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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ano 2020, cena 2, take 1.

Um dos (poucos) itens de minha lista de resoluções para o ano novo é ir mais ao cinema. Felizmente, comecei a colocar esse roteiro em prática antes mesmo de 2019 terminar. 'Dor e Glória', 'Um Dia de Chuva em Nova York', 'Era uma Vez em... Hollywood', 'Parasita' e 'Synonymes' são alguns dos filmes a que tive oportunidade de assistir nos últimos meses do ano passado e no início deste.

Mas vamos lá. De todos os filmes que mencionei, Parasita é de longe o melhor. Imperdível, filmaço. Aliás, devo dizer que há tempos não assistia a um filme TÃO bom. O roteiro é fantástico, a direção idem e os atores dão um verdadeiro show. Portanto, se você ainda não viu, corra para o cinema. O suspense coreano está em cartaz em várias salas de São Paulo, até porque foi vencedor da Palma de Ouro em Cannes e está concorrendo a várias categorias do Oscar: Melhor Filme, Direção, Roteiro Original, Direção de Arte, Edição e Melhor Filme Internacional. Não perca de jeito nenhum.

Os excelentes atores coreanos de 'Parasita': o jovem Woo-sik Choi, Kang-ho Song, Hye-jin Jang e So-dam Park.

Quanto ao filme do Tarantino, Era uma vez em... Hollywood, achei-o bom, mas não excepcional. Valeu pelo elenco, que inclui um Leonardo DiCaprio soberbo e um Brad Pitt gatíssimo do alto de seus cinquenta e não sei quantos anos. Santo DNA. O filme valeu, também, pela ótima reconstituição do ano de 1969, vaticinando o desvario lisérgico que estava por vir. A estética da época, que por si só já acho bem interessante, foi reproduzida com fidelidade e tons vivos. É divertido ver como se comportavam aquelas pessoas, as músicas que ouviam, o que vestiam e faziam. O filme foi indicado a várias categorias do Oscar: Melhor Filme, Direção, Ator (DiCaprio), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Direção de Arte, Fotografia, Figurino, Edição de Som e Mixagem de Som. Acredito que levará algum.

Brad Pitt, que será bonito até os cem anos, e Leonardo DiCaprio, magnífico, em 'Era uma vez em... Hollywood'.

Um Dia de Chuva em Nova York é um Woody Allen menor. Bonitinho, mas beeeem sem-gracinha: funcionaria em uma Sessão da Tarde, e só. Valeu para conferir, mas o diretor de 'Manhattan', 'Vicky Cristina Barcelona' e 'Meia-Noite em Paris' já fez melhor. 

Dor e Glória, de Pedro Almodóvar, é um belo filme. Dramático, porém sem os transbordamentos kitsch típicos do diretor. Não que eu não goste de sua estética hiperbólica e sua cores primárias, muito pelo contrário, pois acho Almodóvar o máximo e essa é sua marca registrada. É que nesse filme ele está mais contido, mesmo. Antonio Banderas arrasa na interpretação de um cineasta em declínio atormentado por uma crise existencial. Não por acaso, concorre ao Oscar de Melhor Ator. E o filme, merecidamente, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

E por fim, Synonymes está muito bem classificado pela crítica especializada, tendo inclusive faturado o Urso de Ouro do Festival de Berlim. Para mim, porém, esse urso devia estar míope, porque o filme foi uma completa decepção. A história do imigrante israelense que chega a Paris e tenta esconder sua nacionalidade foi subaproveitada, mal explorada. Uma pena, porque uma ideia a princípio tão boa poderia ter rendido um roteiro infinitamente melhor. Estou até agora me perguntando o que o pessoal de Berlim viu de tão especial nesse filme. Será Paris? 

Ah, faço questão de comentar também sobre um filme que, embora ainda não tenha passado nas telonas, tem gerado um certo "buxixo". Estou falando de História de um Casamento, que se transformou em um queridinho do público da Netflix. Faz sentido. Eu, particularmente, achei o filme muito bom, belo, sensível e ao mesmo tempo amargo ao mostrar como o ser humano pode desperdiçar felicidade por sua absoluta incapacidade – ou inabilidade – de se comunicar. Dói constatar quantos relacionamentos, amorosos ou não, acabam como aquele retratado na história, tragados pelo vácuo insidioso do mutismo e da incomunicabilidade. Se você ainda não assistiu, prepare o lenço e assista. E preste atenção no protagonista, Adam Driver, um tremendo ator que também está concorrendo ao Oscar, assim como a ótima Scarlett Johansson, indicada ao Oscar de Melhor Atriz.

Confesso que não tenho a mínima vontade de assistir a 'Dois Papas', o enredo de 'O Irlandês' não me atrai e estou enrolando para ver 'Coringa', mas algo me diz que a pelo menos este último não posso deixar de assistir. Pretendo corrigir essa lacuna em breve. Aguarde o próximo take.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

'Poderia me perdoar?’, uma história agridoce e bem contada sobre letras que se afogam

Nem 'Roma', nem 'A Favorita'. Nenhuma dessas produções, em minha opinião, estaria apta a concorrer ao Oscar de Melhor Filme este ano. Não assisti a todos os concorrentes, mas vi 'Bohemian Rapsody' e o considero um bom filme, superior a esses dois. Não que os tenha achado propriamente ruins, mas não bons o suficiente para justificar o alarde que a mídia fez em torno de ambos. Explico por quê.  

O mexicano 'Roma', dirigido por Alfonso Cuarón, conta uma história OK que foi valorizada pela bela fotografia em preto e branco, recurso estético que, diga-se de passagem, pode funcionar até certa medida para mascarar ou resgatar roteiros fracos. Aliás, uma boa tática para saber se um filme em preto e branco é bom ou não é imaginá-lo colorido. Se ele resistir bravamente, mesmo que não tenha o mesmo appeal de seu original em preto e branco, é porque é bom. Porém, ao fazer o mesmo exercício com 'Roma', cheguei à dolorosa conclusão de que, se fosse colorido, o filme desbotaria de vez. E as emoções que desperta, já suficientemente pálidas, correriam sério risco de se tornar invisíveis. E mais: 'Roma' é um filme de silêncios, o que em tese é ideal para suscitar estados reflexivos, mas em seu caso não funcionou. Não para mim, pelo menos. Para um filme de "silêncios" ser grande, os recursos que entremeiam seus silêncios – leia-se: roteiro, direção, atuações - precisam ser superlativos, o que, repito, em minha opinião, não ocorreu. Gostei da atuação da protagonista, Yalitza Aparicio, que nos brinda com alguns momentos tocantes, mas ela não foi suficiente para segurar o filme. Temos, portanto, uma produção apenas mediana que não justifica uma indicação ao Oscar.  

Já a 'A Favorita', com direção de um grego chamado Yórgos Lánthimos, tem um roteiro regular, uma belíssima produção, o que para mim foi seu maior trunfo, e boas atuações das atrizes. Ocorre que Emma Stone "já deu", como se diz por aí. Virou chichê, uma espécie de atriz-caça-voto-para-Oscar, com sua beleza inexpressiva. Cansou. É curioso como outras atrizes, igualmente bonitas e talentosas, podem se repetir indefinidamente nas telas e não cansar nunca. É o caso de Juliette Binoche, Cate Blanchett, Naomi Watts ou mesmo a almodovariana Penélope Cruz. Todas divas. 'A Favorita' chamou minha atenção pela luxuosa produção e pela fotografia, até porque me agradam os filmes ditos "de época", mas me despertou emoções tão rasas quanto o olhar de Emma Stone. Merece concorrer ao Oscar de Melhor Filme? Novamente, em minha opinião, não.

Porém, há outro filme, terno e singelo, que considero de longe melhor que 'Roma' e 'A Favorita', mesmo com toda a sua simplicidade: 'Poderia me perdoar?'. Dirigido por uma certa Marielle Heller e adaptado da autobiografia de Lee Israel (1939-2014), conta a história real de uma decadente escritora nova-iorquina, cinquentona, alcoólatra e antissocial, que acha um meio - digamos, inusitado, para pagar as inúmeras contas atrasadas que se empilham em sua mesa: forjar cartas de celebridades artísticas e literárias. A verdadeira Lee Israel fez exatamente isso no início da década de 90, mais por desespero do que por ganância. Após uma promissora trajetória como escritora nos anos 70 e 80, Israel teve um bloqueio criativo, talvez causado pela bebida, e amargou um ostracismo acompanhado de crescentes dificuldades financeiras. A escritora se lançou então à carreira de falsária e, segundo especialistas, forjou brilhantemente dezenas de cartas, a maioria de grandes personalidades literárias, as quais vendeu a livreiros e colecionadores antes de ser desmascarada e condenada pela Justiça de Nova York.

Richard Grant (Jack Hock) e a protagonista Melissa MacCarthy (Lee Israel), um poço de expressividade.

Achei o filme muito bom por vários motivos. Número um: conta uma história formidável, verídica e muito bem costurada num roteiro impecável. Porque é isso. Podemos ter a história mais interessante do mundo, mas, se o roteiro não for bom, pode esquecer. Mata o filme a navalhadas. Não à toa, 'Poderia me perdoar' está concorrendo ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Palmas para a roteirista Nicole Holofcener.

Número dois: a atriz principal, Melissa McCarthy, interpreta divinamente a escritora Lee Israel, com toda a pujança e expressividade que a personagem exige. Desmazelada, mal vestida e afogada em incontáveis doses de bebida, Lee é a própria imagem de uma irremediável perdedora. Chega um momento, no filme, que a gente até torce para que suas trambicagens deem certo, tamanha a simpatia que a pobre mulher inspira. Melissa concorre ao Oscar de Melhor Atriz e, embora eu não tenha visto os trabalhos de duas das indicadas, Lady Gaga (hã?) e Glenn Close, creio que deveria levar a estatueta com todo o louvor. E cá entre nós, desde quando Lady Gaga é atriz? Afff... Só sei que Melissa McCarthy dá um banho de interpretação e achei-a superior a Yalitza Aparicio, que concorre com 'Roma', e Olivia Colman, com 'A Favorita'. Sem falar que as demais atuações do filme também são excelentes, com destaque para Richard Grant, que interpreta Jack Hock, um gay sessentão quase indigente, desocupado e picareta, que se torna amigo da escritora. Sim, temos aqui uma história de perdedores magnificamente contada. Grant também concorre ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e sua indicação é mais do que merecida. 

A verdadeira Lee Israel (1939-2014)

Tudo bem que 'Poderia me perdoar?' possa ter exercido um apelo especial sobre minha sensibilidade pelo fato de contar uma história tocante que se passa no universo das letras, que me é tão caro e está tão imiscuído em meu dia a dia, mas, mesmo analisando-o com isenção, posso dizer sem pestanejar que se trata de um excelente filme. Quem "não poderia se perdoar" em perdê-lo é o leitor empático com alma sensível, amante de cinema e de livros. Assisti no Shopping Frei Caneca e creio que ainda deva estar em cartaz por lá. Confira o trailer:


segunda-feira, 23 de maio de 2016

'Spotlight', um filme que poderia ter sido.

Curioso. Eu havia ouvido tantos comentários positivos a respeito de Spotlight - Segredos Reveladosdo diretor Tom McCarthy, que esperava um daqueles filmes densos, inesquecíveis, carregados de energia dramática. A publicidade em torno dele era enorme e ficou ainda maior após Spotlight levar o Oscar de melhor filme e roteiro original este ano. Demorei a assistir à película após a estreia, o que contribuiu para aumentar ainda mais minha expectativa. No entanto, quando isso aconteceu, puff.... devo dizer que fiquei um tanto decepcionada.


Achei o filme burocrático, linear, e saí do cinema com a sensação de que a história real da equipe de jornalistas investigativos do Boston Globe que denunciou em 2002 casos de pedofilia envolvendo sacerdotes da Igreja Católica poderia ter sido muito melhor explorada. Em primeiro lugar, porque o tema é deveras polêmico. Cerca de 70 sacerdotes de Boston, EUA, foram denunciados por abuso sexual de crianças, notadamente aquelas em situação social vulnerável. A Igreja tentou abafar o episódio o quanto pode, mas o fato é que a série de reportagens veiculadas pelo periódico de Boston teve uma repercussão e um desdobramento formidáveis. O bispo daquele Estado renunciou no mesmo ano e a Igreja Católica tomou uma série de medidas e sanções subsequentes, dentre as quais se incluíram novas investigações e pedidos de desculpas pelos próprios papas. As repercussões do caso felizmente ecoam até hoje, fazendo com que países do mundo todo se tornem mais alertas e cuidadosos em relação a suas crianças.

Rachel McAdams, Marc Ruffalo, Stanley Tucci, Michael Keaton e John Slattery interpretam a equipe de jornalistas que comandou a investigação.

Spotlight (cuja tradução é "holofote") poderia ter sido um "filmão", mas não foi. Faltou emoção, faltou profundidade psicológica aos personagens, faltou roteiro. O tema não foi explorado em todas as suas nuances e possibilidades dramáticas. E o elenco, formado por bons atores como o eterno "Batman" Michael Keaton, foi subdirigido e subaproveitado. Por falar nisso, a atriz Rachel McAdams, que interpreta a jornalista Sacha Pfeiffer, me lembrou muito a linda Naomi Watts dos tempos de Cidade dos Sonhos, o filme hipnótico e estranhamente belo do esquisitão David Lynch. 

Rachel McAdams, que me lembrou muito Naomi Watts...
... E Naomi Watts, um dos rostos mais belos e marcantes do cinema contemporâneo.

Está no elenco também o grisalho John Slattery, que interpreta o executivo Roger Sterling em Mad Men, a bem-sucedida série sobre a rotina das grandes agências de publicidade americanas dos anos 50 e 60. Quer arriscar? Ok, vale para matar a curiosidade. Mas se você não conseguir assistir a Spotlight, não se preocupe: não está perdendo um grande filme.

Ficha técnica parcial:

Direção: Tom McCarthy
Roteiro: Tom McCarthy e John Singer 
Elenco: Marc Ruffalo (Michael Rezendes), Rachel McAdams (Sacha Pfeiffer), Michael Keaton (Walter Robinson), Stanley Tucci (Mitchel Garabedian), John Slattery (Ben Bradlee Jr.) e outros.

domingo, 31 de janeiro de 2016

'Carol': uma mulher, outra mulher, uma paixão, um belo filme.

Uma mulher que se apaixona por outra mulher. Atualmente, a mídia, o cinema, as artes e os movimentos pelos direitos civis abordam abertamente esse tema que, no entanto, ainda permanece tabu para muita gente. Porém, se voltarmos umas seis décadas atrás, lá nos anos 50, essa temática provavelmente seria motivo de escândalo onde quer que aparecesse – na vida ou numa tela de cinema. É justamente essa década, e essa situação, que são retratadas no filme 'Carol', dirigido por Todd Haynes e baseado no livro 'The Price of Salt', que Patrícia Highsmith lançou em 1952 sob o pseudônimo de Claire Morgan.

Atualmente em cartaz nas salas de São Paulo, o filme é plasticamente muito bonito. O figurino daquela daquela época, com seus chapéus e casados de pele, os penteados das mulheres, os carrões conversíveis, as residências elegantes de Nova York, as paisagens, enfim, a estética do filme é impecável – e ainda por cima, regada a muitas doses de champanhe. Sim, vira e mexe, as protagonistas aparecem com flûtes nas mãos.

A dupla central de atrizes, a diva Cate Blanchett e a jovem Rooney Mara, esta de uma beleza fria e clássica, interpretam Carol Aird e Therese Belivet, respectivamente. Carol é uma mulher de meia-idade sofisticadíssima que está prestes a se divorciar de um banqueiro e tem uma filha pequena. Therese é a jovem balconista da sessão de brinquedos de uma loja de departamentos e aspirante a fotógrafa. Um dia, Carol dirige-se à loja para comprar um brinquedo e vê Therese. Então as duas se olham e ocorre uma atração. A partir daí, tudo acontece de maneira hesitante e devagar. A aproximação das mulheres é lenta, a intimidade vai ocorrendo num crescendo e é só em meados do filme que esse amor se concretiza de fato.

O momento em que Therese (Rooney Mara) e Carol (Cate Blanchet) se encontram na loja: é aí que tudo começa.

Aos poucos, as duas mulheres começam a se aproximar.

Cate Blanchet e sua 'Carol', elegante até de pijama!

As duas atrizes são excelentes, mas, a mim,
não convenceram como amantes.
Ao longo de todo o tempo, a aproximação e a relação das duas mulheres são retratadas com muita sutileza e elegância. Uma abordagem diametralmente oposta àquela adotada no tórrido e excelente 'Azul é a cor mais quente', filme do diretor Abdellatif Kechiche lançado há dois anos.

No entanto, e não sei se alguém mais compartilha de minha percepção, achei que falta química amorosa entre as duas protagonistas. Não senti eletricidade ali. Além disso, devo dizer que também achei o casal um tanto improvável. Uma tem mais de 40 anos, é rica, culta e traz atrás de si toda uma história de vida. Outra é cerca de 20 anos mais jovem, inexperiente e pertence a um nível social bem inferior, embora tenha aspirações culturais elevadas. Enfim, poderiam ser mãe e filha, com a diferença de que mães e filhas normalmente têm muito mais assuntos e experiências comuns para compartilhar. Porém, em se tratando de amor, temos de admitir que quase tudo é possível. Sobretudo na ficção.

O fato é que, independentemente de o casal convencer ou não, ambas as atrizes interpretam muito bem seus papéis, o roteiro é bom e o timing da narrativa é perfeito, sem falar do belo visual anos 50. Se você gosta de cinema, não deixe de assistir!

O figurino anos 50 de Cate Blanchet é impecável.

Em tempo: o diretor Todd Haynes realizou o belíssimo e inesquecível 'Longe do Paraíso', em 2002. Para quem não lembra, nesse filme Julianne Moore – outra diva – interpreta uma dona de casa também da década de 50 que descobre que seu marido, papel de Dennis Quaid, é homossexual. E também aqui, o diretor foi muito feliz na abordagem sensível da problemática dos personagens. 

Ficha técnica parcial

Direção: Todd Haynes
Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler 
Produção: EUA e Reino Unido – 2015

terça-feira, 3 de novembro de 2015

39ª Mostra Internacional de Cinema exibe 'Meu Único Amor' e acerta no coração.

A cada ano que passa, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo fica melhor. A 39ª edição, que começou no dia 22 de outubro e vai até amanhã, 4 de novembro, está exibindo mais de 300 títulos de 62 países em 22 endereços, entre cinemas, espaços culturais e museus da cidade de São Paulo. São tantos filmes e endereços que os cinéfilos mais assíduos devem ficar até angustiados. Para quem ainda dispõe de um tempo para assistir às últimas sessões, é uma ótima oportunidade para saber o que o mundo anda criando nas telonas.

Um dos destaques deste ano é a série de projeções ao ar livre de filmes clássicos e restaurados com apoio da 'The Film Foundation' e entrada franca. Na noite de sábado, dia 31/10, tive o privilégio de assistir a uma deliciosa comédia romântica projetada na gigantesca parede externa dos fundos do Auditório Ibirapuera: 'Meu Único Amor'. Lançado em 1927, o filme tem como protagonistas a graciosa musa do cinema mudo e também produtora Mary Pickford (1892-1979) e o doce galã Charles "Buddy" Rogers (1904-1999), que também foi um bem-sucedido músico de jazz. A projeção foi valorizada pelo acompanhamento musical ao vivo da Orquestra Sinfônica Heliópolis, sob regência do maestro David Michael Frank, que também compôs a trilha sonora especialmente para o filme, em 1999, a pedido da Fundação Mary Pickford.

Charles "Buddy" Rogers e Mary Pickford, a dupla romântica fofa do filme.

Na película, baseada em uma história da escritora americana Kathleen Norris, Mary Pickford interpreta Maggie, uma jovem que se divide entre o trabalho de estoquista em uma loja de departamentos e os cuidados com a família meio amalucada. Quando conhece Joe (Charles "Buddy" Rodgers), novo funcionário de seu departamento, se apaixona sem saber que ele é, na verdade, filho do milionário dono do estabelecimento. O rapaz foi desafiado pelo pai a trabalhar na loja e conseguir uma promoção por mérito, sem fazer uso do sobrenome, para que depois pudesse anunciar seu noivado com a socialite Millicent.

O mocinho galante e a graciosa "Maggie" de Mary Pickford.

Essa cena  é antológica. No horário do almoço da loja onde trabalham, o mocinho rico divide um lanche com a mocinha que
 pensa que ele é pobre, espremido dentro de um caixote.

A maior graça do filme é o seu humor ingênuo e, ao mesmo tempo, sutil e encantador. A história de amor é como aquelas que praticamente não existem mais hoje em dia, por retratar sentimentos absolutamente puros e verdadeiros. Mary Pickford, uma bonequinha com grandes olhos e uma boca minúscula em formato de coração, é um poço de expressividade. O galã é um verdadeiro lord, bonito, pueril e de bom coração. Enfim, trata-se de um daqueles filmes que transmitem um tremendo bem-estar. Para completar, o espaço externo do Auditório Ibirapuera lotou de famílias, casais e grupos de amigos que foram curtir aquele programa inusitado e interessante para uma noite de sábado. Muitos levaram um lanchinho e, quando eu estava chegando, vi até um casal com duas crianças carregando uma pizza (rs)! Ao final da exibição, topei com umas moças saboreando Prosecco – por pouco não me juntei a elas!! (rs). Nem pipoca faltou – comprei uma pipoca doce fresquinha de uma moça que vendia saquinhos de pipoca num tabuleiro. Havia algumas cadeiras disponíveis para o pessoal da terceira idade e o espaço foi civilizadamente respeitado. Pareceu-me que o nível do público que assistia era muito bom, e imagino que devia ser composto por cinéfilos, estudantes de cinema, gente com um bom nível cultural. Tudo de bom!


A película foi um dos maiores sucessos da carreira de Mary Pickford e sua despedida do cinema mudo, além de ter sido, também, a primeira parceria dela com o diretor Sam Taylor, com quem faria a maior parte de seus filmes falados dali para a frente. Curiosidade: a atriz com boca de coração foi casada com o galã Charles "Buddy" Rogers, 12 anos mais novo, de 1937 até sua morte, em 1979. Rogers foi seu terceiro marido.

A restauração do filme foi feita pelo Arquivo de Cinema e Televisão da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), com financiamento de Fundação Mary Pickford, Instituto de Humanidades Packard e The Film Foundation.

A curadoria e a organização da 39ª Mostra Internacional de Cinema estão de parabéns por uma iniciativa tão democrática e de alto nível. Apaixonei!
  
Ficha técnica parcial

Direção: Sam Taylor
Roteiro: Hope Loring, Allen McNeil, Tim Whelan, Clarence Henneckef
Fotografia: Charles Rosher
Música: David Michael Frank
Elenco: Mary Pickford, Charles "Buddy" Rogers e outros
Produção: Mary Pickford Corp. / United Artists

domingo, 1 de novembro de 2015

'Homem Irracional', de Woody Allen: moralidade questionada com ironia e humor negro.

Vira e mexe algum crítico fala mal de Woody Allen. Dizem que ele já não é mais o mesmo, que seus filmes já foram melhores etc. etc. O fato, porém, é que mesmo o menor filme de Woody Allen consegue ser bom e, não raro, infinitamente melhor do que a maioria dos filmes que estão em cartaz no circuitão comercial. 'Homem Irracional', por exemplo, é um filme que considerei bom. Aquilo que alguns denominam como "clichês" de Woody Allen eu chamaria de “estilo”.

O protagonista é um típico personagem dos filmes do diretor: Abe Lucas, um professor de filosofia bonitão em crise existencial que chega para lecionar na universidade onde estuda a jovem Jill, interpretada por Emma Thompson - a atriz parece ser a nova musa de Woody Allen, tendo trabalhado também em 'Magia ao Luar', produção de 2014. 

A chegada do professor foi precedida de uma série de boatos na universidade sobre sua pretensa inteligência e genialidade, mas ele não parece se importar muito com isso: tem andado deprimido e não encontra muito sentido para sua vida. Aos poucos Abe torna-se amigo de Jill, que fica fascinada com sua inteligência e carisma. Também pudera: o homem é um admirador dos autores russos, conhece toda a obra de Dostoiévski, já fez de tudo nessa vida e ainda contribuiu com causas nobres - teria trabalhado na reconstrução de Nova Orleans após a passagem do furacão Katrina e ainda atuado como voluntário no Oriente Médio. Como se não bastasse, ele foi traído pela esposa com o melhor amigo e ainda teria perdido outro amigo com a explosão de uma mina no Oriente Médio, o que supostamente teria despertado os instintos de "proteção" da jovem.

Abe Lucas (Joaquin Phoenix) e Jill (Emma Stone): a aluna fica cada vez mais encantada com o carisma do professor.

Embora Jill esteja noiva de outro estudante, Roy, sente-se cada vez mais atraída pelo professor, que a princípio a considera apenas uma amiga e não quer saber de caso com a aluna. Abe Lucas afoga as mágoas no álcool e sente-se bloqueado sexualmente, apesar dos avanços insistentes de Rita, a fogosa professora de química casada que o quer a qualquer custo.

A professora de química, Rita (Parker Posey), não deixa o homem em paz...

Entre uma citação e outra de grandes filósofos, Abe tenta encontrar um sentido para sua vida, até que vai parar, com Jill, em um daqueles restaurantes americanos com jeito de lanchonete e, sem querer, ouve a conversa da mesa de trás. Nela está uma mulher que se queixa, aos amigos, que perderá a guarda dos filhos para o ex-marido ausente e inescrupuloso porque ele é amigo do juiz responsável pelo caso, um tipo corrupto. Abe Lucas tem então um estalo: resolve ajudar aquela mulher matando o juiz. Segundo sua lógica, o mundo se tornaria um lugar melhor sem ele e matar o juiz corrupto passa, então, a se tornar o novo objetivo que tanto procurava para recobrar o sentido da vida. O professor lança-se à caça de seu alvo sem que Jill a princípio desconfie e vai às últimas consequências para tentar se safar ao ser descoberto.

Onde tudo começa: o casal ouve a conversa da mesa de trás e Abe toma a decisão de matar o juiz.

Abe começa a rastrear todos os passos de seu alvo.
  
Gostei muito do filme. 'Homem Irracional' tem um humor negro elegante valorizado por diálogos irônicos e inteligentes, bem ao estilo de Woody Allen, e suscita algumas reflexões sobre o que é realmente moral e imoral nessa vida. Se você ainda não assistiu, vale a pena!

Ficha técnica parcial

Direção: Woody Allen

Elenco: Joaquin Phoenix (Abe Lucas), Emma Stone (Jill), Jamie Blackley (Roy, noivo de Jill), Parker Posey (Rita), Tom Kemp (juiz Spangler).

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

'Respire'. Um filme muito bom, mas tóxico.

Um filme bom, denso, daqueles que dão raiva quando vemos que a protagonista não reage da forma como reagiríamos ao constatar que uma pessoa aparentemente amiga não vale a sola dos sapatos que calça. Não deve ser à toa que o título dessa produção de 2014, inclusive no original francês, seja o imperativo 'Respire', pois há momentos em que realmente perdemos a respiração de tanta raiva da passividade da protagonista.

Seu nome é Charlie (Joséphine Japy), uma estudante de 17 anos que mora num subúrbio e é filha única de um casal desestruturado. A mãe, que parece ser o tipo de mulher que engole não só sapos, mas um pântano inteiro para não ficar sozinha, aceita submissa o desrespeito do marido cafajeste, pai de Charlie.

Joséphine Japy no papel de Charlie.

A menina leva uma vida meio sem graça, até que na escola onde estuda ingressa uma nova colega de sua idade, Sarah (Lou de Laâge), garota rebelde e bonita que parece ter uma história de vida interessante e uma personalidade magnética.

Charlie e Sarah (Lou de Laâge) tornam-se amigas íntimas.

A princípio, as meninas se divertem muito juntas.

Charlie se encanta pela nova amiga e as duas logo se tornam bem próximas, mas, aos poucos, o comportamento de Sarah começa a mostrar que algo em seu caráter está fora de lugar. Charlie a princípio não compreende certas atitudes displicentes da amiga e, embora se chateie, tenta desculpar as desfeitas da outra em nome de um sentimento que, em determinado ponto, parece ir muito além de uma simples amizade entre duas adolescentes. Porém, a tensão entre as expectativas de Charlie e o comportamento de Sarah, que rapidamente se revela abertamente maldoso e hostil, vai aumentando, até ficar claro, para a primeira, que Sarah estava longe de ser a pessoa que ela a princípio idealizara e cuja verdadeira personalidade conhecerá a duras penas.

As meninas, a mãe e a tia de Charlie viajam juntas em um feriado e o comportamento
de Sarah começa a revelar que ela está longe de ser digna do afeto da amiga.

Em determinado momento, é inevitável nos perguntarmos por que a jovem se deixa humilhar pela outra, assim como também é inevitável imaginar que essa postura nada mais seja do que um reflexo daquela de sua mãe, uma mulher completamente desprovida de autoestima que perdoa as cafajestagens do marido.

À medida que as maldades e o desequilíbrio de Sarah se escancaram e Charlie, inexplicavelmente, não apresenta qualquer capacidade de reagir, a raiva que sentimos por sua ausência de amor-próprio vai aumentando até culminar em um desfecho inevitavelmente trágico.

Embora esteja fora do circuito dito comercial, 'Respire' é um filme muito bom que certamente deve agradar aos fãs de um cinema maduro e reflexivo que foge às soluções rasteiras que infestam boa parte das atuais produções cinematográficas - notadamente as norte-americanas.

Atualmente, RESPIRE está em cartaz somente no Caixa Belas Artes. Se você puder assistir, vale a pena. Mas respire bem fundo antes!

Ficha Técnica Parcial

Direção: Mélanie Laurent

Elenco: Joséphine Japy (Charlie), Lou de Laâge (Sarah), Isabelle Carré (mãe de Charlie), Radivoje Bukvic (pai de Charlie), Roxane Duran (Victoire, amiga de Charlie) e outros.

domingo, 27 de setembro de 2015

'Que horas ela volta?', um filme que chegou em boa hora.

Confesso que há um bom tempo eu não me aventurava a assistir a um filme brasileiro. Tenho notado que várias produções nacionais têm pipocado aqui e ali, mas, por alguma razão, não sentia confiança suficiente em sua qualidade. Até porque, infelizmente, tenho pouco tempo disponível para ir ao cinema e, quando isso acontece, acabo invariavelmente optando por um filme que ofereça menos riscos de me decepcionar. Tem funcionado!

Até que, há cerca de um mês, ouvi falar – e bem - de Que horas ela volta?, escrito e dirigido por Anna Muylaert e estrelado por Regina Casé. Primeiro, soube que a película colheu prêmios nos prestigiados festivais de Berlim e Sundance. E depois, gostei do enredo, no qual Regina Casé interpreta Val, uma empregada doméstica que trabalha há muitos anos em uma residência de classe alta do Morumbi. Imaginei que, no mínimo, Casé imprimiria, com muito talento, um toque cômico à interpretação de seu personagem. E realmente não me enganei: a atriz é a melhor coisa do filme, embora eu tenha gostado do resultado como um todo. Mesmo sendo de origem nordestina, Regina teve aulas de prosódia com uma professora para aprimorar seu "pernambuquês", isto é, incorporar o sotaque, o tom e as expressões usadas naquele Estado, e o resultado ficou muito bom.

O casal de patrões de Val e o filho adolescente, interpretados por Lourenço Mutarelli, Karine Teles e Miguel Joelsas.

Não há como negar: o filme mostra um retrato muito fiel da forma como se relaciona boa parte das empregadas e patroas da elite brasileira. A separação de classes é muito clara. Val é uma pessoa bem ajustada (ou resignada?) à sua condição, parece gostar do que faz e tem um vínculo de carinho maternal com Fabinho, o filho adolescente da casa que viu nascer e crescer e que solicita mais sua companhia do que a da própria mãe. No entanto, o espaço que lhe é destinado – e que ela se permite ocupar - na residência é restrito e está em franco contraste com o padrão de vida da família: a empregada dorme em um quartinho minúsculo sem ventilação e não se atreve sequer a sentar na mesma mesa de refeições, na cozinha, utilizada pelos patrões.

Val (Regina Casé) e Fabinho quando pequeno: a empregada e o filho dos patrões nutrem um pelo outro 
um afeto genuíno desde o nascimento do menino. 

O menino cresce e sente-se mais próximo da empregada do que da própria mãe.

As coisas começam a se complicar quando a filha de Val, Jéssica, chega de Pernambuco para prestar vestibular de Arquitetura na USP. Sim, embora de origem humilde, a menina é inteligente, bem articulada e, de alguma forma, teve chance de estudar. Por isso mesmo, não compreende - e tampouco aceita - a diferença de condições que constata ao comparar a forma como vivem sua mãe e os patrões. Em determinado momento, Jéssica questiona, por exemplo, por que Val nunca ousou entrar na piscina da residência onde trabalha. E para horror da mãe, que afirma ter nascido sabendo "onde é o seu lugar", começa a tomar certas liberdades na casa, no que é abertamente incentivada por Carlos, o patrão, que nutre pela garota intenções para lá de dúbias. A partir daí, os estranhamentos e conflitos gradativamente aumentam, sejam entre Jéssica e Bárbara, a patroa, ou entre Jéssica e a própria mãe.

Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, questiona a mãe a todo momento sobre sua condição.

Como afirmei anteriormente, achei o filme bom e posso dizer que, no mínimo, ele suscita uma reflexão sobre as relações servis de trabalho no Brasil que pode incomodar os olhares mais atentos. Vá conferir!

O filme está em cartaz em vários cinemas de São Paulo, entre os quais o Caixa Belas Artes, Espaço Itaú de Cinema Augusta, Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca e Reserva Cultural.

Ficha técnica parcial

Direção: Anna Muylaert

Elenco: Regina Casé (Val), Camila Márdila (Jessica), Michel Joelsas (Fabinho), Karine Teles (Bárbara) e Lourenço Mutarelli (Carlos) e outros.

domingo, 13 de setembro de 2015

'A Dama Dourada': um bom começo para conhecer a saga da Mona Lisa da Áustria.

De uns anos para cá, a imprensa tem noticiado vários casos de restituição de obras de arte a famílias judias, após a comprovação de que elas haviam sido pilhadas pelos nazistas durante a II Guerra Mundial. Muitas dessas obras se encontravam em grandes museus europeus e, após longos processos judiciais, foram devolvidas aos herdeiros de judeus que haviam sido espoliados de seus bens, muitos dos quais mortos em campos de concentração.

Apenas na França, 100 mil pinturas foram roubadas pelos nazistas, que também confiscaram cerca de 500 mil móveis e mais de 1 milhão de livros manuscritos. O principal alvo de Hitler eram as grandes coleções, e a família que mais sofreu perdas foi a dos tradicionais banqueiros Rothschild, que teve mais de 5.000 obras de arte confiscadas.

Depois da guerra, boa parte das obras foi restituída a seus legítimos donos graças ao trabalho dos Aliados, que criaram, em 1943, o destacamento 'Monumentos, Obras de Arte e Arquivos', especialmente dedicado a essa tarefa. Esse grupo de oficiais de elite de resgate, conhecido como 'The Monuments Men', era formado por militares franceses, canadenses, britânicos e americanos. Mesmo assim, do montante roubado na França, acredita-se que cerca de 25.000 obras ainda não tenham sido restituídas aos legítimos herdeiros.

A jovem Maria Altmann, ainda feliz no seio
de sua família.
A judia Maria Altmann (1916-2011), nascida Maria Bloch-Bauer, não era francesa, mas austríaca. Membro de uma abastada família que vivia em Viena, ela levava uma vida feliz até os nazistas fecharem cada vez mais o cerco na cidade e finalmente atingirem sua família. A fascinante trajetória de Maria, interpretada por Helen Mirren, é tema do filme A Dama Dourada, em cartaz nos cinemas de São Paulo. Pouco depois de se casar, Maria conseguiu fugir para os Estados Unidos com seu marido, Fritz Altmann. Seus pais ficaram no país e, provavelmente, morreram em campos de concentração.

No filme vemos Maria estabelecida em Los Angeles, já idosa, proprietária de uma butique que vende roupas finas femininas. No ano de 1998, ela resolve reaver obras de arte que pertenciam à sua família e haviam sido pilhadas pelos nazistas. Mais do que o dinheiro, é a necessidade de justiça que a motiva. Com o auxílio do jovem advogado americano Eric Randol Schoenberg, também judeu e neto do compositor Arnold Schoenberg, mestre do dodecafonismo, ela inicia um processo judicial contra o governo da Áustria. Seu objetivo: recuperar cinco telas de autoria de Gustav Klimt (1862-1918), entre as quais se destacava a mítica A Dama Dourada, primeiro retrato que o artista fez de Adele Block-Bauer (1881-1925), sua tia. Além do advogado, Maria conta com a ajuda de Hubertus, um jornalista austríaco que se solidariza com sua causa.

Acima, Maria e Fritz, seu marido na vida real. E abaixo, os atores que interpretam
o casal  no filme: Max Iron e Tatiana Maslany.

Gustav Klimt - 'Retrato de Adele Bloch-Bauer I' ou 'A Dama Dourada' (1907). O mítico retrato da tia foi a principal obra que Maria Altmann tentou recuperar.

Adele Block-Bauer, a musa do retrato e tia de Maria.

Maria Altmann com seu advogado, Eric Randal Schoenberg, neto do compositor que revolucionou a música com a criação da escala dodecafônica.

Helen Mirren, intérprete de Maria Altmann, ao lado de Ryan Reynolds, que fez o papel do advogado no filme.
E ao fundo, ela mesma: Adele Bloch-Bauer exuberantemente retratada por Gustav Klimt - Foto: Robert Viglasky

Adele pertencia a uma influente família de banqueiros e morava em um apartamento na Elisabethstrasse, uma das mais imponentes avenidas de Viena. A casa dos Block-Bauer era ponto de encontro da elite cultural da cidade e Klimt começou a frequentá-la quando Adele ainda era jovem. O artista, no entanto, já era um dos maiores nomes da escola Art Nouveau de Viena e tinha fama de sedutor. Consta que pintava de três a quatro telas ao mesmo tempo, de manhã até a noite, e mantinha casos amorosos com várias modelos e clientes que circulavam por seu ateliê. As damas da sociedade faziam fila para ser pintadas por Klimt. Um crítico da época até escreveu: "Às vezes, não era seguro para a reputação de uma senhora da alta sociedade ter seu retrato pintado por Klimt. Desde logo, elas podiam adquirir a fama de ter tido um caso com o mestre, conhecido pelas suas vergonhosas relações com as mulheres."

Adele em foto tirada em c. 1910.

Ferdinand Bloch-Bauer, um industrial do açúcar e marido de Adele, parecia não temer a fama do artista conquistador e conseguiu convencê-lo a receber sua esposa, que era fã do pintor desde a adolescência. Em 1907, após quatro anos de trabalho, Gustav Klimt finalizou o exuberante Retrato de Adele Block-Bauer I e, em 1912, terminou uma segunda pintura da moça. Utilizou tinta a óleo, prata e folhas de ouro para retratar a tia de Maria Altmann com um verdadeiro esplendor, repleta de ornamentos dourados e joias. 

O segundo retrato de Adele feito por Gustav Klimt, finalizado em 2012.
Essa pintura também foi encomendada pelo marido da moça.

O magnífico colar em torno do pescoço de Adele, que aparece na pintura 'A Dama Dourada', seria dado a Maria posteriormente por um tio, como presente de casamento. Pouco depois da anexação da Áustria pelo Terceiro Reich, em 1938, quando o apartamento da família na Elisabethstrasse foi invadido e sua coleção de arte apreendida, o colar de Adele acabou nas mãos de Emmy, mulher de Hermann Göring, o comandante da Força Aérea Alemã e segundo homem na hierarquia nazista.

Adele foi a única mulher pintada mais de uma vez por Klimt e suspeita-se que tenham mantido um romance, dada a fama de conquistador do artista. Dizem que a figura feminina seminua com expressão de êxtase na pintura Judith I, de 1901, é na realidade um retrato de Adele, que teria 20 anos à época. Além da semelhança física, o colar no pescoço da modelo parece ser o mesmo que está no pescoço de Adele no famoso primeiro retrato encomendado por seu marido.

Gustav Klimt - Judith I (1901) - seria Adele?

Aos poucos, algumas poucas damas dos círculos intelectuais começaram a usar as arrojadas roupas largas e as estampas vibrantes dos vestidos das telas de Klimt como uma atitude de liberação. A estilista que os criava chamava-se Emilie Flöge, uma austríaca à frente de seu tempo que também era próxima de Klimt e, adivinhe... suspeita-se que também tenha sido amante do artista. É, o homem não deixava escapar um rabo de saia! 

A estilista Emilie Flöge vestindo uma de suas criações. Note a padronagem de losangos,
semelhante àquela do vestido usado por Adele em 'A Dama Dourada'.

Emilie Flöge e Gustav Klimt: "muy amigos"!

Em 1943, as obras de arte de Klimt que haviam sido roubadas fizeram parte de uma exposição. Nessa ocasião, o retrato de Adele foi rebatizado de 'A Dama Dourada' pelos organizadores, a fim de ocultar as raízes judaicas da obra.

Adele morreu de meningite em 1925, antes do início da II Guerra, e tinha apenas 43 anos. Em seu testamento, expressou o desejo de que o quadro fosse para a Galeria Nacional do Belvedere, em Viena – e lá ele permaneceu até 2006. Considerado como "a Mona Lisa austríaca", ele era grande motivo de orgulho para o museu e para a Áustria.

Maria Altmann ganhou o processo contra o governo austríaco tomando como base o fato de que a pintura não chegou legalmente ao museu, já que fora incorporado ao acervo após ser roubado de sua casa pelos nazistas, e não após a morte dos herdeiros legais de sua tia Adele. Em 2006, ela vendeu a obra para Ronald Lauder, acionista da famosa indústria de cosméticos Estée Lauder e cofundador da Neue Galery, de Nova York, por US$ 135 milhões - o maior valor pago por uma pintura até então. A saga de Maria Altmann e a história de Adele Bloch-Bauer, bem como suas relações com Gustav Klimt, são descritos no livro 'A Dama Dourada – Retrato de Adele Bloch-Bauer', de autoria da jornalista Anne-Marie O'Connor. Vale conferir!

Maria Altmann, após ganhar o processo contra o governo austríaco, ao lado do quadro que mostra sua bela e inesquecível tia Adele.

E no filme, a cena da vitória de Maria no tribunal.

Embora Helen Mirren seja inglesa, vê-la interpretando uma austríaca no filme 'A Dama Dourada' não me causou estranhamento, até porque considero-a uma excelente atriz, além de supercarismática. Dizer que o filme é excepcional seria exagero, mas posso classificá-lo como um bom filme. A história baseada em fatos reais é fascinante, o elenco cumpre seu papel, a produção é caprichada e, é claro, temos Lady Mirren. Recomendo, sobretudo como um ponto de partida para você conhecer mais a fundo a história de Gustav Klimt e sua relação com essas mulheres apaixonantes!

Ficha técnica parcial

Direção: Simon Curtis
Produção: EUA / Inglaterra
Elenco: Helen Mirren (Maria Altmann), Ryan Reynolds (Eric Randal Schoenberg), Tatiana Maslany (Maria Altmann jovem), Max Irons (Fritz Altmann), Daniel Brühl (Hubertus Czernin), Antie Traue (Adele Bloch-Bauer), Danielben Miles (Ronald Lauder)