domingo, 4 de junho de 2017

Exposição 'O Impressionismo e o Brasil': a paisagem brasileira à luz de grandes talentos.

Pela quantidade de visitantes que se apinham diante de determinadas pinturas, em diversos museus que visitei no exterior, arrisco dizer que o Impressionismo é, possivelmente, a escola artística mais admirada no mundo. Nascido oficialmente na França em 1874, o movimento que festeja a pintura ao ar livre chegou ao Brasil poucos anos depois e, ao que parece, não enfrentou tanta resistência aqui como por lá. O Impressionismo tupiniquim começou no Rio de Janeiro, mas seu precursor no país não foi um francês, e sim um pintor alemão chamado Georg Grimm (1846-1887), que nasceu na Bavária e desembarcou aqui provavelmente em 1878. Oficialmente, foi Grimm quem instituiu a pintura ao ar livre no Brasil, lá pelos idos de 1880. Em março de 1882, ele participou de uma exposição com 128 pinturas de um total de 418, chamou atenção do governo imperial e acabou convidado a lecionar na cadeira de "Pintura de Paisagens, Flores e Animais" da Academia Imperial de Belas Artes. Essa informação, e muitas outras, estão na exposição O Impressionismo e o Brasil, com curadoria de Felipe Chaimovich, atualmente no Museu de Arte Moderna - o MAM do Ibirapuera. Apesar de focar nos expoentes do Impressionismo brasileiro, a mostra também se permite exibir algumas telas de Renoir do acervo do nosso MASP, a fim de melhor ilustrar o movimento.

Georg Grimm - 'Rochedo da Boa Viagem' (1887) - óleo s/ tela
 Coleção Governo do Estado do Rio de Janeiro - Foto: Simone Catto

Pierre-Auguste Renoir - 'Banhista enxugando o braço direito (Grande nu sentado)' (1912)
 óleo s/ tela - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Foto: Simone Catto

Se você está se perguntando por que tudo começou no Rio de Janeiro, vale lembrar que, no século XIX, o Rio ainda era a capital da corte imperial, mantendo intensa atividade comercial com a Europa. Em 1844, a cidade tinha apenas seis lojas de tintas, mas em 1889 já eram mais de cinquenta, que vendiam muitas novidades importadas, como as novas cores de tinta a óleo em tubos metálicos, pincéis com anel metálico para afixar os pelos ao cabo, permitindo o achatamento das pinceladas, além de caixas portáteis, bancos dobráveis e muitos outros itens que faziam brilhar os olhos dos pintores da natureza. O crescimento da venda de materiais industrializados deu ímpeto à pintura de paisagem na Academia Imperial e originou a primeira escola de arte no Rio de Janeiro. Não podemos esquecer que, àquela época, o Rio ainda tinha uma paisagem natural invejável, os morros ainda não haviam se transformado nas monstruosas favelas que são hoje e os pintores gostavam de retratar a enseada de Botafogo, a baía de Guanabara e uma Copacabana paradisíaca, que realmente proporcionavam belíssimas vistas. Além disso, as imagens de viagens foram ficando cada vez mais populares, com viajantes capturando suas "impressões" em esboços rápidos sobre papel.

Antonio Garcia Bento - 'Porto do Calaboço' (1921) - óleo s/ madeira - Coleção Orandi Momesso
Foto: Simone Catto

Lucilio de Albuquerque - 'Rio Soberbo - Teresópolis' (1927) - óleo s/ tela
Coleção Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro - Foto: Simone Catto

Eliseu Visconti - 'Baixada de Villa-Rica' (1924) - óleo s/ tela - Coleção Governo do Estado do Rio de Janeiro
Foto: Simone Catto

O professor Grimm influenciou vários de seus pupilos na Academia e costumava dizer: "Quem quiser aprender a pintar deve pegar um pincel e ir para a mata". Seus principais discípulos, também representados na exposição do MAM, foram o italiano Giovanni Battista Castagneto (1851-1900) e o brasileiro Antonio Parreiras (1860-1937). Grimm não media esforços e vivia se arriscando para capturar a melhor paisagem, se embrenhando na mata e abrindo "picadas" como um Bandeirante. Segundo Parreiras, muitas vezes ele promovia excursões para as florestas para dar aulas in loco e conduzia os alunos a trilhas perigosas, altas montanhas e pântanos inóspitos, como um Indiana Jones tropical. Os alunos acompanhavam o mestre heroicamente, com suas paletas e cavaletes nas costas, certamente rezando para não virarem comida de jaguatirica.

Na realidade, a Academia nunca simpatizara verdadeiramente com Grimm, porque, além de rebelde, dizia-se que ele tinha um gênio um tanto difícil. Em 1884, seu contrato como professor não foi renovado, mas ele já havia conquistado um séquito de alunos-seguidores. Posteriormente, o crítico Gonzaga-Duque publicou um livro no qual afirmou que o mestre bávaro foi o único homem a ter sucesso na criação de uma escola artística no Rio de Janeiro.

Seu aluno Giovanni Battista Castagneto, nascido em Gênova, Itália, migrou para o Brasil em 1874 com o pai e entrou para o curso de pintura de paisagem da Academia em 1879. Após estudar com Grimm por dois anos, especializou-se em paisagens marinhas. Castagneto costumava alugar barcos para pintar em alto-mar e, quando não dava tempo de trocar de pincel, usava aquilo que tivesse à mão: seus dedos, as unhas, um pedaço de corda, um graveto, enfim - o que estivesse ao seu alcance. Suas pinturas não revelam superfícies polidas ou acabadas: Castagneto gostava de deixá-las empastadas, muitas vezes com textura rude. Aproveitando a grande oferta de tintas industriais, tinha uma paleta diversificada, o que lhe permitia pintar rapidamente enquanto estava nos barcos, sujeito ao movimento das ondas, dos ventos e do vai-e-vem das marés.

Giovanni Battista Castagneto - 'Marina com barcos' (1894) - óleo s/ tela - Coleção Luiz Carlos Ritter, RJ - Foto: Simone Catto

Antonio Parreiras decidiu tornar-se pintor em 1878 após herdar um dinheiro que lhe permitiu custear seus estudos na Academia Imperial de Belas Artes, onde se matriculou no curso noturno. Contudo, foi somente em 1884 que começou a ter aulas de pintura de paisagem e estudou com Grimm apenas alguns meses antes que este fosse desligado da escola. Apesar do pouco tempo de convivência com o alemão, Parreiras ficou vivamente impressionado com seu estilo e imediatamente começou a pintar a céu aberto. Quando Grimm deixou a Academia, não hesitou em segui-lo. Acordava ao nascer do sol e ia encontrar o professor em Boa Viagem, local de sua residência, onde os dois trabalhavam juntos até a noitinha.

Antonio Parreiras - 'Escola ao ar livre - Teresópolis, RJ' - c.1892 - óleo s/ tela - Coleção Governo do Estado do Rio de Janeiro
Foto: Simone Catto

Após o período de estudos, Parreiras não tinha mais dinheiro e, desconsolado, olhava os tubos de tintas fornecidos pela Academia se esvaziarem, sabendo que não poderia comprar novos e, portanto, que teria de parar de trabalhar. Os alunos de Grimm, aliás, eram em geral pobres e, quando as telas e tintas fornecidas pela escola acabavam, todos sabiam que não teriam condições de continuar pintando. Quando a monarquia acabou e a escola oficial passou a se chamar Escola Nacional de Belas Artes, Parreiras conseguiu tornar-se professor da instituição, mas, posteriormente, fundou uma escola independente em Niterói, o Ateliê Livre. Assim como Grimm, ele também se embrenhava nas florestas à caça de belas paisagens para retratar em suas telas.

Antonio Parreiras - 'Pintando do natural' (1937) - óleo s/ tela - Coleção Governo do Estado do Rio de Janeiro
Foto: Simone Catto

Antonio Parreiras - 'Crepúsculo' (s/d) - óleo s/ tela - Coleção Governo do Estado do Rio de Janeiro - Foto: Simone Catto

Além de Castagneto, um outro italiano desembarcou por aqui e se encantou com a paisagem tropical. Eliseu D'Angelo Visconti (1866-1944) veio para o Brasil em 1873 e matriculou-se na Academia Imperial de Belas Artes em 1885, um ano após a saída de Grimm. Em 1890, uniu-se ao grupo de "rebeldes" do Ateliê Livre, mas depois voltou a se reconciliar com os acadêmicos da Escola Nacional de Belas Artes e ganhou um prêmio que lhe permitiu estudar na França – o primeiro prêmio da recém-instituída República. Durante toda a década de 90, Visconti permaneceria na Europa, mas, mesmo assim, continuava a enviar pinturas para os salões do Rio de Janeiro. Ao retornar ao Brasil, em 1900, já era chamado de impressionista pela imprensa brasileira.

Eliseu Visconti - 'Igreja de Santa Teresa' (s/d) - óleo s/ tela - Museu Nacional de Belas Artes, RJ
Foto: Simone Catto

Eliseu Visconti - 'Três meninas no jardim' (s/d) - óleo s/ tela - Museu Nacional de Belas Artes, RJ
Foto: Simone Catto

Eliseu Visconti - 'Vista da Gamboa' (1889) - óleo s/ tela - Coleção Cristina e Jorge Roberto Silveira
Foto: Simone Catto

Por volta de 1900, o impressionismo já havia sido assimilado também na Escola Nacional de Belas Artes e a pintura ao ar livre já era uma prática comum entre os alunos da instituição. Os irmãos João e Arthur Timótheo da Costa, nascidos respectivamente em 1879 e 1882, eram pobres e negros – o que constituía um fator de forte discriminação no Brasil do século XIX, mas conseguiram estudar na Escola Nacional graças à sensibilidade de seu patrão na Casa da Moeda, local onde trabalhavam. O homem foi um verdadeiro anjo da guarda para os dois meninos: reconheceu seu talento, patrocinou seus estudos, e eles ganharam vários prêmios de pintura, além de terem a oportunidade de viajar para a Europa, onde puderam admirar de perto as obras impressionistas.

Arthur Timótheo da Costa - 'Quinta da Boa Vista' (1919) - óleo s/ tela - Coleção particular - Foto: Simone Catto

João Timótheo da Costa - 'Paisagem RJ' (1921) - óleo s/ tela - Pinacoteca do Estado de São Paulo - Foto: Simone Catto

Arthur Timótheo da Costa - 'Sem título' (1919) - óleo s/ tela - Museu Afro Brasil
Foto: Simone Catto

Entre essa turma que pintava ao ar livre também havia uma mulher extremamente talentosa, a paulista Georgina de Moura Andrade de Albuquerque, nascida em Taubaté no ano de 1885. Georgina matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes em 1905 e mudou-se dois anos depois para Paris com o marido, o igualmente talentoso pintor Lucilio de Albuquerque. Em 1927, a artista se tornaria professora da escola onde havia estudado.

Georgina de Albuquerque - 'Canto do Rio' (c.1926) - óleo s/ tela - Coleção Governo do Estado do Rio de Janeiro
Foto: Simone Catto

Georgina de Albuquerque - 'Raio de Sol' (c.1920) - óleo s/ tela - Museu Nacional de Belas Artes
Foto: Simone Catto

A pintura abaixo me lembrou muito Cézanne e o pós-impressionismo, o que não é de se espantar, uma vez que o casal Albuquerque havia morado em Paris e teve contato com várias vanguardas.

Lucilio de Albuquerque - 'Paisagem' (1949) - óleo s/ tela - Pinacoteca do Estado de São Paulo - Foto: Simone Catto

Lucilio de Albuquerque - 'Arredores de Porto Alegre' (1914) - óleo s/ madeira - Coleção Orandi Momesso - Foto: Simone Catto

Na década de 20, o impressionismo estava completamente estabelecido no Brasil e não se limitava mais às paisagens: seus artistas aplicavam o estilo também na pintura de outros temas, como retratos e naturezas-mortas. E foi assim que o Impressionismo tornou-se o primeiro movimento artístico no Brasil diretamente relacionado a inovações industriais. 

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Se você gosta de pintura "de primeira", daquela produzida pelos velhos mestres, não deixe de visitar a exposição O IMPRESSIONISMO E O BRASIL! MAM Ibirapuera - Av. Pedro Álvares Cabral, S/N. Tel.: (11) 5085-1300 – atendimento@mam.org.br. Entrada: R$ 6,00 – gratuita aos sábados. Horário: de terça a domingo, das 10h às 17h30. Até 27/8. Não perca!

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