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sábado, 28 de novembro de 2015

Marcelo Bratke, o pianista que enganou a luz.

Ele começou a tocar piano aos 14 anos, uma idade considerada tardia na história dos virtuoses. Ele era praticamente cego, mas não deixava o mundo saber disso. Ele é um dos maiores pianistas brasileiros. Estou falando de Marcelo Bratke, que tocou os 24 Prelúdios de Chopin (1810-1849) e deliciosas valsas e tangos de Ernesto Nazareth (1863-1934) em um recital num inesquecível domingo de outubro no Teatro do Sesi, na Avenida Paulista.

Eu já conhecia Marcelo Bratke, mas nunca havia assistido a um concerto ao vivo desse pianista brasileiro que reside em Londres desde 1992 e conquistou fama internacional. O CD que gravou dedicado ao "Grupo dos Seis", de Jean Cocteau, foi considerado pela revista britânica Gramophone como “uma das melhores gravações eruditas de todos os tempos”. Os Prelúdios de Chopin são peças mais introspectivas, melancólicas, e a interpretação de Marcelo é extremamente elegante, sem os derramamentos apaixonados que caracterizam outras peças do compositor. Sua técnica impecável também conferiu um brilho especial às peças de Ernesto Nazareth, expressando uma alegria e leveza contagiantes.

Marcelo tem uma trajetória admirável, sobretudo se considerarmos que nasceu com uma rara doença da visão, uma espécie de catarata que lhe permitia enxergar apenas 7% com um olho e 2% com o outro. Certa vez, aos 14 anos, ele ouviu o pai tocar o Prelúdio nº 4 de Chopin e resolveu imitá-lo ao teclado. Meia hora depois, já tocava a composição de ouvido. O pai, vislumbrando o talento do menino, resolveu contratar uma professora. Foi a melhor coisa que fez. Marcelo passou a desenvolver, então, técnicas especiais para aprender e memorizar as partituras. Um exemplo: depois de escutar as notas musicais, ouvindo um disco, ele lia a partitura bem de perto, nota por nota, até memorizá-la. E memorizava muito mais rápido do que qualquer outro pianista. Quando tinha 16 anos, tocou piano em uma festa, em São Paulo, e foi descoberto pelo maestro Eleazar de Carvalho. A partir dali, sua carreira deslanchou.

O pianista, porém, nunca admitiu que fosse cego e tampouco se sentia como tal. Desde cedo desenvolveu mecanismos para driblar sua condição, inclusive depois de conquistar uma carreira internacional, brilhar em festivais e concursos de música clássica e se apresentar em grandes salas de concerto pelo mundo. Com ou sem o acompanhamento de uma orquestra, Marcelo entrava no palco, sentava-se ao piano, tocava divinamente, agradecia os aplausos, saía e ninguém percebia que ele não enxergava. Um assombro. Após esconder sua deficiência visual por 40 anos e ser desaconselhado por vários médicos a tentar uma cirurgia para recuperar a visão, o virtuose encontrou um oftalmologista em um hospital de Boston, EUA, que detectou boas possibilidades de melhora. Assim, há alguns anos Marcelo fez um cirurgia que, felizmente, foi muito bem-sucedida: conseguiu recuperar 90% da visão em um dos olhos e passou a enxergar o mundo. Ao perceber as cores com toda a sua vivacidade, deu-se conta da precariedade de sua visão anterior, descobriu um novo universo e conseguiu ampliar ainda mais a plateia disposta a ouvir e aprender com seu lindo piano.

O fato é que Marcelo veio a este mundo com a missão de encantar as pessoas com sua música e nenhum obstáculo poderia impedi-lo de se tornar o grande virtuose que é, um virtuose anos-luz à frente de tantos pianistas que não enfrentaram um décimo das dificuldades que ele enfrentou. Marcelo Bratke tem o meu respeito e eterna admiração.

Confira, abaixo, uma amostra dos Prelúdios de Chopin e o trecho de uma entrevista do pianista durante o Festival de Inverno de Campos do Jordão, em julho de 2015.




E aqui, a deliciosa interpretação de Marcelo Bratke do choro "Brejeiro", de Ernesto Nazareth, no concerto a que tive oportunidade de assistir, no Teatro do Sesi!



Se você gosta de piano, fique de olho para não perder o próximo concerto deste grande artista!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Prazer revisitado: Amilton Godoy interpreta Rhapsody in Blue, de George Gershwin.

Na noite de sexta-feira, dia 30, tive a alegria de assistir, pela segunda vez em minha vida, ao grande pianista Amilton Godoy, um dos fundadores do Zimbo Trio, solar a Rhapsody in Blue, de George Gershwin. Na primeira vez, eu ainda fazia faculdade de música e a experiência me marcou para sempre. E neste meu reencontro com o pianista, o acompanhamento foi da OCAM – Orquestra de Câmara da ECA - USP, em um concerto realizado no Auditório Ibirapuera.

Na hora do bis, ele ainda nos brindou com um belíssimo pot-pourri de Gershwin, tocado com uma leveza, uma ginga e um brilho impressionantes.   

Como era proibido gravar o espetáculo e não encontrei nenhum registro na Internet, compartilho com vocês outro solo de Amilton Godoy da Rhapsody in Blue, com a Orquestra Sinfônica Municipal e regência de Marcelo Ghelfi. Fiquei superfeliz em encontrar esta versão na Web, e por vários motivos.

Primeiro: Amilton + Rhapsody atiçam minha memória afetiva.
Segundo: a Rhapsody in Blue é linda e foi meu concerto de formatura.
Terceiro: o querido maestro Marcelo Ghelfi é amigo desde os tempos de conservatório e universidade.
Quarto: a necessidade de ganhar o pão de cada dia fez com que eu trocasse de teclado, mas a paixão continua, bem como meu apoio aos bons pianistas, maestros e músicos.

Aproveite!



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Guy King na 'The Orleans': o rei do blues de Chicago canta e arrasa na guitarra.

Foto: Simone Catto
Outro dia descobri que a Bourbon Street, uma das mais famosas ruas de New Orleans, tem mais de duzentas casas de jazz. E mais: ninguém paga para entrar em nenhuma delas e couvert artístico não existe. Você só paga o que consome. Diante desse cenário, surgem as inevitáveis comparações entre a riqueza musical de certos centros urbanos desenvolvidos e a atual pobreza cultural do Brasil que atinge até mesmo metrópoles como São Paulo, pobreza essa que grita, literalmente, na música. O que tenho ouvido por aí em termos musicais é sofrível, triste mesmo. De uma mediocridade descomunal que reflete a falta de educação e cultura de um povo cujos governantes estão pouco se lixando para sua formação cultural, já que eles próprios são a mais bestial tradução das trevas da ignorância.

Diante disso, é sempre um alento descobrir casas como a 'The Orleans' que, cujo nome já indica, tem como proposta oferecer música de qualidade em um ambiente agradável onde se pode degustar boas opções de bebida e comidinhas. Estive lá apenas uma vez, mas já verifiquei que o o som é dos melhores: jazz, blues, rhythm'n'blues e afins.

Fui convidada a assistir a um show específico de um excelente bluesman que eu não conhecia, mas que já goza de grande reputação no meio jazzístico: Guy King, guitarrista, cantor e compositor nascido em Israel e residente nos Estados Unidos. Ele já havia estado aqui anteriormente e, desta vez, veio por alguns meses para descansar, fazer shows e ainda chegou a se apresentar no Programa do Jô.

Guy  King, talentosíssimo e carismático.

O homem é mesmo muito bom. Aprendeu a tocar guitarra de ouvido e, já nos Estados Unidos, tornou-se um respeitado músico e cantor, tendo participado de inúmeros festivais de jazz e conquistado vários prêmios, sendo chamado 'O Rei do Blues de Chicago'. Não é por menos. Além de ter uma bela voz, Guy realmente arrasa na guitarra e ainda por cima é jovem, bonito e extremamente simpático. Na 'The Orleans' apresentou-se com mais cinco excelentes músicos e a casa lotou de gente com bom gosto musical: casais, grupos de amigos e até mesmo homens sozinhos que estavam curtindo seu som numa boa. Chegamos cedo, pedimos um vinho e jantamos para aguardar o show, que começou após as 23h e terminou mais de uma da manhã.

Tudo blue na espera dos blues! - Foto: Simone Catto

O tinto alentejano 'Monte da Vaqueira' cumpriu seu papel: esquentou a espera
e desceu macio com um toque de frutas vermelhas - Foto: Simone Catto

Guy arrasando com a banda - Foto: Simone Catto

O repertório era composto em sua maioria de composições próprias de Guy, mas não faltaram hits como Unchain my heart, Georgia on my mind e até um simpático toque de bossa nova com Água de beber. O preço do couvert foi amigável dado o altíssimo nível do show, que aconteceu em um sábado: R$ 35,00.

O cardápio do 'The Orleans' não é muito extenso, mas tem pratos para todos os gostos, além de petiscos. Comi uma massa que estava muito boa e o outro pedido da mesa foi um filé au poivre que também agradou. A propósito, nem todos os itens que vimos no cardápio impresso constam no site. Fica portanto a sugestão para a casa atualizar também o cardápio online, para valorizar ainda mais seu serviço. Outra coisa que senti falta no site foi a carta de vinhos, já que esse perfil de público também aprecia um bom vinho, como é o meu caso. No dia de minha visita, pelo menos, vi várias mesas com garrafas de tintos. Fica a dica!

Guy King ainda se apresentará em Curitiba e Goiânia, confira sua agenda de shows aqui: www.guyking.net. Para saber a programação da 'The Orleans', acesse www.theorleans.com.br. O endereço é Rua Girassol, 398 – Vila Madalena. Tel.: 3031-1780. Dica para estacionar: embora a casa ofereça serviço de valet, vale a pena virar à esquerda na Rua Wizard e deixar o carro no estacionamento em frente ao bistrô 'Allez, Allez!'. É um estacionamento amplo, bem iluminado, mais barato (R$ 18) e você anda só meio quarteirão para chegar à casa.

Enquanto escolhe seu próximo show, veja aqui uma palhinha do Guy King que peguei na Web, interpretando uma composição chamada Born under a bad sign. Enjoy it!



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

'Jazz Sinfônica Especial – 100 Anos de Vinícius' – um espetáculo à altura do grande poetinha.

Sábado fiquei duplamente feliz. Primeiro, porque tive a oportunidade de assistir a um belíssimo concerto em homenagem ao querido Vinícius de Moraes, no Auditório Ibirapuera: o espetáculo 'Jazz Sinfônica Especial – 100 Anos de Vinícius'. E segundo, porque tive o prazer de reencontrar um amigo de décadas: o pianista, maestro e arranjador Marcelo Ghelfi, que fazia bagunça comigo desde os tempos do conservatório e depois se tornou meu colega também na UNESP, quando cursamos a faculdade de Música.

Auditório Ibirapuera - foto: www.veja.abril.com.br
Marcelo acompanhou todo o concerto da orquestra Jazz Sinfônica no teclado e solou ao piano o número final, a 'Suíte Canção do Amor Demais', de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, com arranjo de Amilton Godoy e orquestração de Rodrigo Morte. Extremamente talentoso e carismático, meu amigo cativou a plateia com sua interpretação, seu sorriso e sua eterna simpatia com o público. A orquestra, vigorosa, foi conduzida pelo maestro João Maurício Galindo, outro colega dos tempos da UNESP que, assim como Marcelo, desenvolveu uma promissora carreira musical.

Não por acaso, o Auditório Ibirapuera estava lotado de gente que curte boa música, boa  poesia e boa companhia. O programa teve onze canções no total, sendo que dez Vinícius criou com diferentes parceiros, também com arranjos e orquestrações de diferentes mestres. Cada número era precedido de um pequeno vídeo que contextualizava a música a seguir, um recurso que complementou o espetáculo de forma agradável e funcionou muito bem como apoio.

O solista Marcelo Ghelfi - foto: www.marceloghelfi.mus.br
Do primeiro bloco, intitulado 'Orfeu da Conceição', destaco 'Manhã de Carnaval', música mais conhecida da dupla Luiz Bonfá e Antônio Maria, com arranjo e orquestração de Hudson Nogueira e solo de trompete de Nahor Gomes. Embora essa tenha sido a única canção a não ter autoria de Vinícius, ela faz parte da trilha do filme 'Orfeu Negro', baseado na peça 'Orfeu da Conceição', aí sim de autoria do poeta, que assinou outras canções da trilha sonora. O filme, belíssimo, é uma produção franco-brasileira que conquistou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1959, além da Palma de Ouro em Cannes, e ao qual pude assistir... na Suécia! Sim, foi em Estocolmo que tive contato com essa obra-prima, a convite de amigos suecos que quiserem me fazer uma surpresa. Adorei!

Vinícius de Moraes, o poetinha...
O segundo bloco do concerto, 'Baden Powell e os Afro-Sambas', era composto por três músicas que Vinícius criou com Baden Powell: 'Samba em Prelúdio' e 'Labareda', com arranjo e orquestração de Rodrigo Morte, e 'Canto de Ossanha', com arranjo e orquestração de Maurício de Souza. Nas três canções, embora o ritmo e o batuque popular da percussão estivessem sempre presentes, era visível, na harmonia, a influência da música erudita. A integração desses elementos ficou perfeita, gerando uma sonoridade de grande beleza que a orquestra sob regência de Galindo soube valorizar.

Naturalmente não poderiam faltar números que Vinícius criou com o inseparável parceiro Toquinho, do qual destaco dois em especial: 'Tarde em Itapoã' e 'Regra Três'. Como esse bloco possuía canções mais conhecidas, a direção do espetáculo utilizou um recurso simpático: projetou as letras das músicas no fundo do palco, para que as pessoas pudessem cantar e acompanhar.

A orquestra Jazz Sinfônica - Foto: www.marceloghelfi.mus.br

Depois do número final, a 'Suíte Canção do Amor Demais', é claro que todos pediram bis... e fomos contemplados com a eterna 'Eu Sei que vou te Amar', novamente com um belo solo de Marcelo ao piano e os talentos da Jazz Sinfônica em um espetáculo que deve ter deixado o poetinha bem feliz do lado de lá. E viva Vinícius!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O piano de Rogério Tutti e a alegria de descobrir vida nova no teclado.

Em um país onde predominam as nulidades musicais, algumas gritantemente óbvias e outras mais camufladas para os ouvidos incautos, é um alento constatar que ainda exista uma moçada com sensibilidade e talento para a música erudita. Isso ficou patente no último fim de semana, quando fui assistir ao recital do pianista Rogério Lourenço dos Santos Tutti, da série de recitais que o MUBE – Museu Brasileiro da Escultura promove aos domingos, sempre às 15h30.

Retrato de um jovem Franz Liszt
por Henri Lehmann (1840)
O que me atraiu de imediato foi o repertório divulgado na newsletter eletrônica do museu, composto por peças de Franz Liszt (1811-1886) e Frédéric Chopin (1810-1849), dois grandes poetas do piano e ícones máximos do romantismo dos teclados no século XIX. Isso sem falar de minha assumida predileção por Chopin, o que não é raro para quem, em algum momento da vida, já teve contato estreito com o piano.

Contudo, não há Chopin ou Liszt que resistam a um mau pianista. Por isso, um outro fator que me atraiu para o recital foram as credenciais do jovem intérprete. Conforme o currículo divulgado pelo museu, Rogério Tutti nasceu em Bauru e tem desenvolvido uma consistente carreira internacional como pianista. Estudou com grandes mestres no Brasil e no exterior, conquistou prêmios em vários concursos internacionais de piano, tocou em países como Itália, Estados Unidos, Rússia, Cuba, Chile e Portugal, já apresentou um programa de música erudita na Rede Vida, gravou um DVD e... ufa!... ainda escreveu o método de ensino de piano em grupo para o Projeto Guri-SP. E se você acha que isso é muito para um pianista tão jovem, o moço ainda é professor de piano da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e doutorando em Musicologia pela Universidade de São Paulo.

Rogério Tutti
Pelas credenciais de Rogério, fui para o recital com a certeza de ouvir um ótimo intérprete, e não me enganei. Ele encarou peças de altíssima dificuldade técnica e saiu-se muito bem. A começar pelos seis Grandes Estudos de Paganini, obra de Liszt considerada um verdadeiro desafio para os pianistas e baseada em composições do lendário violinista e compositor italiano que, dizia-se, tinha pacto com o diabo dado seu virtuosismo nas cordas do violino.

Depois desse desafio, só mesmo uns Noturnos de Chopin para o pobre pianista respirar um pouco! Rogério escolheu os Noturnos Op. 27 de números 1 e 2. Só senti falta de um pouco mais de paixão em alguns trechos do Noturno nº 1 que demandavam mais peso de mão, já que sempre senti Chopin mais intenso, mais "derramado", por assim dizer, e nunca tive pruridos em me soltar e me deixar levar nos fortíssimos. Mas enfim, é uma questão de estilo e interpretação de cada um.

Meu querido Chopin em daguerreótipo de 1849,
pouco antes de sua morte prematura.
E quando achávamos que o programa pararia por aí, tivemos uma grata surpresa: Rogério brindou o público com os 'Três Movimentos de Petrouschka', do russo Igor Stravinsky (1882-1971), uma obra de dificílima execução baseada no balé 'Petrouschka', composta pelo mesmo autor. Repleta de dissonâncias e contrastes de intensidade, glissandos sem fim e saltos no teclado que exigem verdadeira "pontaria" do pianista, a obra revelou-se mais um desafio vencido com bravura por Rogério, que, calculo, deve ter perdido uns três quilos ao final do recital (rs). Palmas para ele, que tem talento de sobra para dominar – ou "domar"! – cada vez mais seu teclado. E que ele possa inspirar outros jovens por esse Brasil afora a desenvolver seu talento e sensibilidade, resgatando-os da avassaladora mediocridade musical que assola nosso país.

domingo, 28 de julho de 2013

Grupo 'Choronas'. É ouvir para sorrir.

Lembro de ter ouvido chorinhos desde que me conheço por gente. Meu avô tocava bandolim. Meu bisavô tocava bandolim. E meu tio-avô Oswaldo, de longe o mais talentoso dos três, aprendeu, sozinho, a tocar violão, bandolim e cavaquinho. Seu ouvido e sua musicalidade eram impressionantes. Sem nunca ter pisado em um conservatório, o homem abriu sua escola de música e sustentou a família com ela. Talentaaaaaço! Diz a história que o choro surgiu no Rio de Janeiro, lá pelos idos de 1880, como um contraponto popular à música dos salões aristocráticos. Rachmaninoff, meu adorado 'Rach' e último dos românticos, ainda era uma criança naquela época. É lógico que, em meus (bons!) tempos de pianista, não poderia deixar de aprender alguns chorinhos também. O choro passou, o piano também (será que voltará?), mas ficou o teclado - não o do piano, mas aquele de onde extraio as letras de meu ganha-pão. Na memória ficaram, também, as reuniões e festinhas lá em casa, sempre tão alegres, e na casa de meu tio-avô, onde todos se juntavam para tocar Pixinguinha, Ernesto Nazaré, Jacó do Bandolim, Noel Rosa, Waldir Azevedo, Francisco Mignone... deste último, meu avô sempre pedia para eu tocar ao piano a linda e nostálgica 'Valsa da Esquina', para me acompanhar ao bandolim. Saudade! O fato é que todas essas grandes figuras habitaram meus ouvidos durante boa parte de minha vida.

As 'Choronas' Paola Picherzky, Ana Claudia Cesar, Miriam Capua e Gabriela Machado - foto: Gal Oppido

É por tudo isso que, ao assistir a uma bela apresentação do grupo 'Choronas' no Centro Cultural Authos Pagano, não pude deixar de me emocionar - sobretudo ao ouvir 'Flor Amorosa' e 'Lamento', das quais meu avô e meu tio tanto gostavam. Por alguns minutos pude reviver todos aqueles momentos felizes com tantas pessoas queridas e música boa. Há tempos não ouvia chorinhos ao vivo e foi uma deliciosa experiência ouvir alguns naquele show intimista das talentosas meninas 'Choronas'. O show foi seguido de uma sessão de autógrafos do livro 'O cavaquinho encantado de Waldir Azevedo', de autoria de Ana Claudia Cesar, que toca cavaquinho no grupo e explica a importância do instrumento para a construção da identidade do chorinho. Afinal, foi pelos dedos ágeis do genial compositor Waldir Azevedo que o cavaquinho tornou-se mais valorizado, passando de acompanhamento para instrumento solista. Para quem não sabe, Waldir Azevedo é autor do famoso 'Brasileirinho', um chorinho que já era popular e ficou mais ainda após valorizar as performances da ginasta Daiane dos Santos, que ganharam ainda mais ginga, graça e, é claro, aplausos. É de Waldir, também, obras-primas como 'Brejeiro', 'Pedacinho de Céu' e 'Delicado'.

Agora vamos às meninas. Fundado em 1994, o grupo 'Choronas' ficou conhecido por seu trabalho de pesquisa, resgate e excelentes interpretações de um repertório de choros, baião, maxixe e samba que já encantou plateias no Brasil e exterior. É formado por Ana Claudia Cesar, no cavaquinho, Gabriela Machado, na flauta, Paola Picherzky, no violão de sete cordas, e Miriam Capua, na percussão.

Gabriela, Paola, Ana Claudia e Miriam arrasando nos chorinhos no Centro Cultural Authos Pagano. 
Foto: Gal Oppido

O livro lançado há pouco.
Instrumentista tarimbada, Ana Claudia nos presenteou com belos e emocionantes acordes de cavaquinho lá no show. Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pelo Mackenzie, Ana possui uma longa experiência como docente e inclusive elaborou o curso de formação em Cavaquinho da Universidade Livre de Música – Tom Jobim, entre muitas outras iniciativas voltadas para o ensino e a valorização desse lindo instrumento.
  
A flautista Gabriela, brilhante, é bacharel em flauta pela UNESP e já recebeu vários prêmios. Não é para menos: a menina manda muito bem! Gabriela já integrou orquestras, gravou CDs e acompanhou artistas do naipe de Antônio Menezes, Altamiro Carrilho, Paulo Moura, Yamandu Costa, Zizi Possi e Nelson Freire, entre muitos outros. Além de integrar as 'Choronas', também faz parte da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo.

A 'hermana' Paola, natural da Argentina, pelo jeito se encantou com o jeitinho brasileiro de tocar e adotou o violão de sete cordas para expressar sua sensibilidade nos choros. Mestre em música também pela minha querida UNESP e professora experiente, Paola ministra aulas de violão erudito em várias faculdades de música, gravou alguns CDs e já tocou ao lado de músicos como Roberto Sion, Paulo Belinatti e Izaías e seus Chorões, entre outros. No show, Paola dividiu o violão com Rosana Bergamasco, que fez uma bela participação especial.

A percussionista Miriam arrasou no pandeiro. Ela toca, o pandeiro obedece e ainda pede mais! Tarimbadíssima, Miriam tem uma longa carreira como instrumentista e há mais de 20 anos ministra aulas de percussão em escolas e faculdades. Eclética, faz bonito em orquestras e bandas populares – seja nos palcos, na TV ou na rua. Sim, porque até em escola de samba a moça já tocou! Miriam também se apresentou ao lado de grandes artistas e... ufa! Jornalista graduada pela USP, colaborou com revistas especializadas e ainda ajudou a criar a revista eletrônica do Conservatório Souza Lima, aliás um dos lugares que marcaram minha infância.

Bem, essas são as 'CHORONAS' que me fizeram sorrir e, certamente, fazem o mesmo com muitas outras pessoas. Música de qualidade é sempre bem-vinda e o chorinho, um ritmo tão alegre e brejeiro quanto o povo brasileiro (juro que a rima não foi intencional!! rs), não pode sumir. O que é bom deve ser não apenas preservado, mas sobretudo propagado aos quatro cantos, para que mais gente tenha parâmetros para refinar os ouvidos – a começar pelos ouvidos brasileiros, tão maltratados ultimamente. Fique de olho no próximo show! Para saber mais e acompanhar a agenda do grupo, acesse www.choronas.com.br.

domingo, 10 de junho de 2012

Trixmix Cabaret. Circo, humor e sensualidade num mix irresistível.

Todo mundo já ouviu falar em 'cabaré', mas será que todos sabem que tipo de atração pode-se encontrar num deles? Bem, o cabaré é uma casa de espetáculos onde há um pouco de tudo: shows burlescos, números circenses e apresentações de dança, tudo entremeado por uma boa dose de humor, malícia e sensualidade.

E não é que São Paulo também tem o seu cabaré? Pois é. É o Trixmix, que está comemorando cinco anos de vida e, atualmente, está no Estúdio Emme, um espaço que se destaca pelas baladas e atrações mais 'alternativas'. As apresentações são quinzenais, sempre às quintas-feiras.

As Trix Girls abriram o show - Foto: Simone Catto 

Fui conferir o Trixmix Cabaret no feriado do dia 7 e tive uma graaaaaande surpresa. Há tempos não assistia a um espetáculo tão bom!


Para começar, o espaço do Estúdio Emme é bem interessante. O público pode se acomodar em mesas ou então num dos camarotes laterais – foi num deles que fiquei. No fundo da casa há um bar e, além disso, garçons ficam circulando para quem quiser pedir uma bebida ou comidinha. Meu camarote era o primeiro da frente, próximo ao palco, de forma que tive uma ótima visão do espetáculo.

A visão de meu camarote - Foto: Simone Catto

Cheguei com certa antecedência e, por se tratar de um feriadão e estar fazendo um frio danado em São Paulo, achei que o lugar não iria lotar. Mas a casa foi enchendo... enchendo... enchendo... até que chegou uma hora que me perguntei onde eles iriam colocar toda aquela gente!!! Aí vi o pessoal da produção colocando umas cadeiras extras, mas muitas pessoas ficaram de pé. Quando isso acontece, eles avisam na bilheteria. E pelo que vi, muita gente não se incomoda em assistir ao show assim mesmo.

O palco não é tão grande, e nem precisa! - Foto: Simone Catto

O espaço ficou lotado de gente interessante - Foto: Simone Catto
  
Como todo cabaré, o Trixmix também tinha seu mestre-de-cerimônias: o 'parlapatão' Hugo Possolo, que divertiu o público com um monte de 'bobagens' e uma boa dose de improviso. Mas tudo o que havia de improviso nas piadas havia de ensaio e preparo nos números apresentados por dançarinos, equilibristas e acrobatas. Eram todos profissionais de primeiríssima, gente séria e talentosa que deve treinar duro para dar aquele show. A direção do cabaré no dia 7 ficou por conta de Mark Bromilow, nada mais, nada menos que diretor artístico do espetáculo Varekai, do Cirque du Soleil, entre 2008 e 2010.

Após o gracioso número de dança inicial com as Trix Girls, tivemos a performance de Cafi Otta, o equilibrista do monociclo em típico número circense. As acrobacias de Nildo Siqueira na mandala também foram espetaculares! Também pudera, o moço vem do Cirque du Soleil! Só lamento que as fotos desse número não tenham saído boas... 

Foto: Simone Catto

A atleta Rafaela Montanaro, campeã mundial de 'Best Pole Tricks', em 2011, simplesmente arrasou em sua performance de pole dance caracterizada como roqueira. Forte, ágil e musculosa, a moça exala poder!!!

Rafaela Montanaro, pole dancer poderosa! - Foto: Simone Catto

Os irmãos Sabatino, simpáticos e cheios de charme, deram um show na barra fixa.

Foto: Zé Gabriel

E na lira, tivemos a dupla gracinha Bel Mucci e Natalia Presser.

Foto: Simone Catto

E o que dizer de Alisson Lima? Baixinho e miudinho, o homem dançou um frevo do capeta, parece ligado na tomada!!!

Foto: Geórgia Branco

A parte 'comédia' do show ficou por conta de 'Stefany de Bourbon', figurinha hilária que fez uma dublagem cômica da saudosa diva Whitney Houston ... rs.

A pobre Whitney deve ter se revirado no túmulo!... rs. - Foto: Paulo Barbuto

E para quem quiser esticar a noite, a casa tem balada com DJ depois do show. Eu não fiquei para conferir, mas vou me informar para saber que tipo de som rola por lá. Se não for 'bate-estaca', estico na próxima vez... rs.

Anote aí: a próxima apresentação do Trixmix Cabaré será no dia 21 de junho, lembrando que os shows são quinzenais. O espetáculo tem 70 minutos com início às 21h30, mas a casa abre às 20h com DJ e um belo som de jazz, blues e clássicos das big bands americanas. Informações: (11) 3774-0415 – www.trixmix.orgOs ingressos custam R$ 50,00 e podem ser comprados na bilheteria de segunda a sábado, das 13h às 19h. O Estúdio Emme fica na Av. Pedroso de Moraes, 1036. Vale a pena conferir!

domingo, 20 de maio de 2012

Liszt no piano de Bertrand Chamayou com regência de Tugan Sokhiev. Puro êxtase na Sala São Paulo.

Quarta-feira tive uma experiência musical transcendental. Fui à Sala São Paulo especialmente para ouvir (e ver, e absorver, e sentir...) o Concerto nº 1 para Piano e Orquestra de Franz Liszt (1811-1885), em minha opinião um dos mais belos concertos para piano existentes nesse mundo – e provavelmente nos outros também. Sim, porque um concerto como esse tem o poder de nos transportar para outras dimensões, outras esferas, outros níveis de sensibilidade... enfim, para uma verdadeira viagem cósmica!!! Eu já estudei o bendito, e só Deus sabe como é difícil. Consumiu-me horas e horas de estudo de piano numa época em que eu nem sonhava em me tornar publicitária. Não por acaso, Liszt é conhecido também pelos desafios técnicos que suas obras impõem aos pobres – e abençoados - pianistas.

Por falar nisso, o compositor chegou à versão inicial desse concerto em 1849, depois de algum tempo de trabalho. Após revisá-lo várias vezes, alcançou a forma que considerou definitiva em 1855, quando a obra foi apresentada em Weimar com o próprio Liszt ao piano e Berlioz como regente. Fico imaginando o que sentiu a plateia naquele momento... queria ter estado lá!

Franz Liszt

Para quem não sabe, o húngaro Franz Liszt foi uma criança prodígio e encantou Viena e Paris com suas performances musicais. Como se não bastasse sua imensa virtuosidade ao piano, o homem era um gênio como compositor e ainda tinha um carisma e uma beleza física impressionantes. Dizem que as mulheres da época caíam a seus pés. Inovador, ele é que inventou o recital de piano como o conhecemos hoje, com o solista sozinho no palco tocando o instrumento. Liszt realmente nasceu "estrelado" e teve uma longa vida que soube conduzir de forma produtiva e feliz.

O gênio, mais maduro  

Do concerto a que assisti, não conhecia nem o solista, nem o maestro e nem a orquestra: o pianista francês Bertrand Chamayou, sob a batuta do russo Tugan Sokhiev no comando da Orchestre National du Capitole de Toulouse. No entanto, por se tratar de um concerto integrante da Temporada 2012 da Cultura Artística, as credenciais só podiam ser as melhores possíveis e fui assistir de olhos fechados. Não me enganei: o entrosamento entre pianista, maestro e orquestra foi perfeito e a plateia ficou hipnotizada. Dava para perceber que todos os intérpretes estavam à vontade e que se divertiam enquanto tocavam.

Do camarote superior onde me encontrava não dava para ver direito as fisionomias dos músicos e nem do maestro. Ao ler o programa, contudo, qual não foi meu espanto ao descobrir que o maestro tem apenas 35 anos de idade e o pianista 31??? Fiquei surpresa com a maturidade musical dos dois, sendo tão jovens.

A vista de nosso camarote... - Foto: Simone Catto

Chamayou interpretou o concerto de Liszt maravilhosamente bem (porém, arrisco dizer - talvez não com a força e o vigor de minha saudosa mestra, a pianista argentina Beatriz Balzi) e o maestro Sokhiev foi simplesmente brilhante. Estudou com renomados mestres russos, assumiu a orquestra de Toulouse com apenas 31 anos e já recebeu elogios rasgados da crítica especializada. Não só na França, mas em países como Áustria, Espanha, China, Japão, Rússia, Alemanha e Reino Unido. Já regeu a Filarmônica de Viena, a Filarmônica de Berlim e a Orquestra Concertgebouw de Amsterdã, entre muitas outras, tendo se apresentado em palcos como o La Scala de Milão e o Metropolitan de Nova York. Ufa!!! Um currículo e tanto para um regente de apenas 35 anos. Além disso, o jovem Sokhiev é de um carisma ímpar. Esses russos são mesmo impossíveis...

Tugan Sokhiev, o jovem maestro.

Bertrand Chamayou, o pianista, nasceu na própria cidade de Toulouse. Estudou no disputadíssimo Conservatório de Paris e, depois, em Londres, com a grande pianista italiana Maria Curcio. Jornais como o 'Le Figaro' e o 'Le Monde', na França, já teceram elogios rasgados ao rapaz. Segundo o catálogo do concerto, Chamayou é um dos pianistas mais requisitados de sua geração – seja como solista, recitalista ou músico de câmara. Já ganhou vários concursos de piano e tocou em salas como a Pleyel (Chopin se apresentou por lá), o Théâtre des Champs-Elysées e o Lincoln Center de Nova York, entre muitas outras. Esse tem uma grande carreira pela frente. Simpático, premiou o público com um bis impecável – uma peça também de Liszt cujo nome, confesso, ainda não sei.

Bertrand Chamayou, um excelente pianista.

Além do Concerto de Liszt que me levou até lá, a orquestra também interpretou, com grande brilho, a Abertura Kovantchina e Quadros de uma Exposição, ambas do russo Modest Mussorgsky (1839-81) e orquestradas por Ravel.

Ao final, maestro e orquestra foram longamente ovacionados e fomos presenteados com um maravilhoso bis: a famosa Abertura da ópera Carmen, do francês Georges Bizet (1838-75). Mais aplausos que não acabavam mais, e eis que ganhamos mais um bis super empolgante: a Dança Russa, da Suíte Quebra-Nozes, do russo Tchaikovsky (1840-93). Um gran finale para uma grande noite. Bravo!!!

Nem é preciso dizer que a Sala São Paulo é um espaço perfeito 
para concertos desse nível - Foto: Simone Catto

Chegamos cedo ao local e, enquanto aguardávamos o horário do concerto, tomamos uma taça de vinho apreciando o movimento - Foto: Simone Catto 

Em tempo: não achei nenhum vídeo de Chamayou na web interpretando o Concerto nº 1 para Piano e Orquestra de Liszt, mas achei a incrível performance de Lang Lang, o endiabrado chinês que você pode ver aqui acompanhado pela BBC Symphony Orchestra, sob regência de Edward Gardner no Royal Albert Hall de Londres. Detalhe: Lang Lang deve estar se apresentando agora na Sala São Paulo, com outro repertório. Ouça e babe.