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domingo, 28 de setembro de 2014

'Eu, Christiane F., a vida apesar de tudo': não leia se estiver deprimido!

Há livros que a gente lê porque têm uma temática que para nós é absolutamente apaixonante. Outros nós lemos porque consideramos edificantes, isto é, temos certeza de que vão nos acrescentar algum aprendizado. Há livros, porém, que não são nem uma coisa nem outra: lemos por mera curiosidade e, depois, ficamos com uma sensação de vazio. Esse foi o caso de Eu, Christiane F., a vida apesar de tudo, relato autobiográfico de Christiane V. Felscherinow escrito em dobradinha com a jornalista Sonya Vukovic. 

Para quem não sabe ou nasceu após a década de 70, o livro é continuação de um best-seller de 1979 que estourou nas livrarias do mundo todo: Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída. Na ocasião, a obra chocou os leitores ao retratar, sem meios-tons ou meias-palavras, exatamente aquilo que o título diz: a rotina e o universo de uma adolescente alemã de 13 anos afundada no vício da heroína e sendo obrigada a se prostituir para adquirir a droga. A jovem Christiane deu seu depoimento aos jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck e, posteriormente, o livro foi até adotado em escolas da Alemanha para alertar as crianças quanto aos perigos das drogas.

Nesta continuação, trinta e cinco anos depois, Christiane tem 51 anos e ficamos sabendo que seu calvário não terminou, definitivamente, com o fim de sua primeira autobiografia. Todos teriam preferido imaginar que aquela garota, ainda uma criança, tivesse feito um tratamento sério de desintoxicação, achado um rumo na vida, estudado, casado, sido feliz, enfim, que tivesse se tornado uma mulher liberta de uma infância sombria. Afinal, ela ainda era tão jovem! Porém, não foi o que aconteceu: a sombra do vício sempre perseguiu Christiane. Por vezes ela seguia tratamentos de desintoxicação e até conseguia permanecer "limpa" - como se diz por aí – por algum tempo, mas logo acabava consumindo novamente alguma droga. Se não fosse a heroína, era o LSD, a bebida, os comprimidos... sempre uma espécie de fuga que a mergulhasse em torpor, porque simplesmente não conseguia suportar sua existência.

Christiane hoje, aos 51 anos, em foto de Marcel Mettelsiefen.
O mais funesto disso tudo é que, não importa aonde Christiane fosse, sempre acabava atraindo, em torno de si, pessoas conectadas com as drogas de alguma maneira, em uma espécie de sintonia macabra. Se mudasse de cidade ou até de país, logo estava em contato com os junkies ou traficantes locais. É o que ocorreu quando morou na Grécia e apaixonou-se por uma espécie de hippie que, obviamente, também consumia drogas, e viveu com ele uma história de amor que durou algum tempo. 

Em 1986, Christiane chegou a ficar um ano encarcerada em um presídio feminino. Fiquei chocada em constatar que até na Alemanha, um país dito "desenvolvido", as prisões são violentas e prisioneiras podem se matar sem que as carcereiras ou o Estado tomem qualquer tipo de atitude. Pelo menos é o que ela relata sobre sua prisão na década de 80 – não sei como estão as coisas por lá hoje.

Um filho, Phillip, fez com que Christiane recobrasse a sanidade por algum tempo. Ela tentou ser, para ele, tudo o que seus pais não haviam sido para ela. Ambos eram pessoas egoístas, ausentes, desprovidas de afeto e incapazes de dirigir gestos de carinho às duas filhas. Por isso, ela cercou Phillip de amor e cuidados, agia de forma responsável com a educação e os horários do menino, fazia-lhe companhia, brincava com ele, enfim, fazia tudo aquilo que uma mãe prestimosa faz com gosto. Pelo menino, a quem ela sempre amou, fez e faz qualquer sacrifício e tentou poupá-lo ao máximo dos fantasmas de sua triste trajetória. Só que Christiane não conseguia se livrar das más companhias e, certa vez, o menino chegou até a sofrer um sequestro por um suposto "amigo". Para que o Estado não lhe tomasse o filho, chegou a fugir desvairadamente com ele, mas, quando Phillip tinha uns 11 anos, os assistentes sociais o entregaram a um lar adotivo que também cuidava de outras crianças em situação de risco. Christiane ficou dilacerada. Embora Phillip tivesse sido entregue a uma família cordial com a qual ela tivesse permissão de ter contato e inclusive contribuía financeiramente para auxiliar no sustento do filho, a dor dessa separação foi-lhe insuportável. Quando Phillip foi embora, Christiane mergulhou novamente na espiral descendente de descontrole das drogas.

Uma foto de Christiane jovem no Sunset Boulevard,
para a divulgação de filme baseado em sua vida.
Um outro aspecto aterrador é que, até nos últimos tempos, o Estado alemão tem vigiado Christiane de muito perto. Várias vezes, ao sair e retornar para casa, ela percebe que outras pessoas estiveram em seu apartamento. É assustador. Mas o pior, sem dúvida, são as sequelas terríveis na saúde por causa da verdadeira montanha-russa a que submeteu seu maltratado organismo desde muito nova. Há décadas seu fígado está inflamado, ela sofre de hepatite C, transpira o tempo todo, tem os braços cobertos de feridas e é acometida de muitos outros males. Pode-se dizer que Christiane é uma sobrevivente, e nem ela mesma consegue entender como conseguiu estar viva até agora.

O único aspecto positivo de sua vida, hoje, é que Christiane tem uma ótima relação com o filho adolescente, um menino aplicado e bem-ajustado que gosta de computadores e tem amigos. Interessa-se por sua vida, encoraja-o a estudar e conhecer o mundo, mas não sabe se ainda estará por aqui quando isso acontecer, pois pressente que seu fim está próximo.

Diante de tudo isso, só posso dizer que, no saldo final, Eu, Christiane F., a vida apesar de tudo é um livro um bocado barra-pesada que não acrescentou nada de bom à minha experiência. Só fez com que eu lamentasse, e muito, a infelicidade dessa mulher e de tantas outras pessoas prisioneiras das drogas, independentemente de país ou classe social.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

'O Homem e seus Símbolos', de Jung. Uma fascinante viagem aos mistérios do inconsciente.

Nos sonhos, uma panela pode não ser só uma panela. Uma mesa pode não ser só uma mesa. E um macaco pode não ser só um macaco. Explico. Quando sonhamos, muitas das imagens que nos aparecem não possuem um significado literal, isto é, simbolizam algo que está além de sua interpretação imediata e oculto em nosso inconsciente. Esse "algo" pode ser uma necessidade, um desejo, uma intuição, uma neurose, um conflito, ou seja, uma gama infindável de coisas que estão lá, escondidinhas dentro de nós, só aguardando uma oportunidade para virem à tona. Isso acontece com frequência nos sonhos, na forma de símbolos. De fato, tudo pode assumir uma significação simbólica: objetos naturais como pedras, árvores, flores etc. ou aqueles fabricados pelo homem. O que ocorre é que, na vida dita "civilizada", sobretudo nas grandes cidades, passamos boa parte do tempo lutando contra o relógio e pela sobrevivência e, com isso, não prestamos atenção nos sinais à nossa volta e muito menos em nossos sonhos. 

Afinal, como os símbolos se manifestam nos sonhos? Em que medida a interpretação dessas imagens oníricas pode contribuir com nosso autoconhecimento, nos ajudar a restaurar o equilíbrio psíquico ou até mesmo a evitar que um desastre aconteça? Como os símbolos aparecem nas artes? As respostas a essas questões, e a muitas outras que na realidade nem sabemos que nos incomodam, estão nos cinco capítulos do livro 'O Homem e seus Símbolos', concebido e organizado por Carl Gustav Jung e publicado pela primeira vez em Londres no ano de 1964. Além de apresentar um capítulo de autoria do próprio Jung, a obra é uma compilação de artigos escritos por renomados colaboradores e estudiosos da mente convidados pelo mestre a dar sua contribuição.

O genial dr. Jung em seu estúdio.

O primeiro capítulo, 'Chegando ao Inconsciente', é aquele escrito por Jung e também o mais longo de todos, no qual ele discursa extensivamente sobre o poder e a carga energética das imagens simbólicas, abrindo caminho para os demais capítulos. É curioso notar como certos símbolos ancestrais, utilizados por nossos antepassados pré-históricos em objetos, esculturas e desenhos nas paredes de cavernas, são recorrentes nos sonhos do homem contemporâneo, levando Jung a concluir que existe um "padrão" simbólico universal que se repete e determinados arquétipos são recorrentes, independentemente de tempo, espaço e cultura. Contudo, a presença de um mesmo símbolo nos sonhos de diferentes pessoas – ex.: um urso - pode apontar para diferentes significados, dependendo da experiência individual de cada um. E essa análise só pode ser feita por um psicanalista, preferencialmente com a ajuda do paciente que anota e descreve diligentemente seus sonhos. Portanto, ao contrário do que vemos por aí, não existem manuais genéricos de "interpretação dos sonhos", e sim indicadores que podem servir como pontos de partida para um estudo mais profundo. 

Pinturas rupestres na famosa caverna de Lascaux, França, carregadas de simbologia.

O segundo capítulo, denominado 'Os Mitos Antigos e o Homem Moderno', é de autoria de Joseph L. Anderson, um dos mais eminentes psicanalistas junguianos dos Estados Unidos, e aprofunda aquilo que Carl Jung chamou de "inconsciente coletivo", mostrando como ele se manifesta de geração para geração por meio de imagens simbólicas, desde épocas ancestrais e em culturas totalmente antagônicas de diferentes pontos do globo. O que explica essa recorrência de visões entre povos tão diferentes que vivem e viveram em períodos históricos diversos? Entre as imagens arquetípicas recorrentes estão os símbolos heroicos, cuja necessidade surge, segundo o dr. Anderson, "quando o ego necessita fortificar-se", isto é, quando o consciente precisa de ajuda para alguma tarefa que não consegue executar sozinho. 

Conceitos como anima, animus e self, este último descrito por Jung como "a totalidade absoluta da psique", são abordados no terceiro capítulo da obra, 'O Processo de Individuação', de autoria da psicóloga suíça Marie-Louise von Franz, talvez a mais íntima amiga e confidente do dr. Jung. As manifestações da "sombra", a simbologia contida em formas geométricas como esferas e, por extensão, nas mandalas, bem como o fenômeno da "sincronicidade", também descrito por Jung, são outros tópicos analisados neste interessantíssimo capítulo.

O quarto capítulo do livro, denominado 'O Simbolismo nas Artes Plásticas' e de autoria de Aniela Jaffé, mostra como tudo pode assumir uma significação simbólica nas artes visuais – desde as pinturas rupestres de nossos antepassados pré-históricos, passando pelos símbolos de Cristo na arte religiosa da Idade Média até as formas circulares e quadradas da pintura abstrata do início do século XX. A dra. Jaffé dedica boa parte de seu estudo à análise das imagens simbólicas em obras de várias artistas modernos, dentre eles dois dos maiores representantes da vanguarda russa, Wassily Kandinsky e Kasimir Malevitch. A ideia de que o objeto significa "mais do que o olho pode perceber", compartilhada por muitos artistas surrealistas como Marcel Duchamp e Giorgio de Chirico, também ganha voz neste capítulo que exalta a dimensão do simbolismo nas artes. A autora observa que o inconsciente na obra de Marc Chagall, presente de uma forma solar, plena de calor e afetividade, é totalmente antagônico ao da obra de De Chirico, com seus dilemas metafísicos. Nesse estudo são também mencionados Max Ernst, Paul Klee e Jackson Pollock, entre outros grandes artistas do século XX que procuraram dar forma visível à "vida que existe por trás das coisas".

Belíssima obra de Wassily Kankinsky.

Obra de Marc Chagall, rica em imagens simbólicas.

O quinto e último capítulo da obra, 'Símbolos em uma Análise Individual', foi escrito pelo dr. Jolande Jacobi, que é, depois de Jung, o autor com maior número de publicações do círculo junguiano de Zurique. Como o próprio título indica, o dr. Jacobi relata, em seu estudo, o processo terapêutico de um paciente, um engenheiro de 25 anos a quem chamou de "Henry", por meio da análise de diversos sonhos do jovem.

Com uma linguagem absolutamente acessível até para quem não tiver formação em psicologia ou psicanálise, o livro nos proporciona, em suma, um mergulho fascinante nos meandros do inconsciente por meio de sua carga simbólica. O mais intrigante é que, apesar de ter sido publicada há exatos cinquenta anos, a obra revela-se incrivelmente atual. Impossível não vincular várias das explicações ali descritas acerca dos símbolos e das reações humanas a fatos da nossa contemporaneidade. Por isso, é recomendadíssima a todos que não apenas apreciam psicologia, mas também buscam novos caminhos para o autoconhecimento.

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quinta-feira, 29 de maio de 2014

'Pierre-Auguste Renoir, meu pai'. Um olhar atento e amoroso sobre o mestre.

“Renoir era uma máquina maravilhosa de absorver a vida. Via tudo, compreendia tudo, e se apropriava”. – Jean Renoir

Um homem que amava a humanidade, os seres vivos e a natureza sob todas as formas. Um talento nato. Um bom coração. Uma alma iluminada cuja generosidade foge à compreensão do bruto mundo em que vivemos. Um homem que nasceu para amar e pintar. Esse é o Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) com quem tomamos contato na biografia 'Pierre-Auguste Renoir, meu pai', escrita por seu filho Jean Renoir (1894-1979), ator e cineasta consagrado que criou obras-primas como 'A Grande Ilusão' e 'French Cancan', esta última uma homenagem ao pai e a outros artistas que lhe eram contemporâneos, retratando o alegre universo dos cabarés e cafés-concerto.

Jean Renoir quando jovem.

Por isso, ‘Pierre-Auguste Renoir, meu pai’ não é uma biografia como as outras. Nota-se, em primeiro lugar, a admiração que Jean Renoir devotava ao pai, mas dá para perceber que esse sentimento de amor filial não obscureceu e nem impediu, em absoluto, a autenticidade ou veracidade dos fatos apresentados. Muito pelo contrário. Jean relata com a riqueza de detalhes de uma testemunha ocular atenta tudo aquilo sentiu e viveu de muito perto e também fatos que o próprio Renoir lhe contou. É assim que ficamos conhecendo os antecedentes do artista e penetramos em seu dia a dia desde a mais tenra infância no seio da família até a relação calorosa que mantinha com parentes, agregados e séquitos de amigos e admiradores, artistas ou não. Ficamos sabendo que o pintor nasceu em um lar amoroso, que o pai era um alfaiate respeitado, a mãe uma mulher disciplinada que o considerava o filho predileto e que os irmãos eram talentosos, cada qual em sua vocação e seu métier. Esse afeto aliado a disciplina foi igualmente transmitido aos três filhos que o artista teve com a jovem Aline Charigot (1859-1915): Pierre (1885-1952), Jean e Claude (1901-1969), nascidos quando Renoir já contava mais de 40 anos.

Renoir, já no fim da vida, e a esposa Aline Charigot em sua residência em Cagnes-sur-Mer, 'Les Colettes'.

O retrato do pequeno Jean Renoir (1901) em uma das inúmeras pinturas do pai.
Renoir não gostava que cortassem seu lindo cabelo, fazendo com que o garoto
ficasse parecendo uma menina.  

Aqui, uma terna representação de Aline e o irmão mais velho de Jean, Pierre,
em pintura de Renoir realizada em 1887. Jean ainda não era nascido.

O curioso é que, após um estranhamento inicial que a figura excessivamente magra do artista provocava, as pessoas acabavam ficando absolutamente cativadas por sua inteligência e generosidade, como se conseguissem captar, de alguma maneira, o amor que ele nutria pela vida e pela humanidade. Renoir ficou amigo de praticamente todos os pintores impressionistas, tendo inclusive dividido um ateliê com Claude Monet na época das vacas magras. Sobre Monet, aliás, Jean nos relata um detalhe pitoresco: ele podia não ter o que comer, mas sempre se vestia com esmero e elegância, encomendando roupas aos melhores alfaiates. Se eles eram pagos ou não, isso era outra história. Informações curiosas e divertidas como essa pipocam em abundância ao longo da obra, tornando a leitura, além de instrutiva, leve e agradável. 

A família Renoir: Aline com o pequeno Claude no colo, Jean, Pierre e o pintor, já idoso. 

A carreira de Renoir, assim como a dos demais impressionistas, demorou a engrenar, já que ninguém, nem público nem crítica, estava habituado a suas inovações. No entanto, o fascinante é que, desde criança, tudo o que Renoir resolvesse rabiscar produzia belos traços e ele nunca deixou de desenhar ou pintar um dia sequer. Teve a sorte, inclusive, de ser encorajado pela família, que teve a sensibilidade de reconhecer o talento do garoto. Esse dom inato foi burilado ainda mais no Ateliê Gleyre, em Paris, onde o artista teve a oportunidade de conhecer vários colegas que, a seu lado, iriam revolucionar os cânones da arte com o Impressionismo. Além de Monet, Renoir foi muito amigo do jovem Bazille, infelizmente falecido precocemente, Sisley, Pissarro, Manet, Berthe Morisot e Cézanne. Vale ressaltar, aliás, que os filhos de Cézanne tornaram-se amigos íntimos dos filhos de Renoir e, segundo consta, seus descendentes mantinham essa aliança pelo menos até o ano da primeira edição do livro na França, 1962. Mais tarde, o apoio que Renoir havia recebido da família para seguir sua arte teve continuidade com a família que ele próprio construiu com Aline Charigot. Frequentemente, eram seus próprios filhos que posavam como modelos para as pinturas, sobretudo os mais novos, Jean e Claude.

Nesta pintura, 'A criança e os brinquedos' (1895-6), Renoir retrata Jean e a babá Gabrielle, muito querida
da família.

Claude Renoir, o caçulinha apelidado de 'Coco' (1903-4)', também era uma criança encantadora.

Um aspecto que impressiona, no decorrer da leitura, é a quantidade de viagens que Renoir empreendeu, sobretudo se considerarmos o transtorno e a dificuldade de locomoção à época, final do século XIX. Mas Renoir não se fazia de rogado. Vira e mexe, pegava pincéis e paleta e partia para temporadas nas casas de amigos residentes em outras cidades, com o objetivo de pintar paisagens diferentes da Paris onde vivia desde os 4 anos. Foi assim que foi parar na casa de Cézanne em Aix-en-Provence, em Mézy com Berthe Morisot e na Espanha com Gallimard. Renoir também esteve em Nice, na Normandia, na Bretanha e em Essoyes, terra da esposa e de Gabrielle Renard (1878-1959), a carinhosa babá contratada para cuidar de Jean Renoir e que acabou incorporada à família, além de ter posado inúmeras vezes para o mestre. Renoir correu para pintar o porto de La Rochelle porque Corot, artista que admirava, o fizera. Sem falar dos invernos que passou em Beaulieu e dos verões em Pont-Aven. Quando achava que Pierre, o filho mais velho, não se cansaria muito, Aline acompanhava o marido com prazer nas viagens e assim procedeu quando do nascimento dos outros filhos. O fato é que em todos esses locais, Renoir nunca estava sozinho. Quando a esposa com as crianças e a babá Gabrielle estavam impedidas de viajar, sempre tinha a companhia de um ou mais amigos pintores, além daqueles que iam visitá-lo onde estivesse: marchands como Paul Durand-Ruel e Ambroise Vollard, com os quais mantinha uma relação verdadeiramente fraternal, o pintor Albert André, amigo dos mais fiéis, Lestringuez, Lhote, Georges Rivière, funcionário do Ministério das Finanças, e muitos outros.

Gabrielle lendo (1906)

Mesmo com as mãos deformadas pelo reumatismo, no fim da vida,
Renoir nunca deixou de pintar.

Jean e Gabrielle em foto de 1950.
Na realidade, um verdadeiro séquito de admiradores acorria à casa de Renoir, que vivia cheia, e muitos tinham o privilégio de compartilhar da mesa da família nas noites de sábado, quando Aline servia sua famosa bouillabaisse ou um pot-au-feu que ficou na história. Entre os convivas, estavam mentes brilhantes como Mallarmé, Zola, Alphonse Daudet, Odilon Redon, Monet, Verlaine, Rimbaud, Edmond Renoir, irmão do artista, e muitos outros, incluindo burgueses ilustrados e outros convivas. 

O livro, lançado no Brasil pela editora Paz e Terra em 1988, infelizmente está esgotado nas livrarias e tive a sorte de adquiri-lo em um sebo alguns anos atrás. Sei que existe uma versão em português vendida na FNAC de Portugal, mas uma obra de tão alta qualidade mereceria ser relançada por aqui! Além de ser uma leitura deliciosa e um mergulho profundo na vida e obra de uma figura tão fascinante como Renoir, também conhecemos detalhes dos personagens que gravitavam em seu redor e ainda temos uma aula de arte, história e costumes da França do século XIX. Portanto, se você for um(a) apaixonado(a) por arte como eu, vale a pena ficar de olho nos sebos ou então encomendar uma versão estrangeira na Amazon.com.