segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pâtisserie Douce France, um doce e raro deleite.

Normalmente, não faço muita questão de doces. Não sou o tipo de pessoa "formiga", que sente fissura por chocolates, bolos ou qualquer coisa do gênero. No entanto, como todo mortal comum, é claro que de vez em quanto "bate" uma vontade de comer um doce! Mas quando isso acontece, acabo priorizando aqueles de que realmente gosto. E se estiverem acompanhados de um cafezinho, melhor ainda! É assim que fui parar na Pâtisserie Douce France, onde pude compartilhar esse duplo prazer com uma amiga muito querida. São Paulo deveria ter mais locais como aquele!

Foto: Simone Catto

A vista de nossa mesa: enquanto saboreamos as guloseimas e tomamos nosso café, pudemos papear calmamente observando o movimento da rua! - Foto: Elaine Xavier

Localizada nos Jardins, a pâtisserie foi inaugurada há mais de dez anos pelo mestre pâtissier Fabrice Lenud, um verdadeiro mago que já trabalhou com Paul Bocuse e tem passagens por restaurantes e hotéis estrelados no Brasil e no exterior.

A melhor forma de escolher o doce é dar uma olhada nas vitrines, o que, diga-se de passagem, é uma tarefa um tanto árdua. Primeiro, pela quantidade de guloseimas por ali. E segundo, pelo visual e pela delicadeza dos doces. A Pâtisserie tem uma infinidade de docinhos, chocolates, bolos, tortas, viennoiseries (pães doces), os tradicionais macarrons, salgados e sorvetes, entre outras delícias que mereceriam muitas visitas.

Como resistir??? - Foto: Simone Catto

Nesta vitrine vemos duas guloseimas tradicionais da pâtisserie francesa: os macarrons e uma versão reduzida das Bûches de Noël, uma sobremesa típica do Natal - Foto: Simone Catto

Para que pudéssemos experimentar mais de um sabor, optamos por dois minidoces cada uma. O docinho em formato de cisne é de uma delicadeza só! É uma espécie de uma carolina de creme tão leve, mas tão leve, que quase derrete na boca. O outro que experimentei foi o éclair de café, também levíssimo e saboroso.

Em sentido horário: a carolina cisne, o éclair de café, uma espécie de tortinha de chocolate e outra de maçã - Foto: Simone Catto

Como visitamos a casa em plena época de Natal, a vitrine exibia as famosas Bûches de Nöel ("Troncos de Natal"), um rocambole doce em formato de tronco de árvore, tradicional sobremesa natalina na França e em outros países francófonos. O formato de árvore é derivado de uma celebração do solstício de inverno e de ritos pagãos que remontam à Idade Média, quando, às vésperas do Natal, os camponeses queimavam um tronco de árvore frutífera que deveria arder até o ano novo, a fim de atrair boas colheitas. Em algumas regiões, o tronco era regado com vinho para atrair boas safras, ou com sal, para espantar as feiticeiras. Bem, com ou sem feiticeira, as Bûches de Noël da Douce France literalmente enfeitiçam a gente!  

As tradicionais Bûches de Noël, festa para os olhos e para o paladar! - Foto: Simone Catto
  
As Bûches de Noël também são vendidas na versão individual, para quem quiser experimentar - Foto: Simone Catto

O ambiente da casa é arejado e agradável, um convite para ficarmos ali horas e horas tomando café ou experimentando os docinhos, que custam R$ 5,40 cada (o pequeno). Na ocasião, fomos atendidas por um funcionário extremamente gentil, o que também muito contribuiu para que ficássemos com desejo de retornar em breve!

Outro ângulo do agradável ambiente, arejado e extremamente convidativo - Foto: Simone Catto

Quer experimentar também? A PÂTISSERIE DOUCE FRANCE fica na Alameda Jaú, 534 - Jardins. Tels.: (11) 3262-3542 / 2589-4375 – www.patisseriedouce.france.com.br.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Ainda é tempo! Se você não assistiu a 'Boyhood', a hora é agora.

Um drama familiar rodado ao longo de doze anos, e com os mesmos atores, é, no mínimo, um formato inusitado para um filme. Isso, por si só, já despertaria a curiosidade para que pelo menos déssemos uma espiada nele. E se, além disso, o filme tivesse um belo roteiro valorizado por uma boa direção, não daria mesmo para perder. Pois é exatamente isso o que acontece com Boyhood, produção americana de 2014 que fez sucesso no Festival de Berlim e é dirigida por Richard Liklater, que entre 2002 e 2013 reuniu um elenco enxuto para alguns dias de gravações. Consta que, nesse período, Linklater realizava reuniões anuais para debater o roteiro e, a partir dali, gravava pequenas sequências de cenas.

Ellar Coltrane, o protagonista, em dois momentos do filme.

Ellar Coltrane interpreta Mason, o protagonista que começa o filme como um lindo e vivaz garoto de 5 anos e o termina já mocinho, aos dezoito. Quem interpreta sua mãe, Olivia, é Patricia Arquette, irmã de Rosana Arquette, estrelinha cult dos anos 80 que atuou em sucessos como 'Depois de Horas' e 'Procura-se Susan Desesperadamente', ambos de 1985.

O registro das mudanças físicas de Ellar Coltrane ao longo do filme.

Olivia é separada do marido (Ethan Hawke), um tipo ausente e um tanto irresponsável, e também mãe de Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor). A passagem do tempo se desenrola de forma muito sutil ao retratar o drama de Mason ainda criança, quando sua mãe resolve se casar novamente e o padrasto revela-se um homem alcoólatra e repressor. Olivia se separa também desse marido, pega as crianças e muda-se, como o faz várias vezes durante o filme, na tentativa de dar uma vida decente para si e para os filhos. E assim, mudando tantas vezes de casa, de escola e até de estado, Mason torna-se adolescente, vivenciando a curiosidade, as decepções e muitos outros sentimentos típicos dessa fase, até entrar para a universidade. O diretor se apropria das mudanças físicas e emocionais de seu jovem protagonista durante todo o período e consegue extrair o melhor do garoto.

Olivia, (Patricia Arquette), Mason (Ellar Coltrane) e a irmãzinha Samantha (Lorelei Linklater),
ainda na fase da infância do protagonista.

Mason e o pai (Ethan Hawke) ainda jovem, na infância do garoto.

E aqui, Mason adolescente com o pai, mais maduro.

Mason e Samantha, interpretada pela filha do diretor, agora também adolescente.

Mason descobre as garotas...

Parte do encanto do filme deve-se ao fato de ele não abordar grandes tragédias existenciais, mas as batalhas cotidianas vivenciadas pela criança e, depois, pelo jovem adulto. São situações simples e dramas que poderiam ocorrer a qualquer um de nós e que, por isso mesmo, possuem uma dimensão universal, gerando identificação por parte de um público das mais diversas procedências. Não há uma grande mensagem final, uma conclusão moralizante ou o que quer que seja: o que vale, aqui, é simplesmente contar a aventura de uma existência.

BOYHOOD estreou aqui no final de outubro de 2014 e, atualmente, está em cartaz em apenas duas salas de Sampa: Cine Livraria Cultura 1 e Cidade Jardim Cinemark 6. Se eu fosse você, nem pensaria duas vezes: optaria pelo primeiro, um cinema superconfortável que ainda por cima tem o charme da Av. Paulista, com vários cafés e restaurantes cool nas imediações.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

'Relatos Selvagens'. O confronto do homem com seu limite num filme como poucos.

Em se tratando de cinema, temos mesmo de tirar o chapéu para nossos hermanos argentinos: não é de agora que eles estão arrasando com filmes que, se comparados à média da produção brasileira, ganham disparado em sofisticação e inteligência. São filmes profundos, muito bem realizados, com temáticas complexas e grandes elencos. Que cinéfilo não se lembra do magnífico 'O Segredo de seus Olhos', produção de 2009 de Juan José Campanella com o não menos magnífico Ricardo Darín?

'Relatos Selvagens' (Relatos Salvajes), de Damián Szifron, também tem Darín no elenco e está dando um show nas salas de São Paulo após abrir nossa Mostra Internacional de Cinema com grande sucesso. O filme foi a única produção latino-americana a entrar para a competição oficial do Festival de Cannes, sendo fortemente aplaudido e, além disso, concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro. A produção é de ninguém mais, ninguém menos que Pedro Almodóvar e seu irmão Augustín, que aparecem nos créditos. O elenco é excelente. Diante de tudo isso e principalmente do que vi na telona, dá para entender por que 'Relatos Selvagens' foi o longa mais visto na Argentina em 2014.

O filme pode ser classificado como uma mistura de drama e humor negro, destilados com sofisticação em seis histórias que têm, em comum, protagonistas que perdem a cabeça e decidem fazer a justiça com as próprias mãos diante de situações extremas e/ou surreais, porém não necessariamente inverossímeis, dado o grau de desequilíbrio de boa parte da humanidade hoje em dia.

Detalhe importante: lá não há histórias mais ou menos boas – todas mantêm o mesmo altíssimo padrão de qualidade, o que é raro ocorrer nos filmes ditos de 'antologia', isto é, constituídos por vários episódios. No primeiro, genial e o mais fantasioso de todos, um músico frustrado e traumatizado que sofreu bullying consegue reunir seus antigos desafetos em um voo de avião para realizar sua vingança. Depois há a garçonete que topa, no restaurante onde trabalha, com o mafioso que arruinou sua família, e surge também uma oportunidade de revanche. Há a história de uma briga de trânsito em uma estrada no meio do nada, entre um playboy de Audi e um motorista remediado, que descamba para uma violência descomunal.

Rita Cortese e Julieta Zylberberg interpretam a cozinheira e a garçonete do restaurante onde esta vê o homem que havia arruinado sua família. Quem incentiva a vingança é a cozinheira, que já passou uma temporada na cadeia.

Leonardo Sbaraglia e Dario Grandinetti interpretam os personagens da briga de trânsito que descamba em tragédia.

O episódio protagonizado por Ricardo Darín mostra uma situação que poderia muito bem ter se passado no Brasil: o cidadão tem o carro guinchado e é multado injustamente por estacionar em um local que não tem sinalização de proibido. Só que Darín, no papel de um engenheiro bem-sucedido que está a caminho de casa com o bolo de aniversário da filha pequena, chega a seu limite diante da injustiça da situação, da burocracia infernal e da displicência dos funcionários que o atendem (não, o filme não é brasileiro... ) Não bastasse ter que arcar com uma multa por uma falta que não cometeu, o homem chega atrasado para a festa de aniversário da filha, o que desencadeia uma sucessão de tragédias em sua vida.

Darín, como o pobre engenheiro que não consegue chegar a tempo para o aniversário da filha devido à burocracia insana.

Uma das histórias mostra o drama de um milionário que deve comprar meio mundo – policiais, peritos, advogados e até o jardineiro, para tentar livrar da cadeia o filho que atropelou uma mulher grávida e fugiu. Também aqui, aliás, qualquer semelhança com a "pátria-amada-idolatrada-salve-salve" não é mera coincidência. Por fim, temos a história de uma noiva judia que surta ao descobrir a traição do marido em plena festa de casamento - uma celebração digna de 'Facebook', feérica e dispendiosa, onde todos parecem artificialmente alegres, legais, radiantes e muuuito felizes por compartilhar da felicidade da noiva.

Erica Rivas está excepcional como a noiva que descobre ser traída no dia de seu casamento e enlouquece.

O tom tragicômico adotado no filme foi um grande acerto do diretor que, além de Darín, selecionou um elenco de primeira. Apesar de divertir pelo absurdo de algumas situações aparentemente inverossímeis, o filme suscita reflexões ao nos darmos conta de que muitas delas não são absolutamente implausíveis e poderiam perfeitamente se passar diante de nosso nariz. Sem exagero, esse é um dos melhores filmes que já vi nos últimos tempos. Simplesmente imperdível! 

Ficha técnica parcial

Direção: Damián Szifron

Elenco: Ricardo Darín, Darío Grandinetti, Oscar Martínez, Diego Gentille, Julieta Zylberberg, Leonardo Sbaraglia, Rita Cortese, Erica Rivas e outros.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

'Magia ao Luar'. Diversão charmosa e vintage bem ao estilo de Woody Allen.

Nem tudo o que Woody Allen produz é grande, mas mesmo seus filmes menores são no mínimo bons e melhores do que muitos que estão em cartaz por aí. Sobretudo quando ambientados em um universo retrô tão ao gosto do cineasta, como é o caso de 'Magia ao Luar', sua mais nova comédia romântica.

O filme tem um enredo "bonitinho", por assim dizer. De cara, somos capturados por uma fotografia e uma trilha sonora magníficas. Ambientado nos anos 20, 'Magia ao Luar' conta a história de Stanley (Colin Firth), um famoso mágico que se apresenta caracterizado como chinês e é chamado, por um amigo, para desmascarar uma suposta falsa médium, uma bela jovem chamada Sophie (Emma Stone).

Stanley (Colin Firth) caracterizado como o mágico chinês.

A suposta farsante Sophie (Emma Stone) e o cético Stanley, chamado para desmascará-la. Ao fundo, uma amostra da linda cenografia do filme.

Aos poucos, Sophie começa a convencer Staley de seus "poderes" e o casal vai se aproximando.

Por sua alegada vidência e poderes de contatar os espíritos, Sophie, sempre acompanhada da mãe, vira uma espécie de "queridinha" dos milionários da Riviera Francesa, levando, com suas sessões espíritas, um pouco de consolo às ricas viúvas em suas mansões. Stanley, um homem cético e descrente de quaisquer manifestações de caráter sobrenatural, pouco a pouco vai se deixando envolver pela jovem, o que, naturalmente, já seria de se supor.

O casal em um dos luxuosos bailes da Riviera.

Sophie comanda a sessão espírita em que a rica viúva Grace (Jackie Weaver) chama pelo falecido marido.

Brice (Harrish Linklater), o rico e apaixonado filho da viúva, também se encanta com Sophie, mas é desafinado de dar dó... rs.

Não espere um filme com altos e baixos e tampouco sobressaltos de emoção, mas momentos agradáveis em uma sala de cinema. 'Magia ao Luar' agrada no enredo, na atuação do elenco, nos belíssimos cenários, nas encantadoras paisagens do sul da França e, conforme mencionei anteriormente, em sua charmosa trilha sonora de hits dos 'swinging' anos 20. Sim, 'Magia ao Luar' é um filme esteticamente encantador. E isso, por si só, já merece atenção. O filme infelizmente saiu de cartaz dos cinemas de Sampa, mas, se você tiver a possibilidade de vê-lo em outro lugar, vale a pena!

Ficha técnica parcial

Direção: Woody Allen 

Elenco: Colin Firth, Emma Stone, Jackie Weaver (Grace, uma viúva milionária), Harrish Linklater (Brice, filho da viúva), Eileen Atkins (Tia Vanessa) e outros.

domingo, 26 de outubro de 2014

Os segredos dos vinhos da Bourgogne por Guillaume Turbat, no Empório Adega Pelotas.

Há algumas coisas que realmente me dão prazer nessa vida, como tomar um bom vinho e aprender algo novo. Quando consigo juntar ambas, então, tenho o melhor dos mundos! E assim fui parar em mais uma aula sobre vinhos, desta vez no Empório Adega Pelotas, na Vila Mariana.

O Empório Adega Pelotas, local do curso  - Foto: Simone Catto

Nosso professor foi o jovem e simpático sommelier francês Guillaume Turbat, da distribuidora e escola Chez France, que nos desvendou alguns mistérios dos tintos e brancos da região de Bourgogne, classificados entre os melhores do mundo por sua constância de qualidade, sutileza e elegância.

É realmente impressionante como um pedaço de terra relativamente pequeno – cerca de 175 km² – possa conter tanta complexidade de terroirs. Vale reforçar que os terroirs são definidos pelas características dos climats (também conhecidos como lieux-dits, parcelas delimitadas de solo com condições geológicas e geográficas específicas) e pelo modo de cultivo pelo homem. Extremamente fragmentada, a região tem mais de 100 AOC, (Appellation d’Origine Contrôlée), cerca de 28.000 hectares de vinhedos e aproximadamente 3.800 vinícolas, sendo que só 20% possuem mais de 20 hectares. A mundialmente famosa Domaine de la Romanée-Conti, por exemplo, tem menos de 0,8 hectares, acredite! Sim, a Bourgogne é totalmente "fatiada", por assim dizer.

Nosso professor, Guillaume Turbat, a postos para iniciar a aula que teve uma deliciosa
degustação de vinhos borgonheses - Foto: Simone Catto

Guillaume nos explicou que tamanha complexidade e diversidade têm origem lá atrás, na Idade Média, quando os monges beneditinos começaram a cultivar as vinhas e iniciaram essa hierarquização do solo até o século XI. Quatro séculos mais tarde, os Duques de Bourgogne, que tinham preferência pelas uvas Chardonnay e Pinot Noir, intensificaram o cultivo dessas cepas, dando origem a uma tradição que se tornou característica da Bourgogne: quase a totalidade dos vinhos tintos produzidos lá são feitos somente com uva Pinot Noir, e quase todos os brancos levam apenas a Chardonnay.

Em nossa aula, tivemos a oportunidade de degustar dois vinhos brancos e três tintos. Dos brancos, destaco o delicioso Chablis do Domaine Maurice Lecestre, safra 2012, fresco e cheio de personalidade. Entre os tintos, meu preferido foi o Domaine Yves Girardin Santenay – 1er Cru La Maladière, safra 2011, com um toque de frutas vermelhas e saborosíssimo. Para quem quisesse levar algum para casa, todos os rótulos degustados estavam disponíveis na Adega por preços que variavam entre R$ 70,00 e R$ 159,00.




A próxima aula no EMPÓRIO ADEGA PELOTAS, também ministrada por Guillaume Turbat, abordará champanhes e espumantes e será realizada no dia 8 de novembro (sábado), das 10h30 às 12h30. Se você também aprecia o prazer e a delicadeza da bebida mais festiva do mundo, vale a pena participar! A aula custa R$ 130,00 e o endereço é Rua Pelotas, 299F - Vila Mariana. Tels.: 3744-8860 / 5082-5106 – www.adegapelotas.com.br. Tim-tim!

sábado, 25 de outubro de 2014

31ª Bienal de Artes de São Paulo: como falar de uma arte que não existe.

Em dois anos tudo pode piorar. Não, não estou falando da crise de abastecimento de água em São Paulo. Tampouco estou me referindo ao trânsito cada vez mais caótico dessa cidade insana. Estou falando de arte, mesmo. Mais precisamente, da 31ª Bienal de Artes de São Paulo, cuja temática é, sintomaticamente, 'Como (...) coisas que não existem'. Assim mesmo, com esses parênteses no meio. Só que, para mim, o que não existe por lá é arte. Soa polêmico? Sim, naturalmente. Mas cada um tem o direito de emitir sua opinião, e é disso mesmo que vou falar.

Foto: Simone Catto
Dois anos atrás, escrevi uma resenha neste blog sobre a edição anterior desse importante evento das artes que a cidade de São Paulo sedia desde 1951 e que está entre os mais respeitados do mundo. Na ocasião, em 2012, questionei seriamente se tudo o que havia visto e presenciado no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, poderia ser classificado como arte, ou se boa parte das obras lá expostas não constituiriam tão somente meras expressões da individualidade de um sujeito. Mesmo assim, naquele ano algumas obras chamaram minha atenção pela forma criativa, bela ou pungente como transmitiam uma ideia ou propósito.

Desta vez, no entanto, saí da 31ª edição da Bienal com a sensação de ter presenciado um grande engodo. É triste, mas é verdade. Mentir para quê? Posso dizer, com todas as letras, que não vi uma só obra que tivesse me impactado de maneira positiva ou significativa, mesmo que fosse para transmitir um protesto, uma mensagem política ou uma catástrofe. Sim, porque coisas feias podem ser ditas de formas bonitas. Ou, melhor dizendo, podem conter uma estética peculiar que impacta o receptor de alguma forma. No caso da 31ª Bienal, essa estética poderia ser traduzida, por exemplo, em obras realizadas com materiais criativos ou inusitados e/ou dispostos em uma composição curiosa ou visualmente interessante. Tudo o que não vi por lá. E vale ressaltar que essa percepção não foi só minha, os amigos que me acompanharam na visita sentiram o mesmo. Foi impossível não notar, inclusive, a quantidade de espaços vazios no Pavilhão. De cara, deu para sentir que o número de obras expostas é bem inferior ao da edição de 2012, o que foi corroborado no momento em que fui comparar os dados dessas duas últimas Bienais: a de 2012 teve 3.000 mil obras de 111 artistas. E esta tem cerca de 250 obras pertencentes a 82 projetos de criação individual ou coletiva.

E assim se fez o vazio... cadê as obras que deveriam estar aqui? - Foto: Simone Catto

Segundo o principal curador desta edição, o escocês Charles Escher, "esta não é uma Bienal fundada em objetos de arte, mas em pessoas que trabalham com pessoas que, por sua vez, trabalham em projetos colaborativos com outros indivíduos e grupos...". Ora, se o próprio curador afirma que "esta não é uma Bienal fundada em objetos de arte", certamente não estou errada ao dizer que não vi arte por lá, correto? E qual o objetivo desses projetos aos quais ele se refere? Retratar as diversas "convulsões" que ocorrem agora pelo mundo, seja no âmbito social, cultural, político ou religioso. Vamos convir que convulsões é o que mais existe em nosso conturbado planeta. Sobretudo porque atualmente somos muito mais bem-informados sobre o que ocorre em qualquer parte. No entanto, repito, na mostra não há uma só obra - ou "projeto" - que, a meu ver, transmita o impacto de quaisquer dessas convulsões de forma criativa.

Foto: Simone Catto
Para começar, o que mais se vê na 31ª Bienal são vídeos. Sim, eles proliferam de forma assombrosa a cada edição do evento. Há vídeos de tudo quanto é tipo. Alguns retratam experimentos de artistas, outros protestam contra a injustiça sofrida por determinados povos, outros denunciam catástrofes ambientais, e por aí vai. Ocorre que não é de agora que questiono a adequação do formato "vídeo" para uma exposição de arte. Posso até ser chamada de herege por alguns, mas vídeos a gente assiste no conforto do lar ou diante de uma tela de cinema. Até por uma questão de comodidade. Aliás, toda vez que entro em uma daquelas salas escuras da Bienal para assistir a um vídeo em pé, minha pressão cai e fico zonza. Meus amigos são testemunhas! E tem outra: grande parte dos vídeos que são exibidos por lá poderiam ser classificados tranquilamente como documentários. E é inegável que documentários são muito melhor assimilados se visualizados em um lugar apropriado para isso. É o caso do filme 'A Família do Capitão Gervásio', do dinamarquês Kasper Akhøj (1976) e da mineira Tamar Guimarães (1967), que retrata as atividades e sessões de cura dos médiuns do Centro Espírita Luz da Verdade, na cidadezinha de Palmelo, interior de Goiás. Outro exemplo é o filme 'Cabine Telefônica Aberta', da turca Nilbar Güreş (1977), que mostra o drama dos habitantes da cidade de Bingöl, no Curdistão, onde vive parte da família da artista. Pertencentes às minorias curda e alevita, os habitantes locais são fortemente discriminados pelo governo central, que lhes nega acesso à infraestrutura mais básica, como os serviços de telefonia. No vídeo, a artista registra as soluções criativas do povo para contornar as dificuldades diárias. É uma denúncia? Sim, sem dúvida. É válido denunciar? Naturalmente. Mas... é arte? Para mim, não. É um documentário criativo. E ponto. 

Mesmo assim, consegui assistir a um vídeo do início ao fim: 'Inferno', da israelense Yael Bartana (1977), que simulou a destruição, por alguma espécie de cataclisma, da réplica do 'Templo de Salomão' construído em São Paulo pela Igreja Universal do Reino de Deus. O templo paulistano, um monumento ao mau-gosto e à megalomania que se pretende uma "reconstrução" da construção bíblica homônima da qual restou hoje o Muro das Lamentações, em Israel, foi erigido com materiais vindos diretamente daquele país e custou centenas de milhões de dólares, gerando boa dose de polêmica e indignação. Vale destacar que o filme, cujo elenco inclui vários figurantes anônimos, tem efeitos especiais bem inferiores àqueles aos quais estamos habituados no cinema, sobretudo no momento da catástrofe. Contudo, se o objetivo é protestar contra a ostentação cafona, a manipulação para fins mercantis e a ingenuidade de boa parte do povo brasileiro, OK, está valendo. Porém, de novo pergunto: é arte? Bem... você, o que acha?

E a vertente "documental" não fica só nos vídeos. Obras como 'A última aventura: Transamazônica', da jovem artista gaúcha Romy Pocztaruk (1983), estão aí para provar. Trata-se de um conjunto de fotos do entorno da Rodovia Transamazônica, um monstro inacabado de 4.000 km concebido durante a ditadura militar para cruzar o país de leste a oeste. Durante um mês, em 2011, a artista percorreu parte do trajeto da rodovia e registrou imagens do que sobrou, bem como os vilarejos que nasceram em seu rastro. Valeu enquanto registro fotográfico e curiosidade histórico-sociológica.

Romy Pocztaruk - 'A Última Aventura: Transamazônica' (2011) - Foto: Simone Catto

Romy Pocztaruk - 'A Última Aventura: Transamazônica' (2011) - Foto: Simone Catto

A primeira obra com que me deparei, tão logo cheguei à exposição, é o conjunto de imensas pinturas murais do paraense Eder Oliveira (1983), que nos impactam de imediato ao subirmos a rampa de acesso ao primeiro andar. São retratos de homens envolvidos em crimes e retirados das páginas da imprensa sensacionalista paraense, em sua maioria caboclos com traços negros e indígenas. O trabalho é uma denúncia social contra a discriminação desses seres excluídos, mas as imagens, que em seu contexto original estão espalhadas pelos muros de Belém, perderam muito de sua força ao ser transpostas para as paredes frias da Bienal. Uma coisa é a gente topar com uma pintura dessas andando pelas ruas, e outra é encontrá-la em um espaço fechado: descontextualizadas, elas perdem o sentido. Porque é fato que determinadas obras de arte estão indissociavelmente vinculadas ao espaço onde se encontram – sobretudo trabalhos de street art, como é o caso deste aqui.

O excluídos do paraense Eder Oliveira em pintura mural (2014) - Foto: Simone Catto

E aqui, uma das pinturas em seu contexto original: muito mais força e sentido! - Foto: www.31bienal.org.br

Em determinado momento, encontrei um dos projetos coletivos mencionados pelo curador: 'Dios es marica' ('Deus é bicha'). Organizado por Miguel A. López, o projeto reúne obras criadas entre o fim dos anos 70 e o fim dos anos 80 por quatro artistas de língua espanhola, cada um de uma nacionalidade: Nahum Zenil (1947), do México; Ocaña (1947-1983), da Catalunha – Espanha; Sergio Zevallos (1962), do Grupo Chaclacayo – Peru; e a dupla Yeguas del Apocalipsis (Pedro Lemebel - 1955 e Francisco Casas - 1959), do Chile. Vemos, então, pinturas, fotografias e vídeos de performances que empregam, segundo os curadores, "a teatralização do gênero, o travestismo e a paródia de imagens associadas à religião e à história cultural e política (...) em contextos que enfrentavam fortes crises econômicas, violência social, ditaduras e/ou processos de transição democrática". Em todas as obras há alguma forma de afronta sexual de cunho religioso. Ora, se o objetivo era pretensamente político, como indica o texto dos curadores, por que somente a Igreja foi atacada? Isso até faria algum sentido – apesar do mau gosto explícito - se a intenção do grupo fosse unicamente protestar contra a hipocrisia sexual do Catolicismo ou de outras religiões. Com objetivos diluídos e uma proposta vazia de um real significado, no entanto, parece-me que o único fim que esse grupo pretendeu foi chocar por chocar, não importa por quais meios fossem – e em minha opinião, o fez da forma mais rasteira possível.

Coletivo de Arte Yeguas del Apocalipsis (Pedro Lemebel e Francisco Casas) - 'Las dos Fridas' (1989-2014),
 em fotografia de Pedro Marinello - Foto: Simone Catto

A instalação 'Martírio', do maranhense Thiago Martins de Melo, é mais uma obra de protesto, desta vez contra a economia de exploração que prevalece na Amazônia desde os tempos do descobrimento. O artista mescla a pintura de alegorias com a escultura em um conjunto colorido e rebuscado para homenagear os "mártires amazônicos", isto é, "centenas de trabalhadores e líderes comunitários que morreram anonimamente na luta pela defesa da terra". Já vi isso antes, provavelmente em outras Bienais.

Thiago Martins de Melo - 'Martírio' (2014) - Foto: Simone Catto

Diante de tudo o que vivenciei, permaneceu a sensação de que a tal intenção de "protesto" político-social caiu no vácuo. Trata-se de uma Bienal pobre de recursos e absolutamente anêmica de ideias e criatividade que deve estar gerando protestos é no público visitante, isso sim. Que saudades das Bienais de verdade!

Em tempo: parece que o descaso da curadoria e dos organizadores atingiu inclusive o site oficial dessa 31ª Bienal (www.31bienal.org.br), já que lá eles sequer tiveram o cuidado de fornecer os dados biográficos mais básicos dos artistas, como a data de nascimento, a nacionalidade e eventuais informações relevantes. Que feio.

Quer arriscar? A 31ª BIENAL DE SÃO PAULO está no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque do Ibirapuera, e tem entrada franca. Abre às terças, quintas, sextas, domingos e feriados das 9h às 19h, e quartas e sábados das 9h às 22h. Até 7/12.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Urbe Café. Variedade, qualidade e alto-astral num blend irresistível.

Quem me conhece sabe como adoro papear e filosofar diante de uma boa xícara de café. Sobretudo quando tenho, à minha frente, gente querida e inteligente. Sábado tive novamente esse prazer. Após uma aula no MASP e um almoço delicioso no Gopala Madhava, na região da Consolação, foi só atravessar a rua para chegar ao Urbe Café, um de meus preferidos.

A fachada do Urbe, com mesas na calçada - Foto: Divulgação /Urbe Café

Eu gosto do Urbe por várias razões, todas absolutamente no mesmo nível de importância. Primeiro, a casa tem um ambiente descolado que eu adoro, com aquela aura de acolhimento encontrada somente nos lugares que abrem todos os dias e até muito tarde (ou "cedo", dependendo do ponto de vista! rs) O atendimento é atencioso e gentil. Além disso, há o público que o frequenta. Durante o almoço, são profissionais que trabalham na região da Paulista – o que inclui, naturalmente, gente de todas as idades e profissões. À noite e nos fins de semana, o ambiente fica ainda mais interessante. Predominam os moradores da região, pessoas que saem dos vários cinemas do entorno, casais, a turma GLS, culturetes e por aí vai.

Além do salão principal, a casa tem um mezanino e também algumas mesas na parte externa, para quem fuma ou quiser aproveitar um dia ou noite mais quente.

O aconchegante ambiente interno em foto tirada do mezanino - Foto: vejasp.abril.com.br

Vista parcial do salão e do balcão - Foto: Simone Catto

O cardápio é extenso. Há algumas opções de pratos leves para almoço e jantar, mas o forte, naturalmente, é a grande variedade de cafés quentes ou frios, um mais saboroso que o outro!

Irish Coffee - Foto: Divulgação / Urbe Café

O Cappuccino Vienense, que leva nutella e chantilly, com uma tentadora
porção de pães de queijo... nham! - Foto: Divulgação / Urbe Café

O café na Prensa Francesa, como é chamado no Urbe, é preparado em uma jarra de vidro ou plástico com um sistema que usa um êmbolo. Como o filtro de metal do êmbolo não absorve os óleos essenciais do café, ele fica mais complexo e intenso. Deve ser interessante observar o processo, ainda mais que ele tem um lado ecologicamente correto por não empregar energia elétrica nem filtro de papel. Vou experimentar um desse na próxima vez!

Café preparado na Prensa Francesa - Foto: Divulgação / Urbe Café

E não para por aí: a casa também tem grande oferta de drinks, desde clássicos como a margarita e o cosmopolitan até caipirinhas e invenções como o Bossa Nova, que leva cachaça, mate gelado, geleia de jabuticaba, laranja e limão. Para os mais comportados, há chás, shakes e sucos variados que podem ser degustados com várias opções de doces e salgados. Sim, o Urbe tem de tudo para todos os gostos!

Waffle com nutella, doce de leite, bananas fatiadas bem fininhas e sorvete de baunilha.
Quem resiste? - Foto: Divulgação / Urbe Café

No sábado, tomei um café coado no coador Hario V60. A atendente coa o café na própria mesa, à sua frente. É interessante observar o processo, mas... achei o café meio fraco. Tudo bem que não gosto de cafés extremamente fortes, mas um pouco mais de corpo faz bem! Um amigo pediu o chocolate quente com marshmallow, uma 'gordice' com só-Deus-sabe quantas calorias! (rs)

Dois dos nossos pedidos: o meu, café coado no coador Hario V60, e o chocolate quente com marshmallow.
 
Foto: Simone Catto

Uma ótima notícia, sobretudo para quem mora perto, é que o Urbe Café serve um brunch de quinta a domingo, das 10h às 15h. Perfeito para quando 'bater' aquela preguiça de fim de semana!

Itens servidos no brunch de quinta a domingo - Foto: Divulgação / Urbe Café

Você também é apaixonado(a) por café? Gosta de experimentar blends diferentes? Então com certeza vai gostar do ambiente e do cardápio do URBE CAFÉ. Vá lá: Rua Antônio Carlos, 404 – Consolação. Tel.: (11) 3262-3943. Abre às segundas-feiras das 12h à 01h30, terças a quintas das 10h à 01h30 e sextas e sábados das 10h às 04h.