sexta-feira, 4 de setembro de 2015

'Histórias da Loucura – Desenhos do Juquery': o talento por trás do caos.

Depois de conhecer o fascinante trabalho da Dra. Nise da Silveira (1905-1999), médica psiquiatra brasileira que foi aluna de Carl Jung e mostrou o poder da arte nos processos terapêuticos, eu não poderia deixar de visitar a exposição Histórias da Loucura – Desenhos do Juquery, atualmente no MASP.  

A mostra reúne cerca de 100 desenhos feitos por internos do Hospital Psiquiátrico do Juquery, localizado em Franco da Rocha, São Paulo. As obras pertenciam ao Dr. Osório Thaumaturgo César (1895-1979), fundador e diretor da Escola Livre de Artes Plásticas, que funcionou no hospital entre 1956 e meados da década de 1970. 

Médico psiquiatra do Juquery por mais de quatro décadas, o Dr. Osório César, nascido em João Pessoa, na Paraíba, pertencia a uma geração anterior à da Dra. Nise da Silveira (note que 20 anos separam o nascimento de um e outro) e foi um dos pioneiros no Brasil a pesquisar e a aplicar o uso da arte como recurso terapêutico em pacientes psiquiátricos. Por acreditar no talento e nas qualidades estéticas dos trabalhos dos internos, promoveu exposições de desenhos e pinturas criados no Juquery e o MASP sediou duas delas: uma em 1948, um ano após a inauguração do museu, e outra em 1954. Em 1974, o médico doou sua coleção particular ao MASP.

Uma curiosidade: o Dr. Osório foi casado com a musa do Modernismo Tarsila do Amaral, mostrando que não apenas devia apreciar arte como provavelmente estava habituado a esse universo.

A exposição está dividida em duas salas. Uma delas contém mais de 50 desenhos de artistas diversos, a saber: Antonio Donato de Souza, Armando Natale, Augustinho, Geraldo Simão, Homero Novaes, J. F. Menezes, J. Q., José Ferreira Barbosa, Maria Claudina D’Onofrio, Marianinha Guimarães, O. Doring, Pedro Cornas (O Estudioso), Pedro dos Reis, Sebastião Faria e artistas desconhecidos. Infelizmente, não é mencionado o autor de cada obra, o que tornaria a análise muito mais interessante. A outra sala é dedicada a um único paciente, Albino Braz, que tem 42 desenhos expostos.

Todos os desenhos são realmente muito curiosos. Para mim foi inevitável, ao olhar para eles, fazer elucubrações para tentar imaginar o que se passava na cabeça de seus autores no momento da criação. Havia várias obras de conotações religiosas, por exemplo. Não pude deixar de me lembrar de Carlos Pertuis, o paciente da Dra. Nise da Silveira retratado no filme A Barca do Sol, de Leo Hirszman, exibido há alguns anos na mostra Imagens do Inconsciente, no Ciclo de Cinema e Psicanálise da Cinemateca Brasileira, também resenhado no blog (veja aqui). Diagnosticado como esquizofrênico, Pertuis criou obras proféticas como O Planetário de Deus, a representação do universo numa espantosa mandala macrocósmica. Os desenhos dos artistas do Juquery, no entanto, são quase totalmente figurativos e mostram cenas religiosas facilmente identificáveis, como a aparição da Virgem Maria às crianças e imagens de Jesus.

Obs.: as fotos de algumas obras saíram com o reflexo da película de vidro que as recobre, mas dá para visualizarmos suas características principais.

Aparição da Virgem às crianças - artista não mencionado
Foto: Simone Catto

A representação abaixo de Jesus ao lado de uma mulher que parece uma feiticeira é mais primária, lembrando um desenho infantil.

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

E a seguir, uma representação bem mais elaborada de Cristo, com um ousado manejo de cor. Note o contraste entre o lado direito e esquerdo do rosto. É como se Ele tivesse duas faces ou... dupla personalidade!

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

Achei muito expressivo o desenho abaixo, que representa uma Nossa Senhora. A forma como o artista trabalhou o sombreado nas dobras das vestes revela que ele possuía um razoável conhecimento técnico.

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

Em oposição às representações religiosas, a exposição também exibe desenhos profanos, como nus e outros de natureza francamente sexual, como atestam as obras abaixo.

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

A sala dedicada exclusivamente ao paciente Albino Braz tem vários exemplos desse tipo. É curioso notar que ele utiliza um único padrão pictórico para representar o órgão sexual feminino, como vemos nas imagens abaixo.

Desenho de Albino Braz - Foto: Simone Catto

Desenho de Albino Braz - Foto: Simone Catto

O desenho a seguir, também de Albino Braz, mostra um casal em pleno ato sexual, envolto em uma espécie de círculo que lembra uma bola de árvore de Natal. Segundo Carl Jung, na obra O homem e seus símbolos, também resenhada neste blog, a forma esférica simboliza a totalidade do 'self', a integridade do 'eu'. Será que Albino apresentava algum trauma ou distúrbio afetivo-sexual e o enquadramento do ato no interior do círculo significaria uma tentativa de controlar esse fantasma? Ou essa suposta desordem afetiva-sexual era tão grande que ocupava a totalidade de seu 'eu', daí ocupar todo o círculo/self? 

Note também a presença do gato e do pássaro como coadjuvantes nesse mesmo desenho. Esses animais são recorrentes nas obras de Albino, que também representa outros bichos em diferentes ocasiões.

Desenho de Albino Braz - Foto: Simone Catto

Desenho de Albino Braz - Foto: Simone Catto

Abaixo, os animais aparecem numa alegre cena circense.

Desenho de Albino Braz - Foto: Simone Catto

E a seguir, temos uma curiosa "socialite índia" – note o penacho em sua cabeça. Pergunto-me se o homem atrás dela foi representado em dimensões menores por uma questão de perspectiva ou porque seria "menos importante", já que o desenho de seu corpo nem foi concluído...

Desenho de Albino Braz - Foto: Simone Catto

E no próximo desenho, Albino nos fornece uma espécie de bestiário.

Desenho de Albino Braz - Foto: Simone Catto

Uma obra que logo chamou minha atenção foi o castelo da segunda imagem abaixo. Representado de maneira simétrica e preenchido com pequenos quadrados como se fossem janelas, ele me remeteu de imediato a um outro castelo, pintado por Carlos Pertuis, o paciente esquizofrênico da Dra. Nise da Silveira mencionado anteriormente. Segundo a médica, o fato de o castelo estar envolvido por figuras geométricas dispostas simetricamente seria uma tentativa inconsciente do artista de organizar seu caos interior. Será que o paciente do Dr. Osório, a exemplo do paciente da Dra. Nise, também era esquizofrênico?

Obra de Carlos Pertuis, paciente psiquiátrico da Dra. Nise da Silveira.

Obra de paciente psiquiátrico do Dr. Osório César - Foto: Simone Catto

E o que dizer do tigre abaixo, pulando à frente de um trem? Pensaria seu autor em suicídio ou apenas desejou representar uma bela cena?

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

Alguns desenhos são bem prosaicos, como as colegiais representadas a seguir e as duas meninas, cujo traçado tem um poder de síntese que denota verdadeiro talento.

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

Abaixo, vemos um homem se desintegrando gradualmente em um traçado cada vez mais esvanecido... será que o artista sentia ocorrer o mesmo com seu 'self' ou se trata apenas de um belo recurso pictórico? Torço para que a segunda hipótese seja a verdadeira!

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

A mostra também tem paisagens, mas bem diferentes entre si. As duas obras a seguir certamente não foram criadas pelo mesmo artista. Pode parecer uma simplificação leviana de minha parte, mas o autor da paisagem superior, tecnicamente muito mais complexa, pareceu-me bem mais atormentado que o da plácida paisagem inferior.

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

Artista não mencionado - Foto: Simone Catto

Guardadas as devidas proporções, a combinação de cores da primeira paisagem lembrou-me Cézanne. Note que há também um homem escondido entre as árvores e que, a seu lado, no solo, parece haver uma lanterna acesa com um facho de luz azul. Será que ele tentava chegar ao píer à direita e sua lanterna caiu ao chão, gerando-lhe um obstáculo? O que significa o mar por trás daquele píer? Desejo de liberdade? Veja, também, que o desenho é todo circundado por uma espécie de moldura desenhada em arcos. Seria uma tentativa do artista de tentar manter algum controle sobre si mesmo? Infelizmente essas respostas perderam-se no tempo (ou no prontuário médico do paciente...), mas, o que podemos afirmar seguramente é que, embora sombria, a composição apresenta uma bela combinação de cores. 

Curiosamente, a paisagem inferior também mostra água. Será coincidência? No entanto, a relação do homenzinho com a visão que tem à sua frente me parece bem mais tranquila. Mesmo de costas, ele parece estar sereno e não temer seu destino.

Não parece ser este o caso do artista da obra a seguir, que desenhou um rosto bem perturbador. E não é para menos: seu autor sofria de esquizofrenia, como atesta a inscrição datilografada em francês no rodapé da imagem, que tem a seguinte tradução:

‘P... Reis -Esquizofrenia crônica.
Resumo –Reticente. Frio. Capacidade
perceptiva comprometida.’

Desenho de P... Reis, paciente esquizofrênico - Foto: Simone Catto

A legenda do desenho anterior, atestando que seu autor era esquizofrênico crônico.

Um dos aspectos mais interessantes da exposição Histórias da Loucura: desenhos do Juquery é justamente esse exercício de tentarmos descobrir ou desvendar o que havia por trás daquelas imagens. É notório, também, o talento da esmagadora maioria dos pacientes ali representados. Muitos detinham conhecimentos de luz e sombra, perspectiva, composição e manejo de cor, adquiridos possivelmente na Escola de Artes Plásticas criada pelo Dr. Osório no hospital. Recomendo a mostra a todos!

HISTÓRIA DA LOUCURA: DESENHOS DO JUQUERY está em exposição no MASP – Museu de Arte de São Paulo - Av. Paulista, 1578 – tel.: (11) 3149-5959 – www.masp.art.br. Abre de terça a domingo, das 10h às 18h (bilheteria aberta até 17h30); quinta-feira, das 10h às 20h (bilheteria até 19h30). O ingresso custa R$ 25,00 a inteira e R$ 12,00 a meia. A entrada é gratuita às terças-feiras, o dia todo, e quintas-feiras, a partir das 17h. Até 11/10.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Vianna Bar. Cardápio generoso com altas doses de conforto e alto-astral.

São Paulo tem muitos bares denominados "botecos chiques", e o Vianna não foge à regra. Pode ser chamado de "boteco" no conceito e na concepção, mas é "chique" na qualidade da incrível variedade de quitutes e bebidas, na apresentação da casa e no atendimento profissional. Minha primeira impressão, pelo menos, foi ótima – e este é, sem dúvida, um bar ao qual pretendo voltar porque me senti em casa.

O Vianna não é o tipo de bar para se curtir a dois, mas é ótimo para um bate-papo informal com amigos, como foi o meu caso. As mesas de madeira de que eu tanto gosto e que sempre deixam o ambiente mais aconchegante ocupam interior e calçada, tornando o lugar ideal para dias quentes. A parede do fundo é tomada por fotos e gravuras emolduradas, o piso é de um xadrez bicolor e a profusão de portas e janelas envidraçadas permitem a qualquer cliente apreciar o movimento lá fora. Ou seja: o ambiente é bem agradável.

A fachada já dá uma ideia da atmosfera que mescla aconchego e alto-astral - Foto: www.viannabar.com.br

Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Agora vamos à parte gastronômica – começando pelos "bebes", que, no meu caso, se traduziram em uma deliciosa batida de coco. Pedi ao garçom a bebida não muito forte e parece que o barman entendeu perfeitamente, pois estava ótima. Uma dica: sempre que bebo algo alcoólico peço também água mineral para amenizar os efeitos do álcool – e funciona! Vale ressaltar que o Vianna tem uma belíssima carta de cachaças especiais, caipirinhas, coquetéis variados, cervejas, sucos e até alguns vinhos. Há de tudo para todos, ninguém passa vontade.

Minha batida de coco estava deliciosa! - Foto: Simone Catto

Como nunca bebo nada sem comer, além do que a turma que me acompanhava também gosta de petiscar, experimentamos vários quitutes. O primeiro logo chamou nossa atenção, pois estava em uma parte do cardápio que tinha por título 'Tour Gastronômico'. Trata-se do Won Ton de Frango com Alho-Poró, uma porção de trouxinhas asiáticas servida com geleia de gengibre e pimenta (R$ 26). Achei-as crocantes e saborosas e a geleia levemente picante conferiu ao salgado um sabor especial.

Won Ton de Frango com Alho-Poró: coisa boa! - Foto: Simone Catto

Na sequência, pedimos uma Piadina. Grande e redonda, ela parece uma pizza, mas é mais fina e crocante e já vem cortada em pedaços, própria para petiscar. A nossa levava mozzarella, catupiry com tomate em cubos e azeitona preta. Achei muito boa e dá para várias pessoas.

A Piadina: parece pizza, mas não é! - Foto: Simone Catto

As horas passaram, mas os quitutes continuaram! O próximo da lista foi a porção de Spinakopitas, um folhado típico grego de espinafre com parmesão. Também acompanha uma geleia especial e estava muito bom.

Spinakopitas, os folhados gregos - Foto: Simone Catto

Uma amiga que chegou depois, morrendo de fome, atacou logo uma generosa porção de Carne Seca desfiada, que acompanha mandiocas crocantes. A porção era tão grande, que deu para todo mundo experimentar e ainda sobrou. Aliás, a porção de carne seca parecia um ninho de pardal!! (rs). 

A porção de carne seca que parecia um ninho de pardal e estava um escândalo de boa,
acompanhada das mandiocas - Foto: Simone Catto

Ufa! E assim passaram-se horas daquela quarta-feira, e eu tendo de trabalhar no dia seguinte! Só faltava mesmo um café, e ele fechou nossa noite do jeito que pedimos a Deus.

Vá ao VIANNA BAR sem medo de ser feliz! Fica na Rua Cristiano Viana, 315 – Cerqueira César. Tel.: (11) 3082-8228 - www.viannabar.com.br. Abre de segunda a sexta-feira das 18h às 2h e sábados das 12h às 3h15.

sábado, 22 de agosto de 2015

'Uma Nova Amiga', de François Ozon: ambiguidade sexual "dá nó" no espectador.

Qual seria sua reação se soubesse que o marido de sua melhor amiga gosta de se vestir de mulher, mas não é gay? É exatamente isso o que acontece com Claire, jovem protagonista do filme Uma nova Amiga, de François Ozon. Claire acaba de perder sua melhor amiga - a amiga de infância Laura - para uma doença e, no enterro, promete cuidar de seu bebê recém-nascido e dar apoio ao viúvo, David. Um dia, preocupada com este, encontra a porta de sua casa aberta e flagra o viúvo embalando a filha recém-nascida vestido de mulher dos pés à cabeça. David usa um vestido da falecida esposa, uma peruca loira, sapatos de salto e está sentado calmamente dando mamadeira à criança.

As amigas Claire (Anaïs Demoustier) e Laura (Isild Le Besco), a falecida, nos tempos de colégio.

Esse choque, e o que acontece a partir daí, tece o fio do enredo desse filme bem construído e provocativo. Claire é casada com Gilles, um publicitário bom moço e bonitão, mas começa a sentir-se cada vez mais perturbada e fascinada com a ambiguidade sexual de David – um homem que, embora aprecie vestir-se como mulher e adote o codinome de 'Virginia', não é homossexual e sente-se atraído por mulheres. A trama tem, indiscutivelmente, um "quê" de Almodóvar ao retratar as idiossincrasias de uma sexualidade que não se deixa categorizar em uma classificação fácil. Afinal, Claire sente-se atraída por David ou por sua representação feminina? Se Claire não tivesse visto David vestido de mulher, essa atração teria acontecido?

Claire e Gilles (Raphaël Personnaz), o marido fofo.

David (Romain Duris) travestido como 'Virginia', ao lado de uma Claire já acostumada com a ideia.

David e Claire: ambiguidade pura!

O filme provoca por nos apresentar uma situação que foge ao convencional em termos de relações humanas e sexuais, mas, neste quesito, sabemos que existe de tudo por aí – e, convenhamos, desde que ninguém não saia prejudicado, casa um usa sua sexualidade do jeito que lhe aprouver. O que importa é que, com toda a sua estranheza, o filme é bom, gera reflexão e vale a pena assistir!

Em São Paulo, Uma nova amiga está atualmente em cartaz apenas no Reserva Cultural. Não perca!

Ficha técnica parcial:

Direção: François Ozon
Elenco: Romain Duris (David/Virginia), Anaïs Demoustier (Claire), Raphaël Personnaz

(Gilles), Isild Le Besco (Laura), Aurore Clément (Liz, mãe de Laura)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

'Joan Miró – A força da matéria': última chance para ver o artista catalão.

Faz uns dois meses que fui à exposição Joan Miró – A força da matéria, no Instituto Tomie Ohtake e, para ser franca, relutei um bocado para começar a escrever esta resenha. E eu sei por quê: há artistas que respeitamos, mas não amamos. E para mim, Joan Miró (1893-1983) é um deles. De qualquer modo, a exposição está classificada como uma das melhores de São Paulo pela crítica especializada e eu não quis perdê-la. Sem falar, é claro, que o programa foi valorizado pelo delicioso café que tomei depois, na Ofner em frente ao Instituto, embalado por uma ótima conversa.

Dividida em três blocos cronológicos, a exposição mostra cerca de 50 anos da produção do artista, reunindo mais de 100 obras entre pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e objetos (pontos de partida para as esculturas), além de fotografias sobre a trajetória do pintor catalão. As peças pertencem à Fundação Joan Miró, de Barcelona, e a coleções particulares.

Mulher na noite (1973) - acrílica s/ tela - Fundação Joan Miró, Barcelona

Confesso que, particularmente, não conheço muito a vida e obra de Miró. Sei que, em sua juventude, ele se preparava para seguir uma carreira no mundo dos negócios, mas, após um colapso nervoso, decidiu tornar-se artista. Após vencer a resistência inicial da família, pôs-se a pintar, produzindo uma obra influenciada pelo fauvismo, cubismo e surrealismo, movimento do qual chegou a participar. Na realidade, o artista absorveu elementos dessas três escolas para criar seu próprio estilo.


A Manicure cabeça-de-vento (1975) - água-forte e água-tinta - Fundação Joan Miró, Barcelona

Miró esteve em Paris pela primeira vez na década de 20 e, na ocasião, ficou tão impactado pelas descobertas artísticas e culturais na cidade, que ficou meio "paralisado", por assim dizer: não pintou nada durante toda a sua estada. Foi nessa época que ele conheceu Picasso e também ficou bastante impressionado com as ideias de Tristan Tzara, o grande agitador do movimento Dada, além de fazer amizade com inúmeros intelectuais. André Breton, líder do Surrealismo, afirmou: "Miró é o mais surrealista de todos nós", ao se referir aos outros artistas dessa escola. No entanto, embora tenha sentido grande simpatia pelo movimento, Miró sempre permaneceu independente – uma independência e liberdade que caracterizariam sua trajetória artística pela vida toda.


O Sonâmbulo (1974) - água-forte, água-tinta e carborundo
Fundação Joan Miró, Barcelona

No final dos anos 20, Miró manifestou de forma explícita seu propósito de "assassinar a pintura", no sentido de acabar com a concepção clássica da pintura de cavalete. Nesse momento, começou a criar colagens e objetos a partir de assemblages de diferentes materiais. Em sua permanente experimentação com a matéria, também conheceu e se aproximou das técnicas dos povos primitivos.


Mulher III (1965) - óleo e acrílico s/ tela - Fundação Joan Miró, Barcelona

Podemos dizer que a espontaneidade é um dos traços mais notados e mencionados a respeito da obra de Miró. As cores vivas e blocadas preenchendo as figuras, bem como algumas formas abstratas, transmitem uma boa dose de ingenuidade – muitas obras parecem ter sido feitas por crianças (e cá entre nós, poderiam ser, mesmo!). O artista faz uso abundante do preto e das cores primárias - o vermelho, o amarelo, o azul - em composições repletas de energia em que se destacam a liberdade e a fluidez do traço. Às vezes este começa mais fino, quase caligráfico em suas curvas, e depois se alarga gradativamente. Aqui e acolá, vemos as onipresentes bolinhas e pontinhos pretos que são marca registrada do artista. Lembro-me, aliás, que sempre distingui várias obras de Miró pelos tais pontinhos.


Dois personagens caçados por um pássaro (1976) - óleo s/ tela - coleção particular
Olhe os indefectíveis pontinhos, aí!

Embora eu não seja apaixonada por sua obra, como afirmei no início deste texto, é inegável reconhecer que Miró inovou à sua maneira e criou pinturas extremamente vigorosas.

Quer conferir? Corra, porque JOAN MIRÓ – A FORÇA DA MATÉRIA ficará em cartaz somente até o próximo fim de semana (23/8).

Instituto Tomie Ohtake - R. Coropés, 88 – tel.: (11) 2245-1900 - www.institutotomieohtake.org.br
Horário da bilheteria: terça a domingo, 10h às 19h - Horário de entrada: 11h às 19h.

Quanto custa: quarta a domingo - R$10,00 a inteira / R$5,00 a meia / terça-feira – entrada franca. É preciso retirar senhas na bilheteria (2 por pessoa).

domingo, 16 de agosto de 2015

'Single Singers Bar'. Um musical que poderia ser, mas não é.

É isso mesmo. De vez em quando, o que parece ser não é. E a gente cai numa roubada quando decide assistir a um espetáculo sem a indicação de amigos ou a leitura prévia da crítica especializada. Foi exatamente o que aconteceu comigo em relação ao musical Single Singers Bar, em cartaz no Teatro Jaraguá, localizado no hotel de mesmo nome no Centro de São Paulo. Trata-se de uma homenagem aos antigos cabarés cuja sinopse anuncia músicas de Cole Porter, Gershwin e Kurt Weill em versões de Claudio Botelho e Carlos Rennó. Os nomes me encheram os olhos e, naturalmente, os ouvidos. E lá fui eu, a desavisada.


Ironicamente, fez sentido um trecho do texto assinado no folheto do espetáculo pela diretora de produção Silmara Deon, que também faz parte do elenco, ao afirmar que "Single Singers Bar é uma peça sem pretensão nenhuma". É o que parece, mesmo. Para começar, a produção é pobre. Sim, porque economia de materiais e/ou baixo orçamento não significam economia de criatividade. Além do mais, vamos combinar: cenários minimalistas pedem elencos superlativos. E, definitivamente, isso não acontece. Muito pelo contrário. A maioria dos cantores é desafinada, não tem voz nem fôlego e tampouco o physique du rôle para interpretar canções do calibre proposto pelo espetáculo. Além de talento e preparo, faltou direção. O fato é que o amadorismo, tanto do elenco quanto da produção, foi realmente constrangedor - senti-me como se estivesse em uma peça montada por colegiais e que nem de longe justificava os R$ 50,00 que paguei pelo ingresso. Tudo bem que não sou nenhuma expert em teatro ou musicais, mas já ouvi, estudei e vi o suficiente para expressar minha opinião sem culpa ou constrangimento. Além do mais, assisti à peça acompanhada de pessoas leigas, porém dotadas de senso estético e bom gosto musical, e a opinião delas não diferiu da minha. Uma pena, porque, nas mãos certas, o tema renderia um belíssimo espetáculo.

Ficha técnica parcial

Direção Geral: Dagoberto Feliz
Produção Executiva: William Gutierre
Direção de Produção: Silmara Deon
Cenário: Flavio Tolezani
Elenco: Lilian Blanc, Silmara Deon, Luciana Carnieli, Katia Naiane, Cacau Merz, Fernando Nitsch, Daniel Morozetti, Helder Mariani, Demian Pinto e Bruno Guida.

domingo, 9 de agosto de 2015

Exposição 'Déjà Vu', de Claudio Takita. Musas revisitadas, alegria renovada.

Eu já havia tido o prazer de encontrar as divas de Takita há uns dois anos. E agora, novas musas juntaram-se às anteriores, dando-nos um espetáculo de cor e técnica em pinturas alimentadas por uma vigorosa dose de nostalgia.

Claudio Takita ao lado de Marilyn Monroe, uma das musas imortalizadas em suas pinturas - Foto: Simone Catto

Desta vez, o ponto de encontro foi a recém-inaugurada Deco ArtClub, um espaço multicultural de muito bom gosto que reúne loja de decoração, galeria de arte, café e que, futuramente, vai abrigar também cursos na área de arte e humanidades.

O espaço da loja, repleta de belos objetos de decoração - Foto: Simone Catto

Quem compareceu ao vernissage teve o raro prazer de contemplar, lado a lado, algumas das beldades mais icônicas que o mundo já viu. Audrey, Marilyn, Liz, Amy, Sophia e outras divas, retrô ou nem tanto, fitam o espectador fazendo charme ou sorrindo, ora com alegria, ora com ar maroto, ora com um "quê" de mistério. Algumas exalam glamour, como a eterna "bonequinha" Audrey Hepburn. Outras são o retrato da alegria, como uma Marilyn jovem e feliz ao lado de uma cabine telefônica londrina. Liz Taylor posa recostada em um reluzente Lincoln Continental. Já Sophia Loren é pura exuberância em um luxuriante fundo vermelho, e Uma Thurman tem sua beleza enigmática envolta em negro. Divas das telas convivem lado a lado com divas da música, como Amy Winehouse e Annie Lennox, resultando em imagens vibrantes com forte viés pop.

'Audrey' - acrílica s/ tela - 110 cm X 80 cm - Foto: Simone Catto

Aqui, temos uma Marilyn feliz, acompanhada da Vênus de Botticelli aprisionada na cabine telefônica e de uma musa de tempos mais recentes à direita: Anne Hathaway - Foto: Simone Catto

'Liz' - acrílica s/ tela - 100 cm X 120 cm - Foto: Simone Catto
  
Criador e criatura: Takita feliz ao lado de sua exuberante Sophia.
Foto: Simone Catto

E aqui, o artista fala sobre sua inspiração para criar esta Uma Thurman envolta em mistério... - Foto: Simone Catto

Por vezes, Takita toma emprestadas referências de outros mestres, criando composições interessantes e intrigantes. É o caso da pintura Beijos, uma das mais belas da exposição, em que o artista inspirou-se livremente em uma das obras mais populares de Gustav Klimt, o austríaco que encarnou, de forma inovadora, o esprit art nouveau de sua época. Em outra pintura, distinguimos elementos que poderiam estar em uma obra de Roy Lichtenstein, por exemplo. Até Van Gogh deu as caras por lá, em uma tela na qual seu famoso quarto em Arles é o grande protagonista.

A tela 'Beijos', inspirada em Gustav Klimt - acrílica s/ tela - 170 cm X 145 cm
Foto: Simone Catto

E aqui, quem diria... o quarto de Van Gogh em primeiro plano, atentamente observado pela diva pop Annie Lennox, da banda Eurythmics - Foto: Simone Catto

Takita faz uma pintura solar. Tanta cor e calor, associados a elementos simbólicos facilmente reconhecíveis e, principalmente, a tantas mulheres que há décadas povoam a imaginação e os sonhos da humanidade, criam identificação imediata e atraem a simpatia do espectador.

Se você puder, dê um pulo no Deco ArtClub e conheça as obras de CLAUDIO TAKITA. Mas atenção: a exposição fica apenas até o dia 14/8. O endereço é Rua Canário, 1318, Moema. Tel.: (11) 2619-0057 – www.decoartclub.com.br. O espaço abre de terças a sextas-feiras das 10h às 19h, e aos sábados das 10h às 18h.

Dica esperta: no dia 13/8, quinta-feira, a partir das 19h30, haverá um coquetel de finissage com DJ, sessão de live painting com o artista Thiago Ribeiro, projeções sobre o processo criativo de Takita e leilão beneficente de uma obra do artista. Confirme sua presença pelo e-mail vivian@sartoria.com.br e aproveite!

domingo, 2 de agosto de 2015

Bossa restaurante. Comece pelas medalhas de tapioca e continue como Deus quiser.

Se há algo do qual a gente não pode reclamar em São Paulo é sua oferta gastronômica – apesar dos preços um tanto salgados, com o perdão do trocadilho. O fato é que, mesmo com essa crise "braba" que assola o país de Norte a Sul, restaurantes continuam pipocando em Sampa e de vez em quando gosto de experimentar um novo.

Hoje, por exemplo, compartilhei um almoço no Bossa, misto de restaurante, bar e estúdio de som – sim, estúdio de som! – inaugurado em fevereiro pelas mãos do empresário e DJ (está explicado!) Renato Ratier, dono da boate D-Edge, uma casa que, parece-me, é das mais fervidas e longevas da noite paulistana. 

Modernoso, o lugar tem uma fachada de madeira que lembra um contêiner e três andares interligados. OK, contêineres são trambolhos medonhos por natureza, mas essa fachada não chegou a assustar à primeira vista devido à maciça presença de madeira e à impressão agradável que tivemos ao entrar. A propósito, o projeto arquitetônico é assinado por Muti Randolph, o mesmo que desenhou o D-Edge.

A fachada do Bossa - não se assuste! - Foto: Veja São Paulo

Nos ambientes internos, felizmente também predomina a madeira, contribuindo para conferir um clima de aconchego a uma arquitetura com muitos ângulos retos e um pé direito altíssimo que pudemos notar do ponto onde sentamos.

O salão da frente, que recebia mais luz solar, estava lotado. Aliás, naquele espaço achamos as mesas muito próximas umas das outras e, no final das contas, julgamos mais confortável sentar no outro salão, em uma mesa de frente para o bar e a uma boa distância da mesa vizinha. Chegamos pouco antes das 14h e, por sorte, conseguimos pegar a última mesa disponível. Em São Paulo, quando abre um bar ou restaurante novo e as críticas gastronômicas são positivas, não dá outra: os paulistanos logo vão conferir. Ainda mais em um bairro de bom poder aquisitivo como os Jardins.

Lá no fundo, dá para ver o salão ensolarado - Foto: Simone Catto

O ponto onde ficamos, de frente para o bar e com mesas bem mais confortáveis - Foto: Simone Catto

O cardápio, com receitas contemporâneas, foi criado por William Ribeiro, eleito chef revelação na edição especial 'Comer & Beber' da Veja São Paulo, em 2010, quando trabalhava no 'O Pote do Rei'. Dizem que uma única visita não é suficiente para criarmos um conceito acerca de um restaurante, mas posso falar que essa minha primeira experiência com o Bossa foi bem positiva. O atendimento do garçom Fernando foi gentil e os pratos que pedimos estavam muito bons.

Como o dia estava hiper mega ensolarado e fazia um calor de 26 graus em pleno inverno de Sampa, resolvemos compartilhar um vinho branco. Pedimos então o Cruz Alta, um sauvignon blanc safra 2014 produzido em Mendoza, na Argentina. Aromático e bem refrescante, o vinho foi servido na temperatura certa e valorizou maravilhosamente nossa refeição.

Foto: Simone Catto

Para começar, pedimos a porção de Medalhas de tapioca com mel de tabasco, deliciosa e bem servida. As tapiocas chegaram à mesa com uma textura e consistência incríveis. Uma iguaria para se comer de joelhos!

Medalhas de tapioca com mel de tabasco (R$ 24): um desbunde de boas!!! - Foto: Simone Catto

Eu não queria comer nada pesado nesse dia quente, então escolhi a Salada Tropical, que leva folhas verdes, manga, camarão, trigo e cevada em grãos, gergelim e espetinho de camarão ao vinagrete de maracujá. Os camarões no espetinho estavam bem feitos e a salada fresquinha, supernutritiva e com um tempero gostoso. Delícia!

Minha Salada Tropical (R$ 48) também fez bonito! - Foto: Simone Catto

O outro pedido da mesa foi o spaghettini com lula ao alho e óleo, vinho branco, presunto cru e agrião (R$ 50). Também agradou cem por cento. E para finalizar uma refeição tão agradável em companhia idem, só faltava... o cafezinho!!! E ele chegou saboroso e bem tirado.

O cafezinho deu o toque final de sabor em uma ótima refeição! - Foto: Simone Catto

O restaurante tem um horário de funcionamento bem extenso, mas ouvi falar que, futuramente, a ideia é que funcione 24 horas. Tomara! 

Se você quiser conferir, o BOSSA fica na Al. Lorena, 2.008 - Jardim Paulista. Tel.: 3064-4757 – www.bossarestaurantebarestudio.com.br. Abre de segunda a quarta das 12h às 24h, quinta a sábado das 12h às 3h, e domingo das 12h às 23h. Tem 70 lugares. E para quem confia, há serviço de valet no local (R$ 20).