terça-feira, 12 de junho de 2012

Gopala Hari. Sabores da Índia com o charme alternativo da Consolação.

Comecei a frequentar o Gopala há quase dez anos, quando trabalhava na Av. Paulista. Minha preferência pelo restaurante indiano era bem conhecida dos amigos com quem eu costumava almoçar. O lugar, que à época se chamava Gopala Prasada e era tocado por duas sócias, fazia tanto sucesso que elas acabaram abrindo outro espaço na mesma rua, duas casas depois. Era o mesmo restaurante com dois endereços que, invariavelmente, tinham uma fila que se estendia pela calçada na hora do almoço. Uma fila enfrentada por todos com a paciência e a serenidade de um Mahatma seguro de merecer o paraíso.
                                                                                                                         
Até que as sócias se separaram, cada uma ficou com uma casa e cada casa ganhou novo nome. O primeiro endereço virou Gopala Madhava, e o outro, ao qual voltei para almoçar no sábado, passou a se chamar Gopala Hari. As filas continuam tanto em um quanto em outro, e não é para menos. Está para nascer, em São Paulo, um almoço que tenha tão bom custo-benefício. Eu, particularmente, tenho um carinho especial por ambas as casas, já que as duas me trazem ótimas lembranças!

A fachada do Gopala Hari - Foto: Google Maps

A escada repleta de pétalas de rosas é marca registrada do Gopala - Foto: Simone Catto

Vamos começar pelo ambiente. A exemplo do Gopala Madhava, o Gopala Hari também está instalado num sobrado amplo, antigo e muito gostoso. São várias salas, umas maiores e outras menorzinhas, mas todas agradáveis. A decoração tem peças importadas da Índia e algumas, inclusive, podem ser adquiridas na loja anexa ao restaurante.

Na mesinha abaixo estão alguns chás e um aperitivo à base de gengibre que eu adoro! Tudo cortesia para os clientes.

Cantinho charmoso no salão maior - Foto: www.gopalahari.com.br 

Os clientes têm a opção de aguardar mesa num pequeno corredor lateral, todo florido - Foto: Simone Catto

A pia também fica no corredorzinho externo - Foto: Simone Catto

Fiquei instalada no andar de cima, ao lado de uma salinha meio 'privé' onde as pessoas almoçam sentadas em almofadas no chão. Um charme! (Detalhe: já existia uma salinha assim no antigo Gopala Prasada e ela certamente deve continuar lá, agora incorporada ao Gopala Madhava).

Foi nesta salinha aconchegante que fiquei - Foto: Simone Catto

Essa tapeçaria indiana fica na sala contígua àquela onde eu estava. Na foto acima dá para vê-la ao fundo, à esquerda. 
Foto: Simone Catto 

A salinha 'privé' é boa para um almoço com amigos - Foto: Simone Catto 

A cada dia, a casa de orientação lactovegetariana oferece duas opções de prato principal e cinco de sobremesa, sob o comando da chef Nrihari Devi. Optei pelo Combinado 1 servido aos sábados ímpares, que oferece duas opções de arroz e acompanhamentos fixos. Escolhi o Arroz Negro com Talos de Agrião, que vem com Tadka Dahl (Dahl de grão-de-bico, um tipo de ensopado que fica saboroso em cima do arroz), Pakora (Legumes diversos empanados com especiarias, uma delícia!), Pimenta Doce Recheada e Alu ki Tikki (Croquetes de batata com top de berinjela defumada). Estava tudo muito bom!!! E para as pessoas que comem menos, ainda há a possibilidade de pedir meia porção - foi o meu caso. 

Este foi meu Combinado (meia porção) - Foto: Simone Catto

Os Combinados são sempre precedidos de uma salada, que chega à mesa junto com o suco do dia e uma opção de sobremesa. No sábado foi servido um saboroso suco de morango com maracujá, e quem tiver muita sede pode repetir sem custo extra. Uma cortesia simpática que, somada a tantas outras qualidades da casa, deve contribuir, e muito, para atrair tantos clientes.

A saladinha, o suco, a sobremesa e um aperitivo especial (não-alcoolico, naturalmente!) - Foto: Simone Catto 

As sobremesas também são um verdadeiro 'nirvana' para o paladar! As opções de sábado eram: Pudim de Iogurte com Banana e Caramelo, Gulab Jamun (Doce lácteo aerado com calda de rosas), Torta Baby de Doce de Leite, Gajar Halav (Doce de cenoura condensada no leite servida com pistache) e Banana Celestial (Banana gratinada com açúcar mascavo).

Optei pelo Pudim de Iogurte com Banana e Caramelo, para experimentar. Gostei muito, mas nenhum desses doces se compara, em minha opinião, à Banana Celestial. Essa faz jus ao nome: é simplesmente dos deuses!!! 

A Banana Celestial, simplesmente divina! (Meia porção)
Foto: Simone Catto

Os preços são excelentes. Como pedi meia porção, paguei apenas R$ 20,50. A porção inteira sai por R$ 26,50 (valores cobrados aos sábados). De segunda a sexta-feira, as refeições saem ainda mais em conta: R$ 18,50 e R$ 22,50, respectivamente.

O Gopala Hari fica na Rua Antônio Carlos, 429 – Consolação. Tels.: (11) 3283-1292 e 3262-5591. Horários: de segunda a sexta-feira, das 11h30 às 15h, e sábados, das 12h às 15h. Confira o menu diário no site www.gopalahari.com.br, escolha seu Combinado e... Namastê!!

domingo, 10 de junho de 2012

Trixmix Cabaret. Circo, humor e sensualidade num mix irresistível.

Todo mundo já ouviu falar em 'cabaré', mas será que todos sabem que tipo de atração pode-se encontrar num deles? Bem, o cabaré é uma casa de espetáculos onde há um pouco de tudo: shows burlescos, números circenses e apresentações de dança, tudo entremeado por uma boa dose de humor, malícia e sensualidade.

E não é que São Paulo também tem o seu cabaré? Pois é. É o Trixmix, que está comemorando cinco anos de vida e, atualmente, está no Estúdio Emme, um espaço que se destaca pelas baladas e atrações mais 'alternativas'. As apresentações são quinzenais, sempre às quintas-feiras.

As Trix Girls abriram o show - Foto: Simone Catto 

Fui conferir o Trixmix Cabaret no feriado do dia 7 e tive uma graaaaaande surpresa. Há tempos não assistia a um espetáculo tão bom!


Para começar, o espaço do Estúdio Emme é bem interessante. O público pode se acomodar em mesas ou então num dos camarotes laterais – foi num deles que fiquei. No fundo da casa há um bar e, além disso, garçons ficam circulando para quem quiser pedir uma bebida ou comidinha. Meu camarote era o primeiro da frente, próximo ao palco, de forma que tive uma ótima visão do espetáculo.

A visão de meu camarote - Foto: Simone Catto

Cheguei com certa antecedência e, por se tratar de um feriadão e estar fazendo um frio danado em São Paulo, achei que o lugar não iria lotar. Mas a casa foi enchendo... enchendo... enchendo... até que chegou uma hora que me perguntei onde eles iriam colocar toda aquela gente!!! Aí vi o pessoal da produção colocando umas cadeiras extras, mas muitas pessoas ficaram de pé. Quando isso acontece, eles avisam na bilheteria. E pelo que vi, muita gente não se incomoda em assistir ao show assim mesmo.

O palco não é tão grande, e nem precisa! - Foto: Simone Catto

O espaço ficou lotado de gente interessante - Foto: Simone Catto
  
Como todo cabaré, o Trixmix também tinha seu mestre-de-cerimônias: o 'parlapatão' Hugo Possolo, que divertiu o público com um monte de 'bobagens' e uma boa dose de improviso. Mas tudo o que havia de improviso nas piadas havia de ensaio e preparo nos números apresentados por dançarinos, equilibristas e acrobatas. Eram todos profissionais de primeiríssima, gente séria e talentosa que deve treinar duro para dar aquele show. A direção do cabaré no dia 7 ficou por conta de Mark Bromilow, nada mais, nada menos que diretor artístico do espetáculo Varekai, do Cirque du Soleil, entre 2008 e 2010.

Após o gracioso número de dança inicial com as Trix Girls, tivemos a performance de Cafi Otta, o equilibrista do monociclo em típico número circense. As acrobacias de Nildo Siqueira na mandala também foram espetaculares! Também pudera, o moço vem do Cirque du Soleil! Só lamento que as fotos desse número não tenham saído boas... 

Foto: Simone Catto

A atleta Rafaela Montanaro, campeã mundial de 'Best Pole Tricks', em 2011, simplesmente arrasou em sua performance de pole dance caracterizada como roqueira. Forte, ágil e musculosa, a moça exala poder!!!

Rafaela Montanaro, pole dancer poderosa! - Foto: Simone Catto

Os irmãos Sabatino, simpáticos e cheios de charme, deram um show na barra fixa.

Foto: Zé Gabriel

E na lira, tivemos a dupla gracinha Bel Mucci e Natalia Presser.

Foto: Simone Catto

E o que dizer de Alisson Lima? Baixinho e miudinho, o homem dançou um frevo do capeta, parece ligado na tomada!!!

Foto: Geórgia Branco

A parte 'comédia' do show ficou por conta de 'Stefany de Bourbon', figurinha hilária que fez uma dublagem cômica da saudosa diva Whitney Houston ... rs.

A pobre Whitney deve ter se revirado no túmulo!... rs. - Foto: Paulo Barbuto

E para quem quiser esticar a noite, a casa tem balada com DJ depois do show. Eu não fiquei para conferir, mas vou me informar para saber que tipo de som rola por lá. Se não for 'bate-estaca', estico na próxima vez... rs.

Anote aí: a próxima apresentação do Trixmix Cabaré será no dia 21 de junho, lembrando que os shows são quinzenais. O espetáculo tem 70 minutos com início às 21h30, mas a casa abre às 20h com DJ e um belo som de jazz, blues e clássicos das big bands americanas. Informações: (11) 3774-0415 – www.trixmix.org. Os ingressos custam R$ 50,00 e podem ser comprados na bilheteria de segunda a sábado, das 13h às 19h. O Estúdio Emme fica na Av. Pedroso de Moraes, 1036. Vale a pena conferir!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Olaria Bar. Samba, caipirinha e feijoada em clima de festa.

Eu nunca havia ouvido falar do Olaria até ser convidada para um aniversário na tarde do sábado passado. E lá fui eu. Foi difícil encontrar lugar para estacionar na rua Apeninos – o bar fica nessa rua do Paraíso, em frente a uma unidade da UNIP. Imagino que, durante a semana, deva ficar cheio de estudantes (aliás, boa parte da moçada está 'enchendo a cara' logo cedo, o que é assustador... ). No prédio da UNIP há um estacionamento, melhor largar o carro lá.




O bar estava lotado de gente de todas as idades. Nas calçadas, o pessoal mais novo. E lá dentro, as pessoas se acotovelavam no balcão ou circulavam por entre as mesas cheias. E olhe que o lugar é grande!

Foto: Simone Catto

Creio que o motivo da muvuca esteja na feijoada e no samba que rolam por lá aos sábados. É isso mesmo. Procurei o site do bar para conferir os gêneros de música tocados nos outros dias, mas estava fora do ar. No entanto, já sei que, aos sábados, tem samba dos bons. E veja bem: não estou falando daquela praga nacional chamada 'pagode' (irc!!), mas de coisa boa, mesmo, samba de qualidade.

E por falar em 'samba de qualidade', fomos brindados com uma canja da aniversariante, minha prima Sandrinha que, segundo soube, sempre aparece por lá e canta uns sambinhas. Sandra tem uma voz de bossa-nova, meio rouquinha, gostosa e afinadíssima. Não é para menos. O talento rola na veia, tá no DNA da moça. Filha do saudoso tio Oswaldo, músico autodidata, professor, exímio violonista que arrasava também no bandolim e no cavaquinho, Sandra cresceu rodeada de boa música. Suas fontes: Tom, Vinícius, Nara Leão, Chico Buarque, Pixinguinha, Cartola, Adoniran, Elis, Dalva de Oliveira e tantos outros que ouvia nas deliciosas reuniões em que seu pai e os amigos tocavam, improvisavam, tomavam cerveja e saboreavam os quitutes da tia Maria, a esposa e mãe que sempre acolheu a todos de braços e coração abertos.

Sandrinha dando show... - Foto: Simone Catto

Os músicos também mandaram bem! - Foto: Simone Catto 

Enquanto ouvia Sandrinha mandar brasa no samba, fiquei apreciando o espaço. O bar é bem amplo e agradável. Todo rústico, com móveis em madeira e tijolinhos à vista, tem vários ambientes em desníveis, com plantas e mil detalhes decorativos.

Foto: Simone Catto

Pedi uma caipirinha de Seleta, que estava muito boa, e uma porção de mandiocas fritas, que veio farta e preparada de forma diferente: era à milanesa, com uma casquinha crocante e deliciosa. Gostei da novidade. De quando em quando, o garçom passava com espetinhos variados. Peguei um de mozzarella que estava saboroso.

As mandiocas, preparadas de uma forma diferente da que eu conhecia até então. Gostei! - Foto: Simone Catto

A garçonete que nos atendeu, nova na casa, foi atenciosa e gentil. Os preços também são razoáveis. A conta de minha mesa deu R$ 66 (para duas pessoas) e incluiu dois couverts artísticos, minha caipirinha de Seleta, uma Stella Artois, uma água mineral, a porção de mandioca, o espetinho de mozzarella e mais os dez por cento do serviço.

Agora quero voltar ao Olaria em outro sábado, para experimentar a feijoada. E, de preferência, quando a Sandra estiver dando canja por lá! Anote o endereço e apareça: Rua Apeninos, 637 – Paraíso. Tel.: 3289-0822.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Exposição de Modigliani no MASP. O homem e o artista num embate mortal.

No post sobre a exposição de De Chirico no Masp, comentei o quanto suas obras me angustiam. Pois as obras de Amedeo Modigliani (1884-1920) produzem um efeito exatamente contrário, calmante e apaziguador, embora ele fosse um caos humano: vivia bêbado e doente, viciou-se em drogas e tinha um comportamento violento e antissocial. Em suma: o tipo de homem do qual qualquer mulher com um mínimo de amor-próprio foge como o diabo da cruz. Enfim... melhor nos determos ao que 'Modi' tinha de bom: sua arte, a qual pude apreciar na exposição Modigliani – Imagens de uma Vida, no MASP, logo após visitar a exposição de De Chirico.

Amedeo Modigliani - repare na postura desafiadora do moço.

Amedeo Modigliani - Madame George van Muyden (1916-8) - óleo s/ tela
Esta obra faz parte do acervo do MASP.

Filho de judeus sefarditas, Modigliani nasceu na cidade italiana de Livorno. Era um criança muito bonita, porém frágil e doentia. Sua mãe, mulher culta e viajada, trabalhou como intérprete para ajudar nas despesas quando o marido faliu. O pai era ausente. Assim, o menino cresceu num ambiente de pobreza, mas intelectualmente estimulante. Em 1898, aos 14 anos, matriculou-se na escola de arte de Guglielmo Micheli, mas, cerca de dois anos depois, viajou para Florença e Veneza, onde fez vários amigos e estudou mestres como Bellini e Ticiano. Em 1901, chegou a escrever a um amigo: 'Pessoas como nós têm direitos diferentes dos demais, pois temos necessidades que nos colocam... acima da moral comum'. 'Pouco' pretensioso, o moço...

Retrato de um homem de bigode (1900), óleo s/ tela
Modigliani tinha apenas 16 anos quando fez essa pintura: ele já mandava bem!

Em 1906, 'Modi' finalmente parte para Paris, como fazia qualquer artista que se prezasse. Lá levou uma vida boêmia e totalmente desregrada, bebendo e se drogando em bares e bordéis. Não podia dar outra: o dinheiro enviado pela mãe acaba e ele começa a pagar as dívidas com seus quadros. Em Paris conheceu gente do calibre de Picasso, Juan Gris, Utrillo, Fujita e Moïse Kiling, entre outros, e escritores como Apollinaire e Max Jacob. Seus pontos de referência? O cabaré Le Lapin Agile e espeluncas como esse café que você vê abaixo.

Não tinha jeito: o homem adorava um basfond. 

Maurice Utrillo - Le Lapin Agile (1912) - litografia aquarelada

Moïse Kisling - Ateliê de Kisling com uma escultura de Modigliani (1918) - óleo s/ tela

Modigliani morou durante um tempo em La Ruche (A Colmeia), um edifício circular que abrigava cerca de 80 artistas, onde dividiu um quarto com Chaïm Soutine e outro pintor. Quem pagava suas despesas era o marchand Paul Alexander, mas o artista foi expulso quando, ao brigar com um dos colegas de quarto (não Soutine, o outro), destruiu as obras do coitado. Enfim, ele era um 'amor' de pessoa!...

La Ruche ('A Colmeia'): o artista morou aqui até aprontar mais uma das suas.  

Em 1907, Modigliani visitou uma exposição póstuma de Cézanne e ficou encantado. Influenciado pela obra do mestre e fascinado pela forma, começa a fazer esculturas e encontra o escultor Constantin Brancusi, que lhe dá aulas de graça. As esculturas de Modigliani lembram as máscaras africanas, tão em voga na época. No entanto, ele não conseguiu se tornar escultor porque não tinha saúde e nem dinheiro para comprar o material necessário. Dizem que chegou, inclusive, a roubar pedras das ruas de Paris para executar seus trabalhos. (Em tempo: segundo o prof. Renato Brolezzi, do MASP, existem muitas esculturas falsas de Modigliani por aí!).

Escultura em bronze a partir de original de Modigliani.

Mesmo com esse gênio 'do cão', não faltaram anjos da guarda na vida de Modigliani. A partir de 1916, o anjo apareceu na figura do empresário Léopold Zborowski, que chegou a percorrer as ruas de Paris oferecendo suas telas a eventuais interessados. Contudo, por ser antissocial e mal participar de exposições, o artista vendia pouco.

Para Modigliani, tudo nascia da linha, do desenho. E as figuras geométricas estão sempre lá, subjacentes, marcando cada bloco pintado.

Modigliani - Jovem Mulher (1917) - óleo s/ tela

Conhecido por seus retratos e pelos maravilhosos nus, Modigliani é, paradoxalmente, o pintor da 'constância', da 'permanência'. Tanto é verdade, que nem sua obra mudou ao longo de sua vida. Suas cores são comedidas, suavemente interligadas: não existem embates cromáticos. Para ele, o que importava era o tempo imaterial, não o tempo vivido. Um tempo fixado nos semblantes plácidos e serenos dos retratos. Os movimentos, quando existem, são contidos. Seus retratados sempre têm o olhar vazio, olhando para o nada. Neles não existem 'paixões' - ao contrário da ebulição e do caos aboluto que eram sua vida. À custa de muito sofrimento, 'Modi' conseguiu, portanto, abstrair, sintetizar e 'depurar a singularidade das emoções', conforme observou o prof. Renato Brolezzi no curso de história da arte que tive sábado no MASP.

Modigliani - Jovem Mulher de Olhos Azuis (1917) - óleo s/ tela

Modigliani - Grande Figura Nua Deitada (Céline Howard) (1918) - óleo s/ tela - Os nus de Modigliani são soberbos!

Arriscando uma psicologia de botequim, é como se o artista tentasse, por meio da obra, dar uma ordem a seu furacão interior. Um furacão que arrastou uma sucessão de amantes, incluindo a poetisa russa Anna Achmatova e a jornalista sul-africana Beatrice Hastings, a qual conheceu em 1914 e com quem manteve uma relação tempestuosa. Consta que, certa vez, ele atirou Beatrice pela janela e, em outra ocasião, ela lhe mordeu os testículos. Fofos, não??...

Em julho de 1917, 'Modi' conheceu outro anjo: a bela e doce Jeanne Hébuterne, jovem e talentosa aluna da Academia Colarossi. Ele pintou dezenas de retratos da moça, que, certa vez, escreveu a um amigo algo como: "Prefiro ficar aqui posando para ele - pelo menos assim ele está em casa, junto de mim!" 

A linda e meiga Jeanne Hébuterne... essa deve ter ido para o céu!!!

Modigliani - Jeanne Hébuterne com lenço (1919) - óleo s/ tela

Jeanne deu a Modigliani uma filha que ganhou o mesmo nome da mãe. O relacionamento dos dois foi tão conturbado quanto o anterior e repleto de violência. No entanto, ao contrário de Béatrice, Jeanne era tímida, retraída, venerava o artista e suportava com resignação seus maus-tratos.

Jeanne Hébuterne - O Quarto de Marie (1917) 
óleo s/ tela - A menina também tinha talento! 
Nessa época, embora Modigliani já estivesse vendendo alguns quadros, o generoso Zborowski lhe dava uma pequena mesada e, em abril de 1918, financiou a viagem de um grupo de artistas – entre eles Modigliani e Jeanne – para o sul da França, para que ele pudesse trabalhar num ambiente saudável. E lá se foram o casal e o amigo Soutine para Cagnes-sur-Mer.

Uma vida tão errática e insalubre só poderia resultar em tragédia. Modigliani morreu doente em Paris, com apenas 35 anos, em 24 de janeiro de 1920. Jeanne suicidou-se no dia seguinte, aos 21 anos e grávida de 8 meses, atirando-se do quinto andar do apartamento do casal. Hoje repousam lado a lado no cemitério de Père Lachaise. A filha do casal, Jeanne (1918-84), foi adotada pela irmã do artista, Margherita, e em 1958 escreveria uma importante biografia do pai: 'Modigliani, o homem e o mito'.

Amedeo Modigliani em seu ateliê.

A exposição ‘Modigliani – Imagens de uma Vida’ fica no MASP até 15 de julho e está dividida em quatro blocos:

1- A formação na Itália – 1884-1905
2- A experiência parisiense – 1906-1916
3- O interlúdio da escultura – 1906-13
4- Consolidação estilística – 1917-20

Na realidade, a exposição não tem tantas obras do artista como seria de se supor. Elas dividem espaço com obras produzidas pelos professores, amigos e outros artistas que o influenciaram. De qualquer modo, é uma exposição importante que merece ser vista.

MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO
Av. Paulista, 1.578. Tel.: (11) 3251-5644. Site: www.masp.art.br. Abre das 11h às 18h às terças-feiras, domingos e feriados, e das 11h às 20h às quintas. A bilheteria fecha meia hora antes. Ingressos: R$ 15,00 e R$ 7,00 (estudantes, professores e aposentados com comprovante). Entrada franca às terças-feiras e todos os dias para visitantes até 10 anos e acima de 60.

domingo, 3 de junho de 2012

'Alma María'. Tapas delicadas num décor que é a cara da Oscar Freire.

ATENÇÃO: INFELIZMENTE, ESTE ESTABELECIMENTO ENCERROU SUAS ATIVIDADES POUCO TEMPO APÓS A DATA DE MINHA VISITA - UMA PENA, PORQUE O LUGAR ERA EXCELENTE.

Os bares de tapas – que são restaurantes também – estão mesmo proliferando em Sampa. Notei que, em sua maioria, são lugares charmosos, com projetos arquitetônicos assinados por nomes estrelados e menus montados por especialistas – alguns, inclusive, "importados" da Espanha.

Domingo passado fui conhecer mais um deles, o Alma María, a convite de amigas queridas tão curiosas quanto eu para experimentar novas paisagens, aromas e sabores. Não por acaso, a casa está na Oscar Freire, ponto "in" por excelência e competência. O curioso é que, ultimamente, tenho passado muito por lá e sempre me perguntava que lugar era aquele com ar tão alegre, mesas ao ar livre e um grande balcão que dá para a gente avistar da rua. E não é que, por coincidência, justamente aquele lugar estava na lista de restaurantes que minhas amigas desejavam conhecer? A propósito, poucos dessa lista abrem aos domingos. Ponto para o Alma María!

Foto: www.almamaria.com.br 

A decoração modernosa, assinada por Arthur Casas (olhe o nome "estrelado", aí! rs), impressiona logo de início. O longo balcão (chamado de "barra" pelos espanhóis) à entrada é perfeito para quem quiser comer um montadito (tipo de bruschetta espanhola), experimentar alguns dos pintxos (pequenos aperitivos para se comer com palitos) ou apenas "tapear", isto é, beliscar tortillas, queijos, pan con tomate ou jamóns ibéricos.

O longo balcão onde se podem degustar as "tapas" - Foto: www.almamaria.com.br

Ao entrarmos, chama atenção a parede à direita, coberta por uma prateleira imensa que ocupa quase toda a sua extensão, indo de cerca de um metro do chão até o teto. Forrada de "víveres", essa prateleira-parede guarda vidros de azeite, de azeitona e de palmito, bem como caixas de maisena, livros e outras coisas que não deu para discernir o que eram, mas, suspeito, têm função meramente decorativa. 

Eu arriscaria dizer que a parede é 80% responsável pelo charme do décor do lugar.
Foto: Simone Catto

Blogueira metida a fazer arte moderna... rs... E aí? Vai pra Bienal ou não vai? rs
Foto: Simone Catto

A iluminação cria um clima acolhedor - Foto: Simone Catto

A casa tem quatro ambientes, cada um com cozinha própria e um teto de vidro que, durante o dia, deixa a luz natural entrar.

Foi neste ambiente que fiquei - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

O menu, típico espanhol, inclui tapas e pratos com toques modernos criados pelo chef catalão Tony Botella, que traz influências das regiões da Andaluzia, País Basco, Catalunha, Valência, Galícia e até das Ilhas Canárias. Para quem não conhece, tapas são pequenas porções de qualquer elaboração gastronômica que podemos comer com a mão, a qualquer hora, em pé junto à barra (balcão) ou então compartilhando com os amigos numa mesa tradicional. Podem preceder um prato principal ou então ser saboreadas sozinhas, como democráticos petiscos.

De acordo com o site do Alma María, o nome "tapas" tem origem no antigo costume espanhol de tapar os copos e cálices de vinho nas tabernas e bares com um pedaço de pão ou uma fatia de jamón, para evitar a queda de moscas ou sujeiras dentro. Vivendo e aprendendo!

Naquele dia preferimos ficar só nas tapas e experimentamos uma sucessão delas! Começamos com Gambas al Ajillo (camarões salteados com azeite aromatizado com alho e pimenta), Pulpo a la galega (polvo ao estilo de Galícia, sobre batata assada com Pimentón de la Vera) e as famosas Batatas Bravas (batatas coradas com molho picante e maionese suave). As tapas de camarões e de polvo são bem minúsculas, mas a de batatas é maior.

As Gambas al Ajillo - Foto: Simone Catto

Do Pulpo a la Galega vieram três unidades, mas... havia gente com muita fome à mesa!! rs... 
Foto: Simone Catto

Depois da primeira etapa, pedimos as Sardinas Marinadas en Cítricos e os Calamares Andaluza (anéis de lula fritos acompanhados de limão e maionese suave). Estavam ma-ra-vi-lho-sos! E para acompanhar tudo isso, tomamos uma jarra de sangria, que também estava ótima. Saldo final: tapas deliciosas, ambiente interessante, enfim... lá eu volto!

Os saborosos calamares, de consistência crocante e perfeita - Foto: Simone Catto

Quer "tapear" um pouco no Alma María? O endereço é R. Oscar Freire, 439 – Jardins. Tel.: (11) 3064-0047. Acesse o site e consulte, também, os preços do menu: www.almamaria.com.br. A casa abre de domingo a quinta-feira, das 12h às 24h, e sextas e sábados, das 12h à 1h. Olé!