domingo, 7 de novembro de 2021

Julie, a última dos Manet, ganha exposição em Paris.

Quem conhece a pintura impressionista se lembra de Julie Manet (1878-1966) como a graciosa modelo de inúmeros retratos pintados pela mãe, Berthe Morisot (1841-1895), primeira pintora a se juntar aos impressionistas e morta precocemente aos 54 anos. 

Mas o fato é que Julie foi muito mais do que modelo e “mascote” para os colegas artistas da mãe. Ela mesma tornou-se uma excelente pintora e, depois que todos eles partiram deste mundo, tornou-se também uma memória viva do Impressionismo, o movimento artístico que escandalizou Paris a partir de 1874.

Desde bebê, Julie aparece nas pinturas de Berthe com ar sonhador, em composições serenas e delicadas que eram a marca registrada do estilo da mãe e retratavam sua vida doméstica, os familiares e, principalmente, seus filhos pequenos.

Julie também era sobrinha de uma “ovelha desgarrada” do movimento impressionista, Édouard Manet, autor de Déjeuner sur l’Herbe (Almoço na Relva), considerada a primeira pintura moderna pelos historiadores de arte, e foi aluna, após a morte do pai Eugène, do poeta Stéphane Mallarmé, amigo da família. Ainda pequenina, além de posar para a mãe, posou também para o tio Édouard Manet, para o padrinho Edgar Degas, e frequentou a casa dos Renoir. Consta que a menina era uma criança - e depois adolescente - sensível, discreta, que se comportava na vida como diante do cavalete: com sabedoria.

Esq.: 'Retrato de Julie Manet' por Auguste Renoir, 1894 | Dir.: fotografia inédita de Julie Manet

E agora, o museu Marmottan Monet, de Paris, dedica a Julie Manet uma exposição que finalmente faz jus a seu talento, a sua personalidade e seu papel na História da Arte. Mostra sua infância protegida em um lar afetuoso e de mente aberta, a adolescência órfã, pois o pai Eugène, irmão mais novo de Édouard, morreu em 1892 e sua querida mãe partiu apenas três anos depois - bem como o casamento e a idade adulta. A mostra também exibe obras de Berthe e Édouard que Julie fez questão de transmitir à posteridade, bem como suas próprias produções pictóricas e seu diário, no qual escrevia profusamente. A esse respeito, vale destacar que foi após ler os diários de Delacroix que Julie teve a ideia de colocar seus próprios pensamentos íntimos no papel.

As irmãs Gobillard também são mencionadas na exposição: Paule e Jeannie, primas de Julie e também órfãs, dividiram um apartamento com ela na rue de Villejust, em Paris, e as três trabalharam pintando sob os auspícios do terno amigo Renoir, que as encorajava e aconselhava. Paule se tornaria uma artista reconhecida e o dom de Julie não ficaria atrás, como mostra a pintura 'Martha em vestido de veludo verde' . Embora às vezes atormentada pela dúvida, ela manteve-se fiel aos preceitos maternos: “Acolher tudo, desde que seja verdadeiro o sentimento e autênticas as ideias”.

'Martha em vestido de veludo verde', por Julie Manet, 1898

Em 1900, Julie se casou com Ernest Rouart, aluno de Degas que promoveu o primeiro encontro de ambos no Louvre, e Jeannie Gobilllard casou-se no mesmo dia com Paul Valéry. O casal Rouart-Manet colecionava pinturas de mestres como Poussin, Corot, Delacroix e Monet, entre outros, enquanto Julie lutava para levar às paredes públicas as pinturas da mãe e do tio Édouard. A herança artística de Julie, tanto genética quanto social, pelo convívio com artistas à frente de seu tempo, ficou evidente durante toda a sua vida. Além de artista plástica, ela atuou também como designer, pois não parava de pintar e desenhar, e a exposição do Marmottan exibe uma série de obras inéditas, algumas de coleções particulares. Já não era sem tempo que um grande museu prestasse homenagem à talentosa mascote dos impressionistas.

Ernest Rouart, Julie Manet, Paul Valéry e Jeannie Gobillard posam na rue de Villejust
no dia de seu casamento, em 31 de maio de 1900.

Fonte: L'Express

Pintura recuperada 40 anos após roubo na Alemanha Oriental pode ser de autoria de Rembrandt.

Uma pintura holandesa furtada naquele que é considerado o maior roubo de arte na Alemanha Oriental comunista e recuperada no ano passado pode ser de autoria de Rembrandt, de acordo com pesquisas e análises feitas por curadores do Palácio Friedenstein, o maior palácio barroco da Alemanha, na cidade de Gotha.

O palácio barroco Friedenstein, em Gotha - Alemanha

A pintura de um ancião barbudo, com data presumida entre 1629 e 1632, foi uma das cinco obras devolvidas ao Palácio Friedenstein no ano passado, mais de quatro décadas após terem desaparecido no roubo de dezembro de 1979. As outras pinturas recuperadas são: um retrato de Santa Catarina de Hans Holbein, o Velho, de 1510; um retrato de autoria de Frans Hals, de 1535, de um cavalheiro desconhecido e sorridente, de bigode, usando um grande chapéu preto e colarinho branco; uma estrada rural com carroças de camponeses e vacas do estúdio de Jan Brueghel, o Velho; e uma cópia de um autorretrato de Anthony van Dyck com um girassol, de autoria de um dos contemporâneos do artista. As cinco pinturas foram restauradas e estão em exibição numa mostra do palácio que vai até 21 de agosto de 2022.

O retrato do ancião, que sofreu arranhões profundos e foi a obra mais danificada das cinco roubadas, havia sido atribuída anteriormente a Jan Lievens e Ferdinand Bol, aluno de Rembrandt. Porém, Timo Trümper, curador da exposição, afirma que a análise do estilo da pintura descartou a autoria de ambos. A obra havia sido atribuída a Bol porque sua assinatura está no verso, mas Trümper explica que isso pode indicar que ele era o dono do retrato, não que o tenha necessariamente pintado. Diz ainda que Bol pode ter obtido o trabalho após a falência de Rembrandt, em 1656.

A pintura atribuída a Rembrandt e devolvida ao Palácio Friedenstein

A pintura recuperada é muito semelhante a outro trabalho do mestre holandês no museu de arte de Harvard – EUA e que traz sua assinatura, embora sua atribuição também tenha sido questionada. 

Metade dos colegas de Trümper afirma que a pintura de Gotha é obra de um dos alunos de Rembrandt e a outra metade diz que pode ser do mestre holandês, mas o fato é que não podemos saber ao certo. 

O ladrão, de acordo com um ensaio no catálogo da exposição pelo jornalista Konstantin von Hammerstein, da Der Spiegel, é Rudi Bernhardt, um maquinista desiludido da Alemanha Oriental que contrabandeou as pinturas para a Alemanha Ocidental com a ajuda de cúmplices deste lado - um casal já falecido que deixou as pinturas para os filhos. Bernhardt morreu em 2016 levando seu segredo para o túmulo. 

No entanto, essa não foi a primeira vez que as cinco pinturas foram roubadas do Palácio Friedenstein. Elas já haviam sido saqueadas no final da Segunda Guerra Mundial e acabaram na União Soviética junto de outros tesouros. O palácio registrou, no banco de dados de arte alemã desaparecida, cerca de 1.700 itens com paradeiro ignorado, mas Trümper afirma que eles não incluem milhares de livros e moedas também perdidos.

A exposição examina o destino de objetos roubados desde o século XIX até os dias atuais, incluindo cerca de 80 obras que foram devolvidas nas últimas décadas.

Fonte: The Art Newspaper

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Suspeito é preso na Holanda pelo roubo de pinturas de Van Gogh e Frans Hals

No dia 6 de abril, a polícia holandesa prendeu um homem de 58 anos em sua casa sob suspeita de roubar pinturas de Vincent Van Gogh e Frans Hals de museus da Holanda, no ano passado. As duas obras roubadas, “O Jardim do Presbitério de Nuenen na Primavera”, de Van Gogh, e “Dois Meninos Rindo com uma Caneca de Cerveja”, de Hals, ainda não foram encontradas, apesar da investigação realizada há meses.

"O Jardim do Presbitério de Nuenen", de Van Gogh (1884) - Foto: Marten de Leeuw / AFP

“O Jardim do Presbitério de Nuenen na Primavera” (1884), de Van Gogh, foi roubado na noite de 30 de março de 2020 do Museu Singer Laren, fechado devido à pandemia de Covid-19. O mais irônico é que o roubo ocorreu no dia do aniversário do artista, nascido em 30/3/1853. A pintura está estimada entre um e seis milhões de euros, segundo o especialista em arte holandesa Arthur Brand que, dois meses após o roubo, recebeu duas fotos da obra ao lado da primeira página do New York Times com data de 30 de maio - prova de que estava intacta até então.

O museu de onde foi roubada a obra de Van Gogh, que fica a 30 quilômetros de Amsterdã - Foto: Peter Dejong

A tela de Frans Hals, mestre da época de ouro da pintura holandesa, foi roubada pela terceira vez cinco meses após o roubo da pintura de Van Gogh, do Museu Hofje van Mevrouw van Aerden, em Leerdam. A pintura, que mostra dois meninos rindo com uma garrafa de cerveja, já havia desaparecido em 2011 e 1988 antes de ser encontrada seis meses e três anos depois, respectivamente.

A outra obra ainda desaparecida: "Dois Meninos Rindo com uma Caneca de Cerveja", de Frans Hals
Foto: Wikicommons

Embora as duas telas ainda não tenham sido encontradas, Arthur Brand, apelidado de "Indiana Jones do mundo da arte" por suas façanhas investigativas, alegrou-se com a notícia. “Outro grande sucesso para a polícia holandesa”, reagiu no Twitter. 

Duas obras-primas do mestre pós-impressionista já haviam sido roubadas em 2002 do Museu Van Gogh, em Amsterdã: “Vista do Mar de Scheveningen” (1882) e “Saída da Igreja Reformada de Nuenen” (1884-1885), que valem milhões de euros. Ambas foram encontradas na Itália em 2016 e estão expostas desde junho de 2019 no Museu Van Gogh. Em 1990, três pinturas do pintor holandês foram roubadas do Museu Noordbrabants, antes de serem encontradas e devolvidas. 

Frans Hals foi contemporâneo de Rembrandt e Vermeer, outros grandes mestres holandeses do século XVII, marcado pelo apogeu do país no comércio, na arte e na expansão colonial. Hals é  conhecido por seus inúmeros retratos, notadamente “O Cavalheiro Sorridente” (1624), exibido na Wallace Collection, em Londres, ou “A Boêmia” (1628-1630), que pertence ao Louvre. 

Só uma dúvida: se a polícia holandesa já prendeu o criminoso, por que ainda não conseguiu chegar às obras? 

Fonte: Le Monde 

domingo, 7 de março de 2021

Neurocientista francês revela os benefícios da arte para nossa saúde.

Muita gente certamente já ouviu falar, em algum momento, que a arte é terapêutica. Posso afirmar inclusive por experiência própria, pois passei boa parte de minha vida estudando piano diariamente, por longas horas, e a prática me fez tão bem que usar a palavra “êxtase”, para descrever minha sensação ao teclado, não seria exagero. Mas o poder que a arte tem de curar nossos corpos e mentes pode ser ainda maior do que imaginamos. Quem diz é a ciência. 

O neurocientista, músico e escritor francês Pierre Lemarquis publicou recentemente um livro sobre esse assunto fascinante. “L'Art qui Guérit” (A Arte que Cura) conduz os leitores em um tour pela arte ao longo dos séculos, desde o período Paleolítico até o final do século 20, interpretando obras através das lentes de seus poderes de cura - tanto para o espectador quanto para o criador. O autor integra história da arte, filosofia e psicologia ao mesmo tempo em que cita surpreendentes descobertas atuais da neurociência sobre o poder de cura pela arte.

Pierre Lemarquis, autor do livro "A Arte que Cura" - Foto: Sylvain Thiollier

Um relatório da Organização Mundial da Saúde de 2019, baseado em evidências de mais de 3.000 estudos, “identificou um importante papel das artes” na prevenção de doenças. E em 2018, médicos de Montreal, Canadá, ganharam as manchetes dos jornais quando começaram a prescrever, a pacientes que sofriam de certas doenças, visitas ao Museu de Belas Artes de Montreal. 

“Há uma corrente avançando nessa direção”, afirmou Lemarquis, que divide seu  tempo entre o resgate das artes para a medicina, a prática da clínica neurológica e a docência na Universidade de Toulon, no sul da França. 

Lemarquis também é presidente de uma nova associação francesa chamada “L'invitation à la Beauté” (Convite à Beleza), que prescreve "receitas culturais" aos pacientes, incluindo visitas a museus e exposições de arte. Apoiada pela UNESCO, a entidade criou uma coleção com obras de arte originais para emprestar aos pacientes internados em um hospital de Lyon, na França, e o projeto deve se expandir. 

Mas como, exatamente, vivenciar a arte pode tornar uma pessoa mais saudável? Como pode ajudar a tratar doenças? 

Quando vemos arte, "participamos" de sua criação

Nas últimas décadas, descobertas neurológicas lançaram luz sobre o que acontece com o cérebro quando ele vivencia a arte. O livro de Lemarquis detalha esse novo subcampo da "neuroestética", que usa tecnologias como a ressonância magnética para examinar quais vias do cérebro estão envolvidas quando criamos ou contemplamos uma obra de arte, e em que medida elas são estimuladas. 

O que pode parecer intuitivo, mas é cientificamente demonstrado no livro, é que todos os tipos de arte atuam em nosso cérebro de uma forma dinâmica e multifacetada. As redes neurais são formadas para alcançar estados elevados e complexos de conectividade. Em outras palavras, a arte pode “esculpir” e até “acariciar” nossos cérebros. Portanto, quando dizemos que uma obra de arte nos emociona, isso acontece num nível físico, mesmo. 

Lemarquis também explica que, em um processo auxiliado por neurônios-espelho, ativados quando observamos uma obra de arte, podemos ter a sensação de que estamos realmente participando da criação artística, ou nos colocando no lugar do artista. Nosso cérebro tem inclusive a tendência de “pensar” que está interagindo com um ser biológico ao perceber uma pintura figurativa de uma pessoa, por exemplo.

Rembrandt - Autorretrato - 1665-1669 - óleo s/ tela
 114,3 X 94 cm - Kenwook House, Londres

“Os efeitos benéficos das artes foram notados desde a Antiguidade Clássica”, escreve Lemarquis, referindo-se a Aristóteles, que descreveu a sensação de catarse quando os gregos assistiam a uma peça teatral, ou as emoções encarnadas pelos atores, que ajudaram os espectadores a entender melhor seus próprios pensamentos e sensações.

Mais tarde na história, Stendhal, o autor francês do século 19, contou como quase desmaiou ao contemplar afrescos na Basílica de Santa Croce, em Florença, onde sentiu "uma espécie de êxtase" por estar "absorvido na contemplação da beleza sublime". Seu coração bateu tão rápido naquele momento que ele achou que iria desfalecer. Daí o nascimento da expressão “Síndrome de Stendhal” para designar a sensação de vertigem e atordoamento que muitas pessoas vivenciam ao contemplarem uma quantidade muito grande de obras de arte num curto espaço de tempo. Lemarquis explica essa reação porque o cérebro é “invadido por emoções estimuladas pelo aumento da adrenalina no sistema nervoso autônomo”.

Igreja de Santa Croce, Florença
















Mas nem sempre é fácil identificar o que sentimos em relação a uma obra de arte. Isso ocorre em parte porque nossa reação é o resultado dinâmico da estimulação neuronal que combina áreas do cérebro que normalmente não operam juntas: os recessos mais profundos de nossas mentes, que governam o sistema de prazer e recompensa, bem como outros sistemas que lidam com conhecimentos, percepções e circuitos motores. Lemarquis escreve que, como resultado desses processos, começamos a experimentar "empatia estética", ou a impressão de que uma obra de arte é parte de nós - que incorporamos seu "espírito". “Esse vai-e-vem constante, esse espaço vazio entre os dois, é a fonte de tudo - o sentido da vida”, acrescenta. 

Como a arte pode ajudar a curar

Segundo o autor, as áreas de nosso cérebro que são ativadas quando criamos ou contemplamos arte liberam hormônios e neurotransmissores benéficos para nossa saúde e geram uma sensação de bem-estar. Eles incluem a dopamina (ausente entre os pacientes de Parkinson), serotonina (encontrada em antidepressivos), bem como endorfinas e oxitocina, que podem auxiliar no controle e na redução da dor. A adrenalina e a cortisona podem ser ativadas de forma a ter um efeito revigorante no corpo ou, pelo contrário, podem ser bloqueadas para produzir um efeito relaxante, dependendo da obra de arte. Todos esses hormônios podem ajudar a tratar doenças mentais, perda de memória ou doenças associadas ao estresse, entre outros problemas de saúde.

Em um exemplo do livro, uma paciente hospitalizada na França, sofrendo de feridas crônicas nas pernas, encontrou motivação para se tornar mais ativa depois que uma pintura de uma bailarina foi pendurada em seu quarto, a seu pedido. Isso a distraiu de sua doença e, “por meio de mimetismo, ela começou a tentar mover as pernas, ao mesmo tempo que pedia menos doses de analgésicos. Aos poucos, ampliou sua capacidade de caminhar, tanto que sua perda muscular diminuiu, melhorando a circulação sanguínea e auxiliando na cicatrização das feridas”.

Edgar Degas - "A Estrela" (Dançarina no Palco) - c. 1876 - pastel
58,4 X 42 cm - Musée d'Orsay, Paris

Além disso, alguns artistas são conhecidos por criar conscientemente obras com o intuito de ajudar a curar os espectadores, como o pintor renascentista alemão Matthias Grünewald, criador de um famoso retábulo de Isenheim que havia sido encomendado por um hospital para inspirar uma sensação de "equilíbrio interior" entre os pacientes internados. Da mesma forma, índios Navajos da América do Norte usam rituais de cura que envolvem arte e beleza, para ajudar a “restaurar a harmonia interior” dos enfermos.

Curiosamente, essa interação parece funcionar melhor com arte original, e não com reproduções. Lemarquis diz que um aspecto “inacabado” da obra - o toque de seu criador - ajuda o observador a ter uma noção de sua própria participação. Da mesma forma, a ciência mostra que sentimos uma espécie de “distância” da obra de arte reproduzida em um papel ou tela, em comparação com nossa presença física diante dela.

“Nossos cérebros capturam muito mais informações do que temos consciência”, explica Lemarquis. Ao perceber uma obra de arte pessoalmente, por exemplo, o cérebro é "iluminado, por algo semelhante a raios de uma lâmpada". Mas quando o nível de exposição ao trabalho é “enfraquecido”, como acontece com uma ilustração ou imagem numa tela de computador, “quantidades de informação e, conseqüentemente, possíveis interações (neurológicas)” são perdidas.

Curando o coração e a cabeça

Lemarquis constatou em primeira mão o impacto positivo das artes nos pacientes. “Isso vai curá-los? Talvez não, mas permitirá que administrem melhor sua doença e, assim que isso acontecer, estarão no caminho da recuperação”, afirma.

As respostas dos pacientes têm sido extremamente positivas no hospital de Lyon, onde o grupo “Convite à Beleza”, do qual Lemarquis faz parte, montou uma coleção de arte e poesia para suas "prescrições de cultura”. Os cuidadores relataram que os pacientes passaram a se movimentar mais quando expostos às obras de arte escolhidas, o que leva a uma melhora da cicatrização. Muitos pacientes afirmaram se sentir "menos sozinhos" e a maioria estava visivelmente mais relaxada e alegre. Agora o projeto “Convite à Beleza” pretende expandir sua coleção de arte para o serviço gastro-pediátrico de um hospital infantil em Lyon.

Iniciativas semelhantes estão surgindo em todo o mundo. Nos EUA, o NeuroArts Blueprint do Aspen Institute e o International Arts + Mind Lab (IAM Lab), da Johns Hopkins University, foram lançados em setembro de 2020. A organização afirma que tem como objetivo “a promoção da ciência das artes, saúde e bem-estar” ajudando a “construir o campo emergente das neuroartes - o depósito de robustas evidências científicas que nos mostram que a arte pode mudar o cérebro e o corpo e promover o bem-estar de maneiras que podem ser medidas, mapeadas e colocadas em prática.”

“Você não trata uma doença, você trata uma pessoa”, afirma Lemarquis. “Você precisa de remédios puramente científicos para lidar com a doença e de remédios artísticos para lidar com a pessoa, com seu lado humano. Os dois são complementares. As pessoas precisam sonhar. Elas precisam de imaginação.”

Fonte: Artnet

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Obra da oficina de Leonardo da Vinci é encontrada em armário de Nápoles.

Apesar de todas as probabilidades que o roubo de uma obra de arte importante tem para dar errado, pelo menos na Europa, parece que os ladrões de arte não sossegam. 

Há cerca de vinte dias, em 16 de janeiro, a polícia italiana encontrou uma cópia de 500 anos da pintura ‘Salvator Mundi’, de Leonardo da Vinci, escondida em um armário de Nápoles. Pertencente ao museu da Basilica di San Domenico Maggiore, a obra estava no apartamento de um homem de 36 anos não identificado que foi preso imediatamente sob suspeita de roubo. O curioso da história toda é que a equipe do museu sequer havia dado falta da pintura datada do início de 1500 e atribuída à escola do mestre da Renascença.

À esquerda, a pintura 'Salvator Mundi' atribuída a Leonardo. E à direita, a cópia produzida na oficina do mestre que havia sido furtada.

Devido à pandemia de Covid-19, “a sala onde a pintura é mantida não era aberta há três meses”, relatou o promotor de Nápoles Giovanni Melillo à Agence France-Presse (AFP), o que explica o museu não ter notado o roubo. As autoridades não encontraram sinais de invasão, tornando incerto quando e como ocorreu a ação dos ladrões. “Quem quer que tenha levado a pintura a desejava, e é plausível que se tratasse de um roubo encomendado por uma organização que trabalha com o comércio internacional de arte”, acrescentou Melillo.

De acordo com a Associated Press (AP), a polícia de Nápoles prendeu o proprietário do apartamento depois que ele compartilhou uma história "nada verossímil" sobre a compra "casual" da pintura em um mercado de pulgas.

O ‘Salvator Mundi’ roubado é uma das cerca de 20 cópias remanescentes atribuídas aos seguidores de Leonardo. Assim como a original, a pintura retrata o Cristo com longos cachos, segurando um globo de cristal em uma mão e levantando a outra num sinal de bênção.

Em 2017, o ‘Salvator Mundi’ de Leonardo foi vendido em um leilão por assombrosos US$ 450 milhões, apesar das dúvidas sobre sua autenticidade. Uma das cerca de 20 pinturas amplamente atribuídas ao artista, a obra foi produzida na oficina de Leonardo com pouquíssima participação do mestre propriamente dito, segundo alguns críticos. Deveria ser exibida no Louvre de Abu Dhabi em setembro de 2018, mas o museu cancelou inesperadamente a exposição e ela não foi mais vista em público desde então.

Embora os especialistas não possam determinar em definitivo a autoria da cópia recentemente recuperada, estudiosos acreditam que alguém da oficina do artista a tenha criado entre 1508 e 1513. O site do museu sugere que seu autor é um aluno de Leonardo chamado Girolamo Alibrandi, mas, segundo o Art Newspaper, um proeminente restaurador de Leonardo indica outra atribuição: Gian Giacomo Caprotti, mais conhecido como Salaì, ou “Pequeno Diabo”. Independentemente do criador principal da obra, "uma contribuição do mestre não pode ser excluída", observa o museu. Outra página em seu site descreve a cópia como um “refinado esboço pictórico” do original.

Produzido em Roma, a cópia foi provavelmente levada a Nápoles por Giovanni Antonio Muscettola, embaixador de Carlos V junto ao Papa Clemente VII. Em 2019, foi exibida após ser emprestada à Villa Farnesina para a exposição “Leonardo em Roma: Influências e Legado”, que a restaurou como parte de um estudo técnico para a mostra.

Esperemos que o episódio sirva para que, daqui em diante, os responsáveis por essas preciosidades sejam minimamente mais atentos e nem pensem em desgrudar os olhos de seus tesouros.

Fonte: Smithsonian Magazine

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Obras roubadas pelos nazistas retornam a legítimos donos mais de 75 anos depois.

Fico me perguntando qual seria minha reação se entrasse na casa de um anônimo qualquer e topasse com centenas de obras de arte valiosas, escondidas de tudo e de todos. É exatamente o que imaginei ao saber que, em 2012, foi descoberto um tesouro de 1.500 obras acumuladas por Cornelius Gurlitt, filho de um marchand do período nazista. Havia pinturas de Renoir, Courbet, Monet, Manet, dentre outros, várias em péssimas condições de conservação. Uma daquelas histórias que, vira e mexe, surpreende o mundo das artes com seus enredos rocambolescos.

Equipe de restauração trabalha nas obras - Fonte: BBC

Na ocasião, iniciou-se uma investigação para descobrir quantas dessas obras haviam sido surrupiadas de proprietários judeus, mas, de lá para cá, apenas catorze foram definitivamente identificadas como saqueadas. E agora, a Alemanha finalmente declarou que a última dessas obras foi devolvida aos herdeiros do proprietário: trata-se de Das Klavierspiel (Tocando Piano), gravura do pintor romântico alemão Carl Spitzweg (1808-1885) que pertencia ao editor musical Henri Hinrichsen, assassinado em Auschwitz em 1942.

A gravura Das Klavierspiel (Tocando Piano), do artista Carl Spitzweg, devolvida aos
herdeiros do judeu Henri Hinrichsen - Foto: BBC

A ministra da Cultura alemã, Monika Grütters, afirmou que a devolução da obra enviou um "sinal importante" e que, embora não pudesse compensar todo o sofrimento da família, poderia "dar uma contribuição para a justiça da história e reforçar a responsabilidade moral da Alemanha".

Monika  Grütters, Ministra da Cultura da Alemanha, restitui três obras à representante de uma família espoliada pelos nazistas - Foto: Le Journal des Arts 

A obra de Spitzweg foi confiscada pelos nazistas em 1939, mesmo ano em que Hinrichsen a comprou. Em 1940, foi adquirida por Hildebrand Gurlitt, um marchand nazista que havia recebido de Adolf Hitler a incumbência de administrar o acervo de arte apreendido de colecionadores judeus e comprar a chamada "arte degenerada", removida de museus para ser transferida para o futuro "Museu do Führer". Planejado para ser erigido na cidade de Linz, esse museu, felizmente, nunca saiu do chão para envergonhar o município austríaco.

Em 2015, a peça foi identificada como saqueada e, na terça-feira passada (11/1/21), entregue à casa de leilões Christie's, conforme o desejo dos herdeiros de Hinrichsen.

O destino da coleção Gurlitt

Embora sua vasta coleção de 1.500 obras, saqueadas de museus e também de indivíduos, tenha sido inicialmente confiscada pelos Aliados após a guerra, Hildebrand Gurlitt acabou inexplicavelmente por recuperá-la. Ele morreu na década de 1950 e, quando as autoridades alemãs abordaram sua viúva, no ano de 1961, em busca de parte da coleção, ela alegou que as obras haviam sido destruídas no final da Segunda Guerra pelo bombardeio dos Aliados. Foi apenas quando os agentes fiscais vasculharam o apartamento de Munique pertencente a seu filho Cornelius Gurlitt, em 2012, que encontraram mais de 1.400 das obras.

Obra de Édouard Manet encontrada no apartamento de Cornelius Gurlitt - Foto: BBC

Outras 60 peças foram descobertas no ano seguinte na casa de Gurlitt em Salzburg, na Áustria. No entanto, quando ele faleceu, em 2014, ainda pairavam dúvidas sobre a titularidade do acervo, já que Gurlitt estava protegido por uma espécie de lei de prescrição penal.

Um tribunal então decidiu que as obras poderiam ser entregues ao Museu de Belas Artes da capital suíça, Berna, conforme solicitação de Cornelius Gurlitt. Embora algumas obras realmente fossem consideradas propriedade da família Gurlitt, a Fundação Alemã de Arte Desaparecida tentou descobrir, junto ao museu suíço, quem eram os legítimos donos das demais. Foi assim que se chegou ao número de catorze obras, devidamente identificadas como pertencentes a judeus e devolvidas às famílias e herdeiros.

É espantoso, contudo, que um número tão irrisório de obras, apenas catorze, tenha sido identificado como pertencente a judeus espoliados. Impossível não questionar até que ponto o museu suíço realmente colaborou com as investigações alemãs e engendrou esforços para tentar identificar os legítimos proprietários ou se não agiu somente segundo seus interesses.

Fontes: BBC e Journal des Arts