quinta-feira, 29 de outubro de 2015

'Respire'. Um filme muito bom, mas tóxico.

Um filme bom, denso, daqueles que dão raiva quando vemos que a protagonista não reage da forma como reagiríamos ao constatar que uma pessoa aparentemente amiga não vale a sola dos sapatos que calça. Não deve ser à toa que o título dessa produção de 2014, inclusive no original francês, seja o imperativo 'Respire', pois há momentos em que realmente perdemos a respiração de tanta raiva da passividade da protagonista.

Seu nome é Charlie (Joséphine Japy), uma estudante de 17 anos que mora num subúrbio e é filha única de um casal desestruturado. A mãe, que parece ser o tipo de mulher que engole não só sapos, mas um pântano inteiro para não ficar sozinha, aceita submissa o desrespeito do marido cafajeste, pai de Charlie.

Joséphine Japy no papel de Charlie.

A menina leva uma vida meio sem graça, até que na escola onde estuda ingressa uma nova colega de sua idade, Sarah (Lou de Laâge), garota rebelde e bonita que parece ter uma história de vida interessante e uma personalidade magnética.

Charlie e Sarah (Lou de Laâge) tornam-se amigas íntimas.

A princípio, as meninas se divertem muito juntas.

Charlie se encanta pela nova amiga e as duas logo se tornam bem próximas, mas, aos poucos, o comportamento de Sarah começa a mostrar que algo em seu caráter está fora de lugar. Charlie a princípio não compreende certas atitudes displicentes da amiga e, embora se chateie, tenta desculpar as desfeitas da outra em nome de um sentimento que, em determinado ponto, parece ir muito além de uma simples amizade entre duas adolescentes. Porém, a tensão entre as expectativas de Charlie e o comportamento de Sarah, que rapidamente se revela abertamente maldoso e hostil, vai aumentando, até ficar claro, para a primeira, que Sarah estava longe de ser a pessoa que ela a princípio idealizara e cuja verdadeira personalidade conhecerá a duras penas.

As meninas, a mãe e a tia de Charlie viajam juntas em um feriado e o comportamento
de Sarah começa a revelar que ela está longe de ser digna do afeto da amiga.

Em determinado momento, é inevitável nos perguntarmos por que a jovem se deixa humilhar pela outra, assim como também é inevitável imaginar que essa postura nada mais seja do que um reflexo daquela de sua mãe, uma mulher completamente desprovida de autoestima que perdoa as cafajestagens do marido.

À medida que as maldades e o desequilíbrio de Sarah se escancaram e Charlie, inexplicavelmente, não apresenta qualquer capacidade de reagir, a raiva que sentimos por sua ausência de amor-próprio vai aumentando até culminar em um desfecho inevitavelmente trágico.

Embora esteja fora do circuito dito comercial, 'Respire' é um filme muito bom que certamente deve agradar aos fãs de um cinema maduro e reflexivo que foge às soluções rasteiras que infestam boa parte das atuais produções cinematográficas - notadamente as norte-americanas.

Atualmente, RESPIRE está em cartaz somente no Caixa Belas Artes. Se você puder assistir, vale a pena. Mas respire bem fundo antes!

Ficha Técnica Parcial

Direção: Mélanie Laurent

Elenco: Joséphine Japy (Charlie), Lou de Laâge (Sarah), Isabelle Carré (mãe de Charlie), Radivoje Bukvic (pai de Charlie), Roxane Duran (Victoire, amiga de Charlie) e outros.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Andanças em Campos do Jordão: a paz e a alegria das pequenas coisas.

Quem me conhece um pouco sabe que fujo de lugares lotados como o capeta foge da cruz. É por isso que raramente tiro férias ou viajo na alta temporada. E é por essa razão, também, que só visito cidades como Campos do Jordão fora dos feriados. Ocorre que, mesmo vazia, Campos raramente está deserta. Sempre há um ou outro casal apaixonado, grupos de amigos ou pessoas que estejam participando de algum evento na região. Nessas horas, a cidade fica uma delícia. Dá para explorá-la com calma, caminhar, apreciar a paisagem nas montanhas ou simplesmente tomar um café tranquilamente no centro de Capivari, sem o risco de não encontrar mesa disponível.

Percorrer as estradas da Mantiqueira já é motivo de felicidade! - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Fora da temporada, o centro de Campos do Jordão é frequentado por gente mais cool e interessante. 

A rua Djalma Forjaz, onde fica a Choperia Baden Baden, é uma delícia fora de temporada - Foto: Simone Catto

Amores-perfeitos também ajudam um dia a ficar perfeito! - Foto: Simone Catto

Em minha mais recente experiência em Campos do Jordão, passei dias tranquilos e felizes, daqueles em que a gente aquieta a mente e o pensamento voa, nos ajudando a refletir sobre o que desejamos e esperamos da vida.

A onipresente Pedra do Baú, que encerra os tesouros de Deus e faz muito bem à alma! - Foto: Simone Catto

E a tarde cai na Av. Macedo Soares, Centro de Capivari - Foto: Simone Catto

O famoso Boulevard Génève, uma minigaleria de lojas a céu aberto
que é um dos ícones de Campos do Jordão e está completando 30 anos.
Foto: Simone Catto

Aproveitei para fazer alguns passeios e conhecer locais onde nunca havia estado. Comecei pela singela Gruta dos Crioulos, um ponto de referência geográfico conhecido por seu folclore e pelo formato curioso da enorme pedra que forma a gruta encravada na montanha. Dizem que ela foi assim batizada por ter abrigado escravos fugidos das senzalas na época do Brasil Colônia. No entanto, devo dizer que achei o local um tanto abandonado. Em frente à escada que sobe para a gruta, do outro lado da rua, havia uma pequena cabana de madeira, uma lanchonete de estrada, que estava fechada. Achei uma pena, pois um ponto para tomarmos água ou café cairia muito bem por ali. A menos, é claro que o lugar só abra na alta temporada - o que também seria uma pena.

A Gruta dos Crioulos - dentro da gaiola, à direita, há uma imagem de Nossa Senhora Aparecida - Foto: Simone Catto.

Detalhe da imagem de Nossa Senhora - pelo menos a santa estava
bem cuidada! - Foto: Simone Catto

Um dia eu quis conhecer o Pico Itapeva, a 2.030 m de altitude. O lugar é bonito e um lago nos saúda na chegada, mas, como o dia estava frio e chuvoso, não havia mais ninguém por ali.

O Lago Itapeva e, adiante, as antenas de transmissão: cenário deserto num dia frio! - Foto: Simone Catto

Embora esteja oficialmente localizado no município de Pindamonhangaba, o pico tem, como único acesso, uma estrada asfaltada que sai de Campos do Jordão. Devido à topografia da região, ele abriga, ainda, antenas retransmissoras de UHF e VHF, além de um laboratório de pesquisas de raios cósmicos montado pela FAB – Força Aérea Brasileira. Soube que, há pouco mais de um ano, havia cerca de 140 barracas de ambulantes no local. Porém, como a área é de preservação ambiental, uma ação da prefeitura de Pindamonhangaba desalojou os ambulantes e desmontou as barracas.

Dizem que, lá de cima, a vista do Vale do Paraíba é esplêndida e que dá para avistarmos 15 cidades. No entanto, o dia extremamente nublado não nos deixou enxergar nada além de nuvens, nuvens e mais nuvens. A vista vai ficar para a próxima!

Essa foi a única vista disponível naquele dia de céu carregado... um emaranhado de nuvens!! - Foto: Simone Catto

E por falar em vistas deslumbrantes, ao visitar o magnífico Parque Amantikir, tive o prazer de cruzar com o ponto culminante ferroviário do Brasil, o Alto do Lajeado, que tem 1.743 metros de altura. Atualmente, a estrada de ferro é apenas utilizada para passeios turísticos de trem até Santo Antônio do Pinhal. Fiz esse passeio há alguns anos e achei realmente uma delícia, é como uma viagem no tempo! Porém, é preciso comprar o bilhete com antecedência para conseguir lugar.

Vista do Alto do Lajeado, ponto culminante ferroviário do Brasil - Foto: Simone Catto

Várias vezes, depois de minhas "pernadas" lá em Campos, parei para tomar café ou comer um doce na Myriam Doceria, à Av. Macedo Soares, no Capivari. Tudo lá é delicioso e fresquinho e as atendentes são gentis, de modo que essas pausas foram altamente reconfortantes naquelas tardes frias.

A Myriam Doceria tem mesinhas na área externa, onde acho mais agradável - Foto: Simone Catto

O café com conhaque aqueceu corpo e alma! Nham... - Foto: Simone Catto

Esse delicioso mil-folhas não era meu, mas adivinhe se experimentei? (rs) Estava ótimo! - Foto: Simone Catto

O espaço interno da Myriam Doceria - Foto: Simone Catto

Se você for a Campos do Jordão e tiver a oportunidade de visitar algum desses lugares, vale a pena! Dê uma passadinha na Gruta dos Crioulos e escolha um dia ensolarado para admirar o Vale do Paraíba do alto do Pico Itapeva – é de graça! Depois, não deixe de tomar um espresso e experimentar um dos deliciosos doces da Myriam Doceria. Você vai ver como prazeres aparentemente simples podem produzir momentos de felicidade que ficam eternizados por toda a vida!



domingo, 4 de outubro de 2015

Choperia Baden Baden, em Campos do Jordão. Sabor e calor que justificam a fama.

Há pouco tempo publiquei alguns posts sobre Campos do Jordão. Em um deles, mostro fotos e conto sobre a aconchegante pousada onde me hospedei, e o tema de outra matéria é o fabuloso Parque Amantikir, um passeio imperdível para os amantes de flores e da natureza. O fato é que há muitos passeios interessantes para se fazer na cidade e a boa notícia é que, depois de tanto bater perna, a gente sempre encontra bons lugares onde forrar o estômago.

Vou começar pela Choperia Baden Baden - não pela fama da casa, que há muito extrapolou as fronteiras de Campos desde que foi inaugurada, há 30 anos, mas porque foi lá que tive o imenso prazer de me regalar com uma delícia que nunca havia visto nem provado em lugar nenhum - pelo menos não no formato oferecido pela choperia.

Trata-se do Queijo Brie Folhado (Brie envolto em massa folhada com geleia de damasco), uma especialidade da casa que, pelas dimensões, vale por uma refeição. É um prato de preparo aparentemente simples, mas que tem um sabor realmente inigualável. Isto se deve grandemente à delicada textura da massa folhada, fininha e crocante, que vem no formato de um grande pastel envolvendo generosas porções de queijo Brie que se derrete lá dentro. A geleia de damasco, servida à parte, dá o toque de magia final. Gostei tanto do prato que sou capaz de fazer um "bate-e-volta" a Campos do Jordão apenas para degustar novamente essa iguaria!

O Queijo Brie Folhado (R$ 47,80), uma especialidade do Baden Baden para se comer de joelhos! - Foto: Simone Catto

Detalhe do generoso recheio de queijo Brie - Foto: Simone Catto

Quem me acompanhava naquela tarde feliz estava a fim de saborear uma das tradicionais cervejas produzidas pela própria Cervejaria Baden Baden e beliscar alguma coisa consistente, optando pela porção de Filé Aperitivo para lá de farta. 

Também pedimos uma Salada da Montanha, que leva folhas verdes, morango, pinhão e parmesão. A salada estava fresquinha e os pinhões maravilhosos, mas achei que poderiam ter caprichado mais na quantidade de parmesão.

Salada Montanha (R$ 25,80) - Foto: Simone Catto

E na hora de beber, como não sou chegada a cervejas (sim, isso existe! Rs), optei por uma caipirinha tradicional de limão que foi servida do jeito que pedi: com cachaça, açúcar e não muito forte. Estava perfeita. O outro pedido da mesa foi a cerveja Baden Baden Cristal

Um cuidado interessante da casa é que, no cardápio, cada prato tem ao lado a indicação da(s) cerveja(s) com as quais se harmoniza, para orientação dos clientes.

Nossas bebidas, perfeitas para uma tarde de comidinhas boas e companhia idem - Foto: Simone Catto

Quem frequenta Campos do Jordão sabe que, além da qualidade dos quitutes e bebidas, o Baden Baden também proporciona uma vista muito interessante do vai-e-vem das pessoas. As mesas ficam em sua maioria no terraço, e dá para observar tranquilamente o movimento na calçada enquanto degustamos nossas bebidas.

Lá da esquina vemos tudo o que passa... - Foto: Simone Catto

À noite, quando a cidade não está muito cheia, a choperia também é superagradável. Foi exatamente essa minha opinião numa noite fria em que o aquecedor ao lado da nossa mesa mal dava conta do recado. Daquela vez, já que a casa tem inspiração alemã, quis experimentar o Misto de Salsichas, uma porção de salsichas grelhadas com molho de mostarda e mel. A porção é generosa, as salsichas são corretas e cumpriram perfeitamente sua função. Gostei.

A porção de salsichas, já desfalcada por bocas famintas... rs - Foto: Simone Catto

Porém, quem quiser se regalar com uma refeição típica da terra de Beethoven, a choperia serve muitos pratos alemães, como o Eisbein 30 anos (Mini joelho de porco defumado, batatas rústicas, repolho roxo e purê de maçã), o Kassler (Bisteca de porco defumada, chucrute e batatas cozidas), e o Chucrute à Garni (Eisbein, kassler, misto de salsichas grelhadas, chucrute e batatas cozidas), além de trutas, fondues, massas e carnes. O fato é que há de tudo para todos os gostos no variado cardápio.

Embora meus acompanhantes tenham optado pela tradicional cerveja, o frio me fez pedir uma garrafinha de 187 ml do tinto chileno Valdivieso Cabernet Sauvignon, que acabou casando muito bem com a porção de salsichas.

Meu vinho ficou na medida certa para aquela noite!
Foto: Simone Catto

Apesar do frio de Campos, a atmosfera é de aconchego, mesmo nas mesas externas - Foto: Simone Catto

Só posso dizer que minhas experiências recentes no Baden Baden foram muito positivas, não apenas pela variedade e qualidade dos itens e bebidas servidos, mas também porque o atendimento foi competente e gentil.

Ainda não conhece? Vá lá! A CHOPERIA BADEN BADEN fica à Rua Djalma Forjaz, 93, loja 10 – Vila Capivari – Campos do Jordão - SP. Acesse: www.obadenbadencom.br. Abre todos os dias, das 11h até o último cliente.

domingo, 27 de setembro de 2015

Pousada Telhado de Ouro, em Campos do Jordão: gentileza e conforto com toque feminino.

Embora minha paixão por Gonçalves, na Serra da Mantiqueira, não seja nenhuma novidade, também gosto muito de Campos do Jordão, desde que seja fora de temporada e longe das multidões  dos feriados.

Em minha mais recente viagem à cidade, no final de agosto, procurei uma pousada que ficasse bem no coração de Capivari, para não precisar pegar o carro à noite para chegar aos principais restaurantes e bares, como o Baden Baden, a Mercearia Campos e outros que ficam lá perto, ao longo da Av. Macedo Soares.

Após uma pesquisa na Internet, encontrei a Pousada Telhado de Ouro, bem no centro de Capivari. Graciosa e extremamente bem localizada, ela é muito bem cuidada nos mínimos detalhes, mostrando um capricho tipicamente feminino. Logo imaginei que havia "mão de mulher" por ali, e não deu outra: quem cuida da decoração, das amenities e outros mimos simpáticos é uma das proprietárias, auxiliada pela gentil e prestativa Carla, a gerente recém-chegada de uma temporada de mais de uma década em Londres. Toda a equipe, aliás, mostrou-se muito atenciosa e competente.

O aspecto exterior da pousada já transmite o clima de aconchego - Foto: Simone Catto

Vista parcial do salão do café da manhã. Ao fundo, à esquerda, a coleção de DVDs que fica ao lado da recepção à disposição dos hóspedes - Foto: Simone Catto

O gazebo, amplamente iluminado por luz natural e extremamente repousante, é um excelente cantinho para leitura!

O delicioso gazebo - Foto: Simone Catto

Cantinho aconchegante do gazebo... basta um livro e mais nada! - Foto: Simone Catto

A pousada é nova, foi inaugurada há cerca de nove anos e tem mais de 25 suítes muito confortáveis e decoradas com bom gosto. Todas têm cama no mínimo queen size, calefação, frigobar, TV com DVD e banheiro com secador de cabelo e piso de mármore aquecido, o que faz toda a diferença em uma cidade com clima frio de serra. Conforme Carla nos relatou, todos os anos o estabelecimento passa por uma reforma ou manutenção, para que suas instalações permaneçam sempre impecáveis.

A suíte onde fiquei é extremamente acolhedora e aconchegante. Ao entrarmos, após o check-in, encontramos um pequeno
mimo, um chocolatinho nos travesseiros - Foto: Simone Catto
  
Vista do terraço de minha suíte - Foto: Simone Catto

Outro ângulo do salão do café da manhã. Ao fundo, à esquerda, há uma sala de estar. E a abertura escura à direita é uma sala
de TV - Foto: Simone Catto

A diária dá direito a um delicioso café da manhã, com pães de queijo quentinhos, pães variados e bolos caseiros produzidos lá mesmo, queijos, frios, geleias, leite, café, suco de laranja e outras coisinhas que dão água na boca. Tudo fresquinho, preparado e arrumado com capricho.

Vista do bufê do café - Foto: Simone Catto

Nham... os bolos e pães caseiros dão água na boca! - Foto: Simone Catto

E aqui, os queijos e frios com o delicioso bolo de laranja ao fundo... - Foto: Simone Catto

O bolo de laranja é um capítulo à parte e mereceu uma foto só dele: macio e levemente umedecido, é uma verdadeira perdição, um dos melhores que já comi!!

O bolo de laranja preparado lá mesmo é dos deuses! - Foto: Simone Catto

Alguns detalhes simpáticos: todos os finais de tarde encontramos chás com biscoitinhos no salão do café, o que é altamente reconfortante na volta dos passeios. E para quem quiser apreciar a magnífica paisagem da Mantiqueira sobre duas rodas, a pousada tem bikes para emprestar. Além disso, à noite, após tomar um vinho no Baden Baden ou em um dos agradáveis restaurantes do Capivari, também podemos escolher um filme da vasta coleção de DVDs que a pousada disponibiliza para emprestar aos hóspedes. Eles ficam expostos numa vitrine ao lado da recepção, e nota-se que não foram escolhidos aleatoriamente: vê-se que são filmes de qualidade, selecionados com critério, e vários fizeram sucesso recentemente nas telas dos cinemas.

Diante de tudo isso, se você pretende ir a Campos do Jordão e se hospedar no Centro de Capivari, super recomendo a POUSADA TELHADO DE OURO, pois minha experiência lá foi ótima em todos os sentidos! O endereço é Rua General Abílio de Noronha, 20. Tel.: (12) 3663-6500.

As tarifas são variáveis dependendo da época do ano e podem ser consultadas no site: www.pousadatelhadodeouro.com.br

Boa viagem!

'Que horas ela volta?', um filme que chegou em boa hora.

Confesso que há um bom tempo eu não me aventurava a assistir a um filme brasileiro. Tenho notado que várias produções nacionais têm pipocado aqui e ali, mas, por alguma razão, não sentia confiança suficiente em sua qualidade. Até porque, infelizmente, tenho pouco tempo disponível para ir ao cinema e, quando isso acontece, acabo invariavelmente optando por um filme que ofereça menos riscos de me decepcionar. Tem funcionado!

Até que, há cerca de um mês, ouvi falar – e bem - de Que horas ela volta?, escrito e dirigido por Anna Muylaert e estrelado por Regina Casé. Primeiro, soube que a película colheu prêmios nos prestigiados festivais de Berlim e Sundance. E depois, gostei do enredo, no qual Regina Casé interpreta Val, uma empregada doméstica que trabalha há muitos anos em uma residência de classe alta do Morumbi. Imaginei que, no mínimo, Casé imprimiria, com muito talento, um toque cômico à interpretação de seu personagem. E realmente não me enganei: a atriz é a melhor coisa do filme, embora eu tenha gostado do resultado como um todo. Mesmo sendo de origem nordestina, Regina teve aulas de prosódia com uma professora para aprimorar seu "pernambuquês", isto é, incorporar o sotaque, o tom e as expressões usadas naquele Estado, e o resultado ficou muito bom.

O casal de patrões de Val e o filho adolescente, interpretados por Lourenço Mutarelli, Karine Teles e Miguel Joelsas.

Não há como negar: o filme mostra um retrato muito fiel da forma como se relaciona boa parte das empregadas e patroas da elite brasileira. A separação de classes é muito clara. Val é uma pessoa bem ajustada (ou resignada?) à sua condição, parece gostar do que faz e tem um vínculo de carinho maternal com Fabinho, o filho adolescente da casa que viu nascer e crescer e que solicita mais sua companhia do que a da própria mãe. No entanto, o espaço que lhe é destinado – e que ela se permite ocupar - na residência é restrito e está em franco contraste com o padrão de vida da família: a empregada dorme em um quartinho minúsculo sem ventilação e não se atreve sequer a sentar na mesma mesa de refeições, na cozinha, utilizada pelos patrões.

Val (Regina Casé) e Fabinho quando pequeno: a empregada e o filho dos patrões nutrem um pelo outro 
um afeto genuíno desde o nascimento do menino. 

O menino cresce e sente-se mais próximo da empregada do que da própria mãe.

As coisas começam a se complicar quando a filha de Val, Jéssica, chega de Pernambuco para prestar vestibular de Arquitetura na USP. Sim, embora de origem humilde, a menina é inteligente, bem articulada e, de alguma forma, teve chance de estudar. Por isso mesmo, não compreende - e tampouco aceita - a diferença de condições que constata ao comparar a forma como vivem sua mãe e os patrões. Em determinado momento, Jéssica questiona, por exemplo, por que Val nunca ousou entrar na piscina da residência onde trabalha. E para horror da mãe, que afirma ter nascido sabendo "onde é o seu lugar", começa a tomar certas liberdades na casa, no que é abertamente incentivada por Carlos, o patrão, que nutre pela garota intenções para lá de dúbias. A partir daí, os estranhamentos e conflitos gradativamente aumentam, sejam entre Jéssica e Bárbara, a patroa, ou entre Jéssica e a própria mãe.

Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, questiona a mãe a todo momento sobre sua condição.

Como afirmei anteriormente, achei o filme bom e posso dizer que, no mínimo, ele suscita uma reflexão sobre as relações servis de trabalho no Brasil que pode incomodar os olhares mais atentos. Vá conferir!

O filme está em cartaz em vários cinemas de São Paulo, entre os quais o Caixa Belas Artes, Espaço Itaú de Cinema Augusta, Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca e Reserva Cultural.

Ficha técnica parcial

Direção: Anna Muylaert

Elenco: Regina Casé (Val), Camila Márdila (Jessica), Michel Joelsas (Fabinho), Karine Teles (Bárbara) e Lourenço Mutarelli (Carlos) e outros.

domingo, 13 de setembro de 2015

'A Dama Dourada': um bom começo para conhecer a saga da Mona Lisa da Áustria.

De uns anos para cá, a imprensa tem noticiado vários casos de restituição de obras de arte a famílias judias, após a comprovação de que elas haviam sido pilhadas pelos nazistas durante a II Guerra Mundial. Muitas dessas obras se encontravam em grandes museus europeus e, após longos processos judiciais, foram devolvidas aos herdeiros de judeus que haviam sido espoliados de seus bens, muitos dos quais mortos em campos de concentração.

Apenas na França, 100 mil pinturas foram roubadas pelos nazistas, que também confiscaram cerca de 500 mil móveis e mais de 1 milhão de livros manuscritos. O principal alvo de Hitler eram as grandes coleções, e a família que mais sofreu perdas foi a dos tradicionais banqueiros Rothschild, que teve mais de 5.000 obras de arte confiscadas.

Depois da guerra, boa parte das obras foi restituída a seus legítimos donos graças ao trabalho dos Aliados, que criaram, em 1943, o destacamento 'Monumentos, Obras de Arte e Arquivos', especialmente dedicado a essa tarefa. Esse grupo de oficiais de elite de resgate, conhecido como 'The Monuments Men', era formado por militares franceses, canadenses, britânicos e americanos. Mesmo assim, do montante roubado na França, acredita-se que cerca de 25.000 obras ainda não tenham sido restituídas aos legítimos herdeiros.

A jovem Maria Altmann, ainda feliz no seio
de sua família.
A judia Maria Altmann (1916-2011), nascida Maria Bloch-Bauer, não era francesa, mas austríaca. Membro de uma abastada família que vivia em Viena, ela levava uma vida feliz até os nazistas fecharem cada vez mais o cerco na cidade e finalmente atingirem sua família. A fascinante trajetória de Maria, interpretada por Helen Mirren, é tema do filme A Dama Dourada, em cartaz nos cinemas de São Paulo. Pouco depois de se casar, Maria conseguiu fugir para os Estados Unidos com seu marido, Fritz Altmann. Seus pais ficaram no país e, provavelmente, morreram em campos de concentração.

No filme vemos Maria estabelecida em Los Angeles, já idosa, proprietária de uma butique que vende roupas finas femininas. No ano de 1998, ela resolve reaver obras de arte que pertenciam à sua família e haviam sido pilhadas pelos nazistas. Mais do que o dinheiro, é a necessidade de justiça que a motiva. Com o auxílio do jovem advogado americano Eric Randol Schoenberg, também judeu e neto do compositor Arnold Schoenberg, mestre do dodecafonismo, ela inicia um processo judicial contra o governo da Áustria. Seu objetivo: recuperar cinco telas de autoria de Gustav Klimt (1862-1918), entre as quais se destacava a mítica A Dama Dourada, primeiro retrato que o artista fez de Adele Block-Bauer (1881-1925), sua tia. Além do advogado, Maria conta com a ajuda de Hubertus, um jornalista austríaco que se solidariza com sua causa.

Acima, Maria e Fritz, seu marido na vida real. E abaixo, os atores que interpretam
o casal  no filme: Max Iron e Tatiana Maslany.

Gustav Klimt - 'Retrato de Adele Bloch-Bauer I' ou 'A Dama Dourada' (1907). O mítico retrato da tia foi a principal obra que Maria Altmann tentou recuperar.

Adele Block-Bauer, a musa do retrato e tia de Maria.

Maria Altmann com seu advogado, Eric Randal Schoenberg, neto do compositor que revolucionou a música com a criação da escala dodecafônica.

Helen Mirren, intérprete de Maria Altmann, ao lado de Ryan Reynolds, que fez o papel do advogado no filme.
E ao fundo, ela mesma: Adele Bloch-Bauer exuberantemente retratada por Gustav Klimt - Foto: Robert Viglasky

Adele pertencia a uma influente família de banqueiros e morava em um apartamento na Elisabethstrasse, uma das mais imponentes avenidas de Viena. A casa dos Block-Bauer era ponto de encontro da elite cultural da cidade e Klimt começou a frequentá-la quando Adele ainda era jovem. O artista, no entanto, já era um dos maiores nomes da escola Art Nouveau de Viena e tinha fama de sedutor. Consta que pintava de três a quatro telas ao mesmo tempo, de manhã até a noite, e mantinha casos amorosos com várias modelos e clientes que circulavam por seu ateliê. As damas da sociedade faziam fila para ser pintadas por Klimt. Um crítico da época até escreveu: "Às vezes, não era seguro para a reputação de uma senhora da alta sociedade ter seu retrato pintado por Klimt. Desde logo, elas podiam adquirir a fama de ter tido um caso com o mestre, conhecido pelas suas vergonhosas relações com as mulheres."

Adele em foto tirada em c. 1910.

Ferdinand Bloch-Bauer, um industrial do açúcar e marido de Adele, parecia não temer a fama do artista conquistador e conseguiu convencê-lo a receber sua esposa, que era fã do pintor desde a adolescência. Em 1907, após quatro anos de trabalho, Gustav Klimt finalizou o exuberante Retrato de Adele Block-Bauer I e, em 1912, terminou uma segunda pintura da moça. Utilizou tinta a óleo, prata e folhas de ouro para retratar a tia de Maria Altmann com um verdadeiro esplendor, repleta de ornamentos dourados e joias. 

O segundo retrato de Adele feito por Gustav Klimt, finalizado em 2012.
Essa pintura também foi encomendada pelo marido da moça.

O magnífico colar em torno do pescoço de Adele, que aparece na pintura 'A Dama Dourada', seria dado a Maria posteriormente por um tio, como presente de casamento. Pouco depois da anexação da Áustria pelo Terceiro Reich, em 1938, quando o apartamento da família na Elisabethstrasse foi invadido e sua coleção de arte apreendida, o colar de Adele acabou nas mãos de Emmy, mulher de Hermann Göring, o comandante da Força Aérea Alemã e segundo homem na hierarquia nazista.

Adele foi a única mulher pintada mais de uma vez por Klimt e suspeita-se que tenham mantido um romance, dada a fama de conquistador do artista. Dizem que a figura feminina seminua com expressão de êxtase na pintura Judith I, de 1901, é na realidade um retrato de Adele, que teria 20 anos à época. Além da semelhança física, o colar no pescoço da modelo parece ser o mesmo que está no pescoço de Adele no famoso primeiro retrato encomendado por seu marido.

Gustav Klimt - Judith I (1901) - seria Adele?

Aos poucos, algumas poucas damas dos círculos intelectuais começaram a usar as arrojadas roupas largas e as estampas vibrantes dos vestidos das telas de Klimt como uma atitude de liberação. A estilista que os criava chamava-se Emilie Flöge, uma austríaca à frente de seu tempo que também era próxima de Klimt e, adivinhe... suspeita-se que também tenha sido amante do artista. É, o homem não deixava escapar um rabo de saia! 

A estilista Emilie Flöge vestindo uma de suas criações. Note a padronagem de losangos,
semelhante àquela do vestido usado por Adele em 'A Dama Dourada'.

Emilie Flöge e Gustav Klimt: "muy amigos"!

Em 1943, as obras de arte de Klimt que haviam sido roubadas fizeram parte de uma exposição. Nessa ocasião, o retrato de Adele foi rebatizado de 'A Dama Dourada' pelos organizadores, a fim de ocultar as raízes judaicas da obra.

Adele morreu de meningite em 1925, antes do início da II Guerra, e tinha apenas 43 anos. Em seu testamento, expressou o desejo de que o quadro fosse para a Galeria Nacional do Belvedere, em Viena – e lá ele permaneceu até 2006. Considerado como "a Mona Lisa austríaca", ele era grande motivo de orgulho para o museu e para a Áustria.

Maria Altmann ganhou o processo contra o governo austríaco tomando como base o fato de que a pintura não chegou legalmente ao museu, já que fora incorporado ao acervo após ser roubado de sua casa pelos nazistas, e não após a morte dos herdeiros legais de sua tia Adele. Em 2006, ela vendeu a obra para Ronald Lauder, acionista da famosa indústria de cosméticos Estée Lauder e cofundador da Neue Galery, de Nova York, por US$ 135 milhões - o maior valor pago por uma pintura até então. A saga de Maria Altmann e a história de Adele Bloch-Bauer, bem como suas relações com Gustav Klimt, são descritos no livro 'A Dama Dourada – Retrato de Adele Bloch-Bauer', de autoria da jornalista Anne-Marie O'Connor. Vale conferir!

Maria Altmann, após ganhar o processo contra o governo austríaco, ao lado do quadro que mostra sua bela e inesquecível tia Adele.

E no filme, a cena da vitória de Maria no tribunal.

Embora Helen Mirren seja inglesa, vê-la interpretando uma austríaca no filme 'A Dama Dourada' não me causou estranhamento, até porque considero-a uma excelente atriz, além de supercarismática. Dizer que o filme é excepcional seria exagero, mas posso classificá-lo como um bom filme. A história baseada em fatos reais é fascinante, o elenco cumpre seu papel, a produção é caprichada e, é claro, temos Lady Mirren. Recomendo, sobretudo como um ponto de partida para você conhecer mais a fundo a história de Gustav Klimt e sua relação com essas mulheres apaixonantes!

Ficha técnica parcial

Direção: Simon Curtis
Produção: EUA / Inglaterra
Elenco: Helen Mirren (Maria Altmann), Ryan Reynolds (Eric Randal Schoenberg), Tatiana Maslany (Maria Altmann jovem), Max Irons (Fritz Altmann), Daniel Brühl (Hubertus Czernin), Antie Traue (Adele Bloch-Bauer), Danielben Miles (Ronald Lauder)