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segunda-feira, 5 de junho de 2017

Casa restaurada de Pierre-Auguste Renoir vira museu.

Fonte: The Art Newspaper | Tradução e adaptação: Simone Catto 

A casa de verão do pintor impressionista em Essoyes abre ao público em junho após uma grande restauração.

Um museu dedicado a Pierre-Auguste Renoir abriu no dia 3 de junho na residência da família do pintor em Essoyes, a cerca de 185 quilômetros de Paris, após passar por grandes trabalhos de restauração em seu interior e jardins.

Renoir adquiriu essa casa em 1896, seis anos depois de se casar com sua noiva e modelo Aline Charigot, nascida no vilarejo perto dos vinhedos de champanhe, às margens de um afluente do Rio Sena. Dez anos mais tarde, devido a um sério problema de reumatismo, Renoir e a família foram obrigados a mudar para Cagnes-sur-Mer, na Riviera Francesa, onde o artista comprou uma villa também transformada em museu. No entanto, ele continuou a passar seus verões em Essoyes até sua morte, em 1919, e está sepultado no cemitério local com Aline e os três filhos do casal.

Casa de Renoir em Essoyes, vilarejo onde nasceu sua esposa Aline Charigot.

Em 2012, a bisneta de Renoir, a atriz Sophie Renoir, vendeu a casa para o município de Essoyes por 600.000 euros. Segundo o prefeito, Philippe Talbot, o vilarejo gastou cerca de 1 milhão de euros nos últimos quatro anos para transformar a casa em museu. A reforma incluiu um elevador para deficientes, reforços nos pisos dos quartos do primeiro andar e a conversão da sala de jantar em um espaço climatizado para exibição de obras de arte e trabalhos de restauração. A equipe baseou-se nas próprias pinturas que Renoir fez da casa para que ela ficasse novamente "como era em sua época", afirma Talbot.

Além da casa, o museu inclui o estúdio que Renoir construiu no fundo do jardim. Aberto ao público há 20 anos sob a égide da Associação Renoir, uma organização sem fins lucrativos, o estúdio foi comprado separadamente pela cidade há uma década e abriga objetos e móveis do artista, esculturas criadas ao final de sua vida, e também inclui a projeção de slides sobre o mestre. O estúdio recebe atualmente cerca de dez mil visitantes ao ano, uma cifra que o prefeito espera aumentar com a inauguração da casa e do jardim.

Renoir - 'Casa de Essoyes' (1906) - coleção particular

Três instituições francesas emprestaram obras de Renoir para a abertura do museu: uma escultura foi cedida pelo Museu Renoir em Cagnes-sur-Mer, o retrato 'Jovem ao espelho' (1919) foi emprestado pelo Museu de Belas Artes de Rouen, e o Museu de Belas Artes de Bordeaux está cedendo a paisagem 'A Ponte d’Essoyes', denominada 'A pequena ponte' em seu site na Internet.  

Pierre-Auguste Renoir - 'Jovem ao espelho' (c.1915) - óleo s/ tela - Musée Des Beaux-Arts de Rouen

Renoir - 'A ponte de Essoyes' ou 'A pequena ponte' (s/d) - óleo s/ tela - 23 X 32 cm - Musée Des Beaux-Arts de Bordeaux

O Museu de Arte Moderna da cidade vizinha de Troyes também abrirá uma exposição com cerca de 40 trabalhos de Renoir e uma dúzia de obras de seus amigos e colegas impressionistas. Marcado para o dia 17 de junho, o vernissage também incluirá seis pinturas da coleção particular de Pablo Picasso, ilustrando a influência de Renoir sobre o artista espanhol. "A ideia é apresentar uma nova leitura de Renoir", diz Daphne Castano, curadora da outra exposição.



Você pretende visitar Paris neste verão? (Lembrando que o verão europeu começa em junho, naturalmente...) Vale a pena dar um pulo a Essoyes para conhecer o lugarejo onde um dos mestres mais amados do Impressionismo compartilhou momentos felizes com a esposa, os filhos e amigos queridos. Anote o endereço: 9 Place de la Mairie - 10360 - Essoyes - França. Tel.: +33 (0)3 25 29 10 94.

sábado, 7 de maio de 2016

Mecânico desempregado pode ter encontrado quadro perdido de Renoir.

Fonte: Marie-Amélie Blin - Le Figaro - publicado em 6/5/2016 às 14h11 e atualizado às 19h43 ! Tradução e adaptação: Simone Catto

O que você faria se comprasse um quadro de segunda mão no Mercado Livre e descobrisse que pudesse se tratar de uma pintura de Renoir? Foi mais ou menos isso o que aconteceu com Ahmed Ziane, um mecânico desempregado de 50 anos que mora na região de Villeurbanne, perto da cidade de Lyon, na França.

Tudo começou numa bela noite de primavera em 2014. Como sempre costuma fazer, Ziane estava navegando no site Le Bon Coin, no qual os franceses anunciam os mais variados objetos para venda. O mecânico tem por hábito comprar produtos nesse tipo de site e também em feiras de antiguidades, a fim de revendê-los e complementar sua renda. Naquela noite, uma pintura à venda no Le Bon Coin chamou sua atenção: uma paisagem não assinada que ele pensou ser de autoria de Claude-Joseph Vernet, um artista do século XVIII da cidade de Avignon. Ziane conseguiu comprar a obra por 700 euros e, uma semana depois, a pintura de 96 cm X 76 cm foi entregue em sua casa. O quadro estava em bom estado, mas não havia qualquer sinal da assinatura de Vernet. Até que seu filho de 11 anos chama sua atenção para um detalhe estranho, uma inscrição escondida atrás do desenho de um arbusto: "1864 A. Renoir".

Ahmed Ziane e a suposta pintura de Renoir que comprou num site de produtos de segunda mão - Imagem: Le Figaro

Sabe-se que, em sua juventude, Pierre-Auguste Renoir pintou um quadro denominado Noite de Verão e que ele foi exposto em 1865. Após essa data, a pintura nunca mais foi vista. Sabia-se de sua existência, mas ninguém possuía nenhuma informação sobre ela – sequer sobre suas dimensões, afirmou a Réunion des Musées Nationaux, entidade que preside os museus na França. A tela estava ausente até do catálogo raisonné das 4.654 obras de Renoir organizado pela galeria de arte Beinheim-Jeune e estava classificada entre as obras de arte perdidas pelo Institut National d’Histoire de l’Art (INHA). Teria sido finalmente encontrada?

Ahmed Ziani realmente pode ter tirado a sorte grande. A pintura reúne vários elementos usuais nas obras de Renoir, como o tipo de tela utilizado e a camada de gesso branco que o mestre costumava espalhar sobre a superfície antes de começar a pintar. O Ciram, laboratório de análise e autenticação de objetos de arte sediado em Bordeaux, foi bem otimista: não somente confirma que a tela misteriosa foi criada nos anos 1860, como revela que o estilo e os pigmentos utilizados foram igualmente detectados em outras telas assinadas por Renoir no período. Tomara que esteja certo! Quisera eu achar um Renoir por 700 reais na OLX. Um Eliseu Visconti, aliás, já estaria de bom tamanho! O único problema (ou não!) é que eu não teria coragem de vendê-lo.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

'Pierre-Auguste Renoir, meu pai'. Um olhar atento e amoroso sobre o mestre.

“Renoir era uma máquina maravilhosa de absorver a vida. Via tudo, compreendia tudo, e se apropriava”. – Jean Renoir

Um homem que amava a humanidade, os seres vivos e a natureza sob todas as formas. Um talento nato. Um bom coração. Uma alma iluminada cuja generosidade foge à compreensão do bruto mundo em que vivemos. Um homem que nasceu para amar e pintar. Esse é o Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) com quem tomamos contato na biografia 'Pierre-Auguste Renoir, meu pai', escrita por seu filho Jean Renoir (1894-1979), ator e cineasta consagrado que criou obras-primas como 'A Grande Ilusão' e 'French Cancan', esta última uma homenagem ao pai e a outros artistas que lhe eram contemporâneos, retratando o alegre universo dos cabarés e cafés-concerto.

Jean Renoir quando jovem.

Por isso, ‘Pierre-Auguste Renoir, meu pai’ não é uma biografia como as outras. Nota-se, em primeiro lugar, a admiração que Jean Renoir devotava ao pai, mas dá para perceber que esse sentimento de amor filial não obscureceu e nem impediu, em absoluto, a autenticidade ou veracidade dos fatos apresentados. Muito pelo contrário. Jean relata com a riqueza de detalhes de uma testemunha ocular atenta tudo aquilo sentiu e viveu de muito perto e também fatos que o próprio Renoir lhe contou. É assim que ficamos conhecendo os antecedentes do artista e penetramos em seu dia a dia desde a mais tenra infância no seio da família até a relação calorosa que mantinha com parentes, agregados e séquitos de amigos e admiradores, artistas ou não. Ficamos sabendo que o pintor nasceu em um lar amoroso, que o pai era um alfaiate respeitado, a mãe uma mulher disciplinada que o considerava o filho predileto e que os irmãos eram talentosos, cada qual em sua vocação e seu métier. Esse afeto aliado a disciplina foi igualmente transmitido aos três filhos que o artista teve com a jovem Aline Charigot (1859-1915): Pierre (1885-1952), Jean e Claude (1901-1969), nascidos quando Renoir já contava mais de 40 anos.

Renoir, já no fim da vida, e a esposa Aline Charigot em sua residência em Cagnes-sur-Mer, 'Les Colettes'.

O retrato do pequeno Jean Renoir (1901) em uma das inúmeras pinturas do pai.
Renoir não gostava que cortassem seu lindo cabelo, fazendo com que o garoto
ficasse parecendo uma menina.  

Aqui, uma terna representação de Aline e o irmão mais velho de Jean, Pierre,
em pintura de Renoir realizada em 1887. Jean ainda não era nascido.

O curioso é que, após um estranhamento inicial que a figura excessivamente magra do artista provocava, as pessoas acabavam ficando absolutamente cativadas por sua inteligência e generosidade, como se conseguissem captar, de alguma maneira, o amor que ele nutria pela vida e pela humanidade. Renoir ficou amigo de praticamente todos os pintores impressionistas, tendo inclusive dividido um ateliê com Claude Monet na época das vacas magras. Sobre Monet, aliás, Jean nos relata um detalhe pitoresco: ele podia não ter o que comer, mas sempre se vestia com esmero e elegância, encomendando roupas aos melhores alfaiates. Se eles eram pagos ou não, isso era outra história. Informações curiosas e divertidas como essa pipocam em abundância ao longo da obra, tornando a leitura, além de instrutiva, leve e agradável. 

A família Renoir: Aline com o pequeno Claude no colo, Jean, Pierre e o pintor, já idoso. 

A carreira de Renoir, assim como a dos demais impressionistas, demorou a engrenar, já que ninguém, nem público nem crítica, estava habituado a suas inovações. No entanto, o fascinante é que, desde criança, tudo o que Renoir resolvesse rabiscar produzia belos traços e ele nunca deixou de desenhar ou pintar um dia sequer. Teve a sorte, inclusive, de ser encorajado pela família, que teve a sensibilidade de reconhecer o talento do garoto. Esse dom inato foi burilado ainda mais no Ateliê Gleyre, em Paris, onde o artista teve a oportunidade de conhecer vários colegas que, a seu lado, iriam revolucionar os cânones da arte com o Impressionismo. Além de Monet, Renoir foi muito amigo do jovem Bazille, infelizmente falecido precocemente, Sisley, Pissarro, Manet, Berthe Morisot e Cézanne. Vale ressaltar, aliás, que os filhos de Cézanne tornaram-se amigos íntimos dos filhos de Renoir e, segundo consta, seus descendentes mantinham essa aliança pelo menos até o ano da primeira edição do livro na França, 1962. Mais tarde, o apoio que Renoir havia recebido da família para seguir sua arte teve continuidade com a família que ele próprio construiu com Aline Charigot. Frequentemente, eram seus próprios filhos que posavam como modelos para as pinturas, sobretudo os mais novos, Jean e Claude.

Nesta pintura, 'A criança e os brinquedos' (1895-6), Renoir retrata Jean e a babá Gabrielle, muito querida
da família.

Claude Renoir, o caçulinha apelidado de 'Coco' (1903-4)', também era uma criança encantadora.

Um aspecto que impressiona, no decorrer da leitura, é a quantidade de viagens que Renoir empreendeu, sobretudo se considerarmos o transtorno e a dificuldade de locomoção à época, final do século XIX. Mas Renoir não se fazia de rogado. Vira e mexe, pegava pincéis e paleta e partia para temporadas nas casas de amigos residentes em outras cidades, com o objetivo de pintar paisagens diferentes da Paris onde vivia desde os 4 anos. Foi assim que foi parar na casa de Cézanne em Aix-en-Provence, em Mézy com Berthe Morisot e na Espanha com Gallimard. Renoir também esteve em Nice, na Normandia, na Bretanha e em Essoyes, terra da esposa e de Gabrielle Renard (1878-1959), a carinhosa babá contratada para cuidar de Jean Renoir e que acabou incorporada à família, além de ter posado inúmeras vezes para o mestre. Renoir correu para pintar o porto de La Rochelle porque Corot, artista que admirava, o fizera. Sem falar dos invernos que passou em Beaulieu e dos verões em Pont-Aven. Quando achava que Pierre, o filho mais velho, não se cansaria muito, Aline acompanhava o marido com prazer nas viagens e assim procedeu quando do nascimento dos outros filhos. O fato é que em todos esses locais, Renoir nunca estava sozinho. Quando a esposa com as crianças e a babá Gabrielle estavam impedidas de viajar, sempre tinha a companhia de um ou mais amigos pintores, além daqueles que iam visitá-lo onde estivesse: marchands como Paul Durand-Ruel e Ambroise Vollard, com os quais mantinha uma relação verdadeiramente fraternal, o pintor Albert André, amigo dos mais fiéis, Lestringuez, Lhote, Georges Rivière, funcionário do Ministério das Finanças, e muitos outros.

Gabrielle lendo (1906)

Mesmo com as mãos deformadas pelo reumatismo, no fim da vida,
Renoir nunca deixou de pintar.

Jean e Gabrielle em foto de 1950.
Na realidade, um verdadeiro séquito de admiradores acorria à casa de Renoir, que vivia cheia, e muitos tinham o privilégio de compartilhar da mesa da família nas noites de sábado, quando Aline servia sua famosa bouillabaisse ou um pot-au-feu que ficou na história. Entre os convivas, estavam mentes brilhantes como Mallarmé, Zola, Alphonse Daudet, Odilon Redon, Monet, Verlaine, Rimbaud, Edmond Renoir, irmão do artista, e muitos outros, incluindo burgueses ilustrados e outros convivas. 

O livro, lançado no Brasil pela editora Paz e Terra em 1988, infelizmente está esgotado nas livrarias e tive a sorte de adquiri-lo em um sebo alguns anos atrás. Sei que existe uma versão em português vendida na FNAC de Portugal, mas uma obra de tão alta qualidade mereceria ser relançada por aqui! Além de ser uma leitura deliciosa e um mergulho profundo na vida e obra de uma figura tão fascinante como Renoir, também conhecemos detalhes dos personagens que gravitavam em seu redor e ainda temos uma aula de arte, história e costumes da França do século XIX. Portanto, se você for um(a) apaixonado(a) por arte como eu, vale a pena ficar de olho nos sebos ou então encomendar uma versão estrangeira na Amazon.com.