta e cinco e setenta anos, e faço questão de dar os créditos: Gianfranco Ianuzzi, diretor artístico; Massimiliano Siccardi, videasta e artista multimídia; Renato Gatto, professor de teatro e diretor de cinema; Luca Longobardi, pianista e compositor. Bravo a todos!

Após a apresentação, descobri um amplo e simpático café incrustado em um dos lados externos da antiga pedreira, onde ainda pude assistir, em uma TV, um documentário sobre Jean Cocteau.

Mas o passeio continua! Para ver fotos do castelo de Les Baux-de-Provence e saber um pouco sobre minha visita às ruínas, clique aqui.

Foto: Simone Catto