sábado, 29 de junho de 2019

Prelúdio Provençal.

Uma viagem nunca acaba quando voltamos para casa. Mesmo após o retorno, continuamos a viajar na memória, na lembrança dos momentos vividos e de tudo o que nos deu prazer. E assim, quase involuntariamente, acabamos de certo modo revivendo as experiências que mais nos tocaram em uma jornada. Retornei há pouco de uma viagem à Provence, sul da França, e posso dizer que ainda estou organizando, mentalmente, tudo o que vivenciei por lá. É tanta cultura para digerir, tantos belos lugares para relembrar, tanta história para (re)estudar, que às vezes penso que o tempo não dará conta do recado.

Típica rua provençal, em Châteuneuf-du-Pape, com seus vinhos mundialmente reconhecidos - Foto: Simone Catto

Plantação de lavanda no monastério de Saint-Paul de Mausole, em Saint-Rémy de Provence - Foto: Simone Catto

Vista da estrada de acesso a Vaison-la-Romaine - Foto: Simone Catto

As lavandas se insinuam diante das ruínas do castelo medieval de Les-Baux-de-Provence - Foto: Simone Catto

Escrever, colocar no papel um pouco de tudo isso é uma forma de ordenar as ideias, "aparar a grama" de nossas lembranças e "limpar a área", por assim dizer, para encurtar o caminho entre a mente e o coração. Visitei quase quinze cidades e vilarejos provençais, com toda a calma do mundo, e pude conhecer todos os locais do roteiro de viagem que havia tomado boa parte de meu tempo livre para ser elaborado, além de outros que descobri em minhas andanças. Antes de arrumar as malas, fiz muitas pesquisas, garimpei dicas na Internet e também recebi outras, preciosas, de familiares que lá estiveram antes de mim e de amigos queridos que moram na Provence. Foi deles a indicação da cidade onde fiquei hospedada, L’Isle sur la Sorgue, ponto de partida para meus passeios.

Da janela de meu hotel em L'Isle sur la Sorgue avistava os maciços do Luberon - Foto: Simone Catto

O vilarejo de Maubec foi uma grata surpresa que não constava no roteiro - Foto: Simone Catto


















Aluguei um carro para explorar a região, pois é impossível descobrir os recantos e delícias da Provence de outra maneira. Estava um pouco receosa de dirigir em outro país, com leis de trânsito e placas de sinalização diferentes, mas, ao chegar lá, descobri que tudo era muito mais simples do que eu imaginava. Tudo bem que eu falo francês e isso ajuda, e muito, mas o fato é que, para início de conversa, as estradas lá são impecáveis. Todas. Mesmo as vicinais, minhas preferidas para escapar dos pedágios e das altas velocidades das autoroutes, cujo limite é de assustadores 130 km por hora. Essas estradas alternativas, além de possuírem um limite de velocidade menor, são bem mais estreitas e proporcionam uma paisagem infinitamente mais exuberante, permitindo que a gente curta melhor o passeio.

Uma das muitas estradas que mais pareciam tapetes - Foto: Simone Catto

Os ciprestes, abundantes na paisagem da Provence e nas obras de Van Gogh, que soube captá-los como ninguém!
Foto: Simone Catto

Por vezes os maciços calcários ficavam bem pertinho, na estrada - Foto: Simone Catto

Uma bela vista de Les-Baux-de-Provence - Foto: Simone Catto

O carro que aluguei, um EcoSport, tinha uma tela de GPS enorme que programei para pegar esses caminhos e poder apreciar a natureza, muitas vezes com belos vinhedos de um lado, plantações de oliveiras do outro e os maciços calcários arroxeados do Luberon à frente. Além do mais, essas estradas são vazias, uma delícia. No entanto, mesmo nas autoroutes, onde o fluxo de veículos é maior, as pessoas respeitam as leis de trânsito. Sim, os motoristas da Provence dão passagem, não têm pressa, param nas faixas de pedestres, são civilizados, enfim. Até porque lá a vida tem outro ritmo e, principalmente, outros valores.

Não resisti e parei na estrada para fotografar essas parreiras, que produzem os deliciosos vinhos rosés da Provence.
Foto: Simone Catto

Todas as estradas, invariavelmente, estão em excelente estado. Pais civilizado é outra coisa! - Foto: Simone Catto

Dado curioso: nunca vi, em toda a minha vida, um número tão grande de rotatórias! Na imensa maioria das vezes, elas substituem os semáforos e existem em todos os tamanhos: grandes, médias e algumas tão pequenas que mais parecem tampas de bueiro (rs). O mais importante, porém, é que os demais motoristas respeitam e cedem a passagem para os veículos que circulam em torno delas. Não pude deixar de concluir, aliás, que essa abundância de rotatórias nada mais é do que uma forma extremamente inteligente de planificação de estradas e de engenharia de tráfego, pois aumenta a fluidez e reduz acidentes. Nunca imaginei que sentiria tanto prazer em dirigir, já que, no Brasil, com tantos lunáticos nas ruas, só dirijo porque sou obrigada. Quando pego estrada aqui, se alguém manifesta o desejo de dirigir em meu lugar, entrego o volante no ato, bem feliz!

Feliz ficarei, também, se tiver um tempo para compartilhar mais algumas das tantas experiências memoráveis que tive nessa viagem e, sobretudo, inspirar outras pessoas a se aventurar também e enriquecer sua visão de mundo... como precisamos! Até breve.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Casa Modernista: lar para o descaso e o abandono.

Em um fim de semana ensolarado do já saudoso verão paulistano, resolvi, finalmente, preencher uma lacuna imperdoável em minha experiência cultural da cidade: fui conhecer a Casa Modernista, no bairro da Vila Mariana, primeira edificação do gênero do Brasil. No entanto, assim que atravessei o portão de entrada, acessei o jardim e avistei a construção, notei que não havia viva alma lá dentro além do vigia. Incrustada no interior de um parque de 13 mil metros quadrados, a residência quase centenária projetada por seu ilustre ex-morador, o arquiteto russo Gregori Warchavchik (1896-1972), é ampla, arejada e luminosa, porém exala melancolia. A vida abandonou-a faz tempo.

Foto: Simone Catto

O jardim: grande área verde mal aproveitada - Foto: Simone Catto

Somente quando estava já no interior da casa, olhando a vista do terraço, visualizei um casal jovem entrando. Pouco depois, trocando umas palavras com eles sobre o estado de conservação do espaço, descobri que o rapaz era estudante de arquitetura. E após visitar todos os ambientes e descer novamente para explorar o jardim, finalmente vi uma mamãe entrar lentamente de mãos dadas com um garotinho de uns três anos, empurrando um carrinho e conversando com a criança. Provavelmente, uma moradora do bairro. A única vantagem daquele vazio todo era uma inegável sensação de paz, ao mesmo tempo em que sentia uma espécie de tristeza pelo abandono do lugar.

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Embora tenha sido tombada em 1983 e salva, literalmente, do "tombamento por terra" por uma construtora que pretendia erigir no local um condomínio ironicamente denominado "Palais Versailles" (Santa Maria das Causas Antibregas, rogai por nós!), a construção foi sistematicamente negligenciada pelo poder público. A casa projetada em 1927 e finalizada em 1928, assim como o imenso jardim que a circunda, estão mal preservados, com seus grandes espaços vazios ou, na melhor das hipóteses, subaproveitados. Um cemitério tem mais vida, sério. Muito mais. Além de ser restaurado como se deve, o lugar mereceria sediar exposições, cursos, palestras, clubes de leitura. Mereceria ter um café para atrair e acolher as pessoas. Basta ver o exemplo da Casa das Rosas, na Av. Paulista. É inadmissível que uma obra arquitetônica tão importante no contexto da história não só de São Paulo, mas também do país, seja tão menosprezada pelo Estado, embora deva confessar que, em se tratando de Brasil, isso não me surpreende, assim como possivelmente também não deve surpreender o leitor. Afinal, a longa história de descaso com os bens públicos e o patrimônio artístico-cultural é uma triste tradição por aqui – bastam alguns passos nas vias mais icônicas da capital paulista para constatar essa tragédia que se estende a todo o território nacional.

Parte do salão principal, no térreo, que deve ter abrigado animadas festas e conversas - Foto: Simone Catto

Vista da varanda superior, com o tipo de pilar muito utilizado na arquitetura modernista - Foto: Simone Catto

Detalhe do piso superior - Foto: Simone Catto

Esse dormitório no andar superior, em estado lastimável, provavelmente pertencia a uma criança, a julgar pelo padrão dos restos de decoração nas paredes - Foto: Simone Catto

Detalhe do afresco de um dos dormitórios, provavelmente infantil - Foto: Simone Catto

Warchavchik criou o projeto da casa apenas quatro anos após sua chegada ao Brasil, em 1923, imbuído do espírito modernista que trazia da Europa e incentivado pela esposa, a milionária Mina Klabin, que simpatizava com as ideias arrojadas do marido e idealizou o jardim de plantas tropicais que circunda a residência. Pioneira, Mina utilizou cactos e mandacarus, plantas até então não utilizadas nos jardins brasileiros. Não existia nenhuma casa com esse estilo em terras tupiniquins e, ao substituir os ornamentos vigentes na arquitetura de então por linhas retas e despojadas, o arquiteto chocou os puristas, mas atraiu a atenção do colega suíço Le Corbusier (1887-1965), que visitou a casa ainda em construção e o convidou para ser o delegado da América do Sul nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciams).

Detalhe da fachada - Foto: Simone Catto

A fachada original mostra a simetria, atualmente inexistente, da Casa Modernista.

A planta da casa não diferia, em funcionalidade, daquelas então vigentes em São Paulo; a diferença é que foi despojada dos ornamentos que eram moda à época. O uso de vidros em amplas superfícies e a concepção arquitetônica, que privilegia a fluidez dos espaços em ambientes que se intercomunicam, tornaram-na uma construção solar, banhada de ar e luz.

O hall superior interliga todos os ambientes, possibilitando a circulação de ar e luz - Foto: Simone Catto

Outro detalhe do andar superior - Foto: Simone Catto

Detalhe da cozinha - Foto: Simone Catto

Cozinha - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Na época em que o arquiteto ocupava a residência com a família, peças de teatro eram encenadas no jardim a uma plateia de familiares e amigos, e a piscina, atualmente suja e vazia, devia ferver de vida com os risos, as conversas e a diversão de todos.

Detalhe do jardim - Foto: Simone Catto

A piscina suja e abandonada, ao fundo, vista do terraço superior - Foto: Simone Catto

Posteriormente, Warchavchik fez uma sucessão de casas de classe média na rua Berta, uma ao lado da outra, a poucos metros da Casa Modernista. Estas tiveram melhor sorte que a irmã primogênita: embora tombadas, estão habitadas por famílias, têm a arquitetura preservada e vão muito bem, obrigada. É obra de autoria do arquiteto, também, a construção que abriga o atual Museu Lasar Segall, na mesma rua das casinhas, projetada em 1932 para ser residência do artista expressionista parente da mulher, igualmente judeu e proveniente do leste europeu – Lasar Segall (1889-1957) era lituano.

As casas perfiladas na Rua Berta, projetadas por Warchavchik - Foto: Luiz Carlos Murauskas / FolhaPress

Pouco antes, em 1931, foi o arquiteto Lucio Costa (1902-1998) que convidou Warchavchik, a essa altura naturalizado brasileiro, a dar aulas na Escola Nacional de Belas Artes (Enba), no Rio de Janeiro, tornando-o professor da primeira geração de arquitetos modernos. Como resultado, o russo também criou as primeiras obras modernas do Rio e ampliou sua atuação naquela cidade.

Sempre que me deparo com um exemplo que atesta o estado lastimável de nosso patrimônio cultural, como ocorre com a Casa Modernista, fatalmente acabo pensando como países tão pequeninos, como os da Europa, conseguem deter, em seus minúsculos territórios, uma quantidade tão grande de riquezas artísticas e arquitetônicas. Tudo bem que são países muito antigos, com civilizações que remontam a séculos e, por serem mais velhos, é natural que tenham tido mais tempo cronológico para acumular um patrimônio mais respeitável do que países ditos do Novo Mundo, "descobertos" e colonizados mais de 1.500 anos depois. Mas não se trata só disso. De nada adiantaria esses países serem tão antigos se alguém, ao longo desse tempo, não tivesse tido uma preocupação genuína de valorizar e preservar sua cultura ancestral. Se esses países não tivessem engendrado cidadãos orgulhosos de suas origens, detentores de uma boa dose de ufanismo e francamente empenhados em proteger a base histórica sobre a qual foram erigidos e da qual também são produto, pouco ou nada dessas riquezas teria restado, ainda mais se considerarmos a quantidade de guerras que enfrentaram. A questão, portanto, é cultural. O fato de um país ser novo pelos parâmetros históricos, como ter nascido quinhentos anos atrás, não justifica, em absoluto, a negligência com seu patrimônio histórico e artístico. Porque todo país, sem exceção, tem uma história. E se ela não foi preservada é porque, antes que fosse perdida, outros valores sérios se perderam primeiro pelo caminho. Valores como cultura e civilidade. Valores que, desconfio, demorarão pelo menos outros quinhentos anos para demolir a barreira de subdesenvolvimento intelectual e espiritual desta triste nação.

Se você quiser conhecer a Casa Modernista e, como eu, ficar sonhando com tudo o que poderia ser feito para ressuscitar o lugar, anote o endereço: rua Santa Cruz, 325 – Vila Mariana, São Paulo. Dica: a estação Santa Cruz do metrô fica a cerca de 450 metros do local, dá uns cinco minutos a pé. Abre de terça a domingo, das 9h às 17h, com entrada franca.

segunda-feira, 25 de março de 2019

'Entrever', de Priscila Mainieri. Harmonia translúcida revelada em camadas.

Conheço Priscila Mainieri há décadas. O tempo nos separou, mas quis o destino que nos aproximássemos de uns anos para cá. Mais do que uma amiga e um ser humano sensível, descobri nela uma ótima artista. E não é só. Priscila é proprietária de um ateliê-galeria instalado num charmoso sobrado da Vila Madalena, onde também são ministrados cursos e workshops de arte. Tive a oportunidade de dar um curso de história da arte por lá e, em uma de minhas incursões no espaço, descobri seu trabalho. Vi obras criadas em diferentes técnicas que não estavam em exposição, mas guardadas junto a trabalhos de outros artistas, numa sala que é uma espécie de depósito da casa. Ao bater os olhos em algumas, lembro-me de ter-lhe dito "isso é bom, você precisa expor", mas a modéstia de Priscila é tão grande quanto sua generosidade, e ela sempre priorizou o trabalho de outros artistas, oferecendo-lhes invejáveis condições de exibição e oportunidades que dificilmente encontrariam em outras galerias de arte.  

Mix de obras de Priscila Mainieri. Estas não estavam expostas, mas gostei do efeito gerado pela junção dos padrões de obras
diferentes - Foto: Simone Catto

Finalmente Priscila resolveu expor sua própria produção e montou a exposição 'Entrever', exclusivamente com obras suas. Não pude comparecer ao vernissage devido ao caos que se instaurou na cidade após uma dessas chuvas que deixam um rastro de destruição, mas nesse fim de semana consegui dar o ar da graça na galeria. Priscila me recebeu com uma taça de vinho, o despojamento e a afetividade que conquistam tantos amigos e artistas que vira e mexe dão uma "passadinha" por lá, nem que seja para dar um "oi". Ao entrar e me deparar com as paredes repletas de obras, fui impactada imediatamente por uma agradável sensação de leveza e harmonia. Priscila criou um belo conjunto de aquarelas abstratas sobre papel algodão, um material bastante utilizado em trabalhos desse tipo pela alta qualidade, durabilidade e pelo ótimo grau de absorção da tinta.

Vista do ateliê-galeria - Foto: Simone Catto

Ela tem estudado as técnicas de diversos outros artistas, antigos e contemporâneos, e com esse embasamento tem desenvolvido incessantemente sua própria técnica, cujo aprimoramento é visível nessa série em que brincou com tons claros e escuros sobrepondo formas ovaladas opacas e translúcidas. Explicou que o processo de composição de cada trabalho foi acontecendo camada por camada e, muitas vezes, aquilo que para nós parece ser o fundo de uma obra não o é, criando uma espécie de ilusão. Quando nos detemos sobre uma camada, "entrevemos" a próxima – daí o título da mostra, aliás bem feliz. Nossos olhos vão então passeando de uma camada a outra e, como numa brincadeira, vamos tentando descobrir qual camada está sobre qual, num exercício interessante. A seleção dos tons e cores que se entrepõem é extremamente harmônica, resultando em imagens que transmitem ordem e equilíbrio. Como as obras estão protegidas por uma placa de vidro, algumas das fotos a seguir saíram com reflexo, mas dá para pelo menos ter-se uma ideia do que estou falando. 

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2017 - aquarela e nanquim s/ papel algodão - 31 X 41 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2019 - aquarela e nanquim s/ papel algodão - 50 X 70 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2019 - aquarela e nanquim s/ papel algodão - 50 X 70 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2018 - aquarela s/ papel algodão - 31 X 41 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2018 - aquarela  s/ papel algodão - 36 X 48 cm - Foto: Simone Catto

Priscila Mainieri - 'Sem título', 2019 - aquarela e nanquim s/ papel algodão - 31 X 41 cm - Foto: Simone Catto

Por tudo isso, sinto-me tranquila em afirmar que, independentemente de minha simpatia pelo lado humano da artista, considero-me autêntica demais, sobejamente crítica e excessivamente fiel a mim mesma para exaltar ou divulgar algo que não me agrade. Portanto, se dedico algumas linhas às obras dessa exposição em meu blog, é porque realmente acredito em sua qualidade artística e, segundo meu julgamento, elas merecem ser (re)conhecidas. E para quem gostou das aquarelas e pensa que adquirir uma delas exige um alto investimento, tenho uma ótima notícia: os preços são perfeitamente acessíveis.

Esses trabalhos não estavam expostos: trata-se de um exercício da artista com outra técnica, mas achei as padronagens tão encantadoras que não resisti! - Foto: Simone Catto

A exposição se encerrou no fim de semana, em breve Priscila partirá para uma residência artística na Alemanha, mas, se você tiver interesse em conhecer as obras, anote: ATELIÊ GALERIA PRISCILA MAINIERI – tel. (11) 3031-8727 – Rua Isabel de Castela, 274 – Vila Madalena – São Paulo. www.ateliepriscilamainieri.com.br. A galeria funciona de segunda a sexta das 11h às 19h e sábados das 11h às 17h. Vale a pena dar um pulo lá!

terça-feira, 5 de março de 2019

‘Paul Klee - Equilíbrio Instável’. A descoberta de um talento polifônico no CCBB.

Há determinadas obras de arte que capturam o olhar das pessoas e apaixonam de imediato, mesmo que a falta de repertório, por quem as contempla, impeça que sejam compreendidas em sua totalidade. É o caso das pinturas impressionistas nos dias de hoje, já que à época em que foram produzidas sofreram o mais absoluto desprezo e escárnio por parte de crítica e público. Há outras obras, porém, que demoram mais para quebrar nossa resistência – seja pelo fato de serem abstratas ou excessivamente herméticas, não permitindo, portanto, uma analogia imediata com um universo percebido, seja por se distanciarem daquilo que o senso comum denomina como "belo". E como temos uma tendência natural para buscar referências sobre aquilo que nos agrada e negligenciar aquilo que não exerce grande apelo sobre nossos sentidos, muitas vezes "deixamos para lá" determinados artistas plásticos. É o que ocorreu, no meu caso – confesso - com o artista suíço Paul Klee (1879-1940), que está com mais de 100 obras exibidas na mostra 'Equilíbrio Instável', no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo.

E é exatamente por não ter grande conhecimento sobre a trajetória de Klee que se tornou uma questão de honra, para mim, visitar essa exposição o quanto antes para tentar sanar essa lacuna e compreender um pouco do que se passava em sua mente polimorfa. Devo dizer que o feriadão de Carnaval revelou-se a oportunidade perfeita, já que a cidade fica bem mais vazia nos locais que  interessam, isto é, aqueles que oferecem uma programação atraente para criaturas que conseguem memorizar sequências minimamente mais complexas que "alalaô ôôô ôôô". Fui ao CCBB numa manhã clara e agradável, livre do risco de ser surpreendida por um dos temporais que têm inundado as tardes de verão e, embora não tivesse adquirido o ingresso com antecedência pela Internet, não peguei nenhuma fila e pude apreciar a exposição com a tranquilidade que ela exige.

Paul Klee

Mas vamos a Klee. Descobri, em primeiro lugar, que ele era um artista multitalento, isto é, além de ser um desenhista de primeiríssima, seguindo uma longa linhagem de artistas gráficos alemães, era bom também na literatura e na música. Talvez isso se explique, em grande parte, pelo fato de ter nascido em uma família com manifesta sensibilidade para as artes. Desde pequeno, Klee recebeu estímulo para desenhar, especialmente da avó Catharina Rosina Frick, que não reprimia o uso da mão esquerda pelo menino em uma época que as crianças eram forçadas a utilizar a mão direita. Além disso, tocava violino desde a infância, incentivado pelo pai, Hans, que ministrava aulas de música, e pela mãe, Ida, que estudara canto e piano. O fato é que ele tinha um bom ouvido e, se quisesse, acredito que também poderia ter sido um excelente músico. Não é à toa que, mais tarde, o artista tenha feito tentativas de transpor a trama musical para várias de suas pinturas, sobrepondo cores e tons com se estivesse criando uma composição polifônica. Trabalhou a relação entre música e imagem e, frequentemente, utilizou conceitos musicais como "tonalidade", "polifonia", "harmonia" e "ritmo" para explicar suas obras.

Durante sua formação escolar, em Berna, o menino Klee costumava copiar folhas de calendários de pintores suíços e, durante os passeios no campo, registrava suas impressões da natureza em esboços. Creio que a oportunidade, para uma criança, de fazer passeios junto à natureza desde pequena amplia todo um universo mental de possibilidades e descortina novos mundos. Já rapazinho, entre 1898 e 1901, Klee foi para Munique, uma vez que a capital bávara era o centro artístico da Alemanha no momento. Frequentou a escola particular de desenho de um artista chamado Heinrich Knirr (1862-1944), onde começou a desenvolver habilidades para representar o nu e, de volta a Berna, aprofundou seus conhecimentos do corpo humano em aulas de anatomia no Instituto de Medicina da Universidade de Berna. Ou seja: mesmo após encontrar seu caminho artístico por meio da abstração, Klee tinha por trás o respaldo de uma sólida formação técnica, isto é, aprendeu a desenhar e muito bem. O oposto do que ocorre com inúmeros "artistas" atuais autoproclamados "abstratos", quando a única coisa realmente abstrata que apresentam é o talento - de "concreto", mesmo, só a preguiça de estudar. Por trás de tudo o que Klee fizesse, portanto, havia sempre muito estudo e experimentação. Metódico e disciplinado, ele trabalhava sem descanso em várias telas ao mesmo tempo e catalogou meticulosamente suas obras - acredita-se que tenha superado o impressionante número de nove mil.

Paul Klee - 'Sem título', 1899 - lápis s/ papel - Foto: Simone Catto

A música devia estar tão enraizada na família do artista que não deve ter sido por acaso que ele acabou se casando com uma pianista profissional, Lily Stumpf (1876-1946), em 1906. No ano seguinte, nasceria Felix, seu único filho. Naquela época, Klee ainda não havia consolidado sua carreira de artista e os papéis em casa se inverteram: quem pagava as contas era a esposa, ministrando aulas de piano, e Klee cuidava da casa e do menino, enquanto desenhava e pintava na cozinha. Modernos, não? Em pleno início do século XX... Enfim, eram artistas. Quem posava de modelo, então, eram os membros da família. Embora não esteja assinalado, é provável que o bebê retratado abaixo seja Felix.

Paul Klee - 'Retrato de uma criança', 1908 - aquarela s/ papel - Foto: Simone Catto

É bom dizer que, mesmo tendo optado pelas artes plásticas, Klee nunca abandonou a música. Antes de começar a pintar, tinha o hábito de tocar violino por uma hora todos os dias e, por vezes, acompanhava a esposa ao piano. Embora posteriormente tivesse tido contato com músicos vanguardistas na escola de Bauhaus, onde viria a lecionar, suas preferências musicais recaíam sobre compositores alemães tradicionais, como Mozart, Bach, Beethoven e Schubert.

Mas não era só a música que fazia os olhos de Klee brilharem. Apaixonado pelo teatro sob todas as formas, inclusive o teatro popular de fantoches, ele criou bonequinhos para divertir o filho Felix utilizando materiais como gesso, caixas de fósforo e tomadas elétricas, entre outros. Mais tarde, Felix, que viria a se tornar diretor de ópera e devia possuir uma boa dose de humor, usava os fantoches que o pai havia criado e um palco que ele mesmo construiu com marcenaria para encenar, a uma plateia de amigos e familiares, histórias divertidas sobre o cotidiano da Bauhaus, onde o pai dava aulas. Alguns desses bonecos fazem parte da exposição.

Não raro, a obra de Klee também é povoada por figuras como acrobatas e equilibristas em arriscadas exibições de equilíbrio e em risco iminente, o que muitos interpretam como uma metáfora da própria insegurança de sua vida artística. Mas essas figuras não eram dispostas aleatoriamente sobre uma superfície: elas obedeciam a leis da física, pacientemente estudadas pelo pintor. Sim, ele era um investigador nato, o que de certa forma me fez lembrar Leonardo da Vinci, guardadas as devidas proporções. O fato é que Klee associava a fantasia mais livre ao rigor mais austero.

Paul Klee - 'Equilibrfista', 1923 - litografia - Foto: Simone Catto

Além da arquitetura, Klee era fascinado pela natureza, que também inspirou sua linguagem abstrata. Para ele, a contemplação da natureza era uma revelação, "um olhar sobre o ateliê de Deus", segundo suas próprias palavras. Essas revelações muitas vezes ocorriam durante longas caminhadas contemplativas (descobri que ele era "dos meus"! rs), já que o artista era um andarilho incansável e um observador minucioso do mundo que o cercava. Talvez sua frase mais famosa seja: "A arte não reproduz o visível, ela torna visível". Klee sabia que era nos detalhes que encontraria o que procurava. Isso me lembrou outra frase, cuja autoria desconheço: "Deus está nos detalhes". O artista chegou a afirmar, mesmo, que uma obra podia “nascer, se desenvolver e se organizar como uma planta".

Foto: Simone Catto

A questão da abstração pictórica começou a se tornar importante para Klee a partir de 1910. Em Munique, ele se uniu ao grupo expressionista 'O Cavaleiro Azul', cujo membro principal era Wassily Kandinsky (1866-1944), iniciando ali uma longa amizade com o artista russo. Sabemos também que Cézanne, Picasso e Braque exerceram forte impressão sobre Klee, principalmente Cézanne, mas quem mais o fascinou foi o multicolorido Robert Delaunay (1885-1941), cujo ateliê visitou em Paris (sempre ela!), e para o qual a cor era o próprio "assunto" da obra. Mas foi em uma viagem à Tunísia, em 1914, que Klee foi "tomado pela cor", conforme afirmou certa vez. Contudo, embora tenha explorado incansavelmente as possibilidades cromáticas, Klee não colocou a luz e a cor em primeiro plano, ao contrário dos impressionistas. Nessa época, criou várias aquarelas, talvez porque a técnica se prestasse melhor a experimentos que possibilitassem uma transição entre figuração e abstração.

Paul Klee - 'Nas casas de St Germain', 1914 - aquarela s/ papel s/ cartão
(Obs.: como minha foto não saiu boa, peguei essa imagem na Internet)

Com tanta criatividade e técnica, Klee foi convidado, em 1921, a lecionar teoria da forma no curso básico da vanguardista Bauhaus, em Weimar, na Alemanha. Lá reencontrou o amigo Kandinsky. Quando a escola foi transferida para Dessau, em 1926, ele passou a dar aulas nessa outra cidade. Vale lembrar que a Bauhaus foi criada em 1919 pelo arquiteto Walter Gropius (1883-1969), num esforço para integrar a pintura, a escultura e a arquitetura aplicadas no cotidiano das pessoas. Em suas aulas, Klee usou seus conhecimentos da natureza para trabalhar questões ligadas à geometria, o que incluía a planimetria (estudo das figuras planas) e a estereometria (estudo do volume dos sólidos). Em 1931, o artista fez várias séries de desenhos construtivos, com linhas geométricas, seguindo modelos que montava a partir de varetas, elásticos e fios. Sabe-se que criava até 15 variações de um mesmo modelo. Afinal, não podemos esquecer que, embora se destacasse pela fantasia e pela imaginação, a obra de Klee nunca prescindia do desenho preciso, calculado e cerebral que caracteriza a grande tradição alemã.

Paul Klee - 'Harmonia da flora setentrional', 1927 - óleo s/ cartão revestido s/ compensado - Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Sem título' (Composição com flores e folhas), 1932 - óleo s/ cartão - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Na década de 30, porém, as coisas começaram a ficar sombrias na Alemanha. O Partido Nacional Socialista de Hitler ganhou poder, tornando a atmosfera cada vez mais ameaçadora para o artista. Em 1931, quando trocou a Bauhaus pela Academia de Artes de Dusseldorf, Klee comentou, em cartas a sua esposa Lily, sobre como detestava Hitler e sua demagogia populista e primitiva. Observador crítico e irônico da realidade, na ocasião ele criou 250 desenhos a lápis, com traços extremamente nervosos e energéticos, nos quais manifestava seu descontentamento com a atmosfera violenta e opressiva que o fez emigrar para a Suíça em 1933. Não demorou para que sua obra fosse ridicularizada e classificada pelos nazistas como "arte degenerada" e, em 1937, cem obras suas foram retiradas dos museus alemães.

Paul Klee - 'Perseguição', 1932 - bico de pina s/ papel s/ cartão - Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Acusação na rua', 1933 - giz s/ papel s/ cartão - Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Mulher jovem', 1933 - aquarela s/ papel revestido s/ cartão
Foto: Simone Catto

Essa fase sombria da política alemã coincidiu com a precarização da saúde do artista, que no fim de 1935 foi acometido de esclerodermia, uma rara doença autoimune que endurece os tecidos conjuntivos, a pele e, por vezes, também os órgãos internos. Apesar disso, Klee continuou trabalhando e criou uma obra multifacetada e rica, caracterizada pela libertação da forma e da composição e por intensa espontaneidade gestual. Nessa época, fez desenhos com pincel utilizando traços simplificados e elementos arcaicos, por vezes francamente grotescos, lembrando pinturas infantis feitas com os dedos. A obra abaixo, por exemplo, lembra uma pintura rupestre.

Paul Klee - 'Soldado', 1938 - tinta de cola s/ algodão s/ cartão
Foto: Simone Catto

O trabalho a seguir pode ser interpretado como a representação de uma dupla desintegração: do próprio organismo do artista, pela doença física, e da Alemanha, pela doença moral acarretada pela ascensão do nazismo.

Paul Klee - 'Um acesso de raiva', 1939 - giz s/ papel s/ cartão
Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Um rosto também do corpo', 1939 - cola colorida e óleo s/ papel-cartão
Foto: Simone Catto

Paul Klee - 'Reconstrução de uma dançarina, uma tentativa', 1939
Aquarela s/ papel s/ cartão - (Obs.: foto da Internet)

Em sua última fase, mais precisamente a partir de 1938, Klee criou também uma perturbadora série de 40 representações de anjos, com formas em que o diabólico e o celestial se fundem. Carregados de forte carga simbólica, esses anjos, em minha opinião, são sintomáticos de um estado de espírito caracterizado pela percepção da proximidade do fim, devido à doença, agravada pela intuição de que a sinistra nuvem negra que encobria a Alemanha de então era só o início de uma catástrofe que estava prestes a se disseminar por toda a Europa.

Paul Klee - 'Anjo cheio de esperança', 1939 - lápis s/ papel s/ cartão
(Obs.: foto da Internet)

Paul Klee - 'Anjo incompleto', 1939 - lápis s/ papel s/ cartão
Foto: Simone Catto


Paul Klee - 'Anjo feio', 1939 - giz s/ papel s/ cartão - Foto: Simone Catto

Embora o trabalho de Klee continue não exercendo um fascínio especial sobre mim, em se tratando de gosto pessoal, é inquestionável que o artista merece todo o respeito por ter mostrado, inquestionavelmente, um talento interdisciplinar que o tornou um dos mais inventivos de sua geração. 

Antes de visitar a exposição, vale a pena assistir ao vídeo abaixo, uma produção francesa de 2005 intitulada ‘Diário de um artista’, sobre a trajetória de Paul Klee. Assisti ao vídeo pela primeira vez no próprio CCBB, mas, como tive vontade de revê-lo, arrisquei uma busca no Google e o encontrei. Felizmente, muitos desses vídeos de arte são de domínio público e o YouTube tem verdadeiros tesouros a serem descobertos. É só procurar!



Organizada por Fabienne Eggelhöfer, curadora-chefe do Zentrum Paul Klee, em Berna, Suíça, a exposição é obrigatória para todo mundo que se interessa por arte e estará em São Paulo até 29/4, com entrada franca. Mais informações aqui: http://culturabancodobrasil.com.br/portal/sao-paulo