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domingo, 31 de maio de 2020

Reflexões de quarentena: sobre raízes, pontes e miragens.

Embora eu tenha trabalhado bastante nesses meses de confinamento, muitas vezes me flagro fazendo reflexões. Acho que é normal, uma vez que, com raras exceções, permanecemos dentro de casa o dia todo e sobra mais tempo para o exercício de pensar na vida. Sem falar que a própria situação de pandemia que estamos vivendo, com o rastro de tragédias que ela já começou a deixar atrás de si, cria um ambiente propício para nos entregarmos aos mais variados pensamentos. 

E no meio de tantos devaneios, acabei por me flagrar pensando em minha relação com as pessoas. Ou a falta dela. Nesses últimos meses, apesar da distância física e social, tive a oportunidade de reforçar os laços com amigos muito queridos. Alguns bem antigos, outros mais recentes, mas todos pessoas que já deixaram, indelevelmente, marcas positivas em minha vida. É gente que pode contar comigo e com a qual eu sei que posso contar também. Gente com a qual gosto de estar, conversar, rir e, por vezes, até chorar, quando a vida não se mostra tão gentil. Pessoas que não falham em sua amizade, coerentes no caráter e constantes no afeto. Algumas delas são do tipo que faz questão de telefonar no meu aniversário para bater papo em vez de enviar um cumprimento protocolar no WhatsApp, daqueles em que a mensagem é substituída por um gif engraçadinho. Nada contra gifs, mas, para quem não lembra, celulares foram criados originalmente para as pessoas conversarem. E para quem também não lembra o que significa "conversa", vale refrescar a memória: é uma verbalização que envolve troca de palavras e ideias entre seres humanos. Implica um emissor, um receptor e uma mensagem transmitida com o auxílio das cordas vocais. Lembrou? Que bom.

'O Almoço dos Barqueiros' (1880-1881), de Pierre-Auguste Renoir - óleo s/ tela - 130 X 173 cm - The Phillips Collection, Washington, D.C., EUA. Renoir foi um dos artistas que mais retrataram as alegrias da ternura e da amizade em suas obras.

'Duas Jovens Lendo' (1890-1891), de Renoir - óleo s/ tela - 56,5 X 48,2 cm - The Los Angeles County
Museum of Art (LACMA), EUA.

Outros amigos, normalmente os mais jovens ou que conheço há menos tempo, preferem enviar mensagens pelo WhatsApp. Escrevem palavras carinhosas cuja sinceridade reconheço, recebo com alegria e faço questão de retribuir. Porém, mais dia, menos dia, a gente acaba se falando ou se encontrando. Em tempos de pandemia, por motivos óbvios, esses encontros têm acontecido somente pelas chamadas de vídeo, mas, de uma forma ou de outra, sempre tenho o prazer de ouvir suas preciosas e tão necessárias vozes.

'The Stepping Stones' (data indefinida), de Thomas Brooks - óleo s/ tela - 89,0 X 63,5 cm
coleção particular.

E reflexão vai, reflexão vem, deparo-me com uma outra categoria de pessoas, felizmente rara: as que já foram amigas – ou pelo menos que eu julgava que fossem – mas que, por razões misteriosas e alheias a meu entendimento, deixaram de ser. É gente que parou de se comunicar, de retornar ligações ou mensagens, mesmo após minhas tentativas. Um desses casos ocorreu há muito tempo, mas, como mencionei anteriormente, nesse período dentro de casa temos mais tempo para remexer as "gavetinhas" do cérebro. E hoje, olhando em retrospectiva para o referido caso, percebo que mesmo na época em que tínhamos amizade, a pessoa em questão já dava sinais sutis de possuir uma psique meio disfuncional, por assim dizer. Reconheço que talvez esteja afirmando, eufemisticamente, que ela tivesse um distúrbio de personalidade, mas tive esse insight anos atrás, após um episódio incompreensível envolvendo uma brusca mudança de comportamento em um intervalo de menos de 24 horas. Foi muito triste porque se tratava de uma amizade de longa data, mas não vejo outra explicação a não ser um possível distúrbio psíquico. Afinal, muitas vezes não é preciso ser psiquiatra ou psicólogo para detectar problemas em alguém - basta um mínimo de sensibilidade e experiência de vida. Nesse caso, quando não podemos ajudar a pessoa (como infelizmente não pude), resta-nos lhe desejar boa sorte.

Porém, excetuando-se os casos supostamente "patológicos", há também pessoas que são egoístas, pura e simplesmente. Algumas abrem mão de amizades de anos sabe-se lá por que, talvez embrutecidas por uma certa mesquinhez de espírito que mine aquela generosidade, delicadeza e disposição internas essenciais à preservação das raízes e vínculos humanos. E outras, ainda, fechadas em seus mundos virtuais, são incapazes de estabelecer ou sustentar pontes que as conectem ao outro e à vida real. Uma vida na qual gente de carne e osso se encontra, troca experiências, ri junto, debate e por vezes discorda, porém criando, na alegria, na tristeza ou na "braveza", um reservatório mútuo de afetos que minimiza as agruras da existência. Suspeito, aliás, que muitas vezes a deficiência emocional desse tipo de gente tenha origem, entre outras razões, no fato de essas pessoas não terem "aprendido o afeto" na infância com quem tinha o papel e o dever de lhes ensinar: suas mães e pais. É fato que crianças que não recebem o devido carinho materno durante o período que os neurologistas denominam "janela de oportunidade", nos primeiros anos de vida, têm suas conexões cerebrais fechadas para a compreensão e a expressão do sentimento de amor saudável, ao mesmo tempo em que, como uma forma inconsciente de autodefesa, tornam-se por vezes apáticas e reativas, quando não francamente rudes ou violentas, dependendo do meio social onde estão inseridas. E antes que você pense que eu esteja arriscando um "psicologês" de botequim, já adianto que muitas de minhas reflexões sobre relações de amizade nesse período de quarentena receberam um input extra do psiquiatra Norman Doidge, autor de um excelente livro sobre neurociência que estou tendo o prazer de reler neste momento. Fato é que, independentemente dos motivos que levem alguém a não corresponder às nossas iniciativas de preservar, estabelecer ou retomar laços de amizade, apesar de nossa boa-vontade, só nos resta duas coisas a fazer: esquecer a pessoa e voltar o rosto para quem faz sentido.

'Un Idylle de la Petite Enfance' (1900), de William-Adolphe Bouguereau - óleo s/ tela - 130 X 102 cm - Denver Art Museum, EUA.

E por falar em gente que faz sentido, essa quarentena também me permitiu, graças às redes sociais, resgatar o contato com ótimos amigos que haviam ficado para trás na minha linha do tempo. Como verdadeiros tesouros perdidos que as ondas do mar tivessem devolvido à costa pela correnteza, essas pessoas reapareceram afáveis, gentis, exatamente do jeito como eram quando as conheci há anos, e ávidas para retomar um contato que nunca deveria ter sido interrompido. E no que depender de mim, não mais será. Um brinde aos novos, antigos e antigos novos amigos!

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Teatro Municipal e os meninos de camiseta cor de sol.

No domingo passado, fui assistir a um concerto no Teatro Municipal às onze da manhã. OK, não é tão cedo, mas convenhamos que poucos brasileiros saem da cama antes das nove da manhã de um domingo preguiçoso para assistir a um concerto. O mérito foi todo de George Gershwin, talvez o compositor americano "mezzo erudito, mezzo popular" mais famoso do finado século XX. Naquela manhã, a Orquestra Experimental de Repertório (OER), com mais de 80 músicos e regência do maestro Carlos Moreno, iria interpretar o lindo Concerto em Fá maior para piano e orquestra do compositor, com solo do pianista Rogério Zaghi. E Gershwin é sempre irresistível, até mesmo num domingo de manhã.

O repertório também incluiu, entre outras peças, o belo prelúdio Alvorada da ópera Lo Schiavo (O Escravo), de nosso Antônio Carlos Gomes. Para quem não sabe, a famosa "cornetinha" tocada para anunciar o início dos concertos na sala São Paulo é um solo de trompete extraído dessa abertura.

Com ingressos por apenas cinco reais e R$ 2,50 a meia entrada, aquele concerto foi uma ótima oportunidade para quem nunca havia visitado o Teatro Municipal conhecer, de dentro, essa que é uma das obras históricas e arquitetônicas mais belas de São Paulo.

A arquitetura do teatro centenário tem estilo eclético e nos remete a uma São Paulo infinitamente mais bonita e cultivada - Foto: Simone Catto

Detalhe de janela com lindos vitrais - Foto: Simone Catto

Ao chegar às escadarias, topei com um enorme e ruidoso grupo de adolescentes vestindo camisetas iguais de um laranja bem vivo. Pelo perfil, uniforme e idade dos jovens, deduzi que se tratasse de alunos de escolas públicas reunidos para o passeio. O saguão do teatro ficou lotado com um festival de selfies. Alguns tiravam fotos tendo as belas esculturas ao fundo. Outros saíam para o terraço do terceiro andar, tirando fotos com vista para a rua. E postavam-se também à frente dos espelhos, dos frisos dourados, fotografavam a pintura do teto. Todos estavam excitados e maravilhados com aquela suntuosidade toda, o tipo de cenário que provavelmente conheciam apenas pelas telas da TV ou pela Internet.

Das escadarias, avistamos as coloridas janelas do café administrado
pelo restaurante Santinho, o mesmo do Instituto Tomie Ohtake.
Foto: Simone Catto

A pintura do teto também encantou os meninos de laranja - Foto: Simone Catto

E esse detalhe encantou a mim! - Foto: Simone Catto

O dourado que deslumbrou os jovens... - Foto: Simone Catto

Quando o concerto começou, notei que metade da plateia, onde estavam os melhores lugares, havia ficado vazia, e que outros bons lugares também haviam ficado desocupados. Achei um absurdo, pois, ao comprar os ingressos, aqueles lugares não estavam mais disponíveis e tive de me contentar com o Balcão Simples lateral, que possibilita uma visão apenas parcial da orquestra. Ocorre que os melhores lugares são reservados para os patrocinadores, estes não comparecem aos espetáculos e esses lugares ficam desocupados, o que acaba se tornando um desrespeito com os espectadores que, assim como eu, não conseguiram posições melhores. O teatro deveria estipular um horário máximo para entrada na sala de espetáculo e, findo esse horário, as pessoas que lá estão deveriam ter o direito de ser remanejadas para ocupar os bons lugares ociosos. Os meninos de camiseta laranja poderiam estar sentados lá na frente, por exemplo.

Outra falha é que não havia programa disponível para as pessoas saberem o que estavam ouvindo. Algo inadmissível, em se tratado do Teatro Municipal da cidade mais importante da América Latina. Infelizmente, aqui no Brasil, nunca podemos esperar grande coisa das instituições que são geridas pelo poder público. Até mesmo em São Paulo.

A visão do Balcão Simples onde eu estava é bastante prejudicada, enquanto que boa parte dos lugares da plateia central permaneceu exatamente assim: vazia - Foto: Simone Catto

Devo dizer que, desde o início do concerto, os jovens uniformizados de laranja eram os espectadores mais atentos e educados da plateia. Não falavam, prestavam atenção na orquestra e pareciam hipnotizados com o solo de piano do concerto de Gershwin. Isso me deixou feliz. Certamente, aquela era uma experiência tão distante do dia a dia e da realidade de cada um, que me pergunto qual efeito ela deve ter exercido sobre as mentes e espíritos daqueles meninos e meninas. Faço votos que o nome do prelúdio de Carlos Gomes, "Alvorada", simbolicamente represente o alvorecer de uma nova consciência do belo e da arte para aqueles jovens com camisetas cor de sol. Espero, francamente, que aquelas duas horas em que eles permaneceram NAQUELE ambiente, ouvindo AQUELA música, tenham marcado indelevelmente seus corações e despertado em suas mentes uma centelha de desejo pelo fazer ou fruir artístico. Ou, pelo menos, que tenham alertado seus nervos mais sensíveis de que existe um mundo melhor, com boa música, boa arquitetura e beleza construída pelos homens. Homens que um dia eles poderão vir a ser, beleza que um dia eles também poderão construir.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Quando a boca pede a palavra.

De uns tempos para cá tenho me perguntado o que está havendo com a comunicação entre as pessoas. Ou o que NÃO está havendo, melhor dizendo, já que tanta gente não se comunica, ou então o faz da forma inadequada. Aí vem a pergunta que não quer calar... falta noção? Educação? Traquejo social? Ou tudo isso junto?

Vou dar dois exemplos que vivenciei no espaço de uma semana. Na noite de sábado, fui jantar em um restaurante e, ao levantar-me para ir ao toalete, automaticamente dei uma espiada no celular. Havia um SMS de uma amiga me convidando para conhecer um restaurante recém-inaugurado na capital. Só que eram quase 23h30. Até estranhei, porque normalmente eu e meus amigos costumamos sair mais cedo para nossos programas. Aí descobri que minha amiga havia enviado o torpedo umas seis horas antes. Atraso típico da "excelência" dos serviços de nossas operadoras de celular. Moral da história: se eu não tivesse tido outro compromisso, simplesmente teria perdido o programa para o qual minha amiga havia me "convidado".

O outro caso: menos de uma semana antes, cheguei em casa de um jantar quase às duas da manhã. Aí peguei o celular da bolsa para desligá-lo, e eis que vejo outro torpedo. Neste, enviado por outra amiga por volta das 21h, eu era convidada a encontrá-la em um bar menos de uma hora depois. Como só vi a mensagem na madrugada, naturalmente só pude responder naquele momento.

Agora eu pergunto: se você enviasse um torpedo fazendo um convite a alguém e esse alguém não te respondesse, o que você faria? Eu, enquanto "ser comunicante", depois de algum tempo sem resposta, obviamente pegaria no telefone e ligaria para a pessoa para lhe perguntar se ela recebeu meu convite. Primeiro, porque sei que torpedos muitas vezes demoram para chegar (e por vezes nem chegam!) a seus destinatários, como aconteceu comigo no último sábado. E segundo, porque o receptor simplesmente pode não ter visto a mensagem, como ocorreu comigo da outra vez. É por isso que meu bom senso sempre me manda fazer convites desse tipo por telefone. Contudo, se alguém porventura se utilizar do expediente de SMS para fazer um convite e não obtiver resposta, o mínimo que deve fazer é ligar para o convidado confirmando se ele recebeu a mensagem ou não, né? Questão de educação. Quando isso não acontece, sou levada a pensar, inevitavelmente, que a pessoa simplesmente não faz questão de minha companhia – é o que chamo de "convite de grego", por assim dizer.

No entanto – repito: parece que boa parte das pessoas perdeu a capacidade de se comunicar. Isto é: se "comunicam" tanto por SMS, e-mails, Facebook, Twitter, "o escambau a quatro"... que simplesmente não conseguem comunicar mais nada. Perde-se o básico do básico. O princípio essencial que pressupõe a existência de uma comunicação, que é o envio de uma mensagem por um emissor e o recebimento por um receptor.

Quero deixar claro, aliás, claríssimo, que não tenho nada contra SMS, veja bem! Sempre envio torpedos às pessoas por diferentes razões, mas em situações que não envolvam urgência ou uma resposta rápida do destinatário – como convites para encontros sociais no mesmo dia, por exemplo. E aproveito para avisar que jamais, mas jamais mesmo, convido alguém para qualquer programa em petit comité por meio de Facebook. Sempre uso o telefone, sobretudo se o convite for dirigido a pessoas com quem eu não esteja em contato com frequência. Primeiro, porque nem todo mundo fica conectado o tempo todo – este é meu caso, inclusive, já que faço questão de ficar bem longe de Internet quando estou vivendo a vida – seja lá fora ou entre quatro paredes. E segundo, uso o telefone por uma questão de gentileza, de calor humano, mesmo. Sim, sou um ser que gosta de conversar, de ouvir a voz do outro e que considera altamente estimulante a troca de ideias e experiências com gente inteligente e do bem.

E também neste caso faço questão de frisar: não tenho absolutamente nada contra Facebook, muito pelo contrário. Uso extensivamente essa ferramenta para interagir com pessoas e também para me informar, trabalhar e compartilhar ideias, imagens e, naturalmente, posts deste blog. Até mesmo porque também sou uma profissional de comunicação. Porém, tenho a percepção de que muita gente "perdeu a mão" (ou a "boca"!), por assim dizer, na hora de se comunicar.

Portanto, vale reforçar que boca não foi feita só para comer ou fazer sexo - embora uma coisa não exclua a outra - OK? Utilizar a boca para CONVERSAR, em determinadas situações, é simplesmente essencial para mantermos aquela qualidade que nos torna humanos. É questão de carinho, cuidado e amizade, quando não de educação. Por isso, em muitos casos (e põe "muitos" nisso!), SMS não substitui boca. Facebook também não. E tampouco outras redes sociais o fazem. E se eu não disse isso com minha própria boca às pessoas que me fizeram os mencionados "convites" por SMS, foi porque, depois daqueles dois episódios, infelizmente não falei mais com elas. Nem pessoalmente e nem por telefone. E esse não é o tipo de coisa que eu diria a elas por SMS... ou Facebook.

domingo, 24 de março de 2013

Oui, a França também está aqui.

O rio Sena, sempre lindo... - Foto: Simone Catto 
Quem me conhece sabe de minha profunda identificação, sabe-se lá como e por quê, com a cultura francesa. Aliás, será que me chamo 'Simone' por acaso? rs... Sei lá. Só sei que, em 2011, participei de um concurso cultural promovido pela Aliança Francesa em São Paulo, no qual deveria apresentar uma produção literária com o tema 'O que há de francês em São Paulo?'. Então inscrevi o texto abaixo e - legal! - fui uma das vencedoras, tendo minha "obra" revelada em uma exposição na Aliança Francesa de Santo Amaro. E como estamos em plena Festa da Francophonie, resolvi compartilhá-la com vocês enquanto presto uma homenagem aos mentores que não param de me inspirar naquele país. Para uma melhor visualização, grafei as palavras de origem francesa em azul. É isso aí, vive la France qui habite Sampa! 

A França em Sampa

Em São Paulo, há um pouco de francês a qualquer tempo e em todo lugar.
Do pão francês que comemos ao despertar ao edredom que estendemos à hora de deitar.

Há um pouco de francês na Isabelle, Simone ou Michelle que, num dia de inverno, veste o mantô e o cachecol para ir trabalhar de metrô porque bateu seu Peugeot, Citroën ou Renault e destruiu o capô.

Há um pouco de francês em cada garoto no guichê da estação Trianon que compra bilhete vestindo boné com pompom.

Há um pouco de francês em cada amante que tira o sutiã em uma garçonnière secreta do Edifício Copan.

Há um pouco de francês em cada madame que sai com o chofer, para num bistrô e degusta champanhe enquanto o garçom serve o couvert.

Há um pouco de francês no sommelier do La Casserole, do La Tartine, do Le Vin e do Ça-Vaassim como há um pouco de francês no chef do Freddy, do Marcel, do Petit Trou e do Voilà.

Há um pouco de francês na moça que compra bijuteria no camelô depois de buscar o filho na creche e enfiar-lhe uma blusa de tricô. 

Há um pouco de francês em cada garota que retoca o batom no toalete depois de se lambuzar com o patê, a salada e o queijo na “baguette”.

Há um pouco de francês num hotel chique como o Renaissance ou o Sofitel, assim como há um pouco de francês em cada hóspede que veste o maiô, dá um mergulho, faz massagem e almoça um filé regado a bordeaux.

Há um pouco de francês em cada concièrge que faz reservas para o teatro e o balémas indica a rua Augusta para uma boate ou cabaré.

Há um pouco de francês em cada manequim que prova roupa no ateliêfaz pivô na passarela da SP Fashion Week e recebe um bom cachê.

Há um pouco de francês nos protestos da Avenida Paulista e na diversidade que enfeita cada pista.

Há um pouco de francês na beleza decadente do velho Centro e na pujança noturna que encanta quem está fora e dentro.

Há um pouco de francês em cada esquina, em cada bairro e por aí. Oui, Sampa, a França também está aqui!

Éclairs da Julice Boulangère... merveilleux, nham! - Foto: Simone Catto

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Parceiros de viagem. Saiba escolher para não embarcar numa fria.

No último feriado encontrei um amigo que há tempos não via e que, recentemente, voltou de uma viagem de aventura no exterior com um grupo de conhecidos. Quando lhe perguntei sobre a experiência, ele começou a descrever os bosques incríveis que conhecera, as paisagens deslumbrantes que visitara, as corredeiras onde praticara esportes radicais. Fiquei babando. Ao comentar que sua viagem devia ter sido maravilhosa, qual não foi minha surpresa, ao ouvir: -'Maravilhosa? Foi uma droga!' (Detalhe: estou usando a palavra "droga" por uma questão de decoro, mas, na realidade, meu amigo usou expressão beeem diferente!).

Levei um susto e perguntei o motivo da insatisfação. Aí ele contou que havia viajado com gente que não conhecia direito e que, por conta disso, havia pago o maior mico. Explico: as pessoas eram mal-educadas e desconheciam as normas da boa convivência num local que exigia total respeito à natureza e uma postura mais discreta e contida com relação à população nativa. O pior, disse ele, é que se tratava de uma viagem pré-programada, totalmente vinculada à prática de ecoturismo e esportes radicais e, por isso mesmo, ele não tinha sequer a opção de se separar do grupo e seguir sozinho.

Lamentei profundamente e, mais do que isso, não tive como não relembrar uma situação parecida que vivi numa viagem à Europa e que me deixou uma grande lição: viajar na companhia de pessoas que possuam gostos, educação e valores diferentes dos nossos é o caminho mais curto para uma roubada. Porque vamos falar claro: se já é difícil conviver com gente grosseira e de índole ruim em situações sociais pontuais, imagine, então, numa viagem que dura dias ou semanas. Pois é. Nessa viagem que fiz, por exemplo, havia uma "senhora" que era a prova viva de que o ser humano é descendente direto do homem de Neanderthal. Até hoje me pergunto de que caverna ela saiu.

Para começar, a dita cuja não falava, vociferava. Imagine a cena: você está fazendo compras no supermercado de uma pacata cidadezinha da França e de repente ouve alguém gritar seu nome umas dez gôndolas adiante, a altos brados, pedindo-lhe para traduzir o rótulo de um pacote de bolachas. Dali a pouco, você ouve a fina perguntar a outra pessoa do grupo, a uns trinta metros de distância, onde fica o banheiro. Mico máster. Deu dó dos sensíveis ouvidos locais submetidos àquela trombeta do Apocalipse.

E isso não era nada comparado com algo ainda pior: a infeliz não respeitava as leis de trânsito das estradas europeias, dirigia em altíssima velocidade e ainda respondia com grosserias quando alertada sobre o perigo. Sentiu o drama? Pois é. O único problema é que a ogra não estava sozinha no carro. Porque vamos e venhamos: se a criatura quisesse se matar, problema dela. Mas que fizesse isso sozinha e poupasse a civilização à qual NÃO pertence, certo?

Esses foram apenas alguns dos tristes episódios do show de horrores perpetrado por alguém que não possuía a menor noção de civilidade, não sabia se comportar em lugar algum e ainda por cima era a encarnação da negatividade. Aliás, cá entre nós: aquilo não era uma mulher, era uma perturbação! (Digo "era", porque - Deus é pai! - nunca mais trombei com a criatura e, no que depender de mim, isso nunca mais acontecerá! rs.) Nem é preciso dizer, naturalmente, que a digníssima "senhora" não demonstrava o mínimo interesse pela cultura, pela arte e tampouco pela história dos encantadores locais que visitamos. Porque vamos combinar: ninguém nasce sabendo, mas os espíritos minimamente iluminados sentem pelo menos uma centelha de curiosidade em aprender algo novo e extrair algum ensinamento de uma viagem – ainda mais uma viagem à Europa! Esse triste desinteresse cultural, diga-se de passagem, não era exclusividade da dita cuja - infelizmente, era também característica de outras pessoas do grupo. Pelo menos aí tive mais sorte que meu amigo: pude me separar ocasionalmente dos demais para visitar, vivenciar e, principalmente, sorver com todos os meus sentidos a beleza, o encanto e os detalhes de lugares tão ricos em história e civilização.

É evidente que, tivesse estado eu em melhor companhia, minha viagem teria sido muito mais rica e proveitosa por eu poder compartilhar, com pessoas afins, minhas opiniões e impressões sobre tantas coisas interessantes. Salvaram-me minha infinita curiosidade, uma sensibilidade para o belo que tantas alegrias me traz e, sobretudo, o desejo de aprender cada vez mais.

Nós sabemos que, muitas vezes, é somente na convivência que passamos a conhecer verdadeiramente as pessoas – para o bem ou para o mal. Mas há alguns sinais, emitidos pelo outro, que já nos dão algumas pistas de que a pessoa não é legal ou não tem nada a ver com a gente. O problema é que, em nossa boa-fé, muitas vezes não queremos enxergar esses sinais e damos um "desconto", acabando por relevar e estragar momentos que poderiam ser muito mais prazerosos.

Portanto, fica a dica. Quando embarcar para sua próxima viagem, seja no Brasil ou no exterior, escolha bem seus parceiros. Se você é amante de esportes radicais, por exemplo, não faz sentido viajar com alguém que perde o fôlego no primeiro quarteirão. Se você gosta de arte e museus, não viaje com quem só quer saber de fazer compras ou, o que é pior, só viaja para postar as fotos no Facebook e exibir como é... hã?... "feliz". E, principalmente, se você é uma pessoa educada e do bem, desconfie de quem não tem modos ou classe e perde facilmente o controle, tratando os outros com grosseria. O negócio é usar o bom senso. Fique atento aos sinais alheios, escolha bem seus companheiros e... boa viagem!!!