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quarta-feira, 2 de abril de 2014

'O agora, o antes: uma síntese do acervo do MAC USP'... e a pergunta que não quer calar.

O título da exposição já diz tudo. Agora que o Museu de Arte Contemporânea da USP está funcionando a pleno vapor na nova sede do Ibirapuera, todos os seus andares estão ocupados por diferentes mostras, cada uma propondo um diferente ponto de vista de seu monumental acervo. A exposição 'O Agora, o Antes: uma síntese do acervo do MAC USP' é uma delas, apresentando um panorama geral das diferentes linguagens e vertentes artísticas de obras pertencentes ao MAC. A curadoria é de Tadeu Chiarelli, também diretor do museu.

São 85 obras de diferentes origens produzidas em tempos e locais distintos, a partir de meados do século XIX até a atualidade. A ideia é provocar pelo contraste. Vemos, então, trabalhos bem conhecidos (e alguns que amamos!) de mestres como Modigliani, Picasso, Matisse, Tarsila e Anita Malfatti, por exemplo, ao lado de obras de artistas jovens e ainda desconhecidos do grande público, como Thiago Honório, Júnior Suci e Rommulo Vieira Conceição, entre outros.

Segundo o texto da exposição, essa convivência entre o 'agora' e o 'antes' "provoca diálogos inusitados que levam a um questionamento das certezas instituídas no mundo da arte". Só que eu iria ainda mais longe e, nessa jornada, devo dizer que certos pensamentos "perversos" me assaltaram pelo caminho. Isto porque, mais do que "questionar as certezas no mundo da arte", no confronto entre obras consagradas de grandes mestres e outras de jovens artistas contemporâneos, foi inevitável questionar, também, se tudo o que vi era arte. Pronto, falei. Porém, nada posso fazer, já que esse questionamento insidioso é automático, inconsciente em um primeiro momento, mas cada vez mais onipresente sempre que me deparo com determinadas obras de arte contemporânea – mesmo aquelas que vêm com bula explicativa. Mas este é também o nosso papel, digo, dos historiadores de arte. Cabe a nós olhar, questionar e apurar, para depois... depurar.

Veja, a seguir, uma amostra do que vi por lá...

Anita Malfatti - 'A Boba' (1915-16) - óleo s/ tela - foto: MAC USP
Um clássico!

Roy Lichtenstein - 'Modern Painting with Yellow Interweave' (1967) - óleo s/ tela
Foto: Simone Catto - Curiosidade: essa obra fazia parte do gigantesco acervo do

ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira que hoje está em poder do Estado. O MAC tem
a guarda dessa obra, entre muitas outras que pertenceram ao banqueiro, e luta
para que ela não vá a leilão e permaneça em sua coleção.

Thiago Honório - 'Documents' (1912) - foto: MAC USP
Hã?

Henri Matisse - 'Natureza morta' (1941) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto
Mestre do plano e da cor.

A foto saiu com reflexo por causa do vidro, mas essa série do Cildo Meirelles é
muito interessante. O nome é 'Espaços Virtuais - Cantos' (1973)
Série Projeto para Ambiente - acrílica s/ tela - foto: Simone Catto

Rômulo Vieira Conceição - 'Estrutura Dissipativa' - Balanço' (2012) - foto: MAC USP
Dá vontade de voltar a ser criança, usar o balanço e subir naquela escada que não dá a lugar nenhum!

Amedeo Modigliani - 'Autorretrato' (1919) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto
Belíssimo autorretrato do atormentado Modi.

Nelson Leirner - 'Você faz parte II' - (1964) - madeira, aço cromado,
espelho e aglomerado de madeira - foto: MAC USP
Curioso!

Farnese de Andrade - 'Sem título' - 1984 - madeira - foto: Simone Catto
Perturbador.

Pablo Picasso - 'Figuras' (1945) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto
Típica sobreposição picassiana.

Tarsila do Amaral - 'A Negra' (1923) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto
Clássico de Tarsila. 

Junior Suci - 'Sem título' (2010) - foto: MAC USP
Eu não consigo. Juro que tentei, mas não consigo...

Antônio Dias - 'Fumaça do Prisioneiro' (1964) - óleo e látex s/ madeira - foto: Simone Catto
Obs.: com forte influência da pop art, a obra possui um caráter de denuncia política,
ainda mais se levarmos em conta que foi concebida no ano do Golpe Militar no Brasil.

Visite a exposição no MAC USP e tire suas próprias conclusões! O endereço é Av. Pedro Álvares Cabral, 1301 – Ibirapuera. Tel.: 5573-9932 -www.mac.usp.br. Abre às terças-feiras das 10h às 21h, e de quarta a domingo das 10h às 18h. Entrada franca.

Veja, também, outras resenhas de exposições do MAC USP:

-Quem tem medo do MAC USP? 

-Os Volpis do MAC. Uma pequena amostra da sensibilidade artística do mestre.

-'Classicismo, Realismo, Vanguarda: Pintura Italiana no Entreguerras'. Um tesouro a descobrir.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Quem tem medo do MAC USP?

Fazia pouco mais de um ano que eu havia visitado a nova sede do Museu de Arte Contemporânea da USP, no Ibirapuera, instalada no prédio onde antes era o Detran. Na ocasião, lamentei, em um post deste blog, a demora do museu em transferir seu imenso acervo para o novo prédio, já que apenas o térreo e o mezanino estavam funcionando. Comentei, também, sobre a ausência de um estacionamento e de um café para os visitantes, já que um museu daquele porte merecia no mínimo uma cafeteria, a exemplo do que vemos em museus do primeiro mundo. 

Felizmente, em uma nova visita no fim de semana, minha impressão foi bem diferente. Fiquei muito contente em verificar que os oito andares da construção destinados a exposições já estão ocupados por mostras de alto nível e que o museu oferece estacionamento aos visitantes. Só notei duas ausências: 1) do café para aquela pausa necessária entre uma exposição e outra e... 2) de gente. Sim, contavam-se nos dedos os visitantes do museu! Não dá para entender como um espaço tão gigantesco e com um acervo tão importante possa atrair tão pouca gente num fim de semana. Será por falta de divulgação? Falta de cultura da população? Ou as duas coisas juntas? Quando visitamos museus de arte moderna em Paris, Londres ou Nova York, por exemplo, invariavelmente nos depararmos com filas e salões lotados, de forma que por vezes nem conseguimos apreciar as obras direito. Ao passo que numa megalópole como São Paulo vemos um museu da envergadura do MAC com os salões vazios... triste, triste!

Seja como for, não tive dúvidas: tomei o elevador até o oitavo andar e, lentamente, fui descendo as escadas para visitar as exposições que me interessavam, uma a uma. Vi pelo menos umas quatro, mas neste post, especificamente, vou falar de duas: 'O artista como autor/o artista como editor' e 'Para Além do Ponto e da Linha: Arte Moderna e Contemporânea no Acervo do MAC USP'. Escolhi essas duas exposições para abordar em primeiro lugar porque notei que elas têm dois pontos em comum: ambas têm curadoria de Tadeu Chiarelli, diretor do museu, e em ambas ele procura estabelecer uma dialética entre as obras expostas, em uma tentativa de confrontar diferentes princípios para a criação.

Na exposição 'O Artista como Autor/o Artista como Editor', no sexto andar, Chiarelli contrapõe, de um lado, obras que poderíamos chamar de "autorais", isto é, de artistas que reivindicam uma autoria única sobre elas "por meio de gestos e estruturas formais que ratifiquem sua individualidade". Neste caso, estariam inseridas obras de Max Ernst, Miró, Iberê Camargo e Léger, entre outras presentes no recorte da exposição.

Max Ernst - 'Quadro para Jovens' (1943) - óleo s/ tela

Joan Miró - 'Personagem atirando pedro num pássaro' (1926) - guache s/ papelão

Iberê Camargo - 'Expansão' (1964) - óleo s/ tela

Fernand Léger - 'Composição' (1936) - guache s/ papel

De outro lado, encontram-se obras de artistas que atuariam mais como editores de formas e imagens pré-existentes, ressignificando seu sentido original, seja pela escolha arbitrária de uma ou outra imagem, seja pela articulação de várias outras imagens. Aqui se enquadrariam obras de Nelson Leirner, Waltércio Caldas, Robert Rauschenberg e Alfredo Nicolaiewsky, entre outras.

No entanto, devo dizer que considero um pouco temerária essa polarização, porque, em determinados casos, é difícil definirmos até que ponto um artista nos apresenta uma linguagem absolutamente autoral e particular, ou utilizou, em sua obra, elementos pré-existentes que adquiriram nova significação em sua criação. O que ocorre é que, em alguns casos, essa "ressignificação" encontra-se evidente, não deixando margem a dúvidas. É o caso das duas obras abaixo: a primeira, de Nelson Leirner, tomou emprestada uma pintura que evoca uma construção renascentista italiana. E na outra, Alfredo Nicolaiewsky claramente se apropriou de fragmentos de Mondrian e, ao que parece, também de Auguste Rodin, só para citar os mais evidentes.

Nelson Leirner - 'Pintura I' (1964) - tinta automotiva s/ papel
   
Alfredo Nicolaiewsky - 'Este é mais cerebral' (1995/6) - técnica mista

Porém, em uma obra como a de Karel Appel, a seguir, classificada pelo curador como uma obra de "artista/autor" e não de "artista/editor", quem garante que o artista não tenha tomado signos alheios para "editá-los" e contextualizá-los de uma outra forma em sua obra? Não dá para saber. Seja como for, o que importa é que a exposição nos apresenta obras de alto nível, e esse exercício de tentar identificar o que seria obra de "autor" ou de "editor" é no mínimo uma brincadeira interessante.

Karel Appel - 'Cabeça Trágica' (1957) - óleo s/ tela

Uma forma diversa de dicotomia foi apresentada na outra exposição com curadoria de Tadeu Chiarelli, 'Para Além do Ponto e da Linha: Arte Moderna e Contemporânea no Acervo do MAC USP', esta no terceiro andar. Composta de obras diversificadas de artistas modernos e contemporâneos, brasileiros e internacionais, a exposição pretende mostrar as estratégias mais diversas pelas quais os artistas "desenvolveram ou desenvolvem trabalhos em que o foco é a ativação do plano bidimensional", segundo as palavras do curador.

Explicando melhor: a ideia, aqui, é apresentar obras que "ativam o plano" com os elementos mínimos ditos tradicionais, como o ponto, a linha, a cor e a luz, em oposição a obras que contestam esses limites, extrapolando as fronteiras do plano e "invadindo o espaço", por assim dizer.

No primeiro caso, se enquadrariam obras de Wassily Kandinsky e de Fernando Lindote, por exemplo.

Wassily Kandinsky - 'Composição Clara' (1942) - óleo s/ tela - foto: Simone Catto

Fernando Lidote - 'Brasília' (2013') - óleo s/ tela - foto: Simone Catto

Na outra ponta, estariam obras como as de Sérgio Romagnolo e João Louzeiro, que vão "além do ponto e da linha" e questionam os limites do plano.

Sérgio Romagnolo - 'Sem título' (1991) - plástico modelado - foto: Simone Catto

'Zootécnico', de João Louzeiro, é uma obra tridimensional constituída por cinco esculturas que se estruturam a partir de planos sobrepostos, formando animais. As crianças, particularmente, adoram!

João Louzeiro - 'Zootécnico' (elefante, rinoceronte, burro, logo e rato) (2009) - espuma
Foto: Simone Catto

Ao refletir a respeito dessa segunda exposição, portanto, cheguei à conclusão de que na prática, ela teria condições de abrigar quaisquer obras modernas e contemporâneas, já que todas se enquadram em qualquer das duas vertentes confrontadas. Visite o MAC USP e diga se não concorda comigo!

O endereço do MAC USP é Av. Pedro Álvares Cabral, 1301. Tel.: 5573-9932 - www.mac.usp.br. Abre às terças-feiras das 10h às 21h, e de quarta a domingo das 10h às 18h. Entrada franca. Passe por lá!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Corra, USP, corra! O MAC merece virar um museu de verdade.

Eu ainda não conhecia a nova sede do Museu de Arte Contemporânea da USP, no prédio do Ibirapuera projetado por Oscar Niemeyer onde era o antigo Detran. Lembro que, da época em que foi anunciada a reforma (que custou aos cofres da Secretaria de Estado da Cultura declarados R$ 76 milhões) até a inauguração, há cerca de um ano, fiquei superanimada com a possibilidade de ter, bem mais próximo de casa, um museu com cerca de 10 mil obras de arte.

Pois é. Ontem, finalmente, tive a oportunidade de conhecer a nova sede do MAC ao receber um convite para a abertura da exposição das doações mais recentes ao museu. Qual não foi minha surpresa ao constatar que, com um prédio daquele tamanho, somente o térreo e o mezanino estão efetivamente funcionando? É isso aí. Lá estão apenas 18 esculturas, enquanto que as milhares de obras-primas do MAC ainda estão guardadas numa reserva técnica na Cidade Universitária, à espera que a inépcia e a burocracia do estado as tire de lá. Sim, porque esse novo espaço, cedido à USP pelo Governo do Estado, tem dez vezes o tamanho da atual sede do museu da universidade.


Uma das obras doadas recentemente ao museu: sem título, s.d. - chapa metálica pintada, de autoria de Emmanuel Nassar (1949) - doação do Itaú/AAMAC - foto: Simone Catto   

Outra das doações recentes: 1o. Eu, 2000-12 - mármore e granito, de Roberto Keppler (1951) - doação do artista. 
Foto: Simone Catto 

Ao tentar saber o porquê de todo esse atraso para que o novo prédio do MAC se transforme num museu de verdade, descobri, em primeiro lugar, que as obras da reforma terminaram três anos após a data prevista e que um outro imbroglio havia começado para que a Secretaria conseguisse licitar e comprar o sistema de segurança. Compreensivelmente, Tadeu Chiarelli, o respeitado crítico e especialista em história da arte e também diretor do museu, se recusa a levar Picasso, Modigliani, De Chirico e outros gênios da arte moderna para um local sem segurança. Nem ele, e nenhum gestor com um mínimo de bom senso, cometeriam essa insanidade.

Como se não bastasse esse atraso de um lado, a própria USP está atrasando o processo do outro. Primeiro porque, segundo Chiarelli, a reitoria da universidade ainda não lhe ofereceu garantias de que os elevadores vão funcionar. Oras, qualquer pessoa que visite o prédio percebe que a circulação interna só pode ser feita com elevadores, já que a construção é vertical. Portanto, o diretor está ocupando somente o térreo e o mezanino da construção porque, em casa de sinistro, seria mais fácil salvar peças que estão nos andares mais baixos.

Um dos salões do térreo: o espaço é agradável, falta ocupá-lo por inteiro! - Foto: Simone Catto 

Henry Moore (1898-1986) - Figura Reclinada em Duas Peças: Pontos, 1969-70 - bronze - permuta com Tate Gallery of London. 
Foto: Simone Catto

Além disso, a USP ainda não abriu licitação para ocupar as outras áreas do espaço. Logo que cheguei, por exemplo, notei a falta de um estacionamento no local. E depois de visitar a exposição, perguntei-me como um museu daquele porte não tinha sequer um café à disposição dos visitantes, como ocorre em qualquer museu que se preze ao redor do mundo. Lojinhas de souvernirs "artísticos", então, nem pensar!

Sérvulo Esmeraldo (1929) - Quadrados, 1981 - aço pintado - doação do artista.
Foto: Simone Catto   

Cildo Meirelles (1948) - Parla, 1982 - granito, madeira e couro - aquisição do MAC - Foto: Simone Catto

Soube, depois, que um restaurante ocupará a cobertura do prédio, o que, provavelmente, deverá proporcionar uma bela vista do Parque Ibirapuera. Descobri, também, que um café deverá funcionar no mezanino. E que, sim, o museu terá uma loja que será uma filial da Edusp, a editora da USP. Agora resta-nos nos perguntar QUANDO teremos tudo isso. Porque é uma lástima que um espaço tão agradável e com dimensões tão gigantescas fique ocioso, com tantas obras-primas à espera de vir à tona. Corra, USP, corra! 

MAC USP - Nova Sede - Av. Pedro Álvares Cabral, 1301 - São Paulo - tel.: (11) 5573-9932 - de terça a domingo das 10h às 18h - entrada gratuita.