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quinta-feira, 24 de março de 2016

Gregório Gruber transforma locais de 'passar' em paisagens de 'estar'.

Uma cidade não é só aquilo que vemos. Ela é um conjunto de símbolos e também das sensações que suscita em nós. Existe um artista que sabe, como ninguém, traduzir em suas telas a São Paulo que habita o inconsciente de muitos paulistanos por nascimento ou por opção.

Estou falando de Gregório Gruber, desenhista, pintor, gravador, escultor, fotógrafo e, ufa!... cenógrafo. O fato é que, embora domine – e com a mais absoluta mestria - uma série de técnicas, o artista ficou conhecido mesmo pelas pinturas e pastéis que retratam paisagens da cidade de São Paulo. Mas não a São Paulo do caos, da poluição visual, do trânsito e das multidões. A São Paulo de Gregório é deserta, serena, uma cidade meio onírica. É a paisagem que visualizamos quando acordamos no meio da madrugada para beber um copo de água e abrimos a janela do apartamento para dar uma espiadinha. Vemos tudo quieto, tranquilo, em silêncio. Quando muito, avistamos uma luzinha acesa no apartamento do outro lado da rua e pensamos: “Quem está acordado a essa hora?”... e então voltamos para a cama para retomar o sonho de onde paramos. Um sonho que poderia muito bem ter como cenário uma pintura de Gregório Gruber.

Costumo dizer que ele transforma "lugares de passar" em "lugares de estar". Viadutos e avenidas de São Paulo, locais onde a vida pisa no acelerador, tornam-se paisagens de acolhimento. São Paulo um dia foi assim. Até a década de 30, era uma cidade para ser vista de perto, pelas pessoas que caminhavam nas calçadas e podiam observar os detalhes da arquitetura urbana. As transformações da cidade a partir daí, sobretudo na década de 60, época da infância do artista, alteraram a natureza de suas experiências e a forma como ele percebia a metrópole. Surgiram autopistas de grande velocidade como o elevado Costa e Silva - o amado-odiado "Minhocão" - e o habitante de São Paulo tornou-se um passageiro em permanente movimento, passando a enxergar uma rápida sucessão de fachadas que perderam espessura sob o impacto da velocidade.

Nas telas de Gregório, as fachadas adquirem relevo e densidade, contrapondo-se à volatilidade da arquitetura urbana. Seus viadutos e avenidas, que originalmente seriam lugares de passagem, tornam-se lugares onde o olhar pode se deter e repousar. Sempre digo que a velocidade aprisiona e a desaceleração liberta. Porque ao desacelerarmos, damos à nossa mente o tempo necessário para a apreensão e a percepção da realidade visível e, principalmente, daquela que é invisível. É por isso que essas passagens urbanas plácidas, apaziguadoras, assemelham-se às paisagens que observamos através de uma janela na madrugada, libertando nosso pensamento para voar em outras paragens.

As obras abaixo ilustram muito bem essa percepção de passagens que substituem a velocidade pelo acolhimento do olhar. Na primeira, uma pintura sobre juta, as nuvens da madrugada se dissipam e os primeiros raios de sol iluminam a avenida ainda deserta. As demais são carvões e gravuras nas quais o artista transforma diferentes - e algumas icônicas – vias da cidade em paisagens plácidas que convidam à contemplação.

Gregório Gruber - 'Passagem' (2008) - pintura s/ juta - 70 cm X 100 cm

E aqui o nosso "Minhocão", o feio mais amado de São Paulo, ganha outra dimensão e uma perspectiva mais humana...

Gregório Gruber - desenho a carvão (2007) - 70 cm X 100 cm

Gregório Gruber - desenho a carvão (2007) - 70 cm X 100 cm

Gregório Gruber - gravura (2004) - 57 cm X 78 cm

Gregório Gruber - desenho a carvão (2007) - 70 cm X 100 cm

Gregório Gruber - desenho a carvão (2007) - 70 cm X 100 cm

Gregório Gruber -  gravura (2004) - 57 cm X 78 cm
  
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quarta-feira, 11 de junho de 2014

Presente para São Paulo: a essência de Gregório Gruber em exposição na APM.

Quarta-feira passada foi o vernissage de uma excelente exposição de Gregório Gruber (1951), desta vez na Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina. Conheço o trabalho do artista desde minha adolescência e nunca me esqueço de como fiquei hipnotizada ao me deparar com uma obra sua pela primeira vez, uma paisagem monocromática de São Paulo na capa de uma lista telefônica da Telesp, antiga estatal de telefonia. Não consigo lembrar exatamente que paisagem era aquela – talvez o Viaduto do Chá ou o Santa Ifigênia, não sei, mas lembro que ela tinha uma luz sobrenatural, toda em tons azul-violáceos e envolta numa espécie de névoa. Como desde pequena eu já tinha um "pezinho" na arte, procurei na contracapa do catálogo telefônico o nome do artista, e então... voilà! Descobri Gregório. (Momento flashback: quando criança, eu costumava recortar fotos de pinturas dos livros de história da escola para colá-las na parede da casa das bonecas. Acho que minhas 'Susis' eram as únicas que tinham, ao mesmo tempo, a Mona Lisa e o Balanço de Fragonard na sala!... rs.)

Ainda na adolescência, quando comecei a acompanhar a programação cultural de jornais e revistas, vez ou outra lia alguma coisa sobre Gregório Gruber e descobri que sua "especialidade", por assim dizer, eram as paisagens da cidade de São Paulo. Em 2002 tive a oportunidade de visitar uma megaexposição de suas pinturas no Centro e, anos mais tarde, Gregório tornou-se objeto de meu trabalho de pós-graduação e também de um livro no qual discorri sobre o tema pictórico que lhe deu notoriedade, sua amada São Paulo. De lá para cá venho acompanhando sua produção de perto e posso dizer que essa exposição na APM é uma ótima oportunidade para quem não conhece sua obra ter uma boa ideia do estilo do artista.

Vernissage com música tem um charme especial! - Foto: Simone Catto

Gregório domina várias técnicas e lá encontramos uma pequena, porém diversificada, amostra de sua produção: pinturas sobre tela e juta, aquarelas, desenhos a carvão, gravuras e também os esfuziantes e coloridíssimos assemblages.

'Ciclista na Paulista' (2008) - pintura sobre juta - Foto: Simone Catto

'Cena Noturna' (2003) - pintura sobre tela
Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

Produzidos de uns cinco anos para cá, os assemblages consistem em composições construídas em camadas com pedacinhos de madeira balsa formando relevos de grande engenhosidade e harmonia. Exuberantes e com cores muito vivas, pertencem a um gênero bem diferente da produção de Gregório à qual estamos acostumados, notadamente as pinturas. As fotos a seguir dão apenas uma pálida ideia da inventividade dos assemblages do artista, o ideal é apreciá-los ao vivo para ter noção da profundidade e sentir sua altíssima qualidade estética.

'Amanhecer' (2005) - assemblage com madeira balsa - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

'Elevado' (2010) - assemblage com madeira balsa - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

Dentre as pinturas e aquarelas, não poderiam faltar algumas realizadas com técnica análoga àquela que tanto me impressionou na capa da lista da Telesp quando eu ainda nem era gente: monocromias com paisagens envoltas em névoa, como se fossem cenários de sonho.

'Estrada' (2007) - aquarela - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

'Carro na Neblina' (2007) - aquarela - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

As obras da exposição estão didaticamente separadas por técnica, um acerto da curadora Lorena Hollander que confere organização no conjunto e facilita, para o espectador, a compreensão da obra do artista. As paisagens da cidade de São Paulo predominam, mas aqui e acolá visualizamos um interior ou um cenário mais bucólico.

'Paulista' (2004) - pintura sobre juta - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

'Saldanha Marinho II' (2004) - litografia - Foto: Simone Catto

'Interior com Piano' (2007) - carvão sobre papel - Foto: Lorena Hollander (catálogo da exposição)

Um outro ponto a destacar é o cuidado que o Departamento Cultural da Associação Paulista de Medicina teve com a confecção do catálogo da exposição, fartamente ilustrado e com uma impressão de ótima qualidade. Vale ressaltar, também, que no mesmo andar é exibida, em outra sala, parte do respeitável acervo artístico da instituição, com obras de Tarsila do Amaral, Pancetti, Volpi, Clóvis Graciano, Mario Zanini, Aldemir Martins, Di Cavalcanti e muitos outros grandes artistas brasileiros. Dá para visitar ambas! Só não dá para entender por que a exposição de Gregório Gruber na APM não consta nos guias semanais de entretenimento da grande mídia, já que se trata de uma mostra tão importante.

Anote aí: GREGÓRIO GRUBER na Pinacoteca da Associação Paulista de Medicina - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 278 - 8º andar. Abre de segunda a sexta-feira, das 10h às 20h, com entrada franca. Até 12/9. Em tempo: na noite do vernissage, deixei o carro num estacionamento ao lado que cobra R$ 15,00, preço justo para os padrões de Sampa. Não perca!

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Gregório Gruber apronta de novo: retratos a quatro mãos na mostra 'Fusões'.

Posso dizer que já conhecia bem a obra de Gregório Gruber, artista plástico cujas paisagens da cidade de São Paulo constituíram o tema de meu trabalho de pós-graduação, que posteriormente virou livro. Entre visitas a seu ateliê, entrevistas e uma amizade que nasceu desde então, pude constatar que Gregório tem uma energia criadora inesgotável. Inquieto e incansável, está sempre à procura de novos suportes e formatos para extravasar seu transbordante talento artístico e, vira e mexe, está nos surpreendendo. A "última das suas" é uma exposição em parceria com a artista plástica Debora Muszkat, no Centro da Cultura Judaica, denominada 'Fusões – Legado e Personas em Transformação'.

'Série Polacas - Homenagem' (2013) - técnica mista - Foto: Simone Catto

'Irmãos Gershwin' (2013) - pintura - Foto: Simone Catto

Pois bem. Quem conhece Gregório sabe que seu trabalho mais famoso é justamente aquele que abordei em meu livro: as pinturas a óleo, acrílicas e pastéis que retratam sobretudo o Centro de São Paulo. Vale do Anhangabaú, 'Minhocão', Viaduto do Chá, Ed. Altino Arantes (antigo prédio sede do Banespa), entre outras paisagens icônicas da cidade, são os "astros" e "estrelas" dessas obras.

Só que, desta vez, Gregório fez algo bem inusitado para seus padrões. Trancou-se em seu ateliê na Serra da Cantareira ao lado de Debora e, durante cerca de um ano, segundo me relatou, criaram juntos retratos de judeus – homens e mulheres - que deixaram sua marca na história, ao lado de membros da família da artista. Um interferindo no trabalho do outro, um destruindo e recriando o trabalho do outro. Um processo que deve ter beirado o visceral e que, imagino, não tenha sido nada fácil! Tente imaginar dois artistas plásticos, cada um com sua linguagem e valores, trabalhando não só no mesmo espaço, mas também por vezes na mesma obra! Loucura, né?!

'Clarice 2' (2013) - pintura - Foto: Simone Catto

'Bernstein' (2013) - técnica mista - Foto: Simone Catto

'Série Família - Casamento' (2012) - técnica mista - Foto: Simone Catto

Pois é. É um tipo de trabalho totalmente diferente daquele com o qual estamos habituados ao analisarmos a totalidade da produção de Gregório. Esculturas, gravuras, aquarelas, assemblages de madeira balsa, enfim, a maioria das plataformas e técnicas utilizadas pelo artista até então, além da pintura, sempre esteve a serviço da paisagem, urbana ou não. Está certo que Gregório já realizou muitos – e ótimos - retratos em diferentes técnicas e épocas, mas eles são minoria em sua trajetória.

Essa exposição conjunta com Debora Muszkat compreende retratos em desenhos, pinturas, sanguíneas e assemblages, tudo com viés fortemente pop e propositalmente kitsch. Com algumas obras me identifiquei mais, com outras menos, mas a mostra resultou, no mínimo, inusitada.

'Marina em Performance' (2013) - pintura - Foto: Simone Catto

'Amy' (2013) - pintura - Foto: Simone Catto

'Einstein' (2013) - carvão - Foto: Simone Catto

Chamaram minha atenção dois belos quadros retratando polacas, as prostitutas judias que chegaram ao Brasil fugidas da miséria na Europa no início do século XX. Ao lado delas e de membros da família da artista estão judeus de várias nacionalidades, profissões, talentos, épocas e estirpes: Freud, Modigliani, Einstein, Amy Winehouse, Leonard Bernstein, o casal Zweig, George e Ira Gershwin e até a artista performática Marina Abramovic, entre outros, todos improváveis vizinhos de parede que ali compartilham o mesmo espaço unidos por dois únicos pontos em comum: as raízes judaicas e o sopro criativo dos autores de seus retratos.

'Série Polacas - Corredor' (2012) - sanguínea e píntura - Foto: Simone Catto

Quer conferir a exposição? 'FUSÕES' estará até 9/2/2014 no Centro da Cultura Judaica – Rua Oscar Freire, 2.500. Tel. 3062-2229 – www.culturajudaica.org.br. Entrada franca.