sábado, 5 de novembro de 2011

Aix-en-Provence. Arte e cultura direto da fonte.

Uma das coisas mais incríveis do sul da França é a variedade de perfis de suas cidades. Quando cheguei a Aix-en-Provence, logo notei que se tratava de uma cidade bem maior que as outras da região. De fato, Aix possui cerca de 146.000 habitantes e, à medida que eu começava a descobri-la, ia ficando mais e mais impressionada com a riqueza de sua arte, história e arquitetura.

Não é para menos. Com mais de 2.000 anos de existência, Aix-en-Provence teve tempo mais do que suficiente para acumular um legado invejável. Some-se a isso uma sequência de boas administrações (algo que, diga-se de passagem, parece que levará pelo menos mais uns 500 anos para chegar aqui!), e pronto. Eis o segredo dessa cidade que integra o antigo e o novo na mais perfeita harmonia.

Vista da Cours Mirabeau - Foto: Simone Catto

Esquina da rue de Saporta com rue de Littera, Cidade Velha
Foto: Simone Catto

Aix-en-Provence nasceu no ano 122 a.C., quando os romanos abandonaram o planalto de Entremont para se fixarem na cidade, atraídos pela água generosa e abundante que brotava por sob suas terras. A partir daí, começou a se desenvolver como centro urbano e spa. Com a expansão do Cristianismo, Aix tornou-se diocese no século V e, posteriormente, sede do Arcebispado, tornando-se a capital da região.

Há tantas coisas interessantes para se ver na cidade, que seria insano listá-las todas aqui. Uma caminhada pela charmosa Cidade Velha revela, em cada esquina e cada ruazinha, um novo segredo e um pouco da história do lugar. Vamos a alguns deles.

A Torre do Relógio, antigo campanário da cidade e símbolo do poder comunal, foi erguida em 1510 e abriga um relógio astronômico de 1661 que possui quatro estátuas de madeira, cada uma representando uma estação do ano. A Torre do relógio é mesmo uma obra de arte e lembra algumas construções da cidade de Praga. Confira:

Torre do Relógio - Foto: Simone Catto

O Hôtel de Ville (Prefeitura) foi instalado no século XIV aos pés da Torre do Relógio e sua fachada italiana foi construída entre 1655 e 1678 por Pierre Pavillon. Aposto que os funcionários da Prefeitura de Aix almoçam nos cafés da praça ou, pelo menos, dão uma parada estratégica por ali depois do expediente!

Place de la Mairie, com o Hôtel de Ville ao fundo - Foto: acervo pessoal

A fonte do Hôtel de Ville, esculpida no século XVIII por Chastel, possui quatro curiosas carrancas que cospem água, bem como uma coluna ao estilo romano no centro.  

Fonte do Hôtel de Ville - Foto: acervo pessoal

O antigo Palácio dos Arcebispos de Aix-en-Provence, localizado na atual place des Martyrs de la Résistance, mostra todo o poder político e religioso desses verdadeiros "príncipes" eclesiásticos, que faziam questão de habitar residências dignas de sua posição. Os prédios atuais foram erigidos entre 1650 e 1730, e o portal é atribuído ao escultor Toro. No primeiro andar, fica o Museu das Tapeçarias. Desde 1948, a praça do Palácio dos Arcebispos abriga as principais apresentações do Festival de Arte Lírica, realizado todo mês de julho.  

Palácio do Arcebispado - Foto: acervo pessoal

Na Place de l'Université funciona o Instituto de Estudos Políticos (IEP), que substituiu a antiga faculdade de Direito de 1409 e foi reconstruído em 1734 por Georges Vallon.

O IEP, na Place de l"Université - Foto: acervo pessoal

Local verdadeiramente mágico, a Place d’Albertas nasceu em 1745 por obra e capricho do riquíssimo marquês Jean Baptiste d’Albertas, que demoliu as casas em frente a seu palácio. Com decoração rococó, a praça é obra dos Vallon – pai e filho, que se inspiraram na moda das praças reais parisienses. A fonte no centro foi construída posteriormente, em 1912.

A Place d'Albertas, com sua fonte - Foto: Simone Catto

Quem vai a Aix não pode deixar de experimentar os calissons, deliciosos docinhos de amêndoas e frutas em formato de losango, típicos da região. Ainda na cidade velha, na rua Gaston de Saporta, há uma charmosa lojinha onde comprei os saborosos 'calissons du Roy René', batizados em homenagem ao rei mais querido da Provence. Ficam perfeitos acompanhados de um café!

Os calissons, uma tentação provençal - Foto: Simone Catto

Entrada da loja de 'calissons du Roy René' - Foto: acervo pessoal

Principal artéria de Aix-en-Provence, a Cours Mirabeau foi aberta no século XVII no lugar das antigas muralhas da cidade. As famílias mais importantes da nobreza construíram no local elegantes residências e, não raro, ostentavam seu poder com fachadas ricamente decoradas e lindos jardins.

Turistas e aixois se deliciam nos cafés da Cours Mirabeau - Foto: acervo pessoal

A Cours Mirabeau abriga diversas fontes, entre elas a Fontaine des Neuf Canons. Construída em 1691 por Laurent Vallon, ela substituiu um antigo bebedouro que servia aos rebanhos antes da construção do boulevard e tem algumas esculturas que não conseguimos enxergar devido à vegetação que tomou conta de tudo.

Fontaine des Neuf Canons - Foto: Simone Catto

Numa ponta da Cours Mirabeau está a Fontaine du Roi René, desenhada em 1819 por Pierre-Henri Revoil. A escultura do rei é obra de David d’Angers.

Mas quem foi esse rei tão querido que virou estátua e até marca de doce? Filho de Louis II de Anjou (o monarca que fundou a Universidade), René (1409-1480) também fez bonito em seu reinado, com uma administração eficiente que transformou Aix-en-Provence num centro artístico. (Aliás, estamos precisando desesperadamente de um rei René por aqui!!!)

Cours Mirabeau com a Fontaine du Roi René em 1o. plano - Foto: acervo pessoal

Contudo, a fonte mais conhecida da Cours Mirabeau e motivo de orgulho para todos os cidadãos 'aixois' é a majestosa Fontaine de la Rotonde. Construída em 1860, ela foi um verdadeiro marco local - não apenas por suas grandes dimensões, mas também por ser a primeira a ostentar uma bacia na parte superior. É adornada por três estátuas –  'Justiça', 'Agricultura' e 'Belas-Artes', simbolizando as principais atividades da cidade.

Place e Fontaine de la Rotonde - Foto: acervo pessoal

É fácil descobrir por que Aix tem tantas fontes. Não por acaso, seu próprio nome, 'Aix', vem da palavra latina 'aquae' - 'água'. Quando a cidade nasceu, em 122 a.C., o general romano Calus Sextius soube tirar proveito das abundantes fontes de água quente e fria da região para construir um conjunto termal. No império romano, foram construídos quatro aquedutos e diversas fontes, que desapareceram quando os bárbaros destruíram quase toda a cidade a partir do ano 480 d.C.

Na Idade Média, as fontes eram muito raras em Aix porque seus habitantes acreditavam que a água corrente trazia doenças.

Foi somente no século XV que Louis II, pai do amado rei René, permitiu a construção de fontes. Em 1412, sua esposa, a rainha Yolande, autorizou a cidade de Aix a desviar as famosas águas de Pinchinats, um bairro localizado a nordeste da cidade conhecido pela abundância de recursos hídricos naturais e que há séculos fornece água pura e fresquinha para seus habitantes.

O aumento considerável da população no século XVII estimulou o cardeal Mazarin a desenvolver a cidade. As fontes, então, adquiriram uma dimensão estética e passaram a embelezar ainda mais Aix-en-Provence.

Além de suas águas, fontes, história e beleza, há outro fator que tornou Aix famosa: lá nasceu Paul Cézanne (1839-1906), considerado por muitos o verdadeiro pai da pintura moderna. Cézanne passou sua juventude em Aix, bem como seus últimos vinte anos de vida.

Paul Cézanne, fotografado em 1904 por Émile Bernard em seu ateliê de Les Lauves, diante de um dos quadros da série 'Banhistas'

Do roteiro percorrido pelo artista, tive a oportunidade de visitar seu estúdio no chemin des Lauves, onde ele passou a trabalhar de 1902 até seus últimos dias e realizou obras importantes, tais como 'As Grandes Banhistas' (1900-1906), e várias pinturas da montanha Sainte-Victoire. O ateliê, que fica no alto da tranquila Av. Paul Cézanne, está exatamente como o artista o deixou ao falecer.

Interno do ateliê 'Les Lauves'

Vista externa do ateliê - Foto: Simone Catto

Uma noite jantei no Bistrot Romain - antigo 'Café Oriental' -, na Cours Mirabeau, também frequentado pelo mestre. Nos quinze minutos de espera por uma mesa, saboreamos, nas mesas da calçada, um delicioso champanhe rosé gentilmente oferecido pela casa. E as gentilezas não pararam por aí: já na mesa, antes de pedirmos as bebidas, o garçom nos ofereceu, como cortesia, taças do espumante frutado da casa. 

Abaixo está uma foto do Café Deux Garçons, na mesma avenida, outro ponto de encontro entre Cézanne e amigos fieis como o escritor Émile Zola.

Café Deux Garçons, na Cours Mirabeau - Foto: acervo pessoal

E para dar conta de tantas atrações, é preciso ficar bem instalado. Hospedei-me no apart hotel Adagio Aix-en-Provence Centre (www.accorhotels.com/pt-br/hotel-6796-adagio-aix-en-provence-centre/index.shtml) e o recomendo a todos. A localização, na 3-5 rue des Chartreux, é excelente, a poucos minutos a pé da Place de la Rotonde, da Cours Mirabeau e também da Cidade Velha. Tanto os quartos quanto os banheiros são amplos, bem modernos e confortáveis. E se o hóspede não estiver a fim de sair para comer, uma pequena copa equipada permite fazer refeições no próprio quarto. Além disso, o staff é solícito e gentil. Não tem erro!

É por essas e outras que Aix-en-Provence merece pelo menos uma semana para a gente conhecê-la melhor. Eu pretendo voltar, e muito em breve! Para mais informações, acesse o Escritório de Turismo da cidade: http://www.aixenprovencetourism.com/

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cagnes-sur-Mer. Lar, ateliê e inspiração de Renoir.

  Para a gente conhecer um artista, nada melhor do que apreciar sua obra ao vivo e tentar compreender o que ele quis transmitir com seu trabalho. No entanto, um complemento importante para esse conhecimento é a visita a locais onde ele tenha vivido e trabalhado, como residências e ateliês. Desta forma, conseguimos captar um pouco o que ele sentiu ao olhar objetos familiares e contemplar paisagens que tenham inspirado seu talento e imaginação.Foi exatamente isso o que aconteceu quando visitei a casa e ateliê de Pierre-Auguste Renoir, na propriedade de Collettes, em Cagnes-sur-Mer, uma cidadezinha medieval encravada na Côte d’Azur, França.  Renoir chegou ao local em 1908 com sua esposa Aline e seus três filhos, Pierre, Jean e Claude. Lá construiu uma casa com todas as comodidades da época e um grande ateliê.

A entrada da casa - Foto: Simone Catto

A placa à entrada atesta o período em que Renoir habitou o local - Foto: acervo pessoal

Os fundos da casa dão para o jardim - Foto: Simone Catto
 
Detalhe do exterior da residência - Foto: Simone Catto

Na residência, ampla e acolhedora, o artista recebia regularmente os amigos, tais como os marchands Vollard e Durand-Ruel, o colecionador e mecenas Gangnat e o pintor Albert André. Rodin, Bonnard, Matisse e Modigliani também tiveram o prazer de frequentar as Collettes, onde Renoir pintava corpos sensuais e rostos plenos de luz, muitas vezes utilizando seus próprios empregados como modelos. Peles coradas e cheias de vida evocam, em suas pinturas, uma existência simples e saudável. A sensação de calor e aconchego que emana das telas é reforçada pelos tons de vermelho, utilizado pelo artista em pinceladas aqui e acolá.

Renoir - 'Os Telhados da Velha Nice' (entre 1911 e 1919)

O ateliê do artista

Foi em Cagnes-sur-Mer que Renoir se aventurou pela primeira vez na escultura, com Richard Guino e, posteriormente, Louis Morel. A monumental Vênus Vitrix, o Camponês Páris e o busto de Aline, sua esposa, atestam o soberbo trabalho que realizou com Guino entre 1913 e 1918, dando a impressão de que as esculturas saltaram diretamente de suas telas.

Mesmo acometido por uma dolorosa artrite reumatoide, Renoir continuou pintando, com impaciência e frenesi, até o último dia de sua vida, 3 de dezembro de 1919. Contava, então, com 78 anos. De Cagnes-sur-Mer, deixará paisagens, retratos, nus, esculturas e naturezas mortas.

A pequena casinha dos fundos, chamada pelo artista por 'La Ferme', ou 'A Fazenda' - Foto: Simone Catto

Renoir - 'La Ferme des Collettes', 1915

Detalhe da "Ferme des Collettes" - Foto: Simone Catto

Além de objetos pessoais e mobiliário, a casa de Renoir, hoje transformada em museu, abriga 12 telas originais e diversas esculturas. Assim como Monet, o artista também cultivava um jardim, atento à beleza da natureza e inspirado pelas coisas mais simples. Frutas, legumes, rosas cultivadas por sua esposa, buquês de flores e oliveiras ilustram diversas telas pintadas a céu aberto, na mais perfeita tradição impressionista.

Como não era permitido tirar fotos no interior, as imagens internas da casa e do ateliê foram escaneadas dos folhetos distribuídos pelo museu. Se você passar por ali, não deixe de visitar, também, a cidade medieval do Haut-de-Cagnes, com suas ruazinhas tranquilas e casinhas cheias de charme. Vale a pena descobrir os cenários que inspiraram um dos maiores mestres do Impressionismo. À bientôt, cher Renoir!

Haut-de-Cagnes - Foto: Office de Turisme de Cagnes-sur-Mer

Detalhe da cidadela medieval de Haut-de-Cagnes - Foto: acervo pessoal

Conheça outras cidades encantadoras da Provence, em: 

-Aix-en-Provence. Arte e cultura direto da fonte.

-Cotignac. Para fazer as pazes com o tempo.
-Moustiers Sainte-Marie. A cidade que nasceu com a estrela.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cotignac. Para fazer as pazes com o tempo.

Em minhas andanças pela Provence, passei por alguns lugarejos e cidadezinhas tão encantadoras que o tempo parece ter parado. Uma delas é Cotignac, a meio caminho entre os desfiladeiros do Verdon e o mar Mediterrâneo.

Foto: Simone Catto

Situada aos pés de um majestoso rochedo de 80 m de altitude que tem uma cachoeira, a cidade está a 230 metros de altitude e é emoldurada pela bela paisagem dessa região da França, que inclui vinhedos, plateaus verdes, campos de lavanda, oliveiras centenárias e flores selvagens.

Foto: Simone Catto

Com uma população de aproximadamente 2200 habitantes, o lugarejo abriga vários artistas, escritores e fotógrafos seduzidos pela beleza do local. Cotignac é como uma volta ao passado e um convite para a gente reduzir a marcha, sentir a natureza e entrar em contato com nossa essência e nosso "eu".

Vista da Cours Gambetta - Foto: Simone Catto

Foto: acervo pessoal

A região mais antiga da cidade, aos pés da falésia, tem casas com fachadas dos séculos XVI e XVII e ruelas estreitas, bem como ornamentos em pedra e ferro que testemunham o passado do lugar.

Como não poderia deixar de ser, há fontes por todos os lados, com uma água fresca e clarinha. Na rua principal, a Cours Gambetta - uma espécie de boulevard voltado para os pedestres - está a Fonte das Quatro Estações, construída em 1810, bem como cafés, restaurantes convidativos, um hotel e algumas lojinhas charmosas.

A Cours Gambetta, com a Fonte das Quatro Estações em primeiro plano - Foto: Simone Catto

Tive o privilégio de sentar em uma mesa ao ar livre de um dos deliciosos restaurantes da Cours Gambetta e degustar pratos de frios e queijos da região, acompanhados de deliciosas baguetes. E para dar um sabor especial à refeição, nada como um vin rouge da Provence!

Foto: Simone Catto

Quando a gente depara com uma cidade como essa, tão bonita, bem cuidada e tranquila, é inevitável a questão: será que o preço pago para vivermos no frenesi imposto pelo ritmo das grandes metrópoles vale a pena?... Fica a reflexão.

Espero revê-la em breve, Cotignac!!!

Conheça outras cidades encantadoras da Provence, em: 

-Aix-en-Provence. Arte e cultura direto da fonte.
-Moustiers Sainte-Marie. A cidade que nasceu com a estrela.
-Cagnes-sur-Mer. Lar, ateliê e inspiração de Renoir.

Moustiers Sainte-Marie. A cidade que nasceu com a estrela.

No dia em que entrei de carro na cidadezinha de Moustiers Sainte-Marie, no Sul da França, fui logo olhando para o alto. Não, eu não estava procurando nenhum castelo, igreja ou outro monumento histórico no topo de alguma colina. O que eu procurava, em plena luz do dia, era uma estrela dourada. Uma grande estrela que reluz pendurada por uma corrente entre duas montanhas do lugarejo e é símbolo da cidade.


Como a estrela apareceu ali, ninguém sabe ao certo. Alguns falam de histórias de amor, de ideais da Cavalaria e até de episódios envolvendo os Reis Magos, mas a versão mais conhecida foi relatada por um certo Frédéric Mistral. Diz a lenda que um cavaleiro medieval chamado Blacas, prisioneiro dos sarracenos à época das Cruzadas, prometeu à Virgem Maria erguer uma estrela nos céus de Moustiers caso fosse libertado. E assim se fez, para a glória do cavaleiro e a nossa alegria, quase dez séculos depois. 

Foto: Simone Catto

Note a estrelinha pendurada entre as duas montanhas na foto acima. A título de curiosidade: ela tem cinco pontas, é folheada a ouro e seu tamanho variou, ao longo da história, de 30 a 180 cm, até os 125 cm atuais. A corrente que a sustenta tem 135 metros de comprimento e pesa 150 kg.

Não por acaso, desde 1981 Moustiers Sainte-Marie foi classificada como uma das mais belas cidades da França. Capelas medievais, desfiladeiros, o aqueduto, as muralhas e fontes tornam o lugar realmente encantador, sem falar da abundância de água e de um sol que brilha cerca de 300 dias por ano. A paisagem é mesmo de tirar o fôlego.


Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

Preservada com todo o cuidado e carinho por seus cerca de 700 habitantes, a cidade apresenta traços de ocupação humana que remontam a cerca de 30.000 anos a.C., mas somente no século V começou a ser habitada de maneira mais ordenada pelos monges da abadia de Lérins, que ali fundaram um monastério. Daí o nome "Moustiers" ("monastério", na Idade Média).

A capela de Notre-Dame de Beauvoir, construída no fim do século XII no local de um templo cristão que já existia em 470 d.C, mostra o caráter sagrado da cidade, que ao longo dos séculos foi importante local de peregrinação.

Capela de Notre-Dame de Beauvoir - Foto: Simone Catto

Nos séculos X e XI Moustiers sofreu a invasão dos mouros, mas começou a se recuperar já nos séculos XII e XIII, quando casas e fortificações foram edificadas e vários moinhos de água instalados ao longo do rio Adou. A água, um recurso natural abundante e onipresente na região, contribuiu enormemente para a economia da cidade ao longo dos séculos - graças a ela, no séc. XVI várias indústrias movidas a energia hidráulica instalaram-se no local. Após um breve período "negro" no início do séc. XVII, ainda no mesmo século Moustiers assistiu a um grande boom na produção de cerâmica, conquistando fama mundial.

Foto: Nicolas Janberg
 
Construído sobre o rio Adou para distribuir água aos moinhos locais, o aqueduto é hoje um testemunho histórico dos sistemas de irrigação de outrora.

As falésias sobre as quais a cidade foi erguida e aquelas que a circundam constituíam uma defesa geográfica natural, mas Moustiers também construiu muralhas para se proteger, assim como tantas outras cidades da Idade Média.

Foto: Jacques Ste-Marie

Como toda cidadezinha tipicamente medieval, as ruelas de Moustiers estão repletas de belas fontes de água potável onde os homens e animais iam se refrescar e as mulheres lavavam roupas.

Fonte ao lado da capela de Notre-Dame de Beauvoir - Foto: Simone Catto

Foto: Simone Catto

A economia da cidade se articula em torno do turismo e da produção de cerâmica, uma tradição que teve início já na Idade Média, mas ganhou impulso com um homem chamado Pierre Clérissy, a quem um monge italiano de passagem pelo Monastério da Comunidade de Lérins confiou o segredo da produção do esmalte branco, no ano de 1668.

Quando Luís XIV, o "Rei-Sol", ordenou que toda louça de ouro e prata fosse fundida para reforçar o tesouro real, a Europa toda se voltou para a cerâmica de Moustiers, que ganhou fama internacional e teve seu auge. Essa produção só seria interrompida no início do século XIX, quando a porcelana inglesa virou moda.

Em 1927, um cidadão local chamado Marcel Provence acendeu novamente um forno de cerâmica na cidade, numa tentativa de reavivar sua imagem de grande produtora mundial. Tudo bem que a cerâmica de Moustiers não recuperou a glória de outrora, mas o esforço não foi em vão: atualmente a cidade conta com cerca de vinte ateliês que mantêm acesa a tradição.

Foto: Marie, Julian e Laurent Thomas

Um charmoso comércio se espalha pelas ruelas do lugar, incluindo as lojas de cerâmica e iguarias da região, tais como queijos, trufas, biscoitos, tapenade, o mel de lavanda e seu famoso azeite de oliva. Moustiers, aliás, tem mais de 20.000 oliveiras. Os gourmets podem experimentar tudo isso em cerca de vinte restaurantes que agradam desde os amantes de uma deliciosa comida caseira até a gastronomia mais refinada.

Foto: Jacques Ste-Marie

Foto: Baloulumix

Como visitei a Provence no outono, não tive a oportunidade de ver a beleza dos campos de lavanda roxinhos, como na foto acima. Fica para a próxima! A lavanda, típica da região, é utilizada na fabricação de sabonetes e cosméticos, além de possuir propriedades terapêuticas. Confesso que o mel de lavanda, embora de sabor mais leve que o nosso, não me agradou tanto quanto as variedades de mel que temos por aqui. Questão de paladar, peut-être...

A belíssima paisagem de Moustiers e sua topografia privilegiada também atraem a moçada que aprecia esportes radicais. Situada no início dos desfiladeiros do Verdon, um dos canyons mais profundos da Europa (chega a atingir 700 m de profundidade), a cidade está integrada ao Parque Natural Regional do Verdon, onde se é possível praticar trilhas, escalada, rafting, equitação, esportes náuticos e até voo de parapente. Se você não for chegado a esportes radicais, não deixe de fazer pelo menos uma trilha para sentir as cores e aromas da natureza da Provence.

Foto: Jacques Ste-Marie

Foto: Jacques Ste-Marie

Foto: Jacques Ste-Marie

Deu para entender por que eu não só amei como pretendo voltar a Moustiers Sainte-Marie? Se você também se apaixonou pela cidadezinha estrelada, vale a pena dar uma olhada no site oficial de seu Escritório de Turismo: http://www.moustiers.fr/. Você pode visualizá-lo em francês e inglês. Está dada a dica!

Conheça outras cidades encantadoras da Provence, em: 

-Aix-en-Provence. Arte e cultura direto da fonte.

-Cagnes-sur-Mer. Lar, ateliê e inspiração de Renoir.
-Cotignac. Para fazer as pazes com o tempo.

Interlúdio na Provence

Andei sumida do blog, mas garanto que foi por uma boa causa. Aliás, uma excelente causa! Ocorre que acabo de voltar de uma viagem ao sul da França e norte da Itália, incluindo uma breve estada por Paris (toujours!) para matar as saudades. Voltar a Paris é sempre bom e cada vez que visito a cidade descubro coisas novas, mas não é sobre ela que vou falar agora.

Minha viagem incluiu passagens por Nice, Cannes, Marselha e também pelo Principado de Mônaco. É verdade que cada um desses locais possui sua beleza, cada um a seu modo, mas confesso que não foi nenhum deles, até mesmo Mônaco, com toda a sua opulência e glamour, que me chamou atenção de maneira especial.

Agora anote estes nomes: Moustiers Sainte-Marie, Cotignac, Cagnes-sur-Mer, e Aix-en-Provence. Anotou? Pois bem. Se você tiver a felicidade de passar alguns dias no sul da França, estará cometendo pecado mortal se não incluir no roteiro essas quatro cidades, que ficam bem próximas. O ideal, sem dúvida, é que você possa se hospedar em pelo menos uma delas – eu fiquei em Aix e, a partir dali, visitei as outras. Imagino que você deva estar se perguntando o porquê de todo esse encantamento. Mas isso é assunto para os próximos posts.

Saiba mais sobre a Provence, em:

-Aix-en-Provence. Arte e cultura direto da fonte.
-Cagnes-sur-Mer. Lar, ateliê e inspiração de Renoir.
-Cotignac. Para fazer as pazes com o tempo.
-Moustiers Sainte-Marie. A cidade que nasceu com a estrela.