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quinta-feira, 17 de março de 2016

Mondrian e o Movimento De Stijl: a festa da modernidade no CCBB.

A exposição Mondrian e o Movimento De Stijl, atualmente no Centro Cultural Banco do Brasil - SP, mostra como o holandês Piet Mondrian (1872-1944) influenciou gerações de pintores, designers e publicitários após se engajar no movimento que é considerado a mais importante contribuição da Holanda para a cultura do século XX. No post anterior falei sobre a fase figurativa do artista, que constituiu a maior parte de sua obra, e agora abordo sua fase mais conhecida, a abstrata, onde se insere sua atuação no movimento De Stijl ('O Estilo').

O CCCB entrou no clima de cima a baixo! - Foto: Simone Catto

Foi no ano de 1912 que Mondrian começou a nomear seus trabalhos como "Composições", um título típico de arte abstrata, porque se sentia menos comprometido com o tema do que com a impressão geral que a obra exerceria no espectador. Naquele ano o artista residia em Paris, onde permaneceria até 1914. No período parisiense assimilou o vocabulário cubista e, pouco a pouco, foi rumando cada vez mais à abstração.

Piet Mondrian - 'Composição em oval com planos de cores 2' (1914) - óleo s/ tela
Foto: Simone Catto

Entre 1914 e 1919, o artista residiu na Holanda e buscou inspiração na imensidão do mar. Foi nesse intervalo, no ano de 1917, que cunhou pela primeira vez o termo neoplasticismo. A essa altura, sua arte havia se tornado abstrata em quase toda a sua totalidade, e as linhas horizontais e verticais, bem como os planos coloridos, tornaram-se mais frequentes em suas composições.

Piet Mondrian - 'Autorretrato' (1918) - óleo s/ tela
Imagem: Gemeentemuseum, Den Hagg, Holanda

O ano de 1917 iria marcar para sempre a carreira de Mondrian. É a data da criação, na Holanda, da revista De Stijl ('O Estilo'), cujo impacto foi tão grande que acabou batizando um movimento artístico. Com periodicidade mensal, a revista foi fundada por Theo van Doesburg (1883-1931), escritor, crítico de arte, poeta e artista que tinha a intenção de reunir o que havia de mais moderno em termos de arte, arquitetura, design, música e literatura.

Theo se associou a outros arquitetos, designers e artistas, entre eles Mondrian, para lutar contra o chamado "individualismo", isto é, coletivizar a arte e integrá-la ao dia a dia das pessoas. O movimento De Stijl tencionava transformar a vida em arte e, para isso, abandonou a descrição realista e adotou a abstração radical, numa tentativa de criar uma linguagem universal. A ideia era abolir a distinção entre a arquitetura e a pintura, entre a publicidade e o design. Os projetos arquitetônicos, por sua vez, se transformariam em esculturas, ou melhor, em objetos no espaço. A destruição seria mais importante que a construção, e a abstração mais importante que a utilidade. E assim, num mundo dinâmico, em movimento perpétuo, a arte dominaria a vida.

A cadeira vermelha e azul do designer Gerrit Rietveld (1888-1964), um ícone do modernismo, é por si só um objeto de arte e tornou-se uma das peças mais emblemáticas do movimento De Stij.

Gerrit Rietveld - Cadeira vermelha azul (1923) - madeira de bétula pintada
Foto: Simone Catto

Segundo os princípios do De Stijl, o artista deveria escolher a forma mais simples e usar apenas linhas retas (horizontais ou verticais) e cores contrastantes para “expressar plasticamente” o espiritual e o puro. Pretendia-se, assim, uma arte que geraria clareza no caos da modernidade.

Vilmos Huszár (1884-1960) - 'Composição' (1923) - aquarela e guache - Foto: Simone Catto

Na arquitetura, os espaços seriam fluidos: uma casa não deveria mais trancar-se ao mundo exterior, e sim abraçá-lo e se integrar a ele.

Theo van Doesburg / Cornelius van Esteering (1897-1988) - maquete de casa particular (1923) - Foto: Simone Catto

O último número da revista foi publicado em 1932 pela esposa de Theo von Doesburg, Nelly, e dedicado a seu marido e fundador da publicação, que havia falecido prematuramente um ano antes, de ataque cardíaco.

Dentro do contexto do De Stijl, Mondrian tinha como objetivo criar uma arte universal e fundamentou suas ideias na teosofia, movimento espiritual que rejeita o materialismo em busca de uma sabedoria interior alcançada pelo desenvolvimento da mente. Entre 1917 e 1918, antes de retornar a Paris em 1919, realizou experiências com pinturas sem linhas, planos retangulares de cores com tamanhos diferentes e também com seu oposto: pinturas nas quais a cor e a composição se reduziam a um mínimo e o que predominava, ao contrário, era a linha. Esses experimentos estavam inseridos na busca de um equilíbrio e uma harmonia que se estendessem a todo o espaço, como um modelo para as relações harmoniosas que ele idealizava na vida das pessoas.

Piet Mondrian - 'Composição com grade 8: composição xadrez com cores escuras' (1919)
Imagem: Gemeentemuseum, Den Hagg,Holanda

Piet Mondrian - 'Composição com grande plano vermelho, amarelo, preto, cinza e azul' (1921)
 óleo s/ tela - Foto: Simone Catto

A partir de 1930, Mondrian já era amplamente conhecido dos grupos vanguardistas e aparecia com frequência nos periódicos sobre arte abstrata. No ano de 1932, começou a multiplicar as linhas, criando maior dinamismo visual. E um ano depois, em 1933, pintou a primeira de suas obras com linhas coloridas: a Composição Lozenge, com quatro linhas amarelas. Essa peça não está presente na exposição, mas você pode vê-la abaixo.

Piet Mondrian - 'Composição Losenge com quatro linhas amarelas' (1933) - óleo s/ tela
Imagem: Gemeentemuseum, Den Hagg,Holanda

O próprio estúdio do artista em Paris era a prova viva de que se podia viver dentro de uma pintura.

Estúdio de Mondrian em Paris, 1933 - Foto: Simone Catto

A partir de 1940, Mondrian passou a residir em Nova York e a festejar os ritmos de jazz e os sons da metrópole, o que conferiu vida nova a seu estilo com obras como Victory Boogie Woogie, que permaneceu inacabada devido a sua morte, aos 72 anos, de pneumonia. Essa obra-prima repleta de cores primárias e vivacidade também não está exposta no CCBB porque, por ser extremamente delicada, dificilmente sai de seu país natal. Porém, é importante mostrá-la aqui!

Piet Mondrian - 'Victory Boogie Woogie' (1944) - óleo, fitas, papel, carvão vegetal e lápis s/ tela
Imagem: Gemeentemuseum, Den Hagg, Holanda

Após conhecer as obras abstratas que fizeram a fama de Mondrian, clique aqui para ver as obras figurativas do mestre, produzidas na primeira fase de sua carreira, também expostas no CCBB!

Foto: Simone Catto

Se você ainda não visitou a exposição MONDRIAN E O MOVIMENTO DE STIJL, não perca! O Centro Cultural Banco do Brasil fica à Rua Álvares Penteado, 112 – Centro, pertinho da estação São Bento do metrô. Tel.: (11) 3113-3651. Abre de quartas a segundas, das 9h às 21h, e você pode agendar sua visita pelo site www.culturabancodobrasil.com.br/portal/sao-paulo. Até 4 de abril.

A fase figurativa de Mondrian na exposição do CCBB.

Mais uma vez, o Centro Cultural Banco do Brasil - SP nos presenteia com uma exposição de alto nível. Depois de Kandinsky, temos agora Mondrian e o Movimento De Stijl, que nos mostra como o artista holandês Piet Mondrian (1872-1944) influenciou gerações de pintores, designers e publicitários após se engajar no movimento De Stijl ('O Estilo'), considerado a mais importante contribuição da Holanda para a cultura do século XX.

Foto: Simone Catto
Dentre as cem obras expostas no CCBB, trinta são de autoria do artista e as demais saíram das pranchas e paletas de outros artistas, designers e arquitetos que exerceram alguma influência sobre ele e/ou aderiram ao movimento De Stijl. A seleção das obras, provenientes do Museu Mondrian em Haia (Gemeentemuseum Den Haag), foi realizada pelo curador Pietr Tjabbes, um holandês que reside há três décadas no Brasil.

Mondrian ficou conhecido no mundo inteiro pelas composições abstratas com linhas pretas preenchidas com retângulos de cores puras, que viraram até estampa de vestido do estilista Yves Saint Laurent, em 1965.

Cocktail Dress (1965), de Yves Saint Laurent
Foto: Victoria & Albert Museum, Londres
Pouca gente sabe, porém, que em seus primeiros anos de produção Mondrian era um excelente pintor figurativo, e a maior parte de suas obras pertence a essa fase, que está muito bem representada na exposição do CCBB e será abordada neste primeiro post. A fase abstrata e sua adesão ao movimento De Stijl são assunto de outra matéria que você pode acessar aqui

O fato é que Mondrian foi um pintor figurativo até o ano de 1908 e criou belíssimas paisagens. Note que elas apresentam uma atmosfera um tanto onírica, porém não se trata de paisagens diáfanas - pelo contrário: Mondrian usa tons meio sombrios e blocos de cores para destacar os elementos do cenário, transmitindo uma sensação de solidez e materialidade. Nos exemplos a seguir uso imagens da Internet porque as pinturas na exposição estão protegidas por uma película de vidro e as fotos que tirei saíram com muito reflexo.



Piet Mondrian - 'Branqueamento de roupa no Gein' (1900-1902) - óleo s/ tela s/ cartão
Imagem: Gemeentemuseum, Den Haag, Holanda.

Piet Mondrian - 'Fazenda com salgueiros ao longo do Gein' (1902-1904) - óleo s/ tela s/ painel
Imagem: Gemeentemuseum, Den Haag, Holanda.

Piet Mondrian - 'Celeiro em Nistelrode' (1904) - óleo s/ tela s/ painel 
Imagem: Gemeentemuseum, Den Haag, Holanda.

Piet Mondrian - 'O Gein: árvores à beira d'água' (1906-1907) 
Imagem: Gemeentemuseum, Den Haag, Holanda.

Piet Mondrian - 'Noite de Verão' (1906-1907) - óleo s/ tela
 
Imagem: Gemeentemuseum, Den Haag, Holanda

A partir de 1908, Mondrian passa a sofrer a influência dos pós-impressionistas, notadamente Van Gogh, Seurat e Cézanne. Até 1910, pintava na maioria das vezes ao ar livre, uma prática típica da escola impressionista. Entre 1908 e 1911, quem "impressionou" o artista foi Picasso com o seu cubismo e, a partir daí, ocorre uma mudança radical na paleta do pintor: as cores começam a explodir na tela e ficam mais chapadas, e as linhas tornam-se alongadas. Mondrian começa então sua busca pela essência da beleza que denominou como "plástica". Mas isso é assunto para o próximo post, que você pode acessar aqui!

Piet Mondrian - 'Casa à Luz do Sol' (1909) - óleo s/ tela - Foto: Simone Catto

Piet Mondrian - 'Campanário em Zeeland' (1911) - óleo s/ tela
Foto: Simone Catto

A exposição MONDRIAN E O MOVIMENTO DE STIJL está no Centro Cultural Banco do Brasil: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro, pertinho da estação São Bento do metrô. Tel.: (11) 3113-3651. Abre de quartas a segundas, das 9h às 21h, e você pode agendar sua visita pelo site www.culturabancodobrasil.com.br/portal/sao-paulo. Até 4 de abril.