quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Oppède-le-Vieux: história congelada em beleza e paz.

Andar, respirar, subir, contemplar, voltar, olhar de novo, suspirar... essa foi minha reação ao visitar Oppède-le-Vieux, uma vila medieval de 1.400 habitantes no flanco norte do Lubéron, na Provence francesa. Empoleirada no topo de um rochedo invadido por vegetação, em meio a um cenário de florestas selvagens, aclives e ruínas, a vilinha tem uma atmosfera mágica com seu silêncio secular e suas estruturas de pedra que sobem pelas escarpas.

Tudo bem que cidades e villages com maior ou menor número de resquícios medievais estão espalhados por praticamente toda a Provence, mas esse me atraiu de maneira particular. Logo ao estacionar o carro, no pé da colina, já deu para perceber que não se tratava de um lugar comum. O único ruído que eu ouvia era o canto dos pássaros. Não havia turistas. Aliás, não havia praticamente ninguém, o que achei maravilhoso. Ao olhar para o rochedo, já visualizei as antigas ruínas de pedras, a igreja do século XII no cume e o que sobrou do castelo feudal, tudo misturado à vegetação. Na foto abaixo, vemos a antiga igreja no alto, à esquerda, e as ruínas do castelo, logo à sua direita.

Foto: Simone Catto

Comecei a subir a pé, seguindo as placas. A esse respeito, vale dizer que, apesar de minúsculo, o vilarejo é bem sinalizado.

Foto: Simone Catto

Em determinado momento, topei com um painel de azulejos coloridos formando um mapa da região. Ao ler a inscrição, descobri que foi criado pelas crianças da escola de Oppède, em junho de 1995, e reproduzido na cerâmica em abril de 1998. Fiquei encantada com a iniciativa. Do jeito que os franceses são nacionalistas, não é de admirar que incutam nas crianças, desde cedo, o senso de civilidade e de pertencimento.

O painel de cerâmica criado com base no desenho das crianças locais - Foto: Selma

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A subida pela colina é irregular, não acontece em linha reta. A cada patamar, um lance de escadas de pedra nos conduz a uma nova clareira. E a cada clareira, eu parava, respirava e contemplava a paisagem, encantada.

Foto: Simone Catto

Como diria uma amiga querida... vamos sentar e conversar? - Foto: Simone Catto

Finalmente, cheguei ao centro do Vieux Village, a Cidade Velha. Estava igualmente deserta, à exceção de um casal de ciclistas aventureiros e de outro que passeava com uma criancinha. Parênteses: a região da Provence tem muitos ciclistas, sejam pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte (e isso inclui gente dos 9 aos 90 anos), sejam esportistas que levam o ciclismo a sério e pedalam por quilômetros. Se por um lado a disposição dos franceses é invejável, por outro é perfeitamente compreensível! Como não ter fôlego em um cenário como esse?  

A praça central de Oppède, pura paz! - Foto: Simone Catto
 
Detalhe do sino da praça - Foto: Selma
 
Neste ângulo da praça, podemos ver um mapa da cidade - Foto: Simone Catto

Ainda a praça... - Foto: Simone Catto

O restaurante da praça ainda estava fechado porque era cedo, mas dali a pouco abriria para receber os poucos turistas, já que o verão ainda não estava no auge.

Foto: Selma

As estruturas intramuros de Oppède foram estabelecidas no início da Idade Média e o traçado atual das ruas remonta àquela época, mas os primeiros registros de ocupação humana no local são bem mais antigos, do período romano.

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

À medida que subia pelos caminhos e pavimentos de paralelepípedos, parecia que eu estava sendo transportada a outra dimensão.

Foto: Selma

Foto: Simone Catto

Em alguns momentos da caminhada, deparei com grutas escavadas nas rochas, as quais abrigavam antigas residências e estabelecimentos comerciais.

 Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Após pertencer a diversos senhores feudais, Oppède tornou-se propriedade papal em 1274, assim que os papas se instalaram em Avignon. A partir dali, transformou-se em um burgo importante que dialogava com outros dois importantes feudos da vizinhança, Apt e Cavaillon. Ostentando orgulhosamente seu castelo e sua igreja no topo da colina e defendida por suas muralhas, a vila teve sua época de maior prosperidade no século XIV, quando contava então com 900 habitantes.

Foto: Simone Catto

Uma característica interessante do lugar é que as primitivas construções medievais às vezes são entremeadas por casas do século XV, já do final da Idade Média, e do século XVI, início da Renascença. Muitas vezes, deparamos com esses diferentes estilos lado a lado, o que torna o cenário ainda mais pitoresco. A foto abaixo, que parece mostrar uma construção do século XVI apoiada sobre uma base de pedras medievais, retrata bem essa integração de gêneros arquitetônicos.

Foto: Selma

Vez ou outra, eu topava com algumas dessas residências renascentistas restauradas e transformadas em charmosas pousadas, restaurantes ou casas de veraneio. Soube, inclusive, que alguns artistas, escritores e outras celebridades, os quais compreensivelmente preferem manter o anonimato, adquiriram propriedades na região com esse fim.

Ao olhar a figurinha esculpida em metal pendurada à entrada da casa, na foto abaixo, pensei se tratar de um restaurante, mas era, na verdade, uma hospedaria. Na França, as pessoas podem alugar para turistas até cinco quartos por habitação particular - são os chamados chambres d'hôtes, ou "quartos para hóspedes". Achei esta uma graça, ainda mais com as lavandinhas floridas ao lado da porta.

Foto: Simone Catto

Um outro aspecto curioso que constatei não apenas em Oppède, mas em outros lugarejos da Provence, são seus resquícios de religiosidade: não raro, algumas residências têm a parte externa ornamentada com santos e crucifixos. No exemplo da foto a seguir, novamente temos uma união "erótico-arquitetônica" entre dois estilos: a construção cor-de-rosa, mais moderna, literalmente se agarrou à outra com estruturas aparentemente medievais, à sua esquerda, e parece que não vai soltar tão cedo. O santo entre ambas, coitado, finge que não vê essa "pouca-vergonha", rs.

Duas construções contrastantes em flagrante ato libidinoso
e o santo que faz vista grossa, rs - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Acredito que em Oppède a presença desses sinais de religiosidade se justifica de maneira especial porque a vila foi propriedade dos papas de Avignon. Por falar nisso, vamos agora para o alto do rochedo entrar na igreja Notre-Dame D'Alidon, uma das poucas edificações antigas que não estão em ruínas. Originalmente construída no século XII, no estilo românico, a igreja foi reformada a partir de 1500, ganhou traços góticos em 1592 e foi restaurada em 1815 e 1869. Atualmente está novamente em reforma, com o patrocínio de doadores particulares. Sim, muitos ricos que moram na França contribuem para a preservação do patrimônio e certamente recebem incentivos para isso. 

A foto do altar da igreja Notre-Dame d'Alidon saiu meio desfocada, mas dá para ter uma ideia da beleza de seu interior restaurado - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A vista lá de cima é fantástica e tive um momento único de "embasbacamento" turístico-existencial.

Foto: Selma

Se eu voltaria a Oppède-le-Vieux? Sim, um milhão de vezes. À la prochaine!

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Muito além das muralhas: o prazer de explorar a velha Avignon.

Uma das portas de Avignon, na muralha em torno da
cidade veilha - Foto: Simone Catto
Quando falamos de Avignon, os "culturetes" provavelmente lembram do famoso festival de teatro realizado anualmente nessa cidade que é uma das mais importantes do sul da França. Os historiadores, por sua vez, devem lembrar que Avignon foi sede da corte papal na maior parte do século XIV, tendo abrigado uma sucessão de pontífices franceses.

No post anterior, falei um pouco sobre a magnitude do Palácio dos Papas e a curiosa Ponte de Avignon, que estão intrinsecamente ligados. Agora chegou a vez de passear por outros aspectos interessantes da cidade, como a Basílica Notre-Dame des Doms e seus magníficos jardins, as muralhas medievais surpreendentemente bem preservadas e as ruas que elas guardam em seu interior, chamado de "intra-muros" pelos habitantes locais.

Com 4,3 km de extensão, as muralhas circundam a cidade velha em um abraço que já dura mais de seis séculos. Sua construção teve início em 1355 sob o pontificado de Inocêncio VI e foi finalizada em 1370 com o papa Urbano V, com o objetivo de repelir os invasores e proteger os habitantes das violentas inundações provocadas pelo rio Ródano – uma função que, aliás, elas mantêm até hoje. Podemos explorar as muralhas a partir da entrada da Ponte de Avignon e subir até o magnífico jardim do Rocher des Doms para descobrir uma linda vista lá do alto. O cenário é deslumbrante, com o rio Ródano à frente, a vegetação e as montanhas da Provence ao fundo.

Vista do rio Ródano a partir do Jardim des Doms: para respirar fundo e sonhar! - Foto: Simone Catto

Exuberante, bem cuidado e com um belo paisagismo, o jardim é um convite a uma caminhada interminável por suas alamedas floridas, sua vegetação luxuriante, cantinhos aconchegantes com bancos para os namorados e detalhes cheios de encanto.

Jardim des Doms: é uma delícia caminhar por ali! - Foto: Simone Catto

E num canto do jardim tinha uma caverna... - Foto: Simone Catto

Naquele início de verão, o colorido das flores estava tão vivo que ofuscava os olhos!

As flores viçosas e bem tratadas denotam o cuidado que a "mairie" (prefeitura) de Avignon tem com a natureza e seu patrimônio - Foto: Simone Catto

O arejado restaurante que dá para o lago é um apelo para uma tarde preguiçosa.

O restaurante do Jardim des Doms - como resistir? - Foto: Simone Catto

Depois do jardim, vamos agora para a Basílica Notre-Dame des Doms, também listada como Patrimônio Mundial da Unesco. Encimada por uma majestosa Virgem Maria de chumbo dourado, a basílica que domina o vale do Ródano a partir do rochedo foi construída no século XII e sofreu alterações arquitetônicas nos séculos XV e XVII.

Vista da praça em frente à Basílica Notre-Dame des Doms - Foto: Simone Catto

Nas duas primeiras fotos a seguir, visualizamos a linda escultura da Virgem dourada no topo da basílica, protegendo a cidade de Avignon e seus habitantes.   

A Virgem Maria dourada que vela pelos habitantes de Avignon - Foto: Simone Catto

A basílica vista de outro ângulo - Foto: Simone Catto

Abaixo, temos uma vista do pátio em frente à igreja, com um detalhe da bela escultura do Cristo. Na primeira foto, dá para ver uma parte do Palácio dos Papas. 

Vista da praça em frente à basílica - Foto: Simone Catto

Detalhe da escultura do Cristo - Foto: Simone Catto
 
Altar da Basílica Notre-Dame des Doms - Foto: Simone Catto

Outra vista do interior da basílica, destacando seu belo órgão.
Foto: Simone Catto

A caminhada pela cidade velha continua por suas ruelas tortuosas, muitas batizadas com nomes referentes às guildas profissionais e associações de trabalhadores que elas abrigavam na Idade Média. É o caso da Rue de la Peyrolerie, uma das mais famosas, que era uma antiga pedreira (peyriera, na língua provençal) e recebeu esse nome devido à presença dos peyrolié, que significa "caldeireiro" em provençal (peyrou = caldeirão).

Rue de la Peyrolerie - Foto: Simone Catto

Encrustada em um rochedo, a rua é uma das mais pitorescas da cidade e das mais evocativas da velha Avignon. Várias escavações no local, no início do século XX, desenterraram vestígios de construções romanas, incluindo fragmentos de uma coluna de mármore e uma cabeça do deus Dionísio, descobertos em 1902. Mais tarde, em 1912, a descoberta de algumas arcadas levantou a hipótese de que a rua pudesse ter abrigado um antigo teatro romano. Talvez isso explique a atual vocação teatral da cidade!

Na foto abaixo, o restaurante fica praticamente espremido em um cantinho da Rue de la Peyrolerie. Repare nas estreitas janelinhas da parede de pedra ao fundo, certamente uma herança medieval.

Rue de la Peyrolerie - Foto: Simone Catto

Na velha Avignon existem muitas outras ruas com traçado medieval como a Rue de la Peyrolerie, as quais vale a pena explorar sem compromisso e sem pressa. Em minhas andanças, descobri uma casinha liliputiana, literalmente "ensanduichada" entre duas outras construções. Ela é tão minúscula que me perguntei se alguém teria tido condições de viver – ou ainda vive – em seu minguado interior. A foto abaixo não me deixa mentir! 

Será que cabe uma cama aqui dentro? - Foto: Simone Catto

Sem dúvida, um dos maiores prazeres de caminhar por cidades medievais é descobrir pequenos encantos e curiosidades como essa. Naturalmente, não tive tempo de conhecer Avignon inteira, inclusive porque ela é grande para os padrões da Provence, mas conheci o suficiente para desejar retornar um dia. Quem sabe?

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Para ler o post sobre o Palácio dos Papas e a Ponte de Avignon, clique aqui.

Avignon: dos pontífices à ponte, um cenário que vale a pena descobrir.

Eu lembrava, das aulas de história, que a cidade francesa de Avignon havia sido morada de alguns papas na Idade Média. Porém, confesso que o período exato em que isso ocorreu me fugia da lembrança, até porque, em minha época de escola, as aulas eram mais na base do "decoreba" e nenhum professor abriu o mapa da França para nos mostrar onde exatamente se localizava essa cidade que tem hoje cerca de 95 mil habitantes. Felizmente, quanto mais eu crescia, mais minha curiosidade aumentava (e devo dizer que minha ansiedade cresceu na mesma proporção, porque comecei a não dar mais conta de estudar tudo o que queria). E se antes tinha só uma vaga ideia de como seria Avignon, embora soubesse que a cidade sedia um dos festivais de teatro mais importantes do mundo, finalmente tive o prazer de conhecê-la pessoalmente. E descobri, entre outras “cositas” mais, que nove papas se sucederam ali em boa parte do século XIV, mais precisamente entre 1309 e 1377.

Vista do início da Ponte de Avignon, com o rio Ródano à esquerda - Foto: Simone Catto

Talvez você esteja se perguntando por que cargas d'água esses papas ficavam em Avignon e não em Roma, sede da cristandade. A resposta é simples: por causa da força política do rei da França, Filipe IV. O então monarca entrou em choque com a Igreja Católica, em Roma, porque o papa Bonifácio VIII não permitia que ele cobrasse tributos da igreja francesa. Como àquela época era a França que ditava as regras no mundo, o rei simplesmente deu uma "canetada" e ordenou que o sucessor do Papa Bonifácio, Clemente V, permanecesse em Avignon. Assim teve início a linhagem de papas franceses que residiram naquela cidade.

Rio Ródano - Foto: Simone Catto

A passagem dos papas por Avignon marcou indelevelmente seu traçado e sua  arquitetura, notadamente a partir da construção do Palácio dos Papas, uma imensa e imponente fortaleza que simbolizou à perfeição o poder temporal e espiritual que o papado exercia à época. Maior palácio gótico da França e Patrimônio Mundial da Unesco, o edifício é tanto mais impressionante ao sabermos que levou menos de vinte anos para ser erigido, entre 1335 e 1352.

Vista do Palácio dos Papas, em Avignon - Foto: Simone Catto

Parte do Palácio dos Papas e da muralha que circunda a cidade velha - Foto: Simone Catto

Logo ao entrar no palácio, visualizei alguns operários montando uma arquibancada de metal no pátio interno. Perguntei a uma funcionária do que se tratava e ela me explicou que já eram os preparativos para o festival de teatro, que acontece todos os anos em julho, auge do verão, quando o Palácio dos Papas torna-se o principal palco para os concorridos espetáculos.

O palácio tem 25 salas abertas ao público e implantou uma tecnologia genial que torna a visita infinitamente mais interessante: logo ao entrarmos, podemos pegar o Histopad, um tablet que permite uma experiência imersiva e interativa de realidade virtual. Cada aposento tem um enorme QR Code e é só aproximarmos o tablet para visualizarmos como era o espaço na época dos pontífices. À medida que caminhamos, vamos enxergando o mobiliário, os afrescos, as tapeçarias, a decoração... é como uma viagem no tempo. Graças a essa reconstituição em realidade aumentada, conseguimos rever os faustos da corte papal do século XIV com grande exatidão. Além disso, comentários de áudio, mapas que acompanham a visita e fundos musicais enriquecem ainda mais a descoberta das salas reconstituídas. Portanto, se você for a Avignon visitar o palácio, não deixe de pegar seu Histopad para sua experiência não ficar pela metade!

Maquete do Palácio - Foto: Selma

Detalhes do palácio gótico. Acima, à direita, dá para visualizar
a Virgem Maria dourada da Basílica Notre-Dame des Doms.
Foto: Simone Catto

Ainda hoje, as capelas e os apartamentos privados dos papas conservam valiosos afrescos de escolas francesas e italianas de pintura, alguns atribuídos ao pintor italiano Matteo Giovannetti. Os demais espaços do palácio tinham diferentes funções: sacristias, salões de banquetes e de cerimônias, tesouraria, escritório, biblioteca e muitas outras que conseguimos visualizar mobiliadas e decoradas com o auxílio do Histopad. 

O interior gótico do palácio - Foto: Selma

Era na sacristia que os papas trocavam os trajes durante as cerimônias realizadas na Grande Capela. Abaixo, vemos uma vista da Sacristia Norte. Ela tem várias estátuas de gesso, a maioria presenteada por cidades da Europa, representando figuras políticas e religiosas ou convidados de prestígio recebidos no palácio pelos pontífices.

Estátuas de gesso da Sacristia Norte, a maioria doada por cidades europeias, mostram personagens ilustres.
Foto: Simone Catto

Na parte externa, terraços em torno da construção oferecem belas vistas da cidade de Avignon e do rio Ródano (Rhône), que tem 812 km, percorre a França e a Suíça e é mais lembrado pelos vinhos produzidos em suas margens: os famosos Côtes du Rhône.

Vista de Avignon a partir dos terraços do palácio - Foto: Simone Catto

Outra bela vista da cidade, um pouco mais à direita - Foto: Simone Catto

Vista da praça que dá para a entrada do Palácio dos Papas - Foto: Selma

Detalhe das esculturas do prédio à direita - Foto: Simone Catto

E por falar na vista do terraço... quem visita o palácio tem acesso à famosa Ponte Saint Bénezet, mais conhecida como Ponte de Avignon, também listada como Patrimônio Mundial da Unesco. Diz a lenda que o camponês Bénezet, no século XII, recebeu ordens celestes para construí-la e, assim, unir as duas margens do rio Ródano.

A Ponte de Avignon, saindo do palácio - Foto: Simone Catto

Ponte de Avignon - Foto: Simone Catto

Concluída em 1185, a ponte foi considerada uma verdadeira proeza técnica com seus cerca de 900 metros e 22 arcos, mas, atualmente, ela não dá a lugar algum: simplesmente acaba em nada, no meio do rio. E essa bizarrice arquitetônica ocorre porque foi parcialmente destruída várias vezes pelas violentas inundações do Ródano e reconstruída, sucessivamente, até que no século XVII, a cidade deu um "basta" na situação, farta do transtorno interminável e dispendioso dessa reconstrução sem fim. Dos 22 arcos originais, portanto, restaram somente quatro e algumas capelas. Uma delas é a capela Saint Bénezet, construída no século XII, que teria abrigado a sepultura do camponês que construiu a ponte. Dizem que a capela sagrada é local de milagres.

Vista da ponte, que acaba no meio do rio - Foto: Simone Catto

Capela de Saint Bénezet, supostamente local de milagres! - Foto: Simone Catto

O que pode ser considerado um verdadeiro milagre, mesmo, são as muralhas medievais admiravelmente bem conservadas da cidade. Mas isso é assunto para o próximo post, no qual vamos percorrer mais um pouco de Avignon. Clique aqui para continuar o passeio!

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Gordes, o refúgio medieval que abraça a Provence do alto.

No século XIX, o escritor Charles Baudelaire (1821-1867) exaltou a figura do flâneur, aquele indivíduo todo pimpão e satisfeito da vida que caminhava despreocupadamente pelas ruas de Paris a fim de vivenciá-la, observar as pessoas, sentir sua atmosfera. Mesmo separada há anos e a milhas de distância do flâneur de Baudelaire, devo dizer que me identifico com a figura, pois gosto de caminhar por locais onde as paisagens física e humana sejam inspiradoras. Em minha mais recente incursão como flâneuse, por alguns vilarejos do sul da França, percorri ruínas romanas e vielas medievais, descobri residências graciosas e cantinhos encantados. Naturalmente, grande parte do charme desses villages está em sua perfeita sintonia com a natureza, nos permitindo sorver vida das árvores, das montanhas, das casas de pedra, das vistas que se perdem no horizonte e até da poeira dos anos que se acumularam por ali.

Um dos vilarejos mais encantadores que visitei é Gordes, que faz parte do Parc Naturel Régional du Luberon, no departamento provençal do Vaucluse, e foi classificado pelo governo francês como "um dos mais belos villages da França". Não é difícil descobrir por quê. Com pouco mais de dois mil habitantes, esse povoado que remonta ao período Neolítico está encravado no alto de um rochedo e é considerado uma joia rara com suas típicas casas de pedra, ruelas tortuosas de paralelepípedos e uma atmosfera que convida a gente a ir ficando. A vista lá de cima é espetacular e nossos olhos se perdem nos horizontes da Provence, com seus vinhedos, oliveiras e montanhas rochosas. Gordes já foi ocupada por tribos celtas e romanas, mas foi no século XI que começou a crescer em torno de seu castelo-fortaleza. Bem mais tarde, a partir da década de 1950, foi descoberta por vários pintores e artistas que se sensibilizaram com a beleza de sua paisagem, sua luz, suas ruínas e seu isolamento. André Lhote foi o primeiro, trazendo em sua esteira Marc Chagall e muitos outros que lá se instalaram, enfeitiçados pela atmosfera insólita do lugar.

Estacionei o carro na própria estrada, em lugares demarcados gratuitos, e fui caminhando até a cidade. O jogo de sedução começou ali.

A estrada onde estacionei o carro já começou a piscar para mim! - Foto: Simone Catto

Esta é Gordes, muito prazer! - Foto: Simone Catto

A vista se insinua nas frestas medievais - Foto: Simone Catto

Minha primeira parada foi na Abadia Notre-Dame de Sénanque, indubitavelmente a principal atração de Gordes. O monastério começou a ser construído em 1148 pela ordem dos monges cistercienses e levou cerca de sessenta anos para ser concluído, atingindo seu auge entre os séculos XIII e XIV, quando os monges possuíam quatro moinhos, sete granjas e várias propriedades agrícolas na Provence. Depois foi parcialmente danificado nas guerras religiosas de 1644 e vendido ao Estado durante a Revolução Francesa, em 1791, até ser recomprado e restaurado novamente pela ordem cisterciense em 1854. 

Na época de minha visita, mês de junho, as lavandas do jardim da abadia normalmente já estão floridas, mas, este ano, a floração retardou devido às intensas chuvas na região. Mesmo assim, a paisagem é linda.

Abadia Notre-Dame de Sénanque - Foto: Simone Catto

Para quem não sabe, a ordem  cisterciense é uma das mais rígidas do catolicismo e conhecida pelo voto de silêncio imposto a seus monges. Em Sénanque, eles só têm autorização para falar em determinados horários e na "Salle du Châpitre" (Sala do Capítulo), onde se reúnem para ouvir o abade líder, tomar decisões referentes à comunidade e ordenar novos monges. Vida nada fácil. Tudo bem que não sou do tipo tagarela - muito pelo contrário - e adoro ficar sozinha, mas também gosto de conversar com as pessoas, embora reconheça que, para determinadas criaturas, fazer voto de silêncio seria uma bênção para a humanidade (rs).

Sala do Capítulo - Foto: Randojp

Mas vamos lá. Um lugar onde eu faria voto de silêncio fácil, de preferência com um livro nas mãos, é o claustro interno do monastério, que tem um jardim muito bonito e bem cuidado pelos próprios monges. Destinado à meditação e à leitura, o claustro liga todas as dependências da construção e é pura paz. Já à entrada da propriedade, aliás, somos instruídos a respeitar o ambiente e a nos conduzirmos da forma mais silenciosa possível.

O claustro, com suas lindas rosas e seu jardim super bem cuidado - Foto: Simone Catto

Daqui vemos o sino da abadia - Foto: Simone Catto

E por falar em silêncio... o antigo dormitório dos monges mede quase trinta metros de comprimento e nove de largura e podia acolher cerca de 30 monges que dormiam em colchões, vestidos da cabeça aos pés. Atualmente, cada monge dorme em sua própria cela. E devem ter ficado tão traumatizados com a falta de privacidade de outrora, já que até o "pillow talk" devia ser proibido (rs), que o antigo dormitório é o único cômodo da abadia não mais utilizado por eles – é apenas mais um espaço visitado pelos turistas.

O antigo dormitório dos monges, atualmente apenas local de visitas - Foto: Randojp

E não será por falta de prece que esses monges cistercienses não irão para o céu: eles rezam sete vezes ao dia, começando às duas da manhã até a noite. Já estão pagando os pecados das próximas encarnações para garantir um lugar à esquerda do Pai, imagino (rs). Os monges também trabalham bastante, produzindo mel, essências de lavanda e licores, além de cuidarem da limpeza e da manutenção das dependências da abadia, todas abertas a visitação. As liturgias também são franqueadas ao público. Não assisti a nenhuma, mas deve ser uma experiência interessante. Os horários das missas e demais informações estão no site https://www.senanque.fr, que também tem versão em inglês.

Como seria de se esperar, a abadia também tem uma loja que comercializa os itens produzidos internamente, entre outros. Mas apesar da renda gerada pelas vendas dos produtos e pela bilheteria, está solicitando doações para sua manutenção e restauro. Uma placa bem grande, antes da entrada principal, detalha as obras que precisam ser realizadas e a quantia necessária para tanto, como mostra a imagem abaixo. Alguém se habilita?

A quantia requerida para a reforma da abadia está no alto, à direita. Será que falta muito? - Foto: Simone Catto 

A parada para o almoço foi no 'La Bastide de Pierres', um agradável restaurante na praça do castelo, com vista para o dito cujo, no centrinho da cidade. Consegui uma mesa externa, na varanda elevada de onde dava para observar o movimento lá fora. O garçom que me atendeu era um mocinho sorridente e gentil e o prato que pedi, uma massa com salmão bem honesta, estava no ponto certo. Vale reforçar que os peixes por lá são sempre fresquinhos e quaisquer pratos à base deles são uma boa pedida devido à proximidade da região com a cidade portuária de Marselha. Para acompanhar? Vinho rosé, claro! Impossível dispensar esse delicioso clássico da Provence, sobretudo quando combina tão bem com o prato escolhido. Santé!

O restaurante é simples, porém arejado, com uma vista agradável e, principalmente, com comida OK.
Foto: Simone Catto

Após o almoço, bastou andar alguns metros para chegar ao Castelo de Gordes. Mencionado em registros históricos pela primeira vez em 1031, o castelo sofreu várias ampliações e reformas ao longo dos séculos, comandadas pela poderosa família d'Agoult Simiane, que reinou soberana na região por cerca de 700 anos. No século XIV, época de muitas guerras, funcionou como fortaleza e se integrava às muralhas que circundavam a cidade.

Vista lateral do Castelo de Gordes - Foto: Simone Catto

Por estar em local de difícil acesso, o castelo nunca foi habitado por seus senhores, adquirindo outras funções depois de ser fortaleza medieval. Nos séculos XVII e XVIII serviu sucessivamente de prisão, alojamento para soldados e depósito para a cidade. Em 1811, passou para a Comuna e, ao longo do século XIX, sediou a justiça de paz, uma hospedaria, uma escola de meninos e uma infinidade de outras instituições. Só faltou mesmo sediar um bordel! (rs) Depois o castelo se tornou museu e, atualmente, abriga exposições de arte temporárias.

Tudo em seu interior é muito austero, já que os ambientes não contêm móveis. O único detalhe decorativo que chamou minha atenção foi a monumental lareira do antigo salão de jantar. Com 7,20 metros de comprimento e 4,50 m de altura, é profusamente ornamentada e considerada uma das mais belas lareiras esculpidas na França renascentista. Sua coifa possui doze nichos vazios, certamente simbolizando os doze apóstolos, mas o brasão da família Simiane, ao centro, foi destruído durante a Revolução Francesa. Só me pergunto se nos demais aposentos as pessoas não morriam de frio!

A lareira renascentista do castelo, fartamente esculpida - Foto: Simone Catto

Se você for a Gordes, além de visitar a abadia, o castelo e almoçar sem pressa, vale a pena separar pelo menos uma horinha para explorar as ruelas sinuosas e os bequinhos do povoado. Não espere hordas de turistas enlouquecidos e nem uma sucessão de restaurantes e cafés, pois o perfil lá é outro, mais histórico e contemplativo. E é bom que seja assim, para que o caráter da cidade não se perca. À la prochaine!