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domingo, 21 de agosto de 2016

Teatros lotados, peças vazias: quando a estrela é o marketing.

Ultimamente não tenho tido muita sorte com peças de teatro. Assisti a umas quatro recentemente e devo dizer que nenhuma me fez vibrar de emoção ou pular de alegria. Duas delas, que já saíram de cartaz e foram encenadas em teatros respeitáveis, não eram propriamente ruins, mas também não empolgaram minhas endorfinas. As outras duas apenas me deram a certeza de que um bom trabalho de marketing ou assessoria de imprensa faz toda a diferença, inclusive quando a montagem não é boa.

É neste segundo caso que classifico Histeria, comédia dirigida por Jô Soares que esteve em cartaz no Teatro Tuca. Guiando-me pela crítica dita "especializada", tentei, ao lado de alguns amigos, comprar ingressos para assistir ao espetáculo num determinado sábado, mas estava tudo esgotado e só conseguimos comprar para o sábado seguinte. Mesmo assim, nossos lugares ficavam na décima quarta fileira. Para quem não sabe, Histeria é uma comédia escrita pelo britânico Terry Johnson, em 1993, que aborda um relacionamento hipotético entre Sigmund Freud, o pai da psicanálise, e o pintor surrealista Salvador Dali. Sabemos que os dois homens realmente se encontraram no ano de 1938, pouco antes da morte de Freud, quando o pintor foi visitá-lo em Londres, cidade para a qual o médico se refugiara fugindo à perseguição nazista aos judeus. Porém, não sabemos o que conversaram. A ideia de associar o pai da psicanálise a um pintor surrealista numa interação imaginária inspirada nesse encontro naturalmente foi interessante, já que Freud descobriu o recurso da interpretação dos sonhos para a cura psíquica e as imagens oníricas estão no cerne da produção surrealista de Dali. Soube que a peça teve boa receptividade em Londres e Paris, sendo que nesta cidade foi dirigida por ninguém menos que John Malkovitch, em 2002. Por esta razão, quando fui ao teatro assistir à adaptação brasileira, esperava um texto brilhante, diálogos inteligentes e tiradas criativas, mas confesso que me decepcionei um bocado. Achei o roteiro fraco, o texto quase não me fez rir e não me impressionou em absoluto. Não conheço o roteiro original e pergunto-me se o erro estava na adaptação de Jô Soares. Só sei que o problema, definitivamente, não estava na produção, que era ótima, e muito menos no elenco, que incluiu atores do naipe de Cássio Scapin, interpretando Salvador Dali, e Pedro Paulo Rangel, no papel de Freud. Esses dois honraram seus personagens como sempre fazem. Porém, em minha opinião, as boas atuações do elenco não foram suficientes para segurar o espetáculo.

Acho desalentador o fato de que deve haver peças muito boas por aí que amargam plateias vazias por não serem vistas pela crítica especializada e, por isso, sequer recebem avaliação nos guias de entretenimento dos jornais e revistas. Outras montagens, por sua vez, nem são tão boas assim – isso quando não são francamente ruins -, porém ostentam nomes globais no elenco e/ou direção, recebem farto patrocínio, são encenadas em bons teatros e divulgadas com estardalhaço, atraindo hordas de espectadores e lotando as salas.

Semana passada, por exemplo, fui ver O Impecável, stand-up de Luiz Fernando Guimarães que acaba de estrear no Teatro Gazeta. Quis assistir à peça porque tinha como referência o excelente humor desse ator que conheço desde os tempos da lendária TV Pirata e da série Os Normais, entre outras produções. O fato é que sempre gostei de Luiz Fernando Guimarães e, apostando nele, fui conferir a montagem em que interpreta diferentes personagens num salão de beleza de Copacabana. Esperei encontrar algo com a qualidade de Cada um com seus pobrema, o hilário stand-up no qual Marcelo Medici encarnou personagens impagáveis, ou da altura do Terça Insana, que fez história com uma divertidíssima Grace Gianoukas interpretando tipos amalucados e inesquecíveis. O que encontrei, no entanto, foi um roteiro ralo, piadas sem graça, uma produção pífia e um Luiz Fernando Guimarães bem diferente daquele que já me fez rir. Achei as caracterizações fracas, não há troca de figurinos – ao contrário dos excelentes stand-ups que mencionei anteriormente - e, por vezes, a dicção do humorista era ininteligível. Ele tem dado entrevistas e divulgado o espetáculo na mídia, mas, em minha opinião, os R$ 90,00 que paguei para assistir não justificam nem de longe o resultado.

Saudades de Barbara Heliodora, a crítica teatral que fazia os encenadores tremerem nas bases, mas que tanta luz jogou sobre nossos palcos. Espero que os jornais paulistas coloquem a mão no bolso e invistam em críticos verdadeiramente especializados para assistir e avaliar mais peças em cartaz, a fim de que o público possa receber melhor orientação em suas escolhas. Se já fazem isso razoavelmente com o cinema, por que não fazerem também com o teatro? Existem dezenas de produções, por aí, à espera de uma avaliação. Enquanto isso não acontece, acho mais prudente esperar o "boca a boca", isto é, a indicação de algum amigo, para selecionar a próxima peça a que vou assistir. Até porque teatro custa caro e meu tempo livre não tem preço.

domingo, 16 de agosto de 2015

'Single Singers Bar'. Um musical que poderia ser, mas não é.

É isso mesmo. De vez em quando, o que parece ser não é. E a gente cai numa roubada quando decide assistir a um espetáculo sem a indicação de amigos ou a leitura prévia da crítica especializada. Foi exatamente o que aconteceu comigo em relação ao musical Single Singers Bar, em cartaz no Teatro Jaraguá, localizado no hotel de mesmo nome no Centro de São Paulo. Trata-se de uma homenagem aos antigos cabarés cuja sinopse anuncia músicas de Cole Porter, Gershwin e Kurt Weill em versões de Claudio Botelho e Carlos Rennó. Os nomes me encheram os olhos e, naturalmente, os ouvidos. E lá fui eu, a desavisada.


Ironicamente, fez sentido um trecho do texto assinado no folheto do espetáculo pela diretora de produção Silmara Deon, que também faz parte do elenco, ao afirmar que "Single Singers Bar é uma peça sem pretensão nenhuma". É o que parece, mesmo. Para começar, a produção é pobre. Sim, porque economia de materiais e/ou baixo orçamento não significam economia de criatividade. Além do mais, vamos combinar: cenários minimalistas pedem elencos superlativos. E, definitivamente, isso não acontece. Muito pelo contrário. A maioria dos cantores é desafinada, não tem voz nem fôlego e tampouco o physique du rôle para interpretar canções do calibre proposto pelo espetáculo. Além de talento e preparo, faltou direção. O fato é que o amadorismo, tanto do elenco quanto da produção, foi realmente constrangedor - senti-me como se estivesse em uma peça montada por colegiais e que nem de longe justificava os R$ 50,00 que paguei pelo ingresso. Tudo bem que não sou nenhuma expert em teatro ou musicais, mas já ouvi, estudei e vi o suficiente para expressar minha opinião sem culpa ou constrangimento. Além do mais, assisti à peça acompanhada de pessoas leigas, porém dotadas de senso estético e bom gosto musical, e a opinião delas não diferiu da minha. Uma pena, porque, nas mãos certas, o tema renderia um belíssimo espetáculo.

Ficha técnica parcial

Direção Geral: Dagoberto Feliz
Produção Executiva: William Gutierre
Direção de Produção: Silmara Deon
Cenário: Flavio Tolezani
Elenco: Lilian Blanc, Silmara Deon, Luciana Carnieli, Katia Naiane, Cacau Merz, Fernando Nitsch, Daniel Morozetti, Helder Mariani, Demian Pinto e Bruno Guida.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Armadilha, no Teatro João Caetano. Uma trama de suspense que merecia mais apuro.

Em algumas resenhas, a peça Armadilha, atualmente em cartaz no Teatro João Caetano e encenada pela primeira vez no Brasil, é descrita como um "suspense de sucesso apresentado na Broadway". O texto, premiado internacionalmente, é de autoria do norte-americano Ira Levin (1929-2007), considerado um grande dramaturgo do gênero suspense. É dele, por exemplo, o romance 'A Semente do Diabo', que deu origem a um filme clássico de terror do final dos anos 60, 'O Bebê de Rosemary', dirigido por Roman Polanski. E agora, além de inédita no Brasil, Armadilha é também a peça de estreia de um novo grupo teatral, a Cia. Goya de Teatro.

O enredo é interessante. Um dramaturgo de meia-idade e nenhum escrúpulo atravessa uma fase de bloqueio criativo e dispõe-se a qualquer coisa para recobrar o prestígio, o dinheiro e o sucesso perdidos – até cometer um crime, se for preciso. Com quatro personagens em cena, a trama tem boas surpresas e reviravoltas, o que supostamente garantiria o envolvimento do público. Porém, faltou algo. Não impactou.

O elenco da peça - Foto: Divulgação

A iluminação é lúgubre e o cenário, bem como os figurinos, são predominantemente escuros, com muito negro - talvez um recurso proposital para transmitir visualmente a atmosfera de "armadilha" que define o enredo. Até aí, tudo bem. No entanto, o fato de termos uma produção assumidamente minimalista e sombria não seria justificativa para um descuido dos detalhes cênicos. Muito pelo contrário, é justamente na simplicidade que a atenção deve ser redobrada para não empobrecer o resultado. Porque simplicidade é uma coisa e simplismo é outra. O fato é que, aqui, especialmente, a cenografia deveria ser um elemento destinado a agregar mais intensidade dramática à trama de suspense e cuidadosamente pensado para ajudar a concentrar o interesse do público. No entanto, infelizmente, não foi o que constatei.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação
Essa deficiência, pelo menos para mim, tornou-se mais evidenciada pela fragilidade de um texto que, não sei se por um problema de tradução ou de interpretação, soou também simplório e repetitivo. Faltou brilho. Um sentimento surpreendente, já que, como mencionei anteriormente, a qualidade do texto foi reconhecida com prêmios conferidos por entidades respeitadas no exterior. Não sou especialista em teatro, veja bem, estou apenas sendo honesta ao relatar minha experiência como mera espectadora. Este é o objetivo deste blog. Ocorre que assisti à peça com amigos e, coincidência ou não, todos emitiram as mesmas opiniões à mesa do jantar depois do teatro.

Se você quiser conferir se a sua opinião também coincide com a nossa, anote: ARMADILHA está em cartaz no Teatro João Caetano – R. Borges Lagoa, 650 - Vila Clementino. Tels.: (11) 5573-3774 e 5549-1744. Há apresentações às sextas e sábados às 21h e domingos às 19h. Obs.: não haverá espetáculo nos dias 6, 7 e 8 de março. Duração: 75 minutos. Ingresso: R$ 10,00. Até 29/3.

Ficha técnica parcial

Texto: Ira Levin
Tradução: Jorge Minicelli
Direção: Susanne Walker

Elenco: André Magalhães, Jorge Minicelli, Lu Grillo e Marília Persoli.

segunda-feira, 2 de março de 2015

O Homem de La Mancha. Produção primorosa para os fãs de musicais.

Confesso que a temática do musical O Homem de La Mancha, em cartaz no Teatro do Sesi, não me atraía. Mesmo assim, fui assistir ao espetáculo a convite de uma pessoa querida que conseguiu os ingressos, bastante concorridos, com antecedência. Além do mais, o fato de ser encenada no Teatro do Sesi já é, por si só, um aval de qualidade para qualquer peça. Para falar a verdade, não me lembro de ter assistido, lá, a qualquer apresentação que pudesse ter sido classificada como "ruim". No entanto, é natural que, por uma questão de gosto pessoal, nem tudo o que vi por lá me apaixonou – como é o caso deste musical e de outro, 'A Madrinha Embriagada', igualmente dirigido por Miguel Falabella.

Contudo, a soma dos pontos positivos, isto é: a garantia de qualidade, a boa companhia e a entrada franca venceram meu desinteresse pelo tema e pelo gênero "musical" em geral. E realmente, a produção de O Homem de La Mancha é de primeiríssima. O elenco também é muito bom. Já as músicas, bem... juntaram-se a meu desinteresse pela temática e não me empolgaram. Porém, como afirmei anteriormente, trata-se de uma questão de gosto. Pode ser que você assista e tenha opinião diferente!

Foto: www.abroadwayeaqui.com.br

Foto: www.sproad.com.br

A história se passa na década de 30 e mostra um paciente sendo internado em um hospital psiquiátrico. O homem se apresenta como Miguel de Cervantes e está acompanhado de outro que seria seu fiel criado, Sancho. Destituído de seus pertences pelos outros loucos do hospital, Cervantes solicita apenas que lhe devolvam o manuscrito de uma peça de teatro de sua autoria. Para lhe dar uma oportunidade de ter seu pedido atendido, o líder dos loucos, denominado "Governador", realiza um julgamento no qual Cervantes, o réu, organiza sua defesa convidando os demais internos a encenar com ele sua peça de teatro. A "peça dentro da peça" nada mais é do que a história de D. Quixote de La Mancha, o Cavaleiro Errante que luta contra os males da humanidade.

Foto: www.blogdofranciscolimma.blogspot.com

A montagem, notadamente os figurinos do protagonista, foram assumidamente inspirados na obra do artista sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909/11-1989), um homem simples que teve várias profissões, sofreu um surto psicótico em 1938 e, diagnosticado como esquizofrênico-paranoico, foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá - RJ. Bispo do Rosário ficou internado por cerca de cinquenta anos e começou a criar seus trabalhos artísticos apenas no final da década de 60 , produzindo, até sua morte, cerca de mil obras usando objetos do cotidiano que comprava ou trocava e sobras de materiais descartadas pelo próprio hospital. Porém, não se considerava artista. Dizia apenas ter recebido a missão de fazer um "inventário do mundo", para que, quando morresse, pudesse entregá-lo reconstruído a Deus. Foi descoberto em 1980 por Samuel Wainer Filho, que mostrou sua produção em uma reportagem do 'Fantástico', da Rede Globo. Veja algumas imagens de sua obra aqui, expostas na 30ª Bienal de Arte de São Paulo.

O figurino de D. Quixote, claramente inspirado em peças criadas por Arthur Bispo do Rosário.
Foto: www.alvareezcomz.blogspot.com

Quer conferir? O HOMEM DE LA MANCHA está em cartaz no Teatro do Sesi – Av. Paulista, 1313 – Bela Vista – São Paulo. Apresentações de quartas a sextas-feiras às 21h, aos sábados às 17h e às 21h, e domingos às 15h e às 19h. Entrada franca. Até 28/6.

Mas atenção: para adquirir seus ingressos, você precisa se cadastrar e reservar aqui: www.sesisp.org.br/meu-sesi. Para apresentações entre os dias 1º e 15 do mês, as reservas são liberadas no dia 25 do mês anterior, a partir das 8h. Para apresentações entre os dias 16 e 31 do mês, as reservas são liberadas no dia 10 do mesmo mês, a partir das 8h. Ingressos remanescentes são distribuídos nos dias das apresentações, a partir do horário de abertura da bilheteria (de quarta a sábado, das 13h às 21h, e domingos, das 11h às 19h30).

Ficha técnica parcial

Elenco: Cleto Baccic, Sara Sarres, Guilherme Sant'Anna, Jorge Maya e outros.
Direção e versão: Miguel Falabella
Texto: Dale Wasserman
Músicas: Mitch Leigh
Direção Cênica: Floriano Nogueira
Direção Musical: Carlos Bauzys
Coreografia: Kátia Barros
Cenografia: Matthew Kinley
Designer de Som: Gabriel D'Angelo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

'Chá das 5'. Uma ótima ideia que se perdeu nas palavras.

Quando li a sinopse de Chá das Cinco, em cartaz no Teatro União Cultural, achei que a peça prometia boas risadas. Afinal, tratava-se de uma comédia com elenco totalmente masculino em que uma matriarca rabugenta se reuniria com as filhas para o tal chá das cinco e, daquela vez, a filha preferida, ausente há anos, avisara que se juntaria ao grupo. No mínimo, haveria muito humor com a "lavação" de roupa suja. 

Nove homens compõem o ótimo elenco, a começar pelo excelente Eduardo Martini, que criou uma caracterização muito bem estruturada para a matriarca que vive na cadeira de rodas, Dona Campainha. As rabugices e trejeitos da velha, cheia de cacoetes, são realmente o que há de melhor na peça.

Blota Filho e Eduardo Martini, ótimo como a matriarca velha e rabugenta.



As filhas, todas com nomes de flores, também ganham vida com bons atores. Malva Rosa, interpretada por Hugo Pichi, é uma mulher amarga e infeliz que mora e cuida da mãe. Ailton Guedes interpreta a irmã esotérica e Will Anderson a irmã gordinha e casada que sofreu bullying a vida inteira por causa do peso. A filha ausente que mora no exterior, interpretada por Alessandro Ramos, é chique e subiu na vida por ter se casado com um homem rico. Tem uma filha adolescente magrinha, entojada e preconceituosa. Há também a empregada, papel de Tiago Leal, e Blota Filho dá vida a uma senhora rica e falida que aparece no final da trama para envenenar ainda mais a relação das mulheres, já repleta de ódios, conflitos e traições.

Alessandro Ramos, que interpreta a filha preferida e ausente, e Eduardo Martini.

O figurino é kitsch, com perucas e maquiagens exageradas, lembrando um pouco a estética de Pedro Almodóvar – o que seria muito bom, se fosse bem explorado. A peça teria, enfim, todos os elementos para ser brilhante. A ideia de reunir irmãs com vários "esqueletos no armário" é ótima, ainda mais com um elenco todo composto por homens – e bons atores. O que faltou foi roteiro, isto é, trabalhar melhor o texto e, talvez, também um pouco de direção. Os diálogos foram mal explorados - uma trama tão interessante merecia diálogos mais elaborados e inteligentes, com tiradas mais engraçadas e profundas. Deu para sentir também alguns buracos no ritmo, uma certa falta de timing.

O que posso dizer, ao final de tudo, é que a peça valeu como diversão ligeira, e o que garantiu as risadas foi a ótima atuação de Eduardo Martini, que também assina a direção.

Quer conferir? CHÁ DAS 5 está em cartaz somente aos domingos, às 19h, no Teatro União Cultural - R. Mário Amaral, 209 – Paraíso. Tel.: 2148-2904. Os ingressos são vendidos somente na bilheteria, custam R$ 50, mas clientes da Porto Seguro têm 60% de desconto. Aceita os cartões Visa e MasterCard. Estacionamento a R$ 20, na R. Teixeira da Silva, 540. Até 29/3.

Ficha técnica parcial

Elenco:
Eduardo Martini (Dona Campainha, a matriarca)
Hugo Picchi (Malva Rosa, a filha que mora com a velha)
Alessandro Ramos (Magnólia, a filha preferida ausente há anos)
Ailton Guedes (Margarida, a filha esotérica)
Will Anderson (Madressilva, a filha gordinha)
Blota Filho (Dona Clematite, a vilã amiga das moças)
Nicolas Manfredini
Julio Castro
Samuel de Assis

Direção: Eduardo Martini

Texto: Regiana Antonini

'Caros Ouvintes', no Teatro das Artes: nostalgia para ver e ouvir.

Houve uma época em que famílias inteiras reuniam-se em torno de um rádio para ouvir uma... radionovela! Não, isso não é do meu tempo (rs), mas era uma forma de entretenimento que fazia sucesso no Brasil dos anos 30 até meados da década de 60, antes da invasão da televisão, que ainda era artigo de luxo na década de 50.

No início, a radionovela nada mais era do que um teatro "cego", isto é, um texto teatral adaptado para o veículo rádio. Os atores simplesmente liam esse texto sem interpretá-lo - depois é que surgiram as interpretações, sempre ao vivo. Então mudavam a entonação e empostação da voz de acordo com a emoção a ser transmitida, sonoplastas entravam em ação com ruídos para marcar as cenas e uma música orquestral valorizava o momento. Dramas lacrimosos, histórias sobrenaturais e grandes romances eram os gêneros que capturavam os ouvidos e hipnotizavam multidões ao pé do rádio. E entre um bloco e outro, entrava o anunciante.

 Nesta foto, está o ator Petrônio Gontijo no papel do produtor Vicente (último à direita), que depois foi substituído por Marcos Damigo, ator da versão à qual assisti - Foto: Priscila Prade - Folha Ilustrada.

A comédia Caros Ouvintes, atualmente em cartaz no Teatro das Artes, Shopping Eldorado, retrata justamente o último suspiro das radionovelas, em meados dos anos 60 – mais precisamente, durante o Golpe Militar de 64. Enquanto a televisão começava a ganhar adeptos, o som começava a perder a guerra contra a imagem, pelo menos no âmbito das novelas. Foi assim que o elenco de radioatores corria sério risco de ficar desempregado, o que realmente aconteceu, ao contrário da equipe de roteiristas e sonoplastas, que puderam ser aproveitados na telinha. Os atores que não fossem fotogênicos e não possuíssem uma bela "estampa", por assim dizer, não vingariam na televisão. Ocorre que o sucesso dessas radionovelas, naturalmente, devia-se à fantasia das românticas ouvintes que, na ausência de imagens, podiam imaginar o que bem entendessem. Não raro, os galãs das radionovelas eram interpretados por atores gordos e carecas e as mocinhas já eram senhoras, exatamente como ocorre na peça com a personagem Ermelinda Penteado (Agnes Juliani), uma radioatriz que interpreta dois papéis, a mãe e a filha criança da mocinha.

Da esquerda para a direita: Pércles Gonçalves, um ex-galã (Eduardo Semerjian), Ermelinda Penteado, radioatriz (Agnes Zuliani), Petrônio Gontijo e Natália Rodrigues (Conceição, Neves a mocinha)

A peça mostra as agruras e os esforços heroicos do elenco para gravar o último capítulo da radionovela 'Espelhos da Paixão' e se despedir do público em um palco armado do lado de fora da rádio. Tudo isso em meio ao desalento e à dor da despedida e do desemprego, tendo como pano de fundo a perturbação política do Golpe Militar. A única atriz do elenco que continuaria na carreira seria a bela mocinha Conceição Neves, que havia sido convidada por uma emissora a estrelar uma novela televisiva, agora com o nome artístico de Suzana Pascoal.

Com forte tom nostálgico, a peça não empolgou, mas valeu como registro de uma época que não existe mais ao nos transmitir uma boa ideia de como funcionavam os bastidores das radionovelas, gravadas ao vivo e ensaiadas exaustivamente. Contudo, saí do teatro com a sensação de que um tema tão interessante poderia ter sido melhor explorado com um texto e diálogos à altura.

CAROS OUVINTES está no Teatro das Artes (Shopping Eldorado), Av. Rebouças, 3970 – 3º piso – Pinheiros. Tel.: 3034-0075. Horários: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 20h. Ingresso: R$ 50 (dom.), R$ 60 (sex.) e R$ 70 (sáb.). Clientes da Porto Seguro pagam meia. Até 15/3.

Ficha técnica parcial

Elenco:
Marcos Damigo (Vicente, o produtor da radionovela)
Alex Gruli (Eurico, o sonoplasta)
Natállia Rodrigues (Conceição Neves, a mocinha)
Rodrigo Lopez (Wilson, o locutor)
Eduardo Semerjian (Péricles Gonçalves, um ex-galã)
Alexandre Slaviero (Vespúcio, o publicitário que representa o patrocinador)
Amanda Acosta (Leonor Praxedes, uma cantora decadente)
Agnes Zuliani (Ermelinda Penteado, atriz de radionovela).

Texto e Direção: Otávio Martins

domingo, 7 de setembro de 2014

'Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos'. Um tributo à altura do mito.

Meus pais sempre gostaram do Chico Buarque. Em determinada época, quando os discos ainda eram de vinil, eles ouviam muito um chamado 'Meus Caros Amigos', que continha belas músicas do Chico, dentre as quais a sensualíssima 'O Meu Amor', imortalizada na voz da Elba Ramalho. Ao contrário de meus pais, infelizmente não tive como assistir a musicais do Chico. Portanto, foi com surpresa que descobri, ao assistir ao espetáculo 'Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos', no Teatro FAAP, que muitas das músicas que eu ouvia e gostava quando criança haviam feito parte do repertório de musicais que marcaram época. Outras canções ficaram famosas não só por sua melodia e/ou letra, mas por terem sido gravadas por grandes intérpretes. É o caso da já citada 'O Meu Amor', com a Elba, da belíssima 'Sob Medida', que ficou conhecida na bela voz rouca da Fafá de Belém, da fofa 'João e Maria', que na realidade foi composta pelo Sivuca (Chico "só" escreveu a letra) e foi interpretada por Nara Leão, e de 'Bastidores', que ganhou várias doses extras de dramaticidade e purpurina na interpretação impagável de Cauby Peixoto.

O elenco do espetáculo.

Sob o comando da dupla mais quente dos musicais encenados em palcos tupiniquins, Charles Möeller e Claudio Botelho, o espetáculo na realidade não tem noventa minutos, mas cento e trinta e cinco – isto é, duas horas e quinze minutos - muito bem aproveitados. Concebido como uma homenagem ao Chico, que completou 70 anos recentemente, a montagem não é nem uma peça e nem um musical, mas uma espécie de "show dramatizado" no qual oito cantores/atores, inclusive o próprio Botelho, interpretem canções do artista – algumas bem conhecidas e outras nem tanto -, encenando as situações das letras. Botelho integra o elenco como o diretor de uma trupe teatral mambembe, o que fornece o ponto de partida para as interpretações das canções.

Claudio Botelho com o elenco ao fundo.

Além de temas presentes em musicais como 'Roda Viva' (1967), 'Calabar' (1973), 'Gota d'Água (1975), 'Ópera do Malandro' (1978), 'O Grande Circo Místico' (1982) e 'O Corsário do Rei' (1985), o espetáculo também tem músicas que fizeram parte da trilha sonora de filmes como 'Quando o Carnaval Chegar' (1972), 'Dona Flor e Seus Dois Maridos' (1976), 'Bye Bye' Brasil (1979) e 'Para Viver um Grande Amor' (1983).

Fiquei impressionada com a qualidade dos intérpretes. Todos eles, sem exceção, são excelentes. Têm belas vozes, são afinadíssimos e alguns inclusive apresentam uma tessitura vocal mais ampla - certamente já integraram o elenco de musicais que vêm fazendo sucesso por aqui, boa parte dos quais encenada por Möeller e Botelho.

Esta montagem ficou em cartaz no Teatro FAAP por apenas um mês, infelizmente, e hoje foi o último dia de apresentação. No entanto, quando fui assistir, no sábado passado, ao se despedir da plateia no final do show, Claudio Botelho não descartou a possibilidade de uma nova temporada. Não sei se no próprio Teatro FAAP ou em outro lugar, mas, de qualquer forma, é bom ficar de olho! Vamos torcer para que esse belo espetáculo retorne aos palcos de Sampa!

Elenco: Claudio Botelho, Soraya Ravenle, Malu Rodrigues, Davi Guilhermme, Estrela Blanco, Felipe Tavolaro, Lilian Valeska e Renata Celidonio.

Músicos: Thiago Trajano – violão, Luciano Correa – cello, Priscilla Azevedo – piano e acordeão, Marcio Romano – percussão.

Orquestração e arranjos: Thiago Trajano 

Arranjos vocais: Jules Vandystadt

quinta-feira, 17 de julho de 2014

'Vidas Privadas', no Teatro Jaraguá. Acima de tudo, uma produção que faz bem aos olhos.

Se for para morar em São Paulo, que pelo menos a gente possa aproveitar o que a cidade tem de bom, que é a gastronomia e a vida cultural, incluindo uma farta oferta de peças de teatro. Outro dia fui assistir a 'Vidas Privadas', comédia de autoria do britânico Noël Coward (1899-1973) que há algum tempo estava na minha mira e está em cartaz no Teatro Jaraguá, na Bela Vista.

Autor de mais de 40 peças de teatro, o dramaturgo Noël Coward também foi compositor, ator e diretor e é conhecido pelo humor elegante em montagens que celebram o savoir vivre em atmosferas de refinamento e sofisticação. E aqui não é diferente. Dirigida por José Possi Neto, 'Vidas Privadas' é ambientada nos anos 30 e conta a história de um casal divorciado há cinco anos que, ao sair em lua de mel, cada um com seu novo par, acaba hospedado em quartos contíguos do mesmo hotel. Então os "ex" se reencontram, se "reapaixonam", decidem fugir juntos para Paris e a confusão está formada com uma sequência de situações um tanto nonsense.

O casal divorciado se descobre vizinho de quarto em plena lua de mel com outras pessoas.

O casal fujão, Elyot e Amanda, vive literalmente aos tapas e beijos e é absolutamente amoral. Elyot é um tipo sofisticado, cínico, irônico. Amanda é explosiva, autoritária e totalmente inconsequente. O contraponto moral da história está nos cônjuges abandonados: Sybil, bem mais jovem que o marido Elyot, tem apenas 23 anos e é mais inocente. E Victor, apaixonado e abandonado por Amanda, é o certinho da história, sensato e correto. De forma geral, os diálogos dessa turma não arrancam gargalhadas, mas risos complacentes.

Os personagens 'Amanda', 'Victor', 'Sybil' e 'Elyot' no sofisticado cenário art déco do espetáculo.

A produção, fiel aos anos 30, é extremamente bem cuidada. Os cenários têm o estilo art déco, os figurinos e a caracterização dos atores são luxuosos e tudo contribui para transmitir a atmosfera de glamour originalmente concebida por Coward. É uma peça que, antes de mais nada, faz bem aos olhos e, só por isso, vale a pena conferir. Depois ainda dá para esticar em algum bar ou restaurante da animadíssima Rua Avanhandava, tão pertinho que dá para deixar o carro no estacionamento do Hotel Jaraguá e ir a pé. Fica a dica!

‘VIDAS PRIVADAS’ será encenada no Teatro Jaraguá até 3 de agosto, sextas-feiras às 21h30, sábados às 21h e domingos às 19h, com ingressos que vão de R$ 50,00 (inteira, às sextas e domingos) a R$ 60,00 (sábados). O teatro fica no Novotel Jaraguá - Rua Martins Fontes, 71 – Bela Vista. Informações: (11) 3255.4380.

Ficha técnica parcial

Texto: Noël Coward
Tradução e adaptação: Marcos Renaux
Direção: José Possi Neto
Elenco: Lavínia Pannunzio (Amanda Prynne), José Roberto Jardim (Elyot Chase), Daniel Alvim (Victor Prynne) e Maria Helena Chira (Sybil Chase)
Figurino: Fábio Namatame
Cenário: Marco Lima

quinta-feira, 12 de junho de 2014

'Terceiro Sinal', no Teatro Folha. Desperdício de elenco à inglesa.

Quando a gente ouve falar em uma peça de teatro que tenha no elenco gente do naipe de Rosi Campos e Cássio Scapin, vai logo pensando que se trata de uma montagem de boa qualidade, pois o senso comum diz que dois atores tão competentes não entrariam numa roubada. Só que, no caso de 'Terceiro Sinal', que estreou dia 2 de maio no Teatro Folha, quem entra na roubada somos nós, o público – infelizmente.

A obra, versão do original inglês 'Noises Off', foi escrita por Michel Frayn e, segundo soube, é um clássico da comédia britânica que se destaca por seu humor fino e irônico. No entanto, nesta versão que estreou em São Paulo, o que vemos é uma grande confusão. Não sei se o problema está na tradução, já que não assisti ao original, ou na adaptação, já que certas sutilezas poderiam se perder na transposição do roteiro para outra nacionalidade. Só sei que vemos um corre-corre danado, um entra-e-sai no palco, e não entendemos nada. Sem falar que o texto em português é fraquíssimo e não tem graça nenhuma. Diante disso, não dá nem para avaliar a atuação dos atores, uma vez que os pobres já estão aprisionados a um texto que não funciona.

Cássio Scapin e Rosi Campos em 'Terceiro Sinal': a dupla merecia coisa melhor.
O enredo mostra uma "peça dentro da peça", isto é: nós, o público, acompanhamos os bastidores de uma companhia teatral que ensaia e encena uma montagem chamada 'Nothing On'. No primeiro ato, portanto, vemos o ensaio de 'Nothing On'. E no segundo, a estreia propriamente dita. Rosi Campos interpreta Dotty Otley, estrela veterana que investiu suas economias na montagem da peça e tem envolvimentos amorosos com outros colegas – entre eles o ator Gary (Scapin). Só que, nessa "peça dentro da peça", texto e elenco são péssimos e o diretor ególatra. O resultado tem tudo para ser um fiasco e, lamentavelmente, na peça de verdade, isto é, aquela à qual assistimos, a impressão não é melhor.

Imagino que, para a obra original inglesa ter sido considerada um sucesso, o texto deve ter sido criado com muita engenhosidade para dar conta do timing, já que ela tem o ritmo frenético das comédias de vaudeville. Na montagem em cartaz no Teatro Folha, no entanto, as situações parecem soltas e uma cena não se concatena à outra. Faltaram os elos e o cuidado que dariam um mínimo de coerência e graça ao todo. E não sou a única a afirmar isso: meus amigos também não gostaram da peça e, ao final do espetáculo, vi a senhora da poltrona ao lado e outras pessoas reclamando. Detalhe: o Guia da Folha, que vem encartado na Folha de S. Paulo às sextas-feiras, atribui uma boa cotação à montagem, o que só pode ser explicado pelo fato de que o espetáculo está em cartaz no Teatro Folha. Contudo, nem Rosi Campos nem Cássio Scapin salvam essa comédia que não faz rir. Uma pena.

Ficha Técnica Parcial

Autor: Michael Frayn
Direção: Zadoque Lopes
Tradução: Mark Ramsden e Zadoque Lopes
Direção de Produção: Daise Amaral
Elenco: Rosi Campos, Cássio Scapin, Alexandre Barros, Daise Amaral, Djalma Lima, Déo Patrício, Larissa Garcia, Almir Marcelino e André Di Paulo.

Informações: www.teatrofolha.com.br

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

'La Mamma'. Diversão ligeira com grandes atores.

Ao escolher uma peça de teatro, é muito comum a gente seguir as indicações da crítica especializada e, ao assistir ao espetáculo, descobrir que ele não é tudo isso. Já o contrário é mais difícil, mas não impossível.

É o que acabo de vivenciar com a comédia 'La Mamma', que sequer foi avaliada pelo Guia da Folha (sempre ele!) e se revelou bem divertida. O que me atraiu de imediato foi o elenco: nela estão a ótima Rosi Campos e o carismático ator global Leonardo Miggiorin. Ao assistir à peça, me surpreendi ainda mais, sobretudo com a ótima atuação de um ator que não conhecia, Carlo Briani, que desempenhou três papéis: um tio, um padre e um tabelião.

Carlo Briani, aqui caracterizado como o 'tio'; Rosi Campos, a 'mamma', e Leonardo Miggiorin, aqui interpretando 'Aldo'.

Miggiorin, caracterizado como 'Antonio', e Briani, agora como padre.

Inspirada no romance 'O Belo Antonio', de Vitaliano Brancati (1907-1954), que ganhou fama após tornar-se um sucesso na telona em 1960 em filme protagonizado por Marcello Mastroianni e dirigido por Mauro Bolognini, a peça também é ambientada nessa década na fictícia cidade de Santa Rita, no interior de São Paulo.

Rosi Campos interpreta uma superlativa 'mamma' ítalo-brasileira, com todos os trejeitos de uma matriarca dramática e um grande problema: descobre que seu belo filho Antonio Magnano (Miggiorin) é impotente, e a trama desenvolve-se sobre suas tentativas desesperadas de esconder a "vergonha" dos amigos e vizinhos. É assim que a desesperada 'mamma' arquiteta um plano mirabolante que envolve Aldo, o irmão gêmeo dentuço, desleixado e preguiçoso de Antonio, também interpretado com versatilidade por Leonardo Miggiorin.

Rosi Capos e Leonardo Miggiorin no papel dos irmãos-gêmeos Antonio e Aldo, um o oposto do outro.

O excelente elenco: Carlo Briani, Rosi Campos, Leonardo Miggiorin e Débora Gomez, que também interpreta dois papéis:
a empregada da casa e Barbara, esposa de Antonio.

O roteiro é ótimo, ágil e prende a atenção em cada um dos 100 minutos da peça. O texto também é muito bem costurado e tem algumas tiradas bem engraçadas, sobretudo aquelas que saem da boca do tio dos meninos (Carlo Briani). Só achei que poderia explorar melhor a língua italiana e utilizar mais palavras divertidas daquele idioma. Não espere mensagens dramáticas, lições de moral ou os ensinamentos filosóficos do grande "teatrão". 'La Mamma' é uma peça criada unicamente para divertir e, como bom teatro que é, cumpre perfeitamente a função.

Ficha técnica

Texto: André Roussin
Direção: Carlos Artur Thiré
Elenco: Rosi Campos, Leonardo Miggiorin, Carlo Briani, Débora Gomez

'LA MAMMA' estreou em agosto de 2013 e deveria ter saído de cartaz em dezembro, mas, felizmente, teve sua temporada prorrogada até 16 de março. Se você está a fim de dar umas boas risadas, vale a pena assistir! 

A peça está em cartaz no Teatro Nair Bello, no Shopping Frei Caneca – Rua Frei Caneca, 569 – Consolação. Tel.: 3472-2414. A inteira sai por R$ 60. Horários: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 19h. Confira!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

'Doente'. Mais um Molière da Companhia d'Alma onde brilha o ótimo Guilherme Sant'Anna.

A diretora Sandra Corveloni
Quando fiquei sabendo que a Companhia d’Alma encenaria em São Paulo a peça 'Doente', baseada em Molière e com direção de Sandra Corveloni, eu não iria perder por nada. Isto porque, no ano passado, tive uma experiência impagável com o espetáculo 'O Ilustre Molière', encenado pela mesma trupe, com a mesma direção e no mesmo Teatro Aliança Francesa, e não me canso de repetir que poucas peças de teatro me fizeram rir tanto como aquela!

E lá fui eu para a pré-estreia de 'Doente', que já havia estado em cartaz no circuito do SESI e reestreou para uma curta temporada até 29/11. Baseada na clássica comédia satírica 'O Doente Imaginário', a peça conta a história de Argan, um velho hipocondríaco que se julga permanentemente enfermo, tem pesadelos constantes com doenças e, por causa de sua fragilidade, torna-se presa fácil para aproveitadores de todo tipo. A começar pela jovem mulher que o engana de olho em sua fortuna, passando por médicos espertalhões e outros golpistas.

O hiponcondríaco 'Argan', interpretado por Paulo Marcos,
em um de seus pesadelos com doenças.

Quem mantém a lucidez na trama é a filha de Argan, uma jovem que se interessa por ciência, e Toinette, a empregada que se desdobra nos cuidados com o patrão. A filha vive questionando se o pai está realmente enfermo, além de duvidar dos métodos e intenções de todos que dele se aproximam para "curá-lo". E a empregada, por sua vez, é uma negra espalhafatosa em mais um ótimo papel cômico do ator Guilherme Sant'Anna, que ganhou, merecidamente, o Prêmio Shell de melhor ator por sua atuação em 'O Ilustre Molière'. O excelente Guilherme, aliás, é a alma do espetáculo com sua destrambelhada 'Toinette'.

Argan e a empregada 'Toinette', interpretada por Guilherme Sant'Anna.

Tudo bem que em 'Doente' não disparei tantas gargalhadas quanto em 'O Ilustre Molière', mesmo porque, em minha opinião, será difícil aparecer tão cedo outra peça tão divertida quanto aquela. Contudo, 'Doente' é um espetáculo que recomendo a todos que gostam de teatro - bem dirigido, bem encenado e bem produzido, é uma opção garantida de diversão de qualidade. Mas é bom se apressar, porque a peça estará em cartaz somente até 29 de novembro!

Ficha técnica parcial

Texto: Molière
Direção: Sandra Corveloni
Elenco: Guilherme Sant'Anna, Paulo Marcos, Angela Fernandes, Caio Salay, Lara Hassum, Luiz Luccas e Mateus Monteiro. 
Cenografia: Valdy Lopes

‘DOENTE’ está sendo encenada às quintas e sextas-feiras, às 21h, no Teatro Aliança Francesa – Rua General Jardim, 182 – República. Informações: 3017-5699. www.aliancafrancesa.com.br. Ingressos: R$ 40,00. Até 29/11.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Surpresa! Andrea Beltrão põe no chinelo várias cantoras nacionais.

A ideia até que era boa. Contar os percalços fictícios de uma jovem aspirante a atriz desprovida de qualquer talento na Portugal do século XVI. Este era o mote da comédia musical 'Jacinta', protagonizada por Andrea Beltrão, que esteve em cartaz no teatro do Sesc Vila Mariana até 22 de setembro. Ocorre que, para mim, e também para quem estava comigo, a peça deixou muito a desejar. De autoria de Newton Moreno, Aderbal Freire-Filho e Branco Mello, o espetáculo se perdeu num roteiro confuso, inúmeras situações absolutamente sem-graça e diálogos com sotaque lusitano que, muitas vezes, eram ininteligíveis. Sim, a gente com frequência não conseguia entender o que os atores diziam ou cantavam. Algumas cenas, sobretudo na segunda metade do espetáculo, podiam figurar tranquilamente no patético 'Zorra Total', dada a sem-gracice dos diálogos. Por essas e outras, a peça tornou-se arrastada e cansativa. Uma pena.

Andrea Beltrão em cena no musical 'Jacinta'.
Foto: www.entretenimento.uol.com.br

Mas não estou aqui para falar do musical, que já nem está mais em cartaz. Quero é fazer uma menção especial a Andrea Beltrão, que foi a boa surpresa da noite. Descobri ali que, além de excelente atriz, ela canta divinamente. Dona de uma voz belíssima, uma respeitável tessitura vocal e, ainda por cima, afinadíssima, Andrea põe no chinelo a maioria das... ahã... "cantoras" que tenho visto surgir por aí ultimamente, com "atitude" de sobra e voz e talento de menos.

Andrea no musical - foto: www.entretenimento.band.uol.com.br

Andrea em outra cena do musical - foto: www.oglobo.globo.com
Espero que a atriz tenha novas oportunidades para exibir sua bela voz e até arrisco dizer que, se ela "se metesse" a realizar um show com o melhor da MPB, com um repertório que unisse a bossa-nova a clássicos dos bons tempos de Chico Buarque, por exemplo, faria o maior sucesso - será que não? Pense a respeito, Andrea! E continue estudando canto.

No mais a mais, o que posso dizer é que a serelepe e talentosa atriz continua impagável como a Suely no seriado 'Tapas e Beijos', da Rede Globo, ali sim um programa com roteiro, texto e piadas primorosos. Grande Andrea, grande equipe!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

'A Madrinha Embriagada'. Um musical sofisticado com a marca de Miguel Falabella.

Normalmente, as peças apresentadas no Teatro do Sesi (no prédio da Fiesp) costumam ser boas, com elencos de peso, belos cenários, produções ricas e autores interessantes. Ainda por cima, a entrada é sempre franca, o que deve ser possível graças ao financiamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo - sim, a Fiesp. Com 'A Madrinha Embriagada', comédia musical atualmente em cartaz por lá, não é diferente. OK, quem costuma ler meus posts sobre teatro sabe que não sou chegada a musicais. Mas justamente por conhecer a qualidade dos espetáculos apresentados no Teatro do Sesi, fui conferir.

Para começar, a direção é de Miguel Falabella, que também criou, a convite de Cleto Baccic, diretor-geral de produção do espetáculo, a versão em português deste musical de língua inglesa cujo título original é 'The Drowsy Chaperone'. Por si só, o nome de Falabella já representaria, pelo menos para mim, um aval de qualidade. Eu não estava errada. Na montagem brasileira, a narrativa foi deslocada dos Estados Unidos para o Brasil, mais precisamente para a São Paulo dos anos 20, marcada por toda a efervescência cultural que veio no rastro da Semana de Arte Moderna de 22.

Foto: Caio Galucci (programa oficial do espetáculo)

A belíssima cenografia de Renato Theobaldo e Beto Rolnik mostra a decoração rebuscada das mansões burguesas da época e também apresenta soluções criativas para a mudança de ambientes. Não por acaso, a todo momento vemos referências a Tarsila do Amaral, um dos ícones da Semana de Arte Moderna. Os músicos, que no dia de minha visita estavam sob regência da maestrina Laura Visconti, ficam em um mezanino na lateral do palco, separados da cena e da plateia por uma espécie de voil transparente.

Os figurinos são um espetáculo para os olhos. Luxuosos e primorosos, foram fruto de uma pesquisa de Fause Haten sobre os modelos usados por aqui pelos ricos e elegantes da década de 20 e que chegaram ao Brasil com certo atraso em relação à Europa. Basta dizer que a peça usa 180 peças de figurino, 40 perucas e 65 pares de sapatos (!).

Foto: www.estadao.com.br

O espetáculo é uma metalinguagem, com uma história dentro da história. Em uma delas, um simpático narrador (Ivan Parente) fica o tempo todo relatando o enredo de um antigo musical, da poltrona de casa, no canto esquerdo do palco. O rapaz, cheio de nostalgia por uma época que não viveu, vai ouvindo um velho disco de vinil e, conforme seu relato, as cenas do musical são mostradas no restante do palco, como se ele estivesse a imaginar tudo aquilo. E assim temos a outra história.

Ivan Parente, o homem da poltrona com o antigo disco de vinil.
Foto: Caio Gallucci (catálogo oficial do espetáculo)

O musical que encantou o rapaz fala sobre uma famosa atriz, Jane Valadão (Sara Sarres), que decide abandonar os palcos para se casar com o rico, bonitão e bom moço Roberto Marcos (Frederico Reuter). O dono do teatro onde Jane se apresenta, Sr. Iglesias (Saulo Vasconcelos), tenta a todo custo impedir o casamento da atriz para que ela não abandone a carreira e, assim, ele não perca sua mina de ouro. A madrinha da noiva (Paula Capovilla) que dá nome à peça está sempre de pileque e acaba, sem querer, caindo nos braços de um amante latino argentino, Aldolpho, um tipo caricato e engraçado interpretado pelo próprio Cleto Baccic.

Aldolpho, o amante latino interpretado por Cleto Baccic
e a madrinha (Stella Miranda). 
Foto: Caio Gallucci
(programa oficial do espetáculo)
O curioso é que o narrador da poltrona nos conta que, em 1928, o musical ao qual assistimos teria sido criado por um homem chamado "João Canarinho" e supostamente estreado no luxuoso Teatro São Pedro, em São Paulo, por atores brasileiros aos quais são atribuídos nomes, vidas e destinos também fictícios. Algumas das biografias criadas para esses atores são fantasiosas e mirabolantes, bem ao estilo da mística em torno da vida real de tantos astros e estrelas. O personagem Aldolpho, por exemplo, teria sido interpretado, em 1928, por um suposto "Rolando Bartelli", descrito como um típico latin lover argentino e canastrão que arrancava suspiros das moçoilas.

Temos, portanto, três planos temporais diferentes que se entrelaçam na peça: primeiro, o tempo do narrador da poltrona. Segundo, o tempo dos personagens do musical que ele narra e ao qual assistimos. E terceiro, o tempo dos atores fictícios que teriam encenado o musical em 1928.

Criado unicamente para divertir e entreter com toda aquela parafernália visual, o espetáculo tem uma trilha festiva e uma narrativa pueril encoberta pelo talento de um elenco tarimbado e também pela engenhosidade do roteiro, da direção e da produção, que compensam qualquer lacuna que porventura pudesse existir. Consta que, durante a produção da peça, 2.600 currículos foram avaliados e cerca de 500 atores participaram das audições. Um dos momentos altos é um belíssimo número de sapateado pela dupla Frederico Reuter e Fernando Rocha, que deu um verdadeiro show. Só esse número já valeu o espetáculo!

Ficha técnica parcial:

Direção e Versão: Miguel Falabella
Direção Musical: Carlos Bauzys
Coreografia: Kátia Barros
Figurinos: Fause Haten
Cenografia: Beto Rolnik e Renato Theobaldo
Texto: Bob Martin e Don Mc Kellar
Músicas e letras: Lisa Lambert e Greg Morrison
Elenco: Ivan Parente, Sara Sarres, Frederico Reuter, Stella Miranda, Cleto Baccic, Saulo Vasconcelos, Kiara Sasso, Fernando Rocha e outros.

Se você gosta de teatro, vale a pena tentar um ingresso para 'A MADRINHA EMBRIAGADA'. Em cartaz no Centro Cultural Fiesp Ruth Cardoso - Teatro Sesi São Paulo - Av. Paulista, 1.313. Tel.: 3146-7406. Quarta a sexta-feira: 21h / sábado: 16h e 21h / domingo: 19h. Entrada franca. 

Dica: a bilheteria abre às 13h, mas só é possível retirar ingressos para espetáculos do mesmo dia. Cada pessoa tem direito a até dois ingressos. Se preferir, você pode fazer uma reserva online no site do Sesi-SP. Para setembro as reservas online já estão esgotadas, mas para outubro poderão ser feitas a partir de 20/9, às 8h. Bom espetáculo!